{"id":16827,"date":"2017-10-31T20:07:57","date_gmt":"2017-10-31T23:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16827"},"modified":"2017-10-31T20:07:57","modified_gmt":"2017-10-31T23:07:57","slug":"eua-simulacro-de-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16827","title":{"rendered":"EUA: Simulacro de democracia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/e072f020dd525fdff73ec4899415afdd_XL.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por John Steppling<\/p>\n<blockquote><p>\u2026 pa\u00eds no qual 87% dos cidad\u00e3os de 18-25 anos (segundo pesquisa National Geographic Society\/Roper Poll de 2002) n\u00e3o conseguem encontrar Ir\u00e3 ou Iraque num mapa mundi, e 11% n\u00e3o conseguem localizar os EUA onde nasceram e vivem, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 &#8220;intelectualmente pregui\u00e7oso&#8221;. Mais acuradamente \u00e9 pa\u00eds de imbecis, que podem ser enganados por qualquer um, para crer em qualquer coisa\u2026&#8221; \u2014 Morris Berman<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o me lembro de outro momento em que a cultura dos EUA estivesse t\u00e3o gravemente ferida por efeito do que faz a classe dominante. Hollywood s\u00f3 distribui filmes e <em>shows<\/em> de TV racistas, militaristas e de nacionalismo doentio, cada um mais pervertido que o outro. A m\u00eddia-empresa est\u00e1 completamente controlada pelas mesmas for\u00e7as que controlam Hollywood. Os liberais capitularam completamente aos interesses de uma elite cada dia mais fascista e fascistizante. E n\u00e3o come\u00e7ou com Donald Trump.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o que hoje se v\u00ea nos EUA come\u00e7ou antes, no m\u00ednimo ao tempo de Bill Clinton, mas com certeza j\u00e1 a\u00ed estava nos anos finais da 2\u00aa Guerra Mundial. A trajet\u00f3ria ideol\u00f3gica que se configurou sob os irm\u00e3os Dulles e o complexo industrial-militar \u2013 representante de interesses comerciais dos EUA e exibindo-se como aspirante a hegemon global. Mas depois da autodissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o projeto foi acelerado e intensificado.<\/p>\n<p>Outro ponto daquele in\u00edcio foi o fiasco da Ba\u00eda dos Porcos em 1960, ou o assassinato em 1961 pela CIA (e MI6) de Patrice Lumumba. Ou o discurso de Kennedy, em 1962, na American University, clamando pelo fim da <em>Pax Americana<\/em>. Sabemos o que aconteceu a Kennedy pouco depois. Pode ter sido qualquer desses incidentes. Mas foi o fim da URSS que demarcou, para a classe governante, a classe propriet\u00e1ria, que o \u00faltimo real obst\u00e1culo para a domina\u00e7\u00e3o global havia sido afastado. Nesse meio tempo, h\u00e1 o caso Ir\u00e3<em>Contra<\/em>, e a invas\u00e3o do Iraque. Acho que, hoje, j\u00e1 ningu\u00e9m se lembra do significado real e simb\u00f3lico da URSS. Do que significou especialmente para o mundo em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Depois, o bal\u00e3o de ensaio seguinte, a\u00e7\u00e3o consciente, foi o ataque de Clinton \u00e0 ex-Iugosl\u00e1via. Um teste, para a OTAN em expans\u00e3o. E funcionou. A m\u00e1quina de propaganda jamais tivera tanto sucesso como quando demonizou os s\u00e9rvios e Milosevic. Depois, veio o 11\/9.<\/p>\n<p>E a bem azeitada m\u00e1quina de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas &amp; <em>Marketing<\/em> cuspiu catarata infind\u00e1vel de ret\u00f3rica hiperpatri\u00f3tica e de desinforma\u00e7\u00e3o. O excepcionalismo norte-americano foi convertido em item de f\u00e9, com credibilidade absoluta. E quem n\u00e3o se lembra de Colin Powell e seus ares de personagem de <em>cartoon<\/em> pontificando na ONU? Quem discordaria dele? N\u00e3o, com certeza, a classe branca liberal. E Hollywood subiu o cacife, quando se p\u00f4s a vomitar fantasias militaristas. Nenhum outro g\u00eanero jamais foi t\u00e3o completamente dedicado a distribuir mensagens neocoloniais. Em 2007, quando Barack Obama anunciou que concorreria \u00e0 presid\u00eancia, a narrativa que dominaria os EUA j\u00e1 estava firmemente implantada. Em 2009, o maior sucesso de Hollywood foi <em>Avatar <\/em>(2009), f\u00e1bula neocolonial que se casou perfeitamente com a reconquista da \u00c1frica, a que Obama se dedicava.Dan Glazebrook escreveu <a