{"id":16771,"date":"2017-10-26T13:58:11","date_gmt":"2017-10-26T16:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16771"},"modified":"2017-10-26T13:58:11","modified_gmt":"2017-10-26T16:58:11","slug":"o-que-nao-aprendemos-com-a-revolucao-russa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16771","title":{"rendered":"O que n\u00e3o aprendemos com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2017\/10\/mauro-iasi-o-que-nao-aprendemos.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>Por Mauro Luis Iasi.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201c[Em alguns] processos, acontece com extraordin\u00e1ria frequ\u00eancia<\/em><br \/>\n<em>ser \u2018recordado\u2019 algo que nunca poderia ter sido \u2018esquecido\u2019, <\/em><br \/>\n<em>porque nunca foi, em ocasi\u00e3o alguma, notado [\u2026]\u201d<\/em><br \/>\nS. Freud,\u00a0 \u201cRecordar, repetir e elaborar\u201d, 1914)<\/p>\n<p>O centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi marcado, aqui e no mundo, por in\u00fameras celebra\u00e7\u00f5es, debates, publica\u00e7\u00f5es e outras iniciativas, o que demonstra o incr\u00edvel impacto que este acontecimento teve e ainda tem sobre todos n\u00f3s. Tudo isso \u00e9 muito importante e configura um dado extremamente positivo nesta conjuntura de defensiva da esquerda.<\/p>\n<p>Nossa reflex\u00e3o aqui vai em uma dire\u00e7\u00e3o um pouco distinta da necess\u00e1ria celebra\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na abertura de sua magistral obra <em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-estado-e-a-revolucao-688\">O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/a><\/em> L\u00eanin nos lembra que Marx, assim como outros revolucion\u00e1rios, foram perseguidos em vida, que suas obras foram alvo do \u00f3dio mais feroz, da difama\u00e7\u00e3o e da mentira. No entanto, \u201cdepois da morte deles, tentam transform\u00e1-los em \u00edcones inofensivos, canoniz\u00e1-los, por assim dizer\u201d, tudo isso para consolo e engana\u00e7\u00e3o dos oprimidos, ao mesmo tempo \u201ccastrando o conte\u00fado da doutrina revolucion\u00e1ria, embotando seu gume revolucion\u00e1rio, vulgarizando-a.\u201d (L\u00eanin, <em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-estado-e-a-revolucao-688\">O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/a><\/em>, p. 27).<\/p>\n<p>Creio que algo semelhante ocorre quando falamos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Ao mesmo tempo em que se ressalta seus l\u00edderes e \u00edcones, seus s\u00edmbolos e sua grandiosidade, tenta-se cerca-la de uma r\u00edgida fronteira que a circunscreveria em sua \u00e9poca, incapaz de qualquer universalidade que n\u00e3o seja abstrata. Transforma-se este epis\u00f3dio \u00e9pico em \u00edcone, castrando sua subst\u00e2ncia revolucion\u00e1ria, aviltando-o.<\/p>\n<p>Sabemos que este como qualquer outro acontecimento hist\u00f3rico \u00e9 constitu\u00eddo de particularidades que o identificam e caracterizam. Mas estamos convencidos de que h\u00e1 ensinamentos universais que nem sempre s\u00e3o destacados como deveriam, exatamente porque s\u00e3o inc\u00f4modos e provocativos no interior do caminho que a esquerda brasileira escolheu trilhar. O desafio est\u00e1 em determinar o que h\u00e1 de particular e o que h\u00e1 de universal nessa experi\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Acreditamos que podemos indicar, resumidamente, cinco aspectos que s\u00e3o pr\u00f3prios da experi\u00eancia sovi\u00e9tica e que dificilmente se apresentariam em novos contextos hist\u00f3ricos, s\u00e3o eles: a) o tsarismo e a luta pelas nacionalidades; b) uma particular estrutura agr\u00e1ria e a forma da luta camponesa; c) um desenvolvimento urbano e industrial peculiar com o desenvolvimento do movimento oper\u00e1rio e revolucion\u00e1rio (com uma particular forma de presen\u00e7a do marxismo); d) a crise da II Internacional e a natureza da disputa ali travada; e) uma conjuntura marcada pelas guerras de 1904 e depois 1914.