{"id":16745,"date":"2017-10-24T12:56:28","date_gmt":"2017-10-24T15:56:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16745"},"modified":"2017-10-24T12:56:28","modified_gmt":"2017-10-24T15:56:28","slug":"fora-mister-gordon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16745","title":{"rendered":"&#8216;Fora, mister Gordon&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/blogdotarso.files.wordpress.com\/2015\/12\/ditadura_2_620.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Luiz Celso Man\u00e7o &#8211; militante do PCB de Santos<\/p>\n<p>A fria e silenciosa madrugada, mal iluminada por uma lua crescente no l\u00edmpido c\u00e9u estrelado de abril, comp\u00f5e o cen\u00e1rio de\u00a0 uma a\u00e7\u00e3o secreta e arriscada: executar uma tarefa de enfrentamento da ditadura na plenitude de sua radicaliza\u00e7\u00e3o repressora. Um plano extremamente sigiloso houvera sido elaborado pela dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria comunista. A miss\u00e3o a ser cumprida por cada um dos militantes designados e os detalhes da sua execu\u00e7\u00e3o s\u00f3 seriam anunciadas poucas horas antes para o conjunto de camaradas mantidos no anonimato e sem contato entre si at\u00e9 o momento do seu encontro num \u201cponto\u201d determinado. \u201c O qu\u00ea ser\u00e1 ?\u201d era o pensamento que me aflorava insistentemente e que, provavelmente, tamb\u00e9m\u00a0 ocorria com os demais companheiros.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, v\u00e9spera da a\u00e7\u00e3o, um membro dirigente da organiza\u00e7\u00e3o me transmite pessoalmente o teor da a\u00e7\u00e3o e alguns detalhes sobre a execu\u00e7\u00e3o. O sotaque espanhol carregado \u00a0do interlocutor, a voz grave e o semblante s\u00e9rio sob um manto de exercitado autocontrole \u00a0parecem revelar a verdadeira dimens\u00e3o do plano a ser executado, ou seja, um ataque frontal aos inimigos de classe. O momento solene ficar\u00e1 \u00a0indelevelmente gravado na mem\u00f3ria, era um momento extraordin\u00e1rio. Tempos depois, tomei conhecimento de que o porta-voz da organiza\u00e7\u00e3o se tratava de um venezuelano que militara na luta armada de liberta\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds, \u00a0e estava atualmente cursando medicina no Brasil.<\/p>\n<p>Ribeir\u00e3o Preto receberia, no dia seguinte, a visita do <em>mister Gordon, <\/em>ent\u00e3o embaixador dos Estado Unidos no Brasil. A presen\u00e7a de um pr\u00f3cer do imperialismo \u00a0estadunidense era patrocinada pelos subservientes pol\u00edticos da direita hist\u00f3rica da regi\u00e3o, pela elite econ\u00f4mica e pelos in\u00fameros esbirros da ditadura civil-militar que vicejavam por toda parte. Era um momento estrat\u00e9gico extremamente importante para um enfrentamento de resist\u00eancia, den\u00fancia, agita\u00e7\u00e3o e propaganda revolucion\u00e1rias. Coube-me a tarefa de distribui\u00e7\u00e3o de panfletos e picha\u00e7\u00f5es durante a madrugada num bairro da periferia da cidade, juntamente com outro militante.<\/p>\n<p>\u00c9 chegada a hora! O local do encontro \u00e9 distante dos lugares que frequentava. O r\u00edgido esquema de seguran\u00e7a estabelecido numa organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria clandestina\u00a0 para essas situa\u00e7\u00f5es preconiza\u00a0 o m\u00e1ximo poss\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia, e o m\u00ednimo poss\u00edvel de informa\u00e7\u00f5es sobre nomes, locais, data e outros detalhes do plano. No caso de uma \u201cqueda\u201d frente as for\u00e7as de repress\u00e3o, menor ser\u00e1 o risco de colocar em perigo a seguran\u00e7a coletiva e individual. \u201cQuanto menos informa\u00e7\u00f5es o inimigo obtiver, melhor\u201d. N\u00e3o sabia, portanto, quem seria o meu companheiro na execu\u00e7\u00e3o da tarefa, apenas conhecia a senha confidencial de contato e a forma de identifica\u00e7\u00e3o visual.