href=\"https:\/\/www.rt.com\/op-edge\/407332-gaddafi-west-sirte-recolonization\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recentemente<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O ano de 2009, dois anos antes do assassinato de Gaddafi, foi crucial para as rela\u00e7\u00f5es EUA-\u00c1frica. Primeiro, a China ultrapassou os EUA como principal parceira comercial do continente; segundo, porque Gaddafi foi eleito presidente da Uni\u00e3o Africana. A significa\u00e7\u00e3o desses dois eventos, que sinalizaram o decl\u00ednio da influ\u00eancia dos EUA no continente, n\u00e3o poderia ser mais clara. Gaddafi liderava os esfor\u00e7os para unir politicamente o continente africano, aplicando quantidades importantes de petr\u00f3leo l\u00edbio para dar vida ao seu sonho; e a China ia silenciosamente acabando com o monop\u00f3lio do ocidente sobre os mercados exportadores e de investimentos financeiros. A \u00c1frica j\u00e1 n\u00e3o precisava chegar de pires na m\u00e3o, implorando por empr\u00e9stimos do FMI e aceitando quaisquer condi\u00e7\u00f5es, por degradantes que fossem. Agora, a \u00c1frica podia negociar diretamente com a China \u2013 ou, mais f\u00e1cil, com a L\u00edbia \u2013 para obter investimentos. E se os EUA amea\u00e7assem cortar o continente do grupo de seus mercados, a China compraria o que aparecesse, e agradeceria. A domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do ocidente sobre a \u00c1frica estava sob amea\u00e7a mais grave do que jamais antes.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>A resposta dos EUA foi acelerar a constru\u00e7\u00e3o de bases, aumentar o <em>AFRICOM<\/em> e, passo seguinte, assassinar Gadaffi. Os sucessos desse per\u00edodo brotados em Hollywood foram <em>Guerra ao Terror<\/em> [ing. <em>The Hurt Locker] e <\/em><em>Batman, O Cavaleiro das Trevas<\/em> [ing. <em>The Dark Knight]<\/em>. Em casa, Obama providenciava o OK para a militariza\u00e7\u00e3o dos departamentos de pol\u00edcia por todo o pa\u00eds. Noutro front, Danny Haiphong <a href=\"https:\/\/www.blackagendareport.com\/obamacare_profits_legacy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O que pouco se discute \u00e9 o quanto Obama trabalhou incansavelmente para proteger e atender os interesses do sistema das empresas de sa\u00fade privadas. Em 2009, colaborou com a ind\u00fastria monopolista de seguros-sa\u00fade e seus contrapartes farmac\u00eauticos, para reprimir a demanda pelo seguro sa\u00fade de \u00fanico pagante. Naquele momento as condi\u00e7\u00f5es pareciam maduras para um sistema de \u00fanico pagante. O descontentamento popular com o Partido Republicano estava no auge. Um movimento relativamente organizado a favor do \u00fanico pagante era representado por organiza\u00e7\u00f5es como Healthcare Now. O Partido Democrata tinha maioria nas duas Casas do Congresso.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Obama chegava ao poder no momento em que Wall Street derretia, na crise de 2008. Mas em vez de esperan\u00e7a e mudan\u00e7a, os eleitores s\u00f3 conseguiram que quase 5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares voassem diretamente para o 1% mais rico da elite financeira. A pobreza e a desigualdade aumentaram todos os anos, sem parar, durante os governos Obama. O filme <em>A Rede Social <\/em>[ing. <em>Social Network] estreou em <\/em>2010 e <em>O Lobo de Wall Street<\/em> [ing. <em>Wolf of Wall Street<\/em>], em 2013. Os dois foram grandes sucessos. A mensagem de Hollywood nunca mudou. E parte dessa mensagem \u00e9 que a riqueza se autojustifica e \u00e9 s\u00edmbolo (e prova!) de virtude. Hollywood e os liberais de esquerda nos EUA gravitaram naturalmente na dire\u00e7\u00e3o deles e aproximaram ainda mais dos mais ricos.<\/p>\n<p>Obama atacou o Afeganist\u00e3o, o Iraque, a S\u00edria, a L\u00edbia, o Sud\u00e3o, a Som\u00e1lia e o I\u00eamen. E essa \u00faltima a\u00e7\u00e3o \u00e9, provavelmente, a que adiante se provaria a mais significativa. A a\u00e7\u00e3o dos EUA de Obama, de armar, treinar e coordenar a agress\u00e3o saudita (e agora a agress\u00e3o j\u00e1 escalou para coturnos em solo!) contra o indefeso povo do I\u00eamen resultou na maior cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria em 50 anos.