<\/p>\n<p>Cada um desses aspectos mereceria uma an\u00e1lise aprofundada que n\u00e3o cabe aqui. Digamos somente que contribu\u00edram para a singularidade da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, ao mesmo tempo que s\u00e3o a base de sua universalidade. O imp\u00e9rio tsarista formou-se no s\u00e9culo XV, estendendo-se desde a Europa Oriental at\u00e9 o mar do Jap\u00e3o, submetendo ao seu dom\u00ednio uma s\u00e9rie de nacionalidades e povos (57% da popula\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio n\u00e3o era russa). A base servil das rela\u00e7\u00f5es e a forma\u00e7\u00e3o de uma aristocracia, cuja forma tsarista \u00e9 a express\u00e3o, faz com que a resist\u00eancia se expresse na dupla determina\u00e7\u00e3o da luta pela terra e pela afirma\u00e7\u00e3o das nacionalidades. Esta contradi\u00e7\u00e3o se apresenta numa intensa luta camponesa, em rebeli\u00f5es que culminam nas revoltas de Pugachev em 1858 e no Movimento Terra e Liberdade de Tchernichevski de 1860 que levar\u00e3o \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o em 1861. O Estado tsarista centraliza e articula esta domina\u00e7\u00e3o com base em uma imponente m\u00e1quina militar e burocr\u00e1tica, apoiando-se em uma sociedade patriarcal e em uma ideologia da superioridade predestinada do povo russo e da infalibilidade do tsar e seu poder divino. O tsarismo soube modernizar-se, principalmente nos reinados de Pedro (1682-1725) e Catarina (1762-1796), criando grandes cidades e, finalmente com Alexandre II (1855-1881), iniciando um processo de industrializa\u00e7\u00e3o associado a presen\u00e7a do capital imperialista.<\/p>\n<p>Tanto o desenvolvimento industrial como os limites das lutas camponesas que evoluem para o chamado populismo russo dos <em>narodiniks<\/em> at\u00e9 o terrorismo e o anarquismo, marcar\u00e1 a forma pol\u00edtica da luta de classes na velha R\u00fassia. Por um lado, a tradi\u00e7\u00e3o da luta camponesa desembocar\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o do movimento Socialista Revolucion\u00e1rio, que se forma como partido em 1901, e de outro pela entrada do marxismo atrav\u00e9s de Plekhanov, Vera Zassulitch, Martov e outros, primeiro atrav\u00e9s de c\u00edrculos de estudo e, em 1883, com a forma\u00e7\u00e3o do POSDR.<\/p>\n<p>Um forte partido oper\u00e1rio, articulado internacionalmente atrav\u00e9s da II Internacional, enraizado na classe trabalhadora concentrada nas tr\u00eas principais cidades do imp\u00e9rio, faz com que a R\u00fassia acompanhe o amadurecimento do movimento e da luta oper\u00e1ria europeia, equalizando sua situa\u00e7\u00e3o, o que em outras condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o seria poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Por fim, uma conjuntura de crise do capital e de guerras, primeiro a guerra com o Jap\u00e3o desfechada em 1904 e que provocou uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em 1905 e, depois, a primeira Grande Guerra que eclodiu em 1914. Dada a particularidade da estrutura agr\u00e1ria, respons\u00e1vel por 45,3% da economia tsarista e 37% de todo cereal consumido da Europa), uma produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de baixa produtividade unit\u00e1ria que alcan\u00e7ava seu volume pela dimens\u00e3o de seu conjunto, a guerra produz impactos significativos na queda da superf\u00edcie plantada, e por conseguinte, no pre\u00e7o dos g\u00eaneros de primeira necessidade. A convoca\u00e7\u00e3o massiva de camponeses n\u00e3o impacta somente na produtividade no campo, mas muda a composi\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias fazendo com que as mulheres, submetidas \u00e0 secular opress\u00e3o, possam emergir no terreno f\u00e9rtil da luta de classes. A crise se expressa, tamb\u00e9m, no agudizar das contradi\u00e7\u00f5es internas do bloco dominante, fazendo emergir contradi\u00e7\u00f5es no seio da aristocracia e da recente burguesia que cobram mais espa\u00e7o pol\u00edtico no extremamente centralizado poder autocr\u00e1tico do Tsar.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esperar que nenhum destes aspectos particulares possam se apresentar al\u00e9m das circunst\u00e2ncias espec\u00edficas que os produziram historicamente, assim como a subjetividade pol\u00edtica que deles deriva. Lideran\u00e7as como L\u00eanin, Tr\u00f3tski, Kollontai, Kr\u00fapskaia e outros foram tanto art\u00edfices destes tempos como seu produto. Em seu conjunto, esses fatores objetivos e subjetivos, pode levar \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u00e9 um acontecimento \u00fanico e do qual n\u00e3o se pode retirar nenhum aspecto universal.