<\/p>\n<p>Neste momento de forte emo\u00e7\u00e3o,\u00a0 durante a caminhada rumo ao local estipulado, um frio inc\u00f4modo perpassa pelo corpo inteiro parecendo denotar mais um\u00a0 estado de ansiedade e medo do que de \u00a0sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica objetiva. No ponto estabelecido, encontro\u00a0 um militante igualmente jovem, aparentemente t\u00e3o nervoso como eu, ambos inexperientes neste tipo de situa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o reconhecimento m\u00fatuo, pusemo-nos a caminhar e a executar o que fora determinado, percorrendo na semi-escurid\u00e3o \u00a0ruas e ruas, muitas de terra\u00a0 cercada de\u00a0 terrenos baldios. A ex\u00edgua \u00a0ilumina\u00e7\u00e3o proveniente dos poucos postes existentes provoca efeitos assustadores atrav\u00e9s do movimento das sombras e supostas figuras mal\u00a0 delineadas (numa situa\u00e7\u00e3o de grande tens\u00e3o diante do risco iminente, os limites entre a objetividade e a subjetividade se diluem). Vultos aparecem e se movimentam acompanhando nossos passos, ru\u00eddos estranhos surgem do nada no meio do sil\u00eancio e escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>A tarefa parece intermin\u00e1vel e se torna mais angustiante quando algumas luzes se acendem aqui e acol\u00e1 nas casas sob o barulho estridente e intenso de latidos dos cachorros do bairro que se propagam por todos os lados. Basta o primeiro latido para contagiar toda a matilha. Afinal, somos suspeitos invadindo seu territ\u00f3rio. Neste momento delicado, intimamente eu penso: \u201cser\u00e1 que o resultado da a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o expressivo quanto est\u00e1 sendo o nosso temor diante do perigo amea\u00e7ador ?\u201d. Talvez, nunca saberei avaliar corretamente as consequ \u00eancias reais de toda e qualquer a\u00e7\u00e3o na luta revolucion\u00e1ria \u2013 pelo menos no curto prazo. Sabemos que a hist\u00f3ria n\u00e3o resulta de uma constru\u00e7\u00e3o linear que possa ser previs\u00edvel em cada etapa.<\/p>\n<p>Conclu\u00edda a atividade \u2013 \u00a0ap\u00f3s um tempo que parece ter demorado uma eternidade, e num ritmo de quase correria a partir de certo momento \u2013 livramo-nos das sobras dos materiais\u00a0 \u201csubversivos\u201d e nos separamos,\u00a0 conforme a orienta\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a recebida. Depois do amanhecer, j\u00e1 em casa, mal conseguia relaxar para dormir e refazer as energias. Aguardava, com expectativa, alguma not\u00edcia sobre as repercuss\u00f5es do nosso trabalho naquele bairro da cidade. Percebia a a\u00e7\u00e3o como importante para n\u00f3s jovens militantes, \u00a0mas muito pequena diante do conjunto da luta contra a ditadura e pelo socialismo.<\/p>\n<p>Horas mais tarde, a surpresa: al\u00e9m do bairro que nos coube cobrir, grande parte da cidade tinha sido pichada e panfletada por um expressivo contingente de duplas de militantes. No Centro, diante dos edif\u00edcios que seriam visitados pelo embaixador, \u201caranhas\u201d lan\u00e7adas nos fios de ilumina\u00e7\u00e3o traziam cartazes pendurados com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cMR. GORDON, GO HOME\u201d. Surpreendente a repercuss\u00e3o do epis\u00f3dio nos meio de comunica\u00e7\u00e3o e \u00a0nos v\u00e1rios segmentos da popula\u00e7\u00e3o. Durante muitos dias, o assunto ocupou as rodas de conversa e os coment\u00e1rios sobre a ousadia da a\u00e7\u00e3o, sobretudo porque n\u00e3o havia, \u00e0 \u00e9poca, a televis\u00e3o ao alcance da maioria.<\/p>\n<p>Quando ingressei no Partido Comunista Brasileiro \u2013 PCB em meados dos anos 1960, fiquei sabendo que a a\u00e7\u00e3o da qual participara fazia parte do processo de recrutamento, precedida por in\u00fameras leituras do marxismo-leninismo, com o objetivo de ser avaliado sobre minhas reais condi\u00e7\u00f5es de militar no Partido.<\/p>\n<p>Luiz Celso Man\u00e7o<br \/>\nSantos, outubro de 2017<\/p>\n<p><strong>Cem anos da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16745\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[53],"tags":[225],"class_list":["post-16745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4m5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16745\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}