<\/p>\n<p>Hoje, os EUA j\u00e1 criminalizam completamente qualquer dissid\u00eancia, especialmente se a dissid\u00eancia operar contra Israel.<\/p>\n<p>Nada disso visa a criar corol\u00e1rios exatos entre a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o produto de fic\u00e7\u00e3o. Trata-se, isso sim, de se servir da mensagem que Hollywood constr\u00f3i em narrativa, para cinema e TV, para validar o excepcionalismo dos EUA. E para fazer, da cr\u00edtica, nada al\u00e9m de fraco protesto marginal. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Hollywood. Tamb\u00e9m o teatro, o romance e todas as artes.<\/p>\n<p>O tra\u00e7o mais pronunciado de toda a cultura norte-americana hoje \u00e9 o total apagamento da classe trabalhadora. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/biography\/Clifford-Odets\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Clifford Odets<\/a>(que s\u00f3 completou o gin\u00e1sio); foram substitu\u00eddos por um fluxo ininterrupto de bem nutridos graduados e p\u00f3s-graduados. Praticamente todos sa\u00eddos das caras escolas privadas da elite. Hemingway e James Baldwin nem completaram o gin\u00e1sio. Nem Tennessee Williams, filho de um caixeiro viajante que vendia sapatos. At\u00e9 autores mais recentes, como Thomas Pynchon, deixaram a universidade (para se alistar na Marinha), mas o ponto \u00e9 que a cultura de massas nos EUA hoje \u00e9 atentamente fiscalizada. Dreiser abandonou a universidade, Twain foi aprendiz de tip\u00f3grafo. Outros como Faulkner, at\u00e9 frequentou a universidade, mas trabalhava ao mesmo tempo. No caso de Faulkner, como carteiro. A mesma profiss\u00e3o de Henry Miller e Charles Bukowski. Stephen Crane e Hemingway trabalharam como jornalistas \u2013 quando ainda era profiss\u00e3o honrada.<\/p>\n<p>Os tomadores de decis\u00e3o na cultura de massas est\u00e3o predominantemente entrincheirados no etos do Partido Democrata (basta ver coisas como <a href=\"https:\/\/www.ligadoemserie.com.br\/2017\/03\/house-of-cards-sera-exibida-na-tv-a-cabo-brasileira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">House of Cards<\/a><em>, Madame Secretary (elogiada por <\/em><a href=\"http:\/\/kogut.oglobo.globo.com\/noticias-da-tv\/critica\/noticia\/2016\/01\/madam-secretary-uma-boa-serie-estrelada-por-tea-leoni.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Globo, no Brasil<\/a><em> [NTs]<\/em>, ou <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Veep\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veep<\/a>).<\/p>\n<p>Quem s\u00f3 assista aos notici\u00e1rios de MSNBC ou FOX ou CNN [ou Globo, no Brasil (NTs)] s\u00f3 receber\u00e1 a mais pura propaganda. Rachel Maddow fez toda uma carreira baseada no mais descarado papaguear do que o Comit\u00ea Nacional Democrata a mandasse &#8216;noticiar&#8217;, itens de &#8216;discuss\u00e3o&#8217; e conclus\u00f5es. Bill Maher, cujo programa est\u00e1 na HBO, n\u00e3o faz outra coisa que n\u00e3o seja propaganda pr\u00f3-guerra.<\/p>\n<p>Os notici\u00e1rios de domingo e os programas de entrevista, jamais, em nenhum caso, ouvem qualquer especialista que ofere\u00e7a qualquer risco de n\u00e3o dizer o que \u00e9 pago para dizer. Nunca se ouviram nesses programas as vozes de Michael Parenti, ou Ajamu Baraka ou Glen Ford, Mike Whitney ou Ed Curtin ou Dan Glazebrook ou Stephen Gowans. Nada disso. Mas abundam nesses programas generais e pol\u00edticos aposentados. Essa \u00e9 a m\u00eddia-empresa que tem controle total sobre o que os cidad\u00e3os ouvem.<\/p>\n<p>A expuls\u00e3o da classe trabalhadora \u2013 da diversidade de classes \u2013 de todos os canais de m\u00eddia de massas foi at\u00e9 aqui o mais duro golpe contra a sa\u00fade da cultura norte-americana. Pode-se argumentar que a cultura sempre foi, na era moderna, territ\u00f3rio exclusivo da burguesia, e \u00e9 verdade. Mas mesmo assim se veem mudan\u00e7as muito claras. Os norte-americanos s\u00e3o hoje ativamente empurrados na dire\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pensar em termos de classes. S\u00f3 sabem ver individualismo e quest\u00f5es &#8216;de identidade&#8217;. Querem mais mulheres dirigindo filmes&#8230; E elas nos d\u00e3o renovadas vers\u00f5es de <em>A hora mais escura <\/em>[ing. <em>Zero Dark Thirty]. <\/em><\/p>\n<p><em>Que a igualdade de g\u00eaneros \u00e9 importante, todos os pa\u00edses socialistas em toda a hist\u00f3ria disseram, afirmaram e fizeram<\/em>. Ch\u00e1vez cuidou de inscrev\u00ea-la na sua Constitui\u00e7\u00e3o Bolivariana, logo no primeiro dia. O mesmo Ch\u00e1vez, que o arremedo de EUA-liberal de esquerda Bernie Sanders chamou de &#8220;ditador comunista morto&#8221;. O mesmo Ch\u00e1vez, que o arremedo de progressista feminista Hillary Clinton trabalhou anos a fio, todos os dias, para derrubar do poder.