<\/p>\n<p>No entanto, para aqueles que compreendem os fundamentos da dial\u00e9tica materialista, n\u00e3o \u00e9 novidade que uma universalidade \u00e9 a s\u00edntese de m\u00faltiplas particularidades e que exatamente aquilo que confere a singularidade a um acontecimento pode ser tamb\u00e9m a base de sua universalidade. A particularidade da revolu\u00e7\u00e3o Russa expressa a forma espec\u00edfica em esta forma\u00e7\u00e3o social transitou para o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, amaneira particular que se expressou a forma\u00e7\u00e3o de seu Estado, a forma t\u00edpica que assumiu nestas condi\u00e7\u00f5es a luta de classes, principalmente no momento em que se produzem situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Dito de outra forma, uma maneira particular atrav\u00e9s da qual os russos viveram a singularidade de nossos tempos.<\/p>\n<p>Marx e Engels tamb\u00e9m viveram tempos particulares e ao mesmo tempo em que tiveram que atuar e responder a quest\u00f5es muito bem determinadas da conjuntura pol\u00edtica da luta de classes em que estavam envolvidos, teorizaram sobre os caminhos da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. A Pr\u00fassia do s\u00e9culo XIX n\u00e3o \u00e9 a R\u00fassia do inicio do s\u00e9culo XX, mas ao abstrair as condi\u00e7\u00f5es particulares emerge uma singularidade que pode indicar momentos de uma universalidade em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua Mensagem do Comit\u00ea Central \u00e0 Liga dos Comunistas (1850) Marx e Engels apontam alguns aspectos que devemos ressaltar: a) os trabalhadores encontram-se em uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica na qual ainda lutam contra os advers\u00e1rios de seus advers\u00e1rios, o momento da revolu\u00e7\u00e3o burguesa; b) no curso desta luta os trabalhadores devem estabelecer alian\u00e7as e, por isso, devem se preocupar em n\u00e3o marchar a reboque de seus aliados que devem triunfar em um primeiro momento, consolidando seu poder contra o proletariado; c) para isso os trabalhadores devem cuidar de sua independ\u00eancia e autonomia de classe, tanto mantendo sua organiza\u00e7\u00e3o independente (legal e secreta) como um programa pr\u00f3prio; d) No curso desta luta, no momento em que a burguesia tentar consolidar o poder em benef\u00edcio pr\u00f3prio, os trabalhadores devem criar \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios de poder, criando uma dualidade de poderes que deve ser defendida a todo custo contra os ataques da burguesia; e) Trata-se de gerar, desde o in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa, as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento de uma Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria, uma revolu\u00e7\u00e3o em perman\u00eancia, ou mais precisamente, uma Revolu\u00e7\u00e3o Permanente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio muito esfor\u00e7o para notar que se abstrairmos o contexto particular das lutas na Alemanha de 1848\/1850, estamos diante de uma universalidade vazia de determina\u00e7\u00f5es, ou seja, uma singularidade, que \u00e9 praticamente o roteiro da revolu\u00e7\u00e3o Russa. N\u00e3o porque Marx tinha dons premonit\u00f3rios, mas porque a an\u00e1lise da realidade particular de seu tempo se eleva a uma universalidade que serve de ponto de partida singular \u00e0queles que pensaram os caminhos da revolu\u00e7\u00e3o no inicio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Ocorre que as experi\u00eancias posteriores v\u00e3o agregando novas particularidades, tornando cada vez mais rico a universalidade que da\u00ed deriva. Em 1850 Marx n\u00e3o tem como responder uma quest\u00e3o central: qual a forma do Estado nesta transi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Ser\u00e1 a Comuna de Paris de 1870 que agregar\u00e1 a forma finalmente encontrada.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o Russa d\u00e1 um passo essencial nesta constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, sem d\u00favida por suas particularidades, mas estamos convictos que inscreve novos aspectos \u00e0 universalidade da alternativa revolucion\u00e1ria. Acreditamos que a revolu\u00e7\u00e3o Russa nos deixa algumas quest\u00f5es essenciais para pensar os nossos dias, s\u00e3o elas: a) a quest\u00e3o do Estado; b) a combina\u00e7\u00e3o da espontaneidade e da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dirigida conscientemente pela classe revolucion\u00e1ria; c) a quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o, tanto no que diz respeito a forma econ\u00f4mica quanto a forma pol\u00edtica a ela correspondente.