{"id":1682,"date":"2011-07-20T04:18:52","date_gmt":"2011-07-20T04:18:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1682"},"modified":"2011-07-20T04:18:52","modified_gmt":"2011-07-20T04:18:52","slug":"memorias-de-gregorio-bezerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1682","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de Greg\u00f3rio Bezerra"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais de trinta anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o das <em>Mem\u00f3rias<\/em> (1979), de Greg\u00f3rio Bezerra, o lend\u00e1rio \u00edcone da resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar \u00e9 homenageado com o lan\u00e7amento de sua autobiografia pela Boitempo Editorial, acrescida de fotografias e textos in\u00e9ditos, e em um \u00fanico volume. O livro conta com a contribui\u00e7\u00e3o decisiva de Jurandir Bezerra, filho de Greg\u00f3rio, que conservou a mem\u00f3ria de seu pai; da historiadora Anita Prestes, filha de Olga Ben\u00e1rio e Luiz Carlos Prestes, que assina a apresenta\u00e7\u00e3o da nova edi\u00e7\u00e3o; de Ferreira Gullar na quarta capa; e de Roberto Arrais no texto de orelha. H\u00e1 tamb\u00e9m a inclus\u00e3o de depoimentos de Oscar Niemeyer, Ziraldo, da adovogada M\u00e9rcia Albuquerque e do governador de Pernambuco (e neto de Miguel Arrais) Eduardo Campos, entre muitos outros.<\/p>\n<p>Em <em>Mem\u00f3rias<\/em>, o l\u00edder comunista repassa sua impressionante trajet\u00f3ria de vida e resgata um per\u00edodo rico da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira. O depoimento abrange o per\u00edodo entre seu nascimento (1900) at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o em troca do embaixador americano sequestrado, em 1969, e termina com sua chegada \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde permaneceria at\u00e9 a Anistia, em 1979. No ex\u00edlio come\u00e7ou a escrever sua autobiografia.<\/p>\n<p>Nascido em Panelas, no Agreste pernambucano, a 180 km de Recife, Greg\u00f3rio era filho de camponeses pobres, que perdeu ainda na inf\u00e2ncia, e com cinco anos de idade j\u00e1 trabalhava com a enxada na lavoura de cana-de-a\u00e7\u00facar. Analfabeto at\u00e9 os 25 anos de idade e militante desde as primeiras movimenta\u00e7\u00f5es de trabalhadores influenciados pela Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, Bezerra teve papel de destaque em importantes momentos pol\u00edticos da esquerda brasileira, e por conta disso totalizou 23 anos de c\u00e1rcere em diversos pres\u00eddios e \u00e9pocas. Foi deputado federal (o mais votado em 1946) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), ferrenho combatente do regime militar, e por essa raz\u00e3o protagonizou uma das cenas mais brutais da rec\u00e9m-instalada ditadura p\u00f3s-golpe de 1964: capturado, foi arrastado por seus algozes pelas ruas do Recife, com as imagens tendo sido veiculadas pela TV no ent\u00e3o Rep\u00f3rter Esso. A selvageria causou tamanha como\u00e7\u00e3o que os registros da tortura jamais foram encontrados nos arquivos do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Apesar da dura realidade, Greg\u00f3rio jamais cultivou o \u00f3dio ou o rancor. Era por todos considerado um homem doce, generoso. N\u00e3o foi um homem de letras, mas um grande observador e um brilhante contador de hist\u00f3rias. Assim \u00e9 que suas p\u00e1ginas s\u00e3o narradas, sem afeta\u00e7\u00f5es ou hipocrisia, passando pelo interior da mata e do agreste nos tempos de estiagem e seca, pelo Recife, o ex\u00edlio na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a milit\u00e2ncia no PCB. Dizia ele: \u201cN\u00e3o luto contra pessoas, luto contra o sistema que explora e esmaga a maioria do povo\u201d. Em 1983, o Brasil perdeu este que foi um de seus grandes defensores. Para sorte dos que estavam por vir, por\u00e9m, ele deixou suas mem\u00f3rias recheadas de verdades e esperan\u00e7as e que, acima de tudo, representam a hist\u00f3ria de muitos outros \u201cGreg\u00f3rios\u201d que transformaram o seu destino na luta para transformar a realidade institu\u00edda.<\/p>\n<p><strong>Trechos do livro<\/strong><\/p>\n<p>\u201cFoi o Natal mais farto e rico de alegria a que assisti durante os nove anos e dez meses de minha vida. Al\u00e9m disso, ganhei dois metros de algod\u00e3ozinho para fazer duas camisas, porque s\u00f3 tinha uma e velha, que j\u00e1 estava virando farrapo. Aproveitei a cumplicidade de vov\u00f3 e pedi-lhe que me fizesse uma camisa e uma cal\u00e7a, em vez de duas camisas. A velha topou as minhas antigas pretens\u00f5es. Entretanto a costureira, que foi a minha tia Guilhermina, em vez de me fazer uma cal\u00e7a, fez uma ceroula grande, de amarrar acima do tornozelo. Deram-me para vestir. Achei bonita e at\u00e9 mais bonita do que uma cal\u00e7a, porque me fez lembrar do meu falecido av\u00f4, que, quando vivo, somente vestia ceroulas compridas amarradas no tornozelo. Cal\u00e7a s\u00f3 vestia quando ia \u00e0 feira ou em visita aos domingos. Afinal, todos aprovaram a ceroula, menos minha irm\u00e3 Isabel. Ganhei a \u201cbatalha\u201d de anos atr\u00e1s, quando pleiteei uma cal\u00e7a no s\u00edtio Goiabeira. Era feliz, agora, e me sentia homem. O Natal e Ano-Novo serviram para minhas exibi\u00e7\u00f5es de ceroulas compridas e camisa fora da cal\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoltei \u00e0 rua, tentando ver se alguns oper\u00e1rios haviam chegado. N\u00e3o havia ningu\u00e9m. Fiz um ligeiro com\u00edcio para os pequenos grupos que se aglomeravam nas sacadas dos pr\u00e9dios vizinhos, concitando-os a pegar em armas, sob o comando do camarada Luiz Carlos Prestes. Fui aplaudido das varandas por alguns estudantes que ali moravam. Mas o apoio, infelizmente, n\u00e3o passou dos aplausos. Um oficial tentou prender-me, pedindo-me que, pelo amor de Deus, eu me rendesse. Ao chegar a dez metros de mim, apontei-lhe o fuzil e o fiz recuar. Vinha chegando um sargento radiotelegrafista que, de longe, perguntou-me o que havia. Respondi-lhe que, se quisesse lutar pela Alian\u00e7a Nacional Libertadora, tinha um lugar a sua disposi\u00e7\u00e3o; se n\u00e3o, ca\u00edsse fora enquanto era tempo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo: Mem\u00f3rias<\/p>\n<p>Autor: Greg\u00f3rio Bezerra<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o: Anita Prestes<\/p>\n<p>Orelha: Roberto Arrais<\/p>\n<p>Quarta capa: Ferreira Gullar<\/p>\n<p>P\u00e1ginas: 648<\/p>\n<p>Pre\u00e7o: R$ 74,00<\/p>\n<p>ISBN: 978-85-7559-160-4<\/p>\n<p>Editora: <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-160-4\" target=\"_blank\">Boitempo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boitempo\n\n\n\n\n\n\n\n\nBoitempo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1682\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1682","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-r8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1682\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}