<\/p>\n<p>Hoje os norte-americanos declaram-se chocados&#8230; eu disse chocados&#8230; ao saber que soldados dos EUA foram mortos no N\u00edger. Culpa de Donald Trump. O que ningu\u00e9m informa \u00e9 que foi Obama quem mandou soldados dos EUA para o N\u00edger, quando andava em clima de &#8220;piv\u00f4 para a \u00c1frica&#8221;. Diga essa simples verdade hist\u00f3rica a algu\u00e9m e espere respostas de absoluta desconfian\u00e7a: voc\u00ea (n\u00e3o a m\u00eddia) s\u00f3 pode estar mentindo. A preocupa\u00e7\u00e3o com soldados norte-americanos mortos no N\u00edger \u00e9 impressionante sinal de entorpecimento mental, pela hipocrisia e pela cren\u00e7a no excepcionalismo norte-americano. Preocupados com norte-americanos mortos? Claro. Mas por que ningu\u00e9m se preocupa com os mortos por <em>drones<\/em> norte-americanos, num \u00fanico ano, que seja? Podem escolher o ano.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;No governo Obama, o Comando dos EUA na \u00c1frica, AFRICOM, invadiu todos os pa\u00edses africanos, exceto Zimbabwe e Eritreia. AFRICOM submeteu \u00e0 subservi\u00eancia militar as na\u00e7\u00f5es africanas. Em 2014, os EUA conduziram 674 opera\u00e7\u00f5es militares na \u00c1frica. Segundo informa\u00e7\u00e3o que <em>Intercept<\/em> obteve em recente requisi\u00e7\u00e3o nos termos da Lei da Liberdade de Informa\u00e7\u00e3o, os EUA mant\u00eam soldados hoje em mais de 20 pa\u00edses da \u00c1frica. \u2013 <a href=\"https:\/\/riseuptimes.org\/2016\/12\/18\/danny-haiphong-a-lesson-from-standing-rock\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Danny Haiphong<\/a>&#8220;<\/p><\/blockquote>\n<p>As pessoas vivem aterrorizadas, com medo de serem chamados agentes de teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Nenhum termo pejorativo teve jamais poder mais fora de propor\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma quest\u00e3o subjacente a\u00ed, que tem a ver com a posi\u00e7\u00e3o do sujeito. H\u00e1 uma vers\u00e3o de masculinidade que est\u00e1 j\u00e1 conectada com aceitar a vers\u00e3o oficial das coisas. H\u00e1 algo de &#8216;s\u00e9rio, confi\u00e1vel, maduro, de verdadeiro homem&#8217;, em aceitar o que o poder declare&#8230; Questionar muito \u00e9 &#8216;coisa de maricas&#8217;. Macho que \u00e9 macho faz obedecer e obriga a n\u00e3o discordar&#8230; Concordo que seja realmente quase inacredit\u00e1vel, mas, por que, afinal, t\u00e3o poucos perguntam publicamente por que j\u00e1 parece normal aos olhos das maiorias nos EUA assassinar pessoas em solo estrangeiro, &#8216;porque&#8217; interessa aos EUA? Por que os &#8216;vazadores&#8217; de verdades, os que trazem informa\u00e7\u00e3o verdadeira e comprovada est\u00e3o presos, quando n\u00e3o mortos e calados para sempre?<\/p>\n<p>Por que h\u00e1 mais de 900 bases militares dos EUA pelo mundo? Por que, dada a mis\u00e9ria que se alastra nos EUA, precisamos manter arsenal moderno de armas nucleares, que custam trilh\u00f5es? Afinal de contas, por que um or\u00e7amento de Defesa que nos custa mais de 4 bilh\u00f5es por dia?<\/p>\n<p>Os liberais de esquerda j\u00e1 n\u00e3o fazem tais perguntas. Muito menos, claro, perguntam se \u00e9 verdade que os EUA armaram e est\u00e3o armando jihadistas <em>takfiri<\/em> na S\u00edria! Muito do que se rotula hoje nos EUA como &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o passa de ceticismo perfeitamente razo\u00e1vel \u2013 dada uma hist\u00f3ria que inclui COINTELPRO [programa de contraintelig\u00eancia], Operation Northwoods, Gladio, MKUltra e Operation AJAX. Tamb\u00e9m \u00e9 relevante, em termos da guerra que se aproxima contra *<em>fake news<\/em>* [not\u00edcias ditas falsas]. Uma ideia que Obama introduziu e agora em entusi\u00e1stica opera\u00e7\u00e3o orwelliana que fazem Facebook, YouTube e Google. No Reino Unido, Theresa May anuncia com orgulho que o governo DEVE controlar o que se pode e o que n\u00e3o se pode ver na internet. Censura em trajes de santo protetor.