<\/p>\n<p>Antes, entretanto, gostar\u00edamos de destacar que a experi\u00eancia russa \u00e9 a \u00faltima que atualiza e supera a primeira das caracter\u00edsticas apontadas por Marx e Engels em 1850, qual seja, o momento democr\u00e1tico burgu\u00eas da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Os marxistas posteriores, por uma s\u00e9rie de motivos, transformaram este momento em uma \u201cetapa\u201d, em um longo processo em que o capitalismo deveria se desenvolver e consolidar antes que fosse poss\u00edvel uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Na verdade, esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica da II Internacional e do reformismo que levar\u00e1 \u00e0 sua fal\u00eancia e que ser\u00e1 transformada em dogma pela III Internacional stalinizada. A vis\u00e3o de L\u00eanin e Tr\u00f3tski \u00e9, neste aspecto, heterodoxa ao ser ortodoxa. Ambos, por raz\u00f5es muitas vezes distintas, v\u00eam a necessidade de se aproveitar o momento para superar, o mais rapidamente poss\u00edvel, o momento democr\u00e1tico burgu\u00eas, aproveitando-se da instabilidade da queda do antigo regime para avan\u00e7ar a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, de forma que parte do desenvolvimento necess\u00e1rio ser\u00e1 realizado j\u00e1 sob o poder prolet\u00e1rio. Ambos parecem relativizar a convic\u00e7\u00e3o de Marx segundo a qual nenhuma sociedade nova pode surgir antes que se desenvolvam todas as for\u00e7as produtivas que a velha sociedade pode conter (da\u00ed sua heterodoxia), para se aproximar de Marx e sua afirma\u00e7\u00e3o de que o movimento que leva do momento burgu\u00eas ao momento prolet\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o permanente (da\u00ed sua ortodoxia).<\/p>\n<p>Este fato coloca no centro a quest\u00e3o que julgo ser a fundamental colocada pela experi\u00eancia sovi\u00e9tica: o Estado. J\u00e1 em agosto de 1917, ao apresentar seu livro sobre o assunto, L\u00eanin afirmava que \u201ca quest\u00e3o do Estado assume, em nossos dias, particular import\u00e2ncia, tanto do ponto de vista te\u00f3rico como do ponto de vista pol\u00edtico pr\u00e1tico\u201d. Mas no que consiste, em suma, esta quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Podemos resumir esta complexa quest\u00e3o \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o leniniana, sustentada numa compreens\u00e3o precisa da teoria do Estado em Marx e Engels, segundo a qual o Estado Burgu\u00eas n\u00e3o pode ser ocupado ou disputado, mas deve ser aniquilado pela ruptura revolucion\u00e1ria, substituindo-o por um Estado Prolet\u00e1rio. Mencheviques e Socialistas Revolucion\u00e1rios de direita (existiam os de esquerda, como Martov que se opuseram a pol\u00edtica de participa\u00e7\u00e3o no Governo Provis\u00f3rio), estavam convencidos que era poss\u00edvel participar no Estado burgu\u00eas gra\u00e7as a uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel que permitiria utilizar o Estado como instrumento de uma intencionalidade popular.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica\/pr\u00e1tica foi respondida cabalmente pela Revolu\u00e7\u00e3o Russa, mas n\u00e3o somente, tamb\u00e9m pela derrota da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de 1918\/19, por toda experi\u00eancia socialdemocrata do p\u00f3s segunda guerra, pelo governo da Unidade Popular no Chile (1970-1973) e in\u00fameras outras experi\u00eancias do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>No entanto, curiosamente, a esquerda construiu uma certeza no sentido exatamente oposto a este. Parece ter se consolidado a convic\u00e7\u00e3o que a ruptura e a passagem revolucion\u00e1ria para um Estado Prolet\u00e1rio \u00e9 um aspecto particular da R\u00fassia e que a caracter\u00edstica pr\u00f3pria dos tempos que se abriam era de uma altera\u00e7\u00e3o na natureza do Estado que permitiria que se estabelecesse sua disputa e utiliza\u00e7\u00e3o no sentido da transi\u00e7\u00e3o socialista ou de uma transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. \u00c9 comum atribuir a Gramsci esta concep\u00e7\u00e3o de um \u201cEstado ampliado\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o a uma compreens\u00e3o \u201crestrita de Estado\u201d presente em Marx e L\u00eanin. N\u00e3o cabe aqui aprofundar se esta atribui\u00e7\u00e3o \u00e9 ou n\u00e3o pertinente (estamos convencidos que Gramsci debate sobre a forma da via revolucion\u00e1ria, mas n\u00e3o rompe com os fundamentos da Teoria de estado de Marx e, mesmo, de L\u00eanin), mas o fato \u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa aconteceu e se consolidou, assim como a Chinesa em 1949 e a Cubana em 1959, ao mesmo tempo em que nenhuma das chamadas experi\u00eancias de \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d do Estado burgu\u00eas, desde o eurocomunismo e a social democracia at\u00e9 as recentes experi\u00eancias democr\u00e1ticas populares levaram a nada remotamente perto do socialismo.<\/p>\n<p>A atual tend\u00eancia do irracionalismo hoje reinante funciona assim: escolhe um aspecto da realidade, o isola e proclama o fim da possibilidade do socialismo num \u00eaxtase hiperempirista, logo e seguida, quando a realidade parece desmentir sua convic\u00e7\u00e3o, passa a defender que a realidade n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com o segundo ensinamento da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. L\u00eanin tinha certeza que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o acontecem simplesmente, elas precisam ser feitas. Isto \u00e9, a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria possui um aspecto de intencionalidade pol\u00edtica muito mais marcante que sua antecessora hist\u00f3rica. Isto n\u00e3o significa que ela seja unicamente produto da intencionalidade da classe revolucion\u00e1ria ou de sua organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa comprovou, e o rico debate entre L\u00eanin e Rosa apenas expressa no campo te\u00f3rico, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o de nossos tempos \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o entre aspectos espont\u00e2neos e intencionais, objetivos e subjetivos, da luta de classes. N\u00e3o \u00e9 o caso de repassar aqui os fatos sobejamente conhecidos, mas reafirmar que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem epis\u00f3dios onde a espontaneidade da classe foi marcante\u00a0\u2013\u00a0tais como a insurrei\u00e7\u00e3o de 1905 ou a de fevereiro de 1917, a revolta nas bases militares, as greves\u00a0\u2013 da mesma forma que nada disso teria encontrado sucesso sem a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e iniciativa de dire\u00e7\u00e3o no sentido de resistir\u00a0\u2013 como ocorreu depois do fracasso das jornadas de junho e a rea\u00e7\u00e3o do governo, como na resist\u00eancia ao golpe de Korn\u00edlov e a a\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 derrubada o Governo Provis\u00f3rio como em outubro de 1917.<\/p>\n<p>No lugar desta complexa dial\u00e9tica, a esquerda contempor\u00e2nea parece ter se rendido a um culto ao espont\u00e2neo e a uma invers\u00e3o estranha. Empenha-se em realizar as tarefas objetivas, fazer manifesta\u00e7\u00f5es, produzir greves, criar insatisfa\u00e7\u00e3o, enquanto espera que a hist\u00f3ria resolva os problemas que s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o subjetiva da classe pode gerar, tais como as quest\u00f5es da estrat\u00e9gia e da t\u00e1tica, o programa, o plano operacional e a via, os problemas da organiza\u00e7\u00e3o e outros.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a maior contribui\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa deriva do fato que ela possibilitou levar a transi\u00e7\u00e3o socialista a um ponto onde n\u00e3o se havia antes chegado. Para o bem e para o mal, isto \u00e9, o que os russos generosamente nos ensinam se fundamenta em grande parte nos seus erros. Aqui, mais uma vez retornamos a quest\u00e3o do Estado. Se para n\u00f3s a quest\u00e3o da necess\u00e1ria destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e sua substitui\u00e7\u00e3o por um Estado prolet\u00e1rio se comprovou v\u00e1lida, pela experi\u00eancia sovi\u00e9tica e pelos fatos posteriores, a rela\u00e7\u00e3o entre o Estado prolet\u00e1rio e a transi\u00e7\u00e3o socialista nos coloca uma s\u00e9rie de quest\u00f5es sobre as quais precisamos refletir.