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o se chega \u00e0 OTAN e \u00e0 Europa. Por que a OTAN, pode-se perguntar come\u00e7ar, existe? Quero dizer, nem a URSS existe mais. Ora, a resposta vem sendo constru\u00edda h\u00e1 alguns anos e hoje se v\u00ea que sempre esteve a\u00ed, na extraordin\u00e1ria campanha de propaganda anti-Putin a que se dedicam os EUA.<\/p>\n<p>A &#8220;amea\u00e7a russa&#8221; \u00e9 hoje express\u00e3o que ningu\u00e9m estranha e contra a qual j\u00e1 ningu\u00e9m protesta. \u00c9 como a anti-informa\u00e7\u00e3o que se distribui pela m\u00eddia-empresa contra o Ir\u00e3. Fato \u00e9 que o Ir\u00e3 \u00e9 muito mais democr\u00e1tico do que &#8216;amea\u00e7a global&#8217;. Na verdade, o Ir\u00e3 absolutamente n\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a global. Israel e Ar\u00e1bia Saudita, aliados dos EUA, esses sim, s\u00e3o, sim, amea\u00e7a global. Com o que chegamos de volta ao I\u00eamen e \u00e0 espantosa destrui\u00e7\u00e3o do I\u00eamen.<\/p>\n<p>O mais pobre dos pa\u00edses \u00e1rabes em todo o mundo, e agora local onde se alastra o maior surto de C\u00f3lera de toda a hist\u00f3ria, jamais foi amea\u00e7a a algu\u00e9m, nunca, em tempo algum. Com certeza jamais foi amea\u00e7a aos EUA. Querem nos fazer crer que faz algum sentido apoiarmos a Casa de Saud? Na Ar\u00e1bia Saudita degolam homossexuais e bruxas. O l\u00edder do Ex\u00e9rcito do Reino da Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 um psicopata de 32 anos de nome Mohammed Bin Salman. Algu\u00e9m poderia, por favor, explicar por que os EUA apoiam esse pa\u00eds e seu governo?<\/p>\n<p>Ou a Venezuela. Os EUA moveram incont\u00e1veis campanhas contra essa na\u00e7\u00e3o soberana ao longo, j\u00e1, de uma d\u00e9cada. Plena democracia. Mas democracia desobediente. E n\u00e3o se ouvem vozes de indigna\u00e7\u00e3o nos EUA?<\/p>\n<p>Num pa\u00eds onde tantos preocupam-se com o destino de Harvey Weinstein, produtor troglodita de filmes, que literalmente todos sabiam que \u00e9 abusador serial, h\u00e1 d\u00e9cadas&#8230; por que, diabos, o voto das mulheres venezuelanas n\u00e3o parece merecer qualquer respeito?!<\/p>\n<p>Ou as mulheres da L\u00edbia, do Haiti, de Porto Rico, ou, diabos, as mulheres de Houston nesse exato momento?! Pobres mulheres. Mas isso outra vez \u00e9 quest\u00e3o de classe. Talvez o caso Weinstein sirva para que se construa alguma forma de prote\u00e7\u00e3o coletiva, talvez sindicalizando as mulheres, para que possam enfrentar o poder dos homens brancos ricos. Duvido, mas&#8230; quem sabe?<\/p>\n<p>Infelizmente, duvido que aconte\u00e7a, porque os liberais de esquerda hoje aplaudem a ideia de mulheres bombardearem vilas indefesas no Afeganist\u00e3o no Iraque ou no I\u00eamen \u2013 exatamente como fazem os homens\u2013 , e porque tantas dessas atacadas por Weinstein foram e s\u00e3o empenhadas defensoras de Hillary Clinton e do Comit\u00ea Nacional Democrata e sempre viveram de adular figuras como Madeleine Albright.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.counterpunch.org\/2017\/10\/20\/male-sexual-violence-as-american-as-cherry-pie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">David Rosen<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Abuso e viol\u00eancia sexuais nos EUA t\u00eam a idade do pa\u00eds. A cultura patriarcal norte-americana h\u00e1 muito tempo legitimou o abuso e a viol\u00eancia sexuais contra as mulheres \u2013 e contra as crian\u00e7as \u2013, tanto nos locais de trabalho, como em casa, num <em>nightclub<\/em> ou numa rua deserta. Nos primeiros tempos da na\u00e7\u00e3o, o h\u00e1bito de abusar e violentar sexualmente era legitimado sob uma no\u00e7\u00e3o de &#8220;castigo&#8221;. Era artigo inscrito na <em>Common Law<\/em> anglo-norte-americana, que reconhecia o marido como patr\u00e3o da sua [dele] casa e, a esse t\u00edtulo, permitia que submetesse a sua [dele] esposa a castigos corporais que inclu\u00edam estupro, desde que n\u00e3o resultassem em les\u00e3o permanente. O abuso sexual foi institucionalizado no estupro de escravas africanas e depois afro-norte-americanas. Como observa a professora e especialista em legisla\u00e7\u00e3o Adrienne Davis, &#8220;a escravid\u00e3o nos EUA obrigava as mulheres negras a trabalharem em tr\u00eas mercados \u2013 produtivo, reprodutivo e da escravatura \u2013, os tr\u00eas cruciais para a economia pol\u00edtica.