<\/p>\n<p>Marx parecia estar convencido que na primeira fase da sociedade comunista, o que n\u00f3s resolvemos chamar de socialismo, ocorre uma transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que tem por objetivo eliminar as bases daquilo que um dia dividiu a sociedade em classes e que ele sintetiza em cinco iniciativas: a) superar a escravizante subordina\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos \u00e0 divis\u00e3o do trabalho; b) superar o antagonismo entre trabalho intelectual e manual; c) transformar o trabalho de meio de vida em primeira necessidade da exist\u00eancia; d) superar o indiv\u00edduo burgu\u00eas, desenvolvendo o ser social em todos os sentidos; e) desenvolver as for\u00e7as produtivas para sejam capazes de produzir al\u00e9m das necessidades, em abund\u00e2ncia. Somente isso permitiria que cada um trabalhasse de acordo com suas possibilidades e recebesse de acordo com suas necessidades superando \u201cos estreitos horizontes do direito burgu\u00eas\u201d, conforme Marx famosamente afirmou na\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/critica-do-programa-de-gotha-338\">Critica do programa de Gotha<\/a><\/em>. A estas mudan\u00e7as econ\u00f4micas corresponderia uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na qual o Estado s\u00f3 poderia ser a Ditadura Revolucion\u00e1ria do Proletariado.<\/p>\n<p>Coerente com sua concep\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o permanente, Marx pensava que n\u00e3o apenas a passagem do momento democr\u00e1tico burgu\u00eas para o momento prolet\u00e1rio, mas da primeira fase para o comunismo, portanto, para uma sociedade sem classes e sem Estado, deveria ser um movimento cont\u00ednuo. Dada as caracter\u00edsticas das tarefas enunciadas, este movimento n\u00e3o poderia ser efetivado pelo ato \u00fanico da revolu\u00e7\u00e3o, da\u00ed a concep\u00e7\u00e3o de uma transi\u00e7\u00e3o e da necessidade do Estado. Tal necessidade resulta diretamente da experi\u00eancia da Comuna \u00e0 qual nos referimos, seja pela necessidade de resistir \u00e0s classes dominantes derrotadas e destruir sua capacidade de rea\u00e7\u00e3o o que faltou fazer na Comuna de Paris), seja pela consolida\u00e7\u00e3o de uma ordem que seja fosse de conduzir a transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 a supera\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>L\u00eanin atribui este movimento um car\u00e1ter de \u201cdefinhamento\u201d, uma vez que a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do Estado prolet\u00e1rio na medida em que fosse implementando as medidas citadas, iria tornando cada vez mais desnecess\u00e1rio o Estado. Para isso, a Ditadura do Proletariado deveria ser um Estado dos oper\u00e1rios, camponeses e demais trabalhadores e n\u00e3o um Estado dos funcion\u00e1rios, como alertava o pr\u00f3prio L\u00eanin em seu <em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-estado-e-a-revolucao-688\">O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/a>. <\/em>Ora, a experi\u00eancia sovi\u00e9tica demonstrou que a suspeita dos anarquistas que um Estado desenvolveria interesses pr\u00f3prios em sua perpetua\u00e7\u00e3o, independente do car\u00e1ter revolucion\u00e1rio da classe que representa, acabou por se mostrar mais problem\u00e1tico que n\u00f3s marxistas julg\u00e1vamos.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o Estado n\u00e3o definhou, pelo contr\u00e1rio, fortaleceu-se e consolidou uma profunda deforma\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica invertendo a previs\u00e3o leniniana, isto \u00e9, tornou-se de fato um estado dos funcion\u00e1rios com enorme poder sobre os trabalhadores. Costuma-se utilizar este fato como comprova\u00e7\u00e3o daquela convic\u00e7\u00e3o citada sobre o denominado car\u00e1ter ampliado do Estado contempor\u00e2neo, isto \u00e9, o car\u00e1ter \u201coriental\u201d da forma\u00e7\u00e3o social russa, nos termos gramscianos, teria permitido a tomada do poder, mas condenado a transi\u00e7\u00e3o a um ato dirigido pelo alto, imposto \u00e0 sociedade sem media\u00e7\u00f5es. Nesta leitura os problemas da transi\u00e7\u00e3o seriam melhor resolvidos pelo desenvolvimento de uma sociedade civil forte, resultado de um pleno desenvolvimento do capitalismo. O problema \u00e9 que esta leitura faz com que muitos visitem o t\u00famulo dos bolcheviques para critic\u00e1-los por sua impaci\u00eancia enquanto levam flores e desculpas aos injusti\u00e7ados mencheviques.<\/p>\n<p>Acreditamos que os motivos e as determina\u00e7\u00f5es deste fen\u00f4meno s\u00e3o outros (trataremos deste assunto na pr\u00f3xima coluna), no entanto, n\u00e3o podemos concordar que a solu\u00e7\u00e3o seria n\u00e3o ter ousado tomar o poder e construir uma experi\u00eancia prolet\u00e1ria e socialista, at\u00e9 porque a alternativa \u00e0 tomada do poder pelos bolcheviques aliados aos SRs de esquerda e anarquistas n\u00e3o seria o lento amadurecimento de uma democr\u00e1tica sociedade ocidental, mas o golpe de Korn\u00edlov e possivelmente o desmembramento da R\u00fassia em \u00e1reas de influ\u00eancia imperialista como ocorreu na China.<\/p>\n<p>Assim, o risco \u00e9 que muitos enaltecem e celebram a Revolu\u00e7\u00e3o Russa para defender que hoje devemos fazer exatamente o oposto do que nossos camaradas realizaram: devemos ceder a tenta\u00e7\u00e3o de tomar o poder e, no lugar da ruptura revolucion\u00e1ria propor a democratiza\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas at\u00e9 que com o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e da consci\u00eancia de classe dos trabalhadores torne-se poss\u00edvel a passagem para o socialismo; devemos acreditar que as massas mudar\u00e3o a sociedade quando estiverem prontas e dispostas a faz\u00ea-lo e as demais classes da sociedade (principalmente as camadas m\u00e9dias) estejam dispostas a aceitar isso sem surtar histericamente ou reagir de forma brutal; e, finalmente, devemos rejeitar a proposta de socializar os meios de produ\u00e7\u00e3o exercitando formas mistas de propriedade e conviv\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o que v\u00e1 introduzindo, aos poucos, formas socializadas em uma economia de mercado at\u00e9 que, em um m\u00edstico dia futuro, cheguemos ao socialismo sem traum\u00e1ticas rupturas.<\/p>\n<p>Os herdeiros do reformismo se inquietam diante de uma realidade que atualiza o impasse do in\u00edcio do s\u00e9culo: a guerra, o imperialismo, a crise, a prepot\u00eancia de um Estado de classe se esfor\u00e7ando para manter um Modo de Produ\u00e7\u00e3o moribundo. L\u00eanin, na mesma apresenta\u00e7\u00e3o do livro citado afirmou que dezenas de anos de relativa paz criaram os elementos do oportunismo que predominava nos partidos socialistas oficiais, mas que a crise teria varrido as certezas que embasam os desvios oportunistas e o l\u00edder bolchevique podia prever, com certo otimismo, ao final de sua apresenta\u00e7\u00e3o que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA quest\u00e3o da atitude da revolu\u00e7\u00e3o socialista do proletariado em rela\u00e7\u00e3o ao Estado adquire, desse modo, n\u00e3o apenas import\u00e2ncia pol\u00edtica pr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m relev\u00e2ncia da maior atualidade como quest\u00e3o do esclarecimento das massas sobre aquilo que ter\u00e3o de fazer num futuro pr\u00f3ximo para sua liberta\u00e7\u00e3o do jugo do capital.\u201d (Vlad\u00edmir L\u00eanin, <a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-estado-e-a-revolucao-688\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>, p.24)<\/p><\/blockquote>\n<p>As \u00faltimas d\u00e9cadas de \u201crelativa paz\u201d criaram as condi\u00e7\u00f5es para a ressurrei\u00e7\u00e3o do oportunismo. A crise atual recria as condi\u00e7\u00f5es para a crise deste oportunismo e a retomada de uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Parece-me, por vezes, que alguns celebram a Revolu\u00e7\u00e3o Russa para melhor esquec\u00ea-la.<\/p>\n<p>https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/<wbr \/>2017\/10\/24\/o-que-nao-aprendemos-com-a-revolucao-russa\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16771\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[224],"class_list":["post-16771","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4mv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16771","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16771"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16771\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}