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Basta ver a viol\u00eancia sexual que acontece dentro das For\u00e7as Armadas dos EUA (<em>vide<\/em> <a href=\"http:\/\/www.documentarytube.com\/videos\/the-invisible-war\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Invisible War<\/a><em>, de<\/em> Kirby Dick). Mas n\u00e3o s\u00e3o os militares que se veem nos novel\u00f5es de TV como <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt6473344\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>SEAL Team<\/em><\/a> ou <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt6503244\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Valor<\/a> ou <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt6461736\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Brave<\/a>. O filme de Tom Cruise <a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-227043\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Feito na Am\u00e9rica<\/a> [ing.<em>American Made<\/em>] \u00e9 uma esp\u00e9cie de com\u00e9dia sobre Barry Seal, que trabalhou como piloto para a CIA, e que mantinha v\u00e1rios cart\u00e9is na Am\u00e9rica do Sul. Ah, sim, nada mais c\u00f4mico que esmagar um governo socialista na Nicar\u00e1gua! N\u00e3o h\u00e1 sequer um, que fosse, personagem que fale espanhol e n\u00e3o seja b\u00eabado, s\u00e1dico ou simplesmente idiota e incompetente. Esse revisionismo espantosamente racista \u00e9 declarado &#8220;divertido e agitado&#8221; pelo <em>Hollywood Reporter<\/em>.<\/p>\n<p>Os liberais de esquerda nos EUA sempre estar\u00e3o alinhados com o <em>status quo<\/em>. Sempre. N\u00e3o se incomodam se o <em>status quo<\/em> \u00e9 fascista. E tudo bem em declarar barbaridades sobre abuso sexual de mulheres, desde que as posi\u00e7\u00f5es &#8216;progressistas&#8217; n\u00e3o obriguem nenhum liberal de esquerda norte-americano a lidar com a complexidade das mulheres em na\u00e7\u00f5es que os turistas n\u00e3o procura, como I\u00eamen ou L\u00edbia ou Honduras. E o mesmo se passa com os departamentos de pol\u00edcia nos EUA que assassinaram mais de mil homens negros s\u00f3 em 2015. E continuam a assassinar, al\u00e9m de tamb\u00e9m assassinarem mulheres negras. Provavelmente, mais hist\u00f3rias &#8220;divertidas e agitadas&#8221;.<\/p>\n<p>Obama jamais se sentiu confort\u00e1vel falando sobre ou para negros e negras. Mas n\u00e3o teve dificuldades, recentemente, para <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/story\/2016\/09\/obama-colin-kaepernick-anthem-228880\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">repreender Colin Kaepernick<\/a> por causa da dor que ele, Kaepernick, estaria causando. Muita dor, sim, suponho, para os brancos bilion\u00e1rios donos das equipes de futebol. O Tio-Tomismo, como dizia Glen Ford falando da fraca lideran\u00e7a dos negros, nunca foi maior. E esse \u00e9 mais um crime que se pode depor, na maior parte, aos p\u00e9s tamb\u00e9m de Barack Obama.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara de Deputados dos EUA aprovou por unanimidade que se apliquem san\u00e7\u00f5es contra o Ir\u00e3 e a Coreia do Norte \u2013 que s\u00e3o absurdo e crime \u2013, e ningu\u00e9m percebeu qualquer abalo da escala Richter da m\u00eddia-empresa. O que fizeram Ir\u00e3 ou Coreia do Norte, algum dia, que tenha ferido algum norte-americano?<\/p>\n<p>Mas Ar\u00e1bia Saudita e Israel temem mortalmente uma na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica como o Ir\u00e3, e a influ\u00eancia democratizante que possa exercer na regi\u00e3o. Ent\u00e3o, o Ir\u00e3 \u00e9 acusado de fomentar a instabilidade. Mas jamais algu\u00e9m viu qualquer prova disso.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 acusada de controlar a opini\u00e3o p\u00fablica nos EUA. Mas ningu\u00e9m jamais viu qualquer prova disso.<\/p>\n<p>Os EUA j\u00e1 nem se d\u00e3o o trabalho de realmente atribuir algum crime \u00e0 Venezuela, porque h\u00e1 uma sabedoria transmitida de pai para filho e lateralmente, segundo a qual a Venezuela \u00e9 &#8220;o mal&#8221;. Como Castro foi o mal, como Gadaffi, como Aristide, como absolutamente qualquer um que manifeste independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Para a m\u00eddia-empresa de entretenimento, o mundo \u00e9 feito de mocinhos e bandidos. Mike Pompeo, diretor da CIA, disse recentemente que sua ag\u00eancia tornar-se-ia &#8220;muito mais cruel&#8221; na luta contra os inimigos. Dif\u00edcil imaginar o que se por\u00e3o a fazer, de pior, considerada a hist\u00f3ria da CIA. O que pode ser &#8220;mais cruel&#8221; que entregas &#8216;especiais&#8217; de prisioneiros, para serem torturados em buracos escuros e pris\u00f5es clandestinas pelo mundo? Que matar fam\u00edlias inteiras com <em>drones<\/em> tripulados \u00e0 dist\u00e2ncia? Sem esquecer que foram os EUA e sua Escola das Am\u00e9ricas que treinaram aqueles esquadr\u00f5es da morte ativos na Am\u00e9rica Central. E disso Hollywood faz com\u00e9dias.<\/p>\n<p>Nunca, em evento algum, algu\u00e9m protesta em Hollywood. Assim como as atrizes atacadas por Weinstein (e incont\u00e1veis outras) nada disseram, porque falar seria perder oportunidades importantes para as respectivas carreiras. Assim tamb\u00e9m ningu\u00e9m protesta contra o racismo e a demoniza\u00e7\u00e3o de mu\u00e7ulmanos, s\u00e9rvios, norte-coreanos ou russos, porque seria perder oportunidades importantes para as respectivas carreiras. A coer\u00e7\u00e3o \u00e9 silenciosa e est\u00e1 em todos os lugares. \u00c9 absoluta. Muitos atores e diretores simplesmente j\u00e1 nem pensam nela, e muitos pouco sabem al\u00e9m do que ouvem na m\u00eddia-empresa, pela TV, no <em>NYTimes<\/em>. Mas \u00e9 compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam de comer, alimentar a fam\u00edlia. O verdadeiro problema \u00e9 que o poder consolida-se cada vez mais. A distribui\u00e7\u00e3o de filmes \u00e9 monopolizada. Para a maioria dos norte-americanos, pol\u00edtica externa ainda \u00e9 buraco negro gigante sobre o qual pouco sabem. Diga a algu\u00e9m na rua que Milosovic foi bom sujeito, socialista, democraticamente eleito, e \u00e9 poss\u00edvel que riam na sua cara (e acontece tamb\u00e9m se voc\u00ea disser a mesma coisa para algu\u00e9m da esquerda liberal, o que \u00e9 ainda mais deprimente). Diga que a R\u00fassia n\u00e3o amea\u00e7a nem EUA nem Europa, e tamb\u00e9m rir\u00e3o na sua cara. Tente explicar o que \u00e9 o imperialismo, e logo voc\u00ea receber\u00e1 aquele olhar em que se misturam t\u00e9dio e f\u00faria. Regra que nunca falha \u00e9 a seguinte: se os EUA atacam algum pa\u00eds ou figura de l\u00edder pol\u00edtico, a \u00fanica via segura \u00e9 pesquisar sobre o pa\u00eds ou o l\u00edder e desmentir tudo que a m\u00eddia-empresa &#8216;noticie&#8217; sobre o atacado (pense em S\u00edria, Gadaffi, Aristide, Milosovic, Ir\u00e3, Coreia do Norte). Os EUA n\u00e3o assaltam pa\u00edses que acolham sem reservas o capital ocidental.<\/p>\n<p>Um tra\u00e7o que observei nos filmes de Hollywood \u00e9 a quantidade espantosamente grande de autopiedade na maioria dos personagens. Autopiedade, propriedade automaticamente autoatribu\u00edda de tudo e muito sarcasmo.<\/p>\n<p>O pessoal que produz e faz filmes e TV hoje, sem exce\u00e7\u00e3o, se autocensura. Mas opera l\u00e1 um grupo de pensamento homog\u00eaneo, o qual se estende tamb\u00e9m ao modo como os personagens s\u00e3o concebidos. Os problemas dos brancos novos ricos \u00e9 o molde que nunca falta. Poucos roteiros examinam o mundo externo e, quando acontece, \u00e9 para mostrar mundos de perigos e amea\u00e7as. Sempre s\u00e3o locais n\u00e3o civilizados que padece por falta de orienta\u00e7\u00e3o pelo Ocidente branco civilizado.<\/p>\n<p>O filme que me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 <em>Z &#8211; A Cidade Perdida <\/em>(<em>ing. The Lost City of Z, cujo <\/em><a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/filme-223754\/criticas-adorocinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cen\u00e1rio<\/a><em>, vale lembrar, \u00e9 a Amaz\u00f4nia [NTs]), que inclui todas as falas anticolonialismo politicamente corretas imagin\u00e1veis, dentro de uma narrativa mesmo assim completamente colonialista<\/em>). Mas \u00e9 at\u00e9 pior que isso, ainda mais raso.<\/p>\n<p>Tudo faz pensar em est\u00fadio e produ\u00e7\u00e3o, artif\u00edcio: as discuss\u00f5es pol\u00edticas, at\u00e9 quando acontecem numa nave viajando pelo espa\u00e7o sideral, \u00e9 como se diretores de empresa discutissem os lucros da abertura da Bolsa, quando acabar o fim-de-semana. E dado que Hollywood cada vez mais se assemelha a Wall Street, ou a alguma sede de grande empresa \u2013 todo o mundo l\u00e1 criado sai de l\u00e1 com essa mesma cara.<\/p>\n<p>Falta imagina\u00e7\u00e3o. Perderam a capacidade de imaginar. &#8220;Ocidentais&#8221; s\u00e3o sempre os mesmos, com id\u00eanticos problemas, estejam em Santa Monica ou em New York. Mundos &#8216;imagin\u00e1rios&#8217; s\u00e3o id\u00eanticos a pr\u00e9dios de empresas comerciais ou a reuni\u00f5es &#8216;motivacionais&#8217; em ilhas da fantasia, sempre as mesmas. S\u00e3o mundos criados por autores de menos de 30 anos, quase todos, e com certeza de menos de 40. S\u00e3o mundos &#8216;imaginados&#8217; por gente que nada sabe sobre mundo algum, esse ou outros, imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas o que aquela gente realmente n\u00e3o sabe, n\u00e3o faz nem ideia, \u00e9 o que seja ter de trabalhar para comer. O universo dos filmes norte-americanos \u00e9 absolutamente deserto de qualquer vest\u00edgio, que fosse, de consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>O enredo \u00e9 super simplificado para alcan\u00e7ar p\u00fablico mais amplo. Tudo \u00e9 sempre o mesmo, tem o mesmo jeit\u00e3o. \u00c9 impressionante. At\u00e9 h\u00e1 bons filmes, boas s\u00e9ries, vindas do Reino Unido, sensibilidades diferentes, heterog\u00eaneas. Mas sa\u00eddos de Hollywood, nada.<\/p>\n<p>Como confer\u00eancias de imprensa na Casa Branca, a ideia \u00e9 n\u00e3o se afastar da mensagem &#8216;combinada&#8217;. Pretos falam como brancos (ou falam como caricaturas de pretos constru\u00eddas por brancos), mulatos falam como brancos (ou falam como caricaturas de habitantes de periferias hisp\u00e2nicas constru\u00eddas por brancos). E mu\u00e7ulmanos falam sempre como se estivessem mentindo e fossem perigos\u00edssimos. Asi\u00e1ticos parecem extra\u00eddos de seriados de Fu Manchu ou Charlie Chan.<\/p>\n<p>Acho engra\u00e7ado quando ou\u00e7o algu\u00e9m zombar dos clich\u00eas \u00e9tnicos dos filmes dos anos 1940s, porque \u00e9 tudo exatamente como hoje (basta ver a recente encarna\u00e7\u00e3o para TV da vener\u00e1vel franquia <em>Star Trek, na qual os vil\u00e3os <\/em>Klingon s\u00e3o escuros, vivem em espa\u00e7onaves escuras e emitem sons guturais de uma linguagem inventada que sugere algo de profundamente racista, como os retratos que os colonialistas pintavam dos habitantes da \u00c1frica negra).<\/p>\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o nos crimes de Trump ajuda a n\u00e3o ver um sistema no qual o crime \u00e9 a pedra fundamental. Clinton, Bush, Obama e Trump. S\u00e3o apenas a parte vis\u00edvel, que l\u00e1 est\u00e1 para fazer operar o sistema. E o sistema \u00e9 propriedade da classe governante. As pessoas votam como se votar significasse alguma coisa de muito importante, e votam em quem <em>gostam<\/em>. N\u00e3o consideram qualquer tipo de pol\u00edtica, porque a maioria dos norte-americanos nem faz ideia do que seja a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Trump \u00e9 alvo \u00f3bvio, mas a\u00ed, num certo sentido, \u00e9 que est\u00e1 o problema. EUA n\u00e3o se tornaram racistas e violentos da noite para o dia. As for\u00e7as da insatisfa\u00e7\u00e3o social foram-se acumulando durante d\u00e9cadas. Trump foi inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Seu analfabetismo basal \u00e9 espelho da na\u00e7\u00e3o que nominalmente ele preside. Sua vulgaridade \u00e9 a vulgaridade dos EUA, e assim tamb\u00e9m a misoginia e o racismo. Os mesmos conselheiros continuam a aconselhar e, se Hillary tivesse sido eleita, esses bandidos fascistas que aplaudem Trump mesmo assim estariam cometendo crimes de \u00f3dio. Trump deu-lhes poder? At\u00e9 certo ponto, sim. Mas se uma vit\u00f3ria da Clinton teria provavelmente servido de motiva\u00e7\u00e3o de outro tipo, e a mesma viol\u00eancia estaria acontecendo. \u00c9 imposs\u00edvel manter, como pa\u00eds, o n\u00edvel de desigualdade a que os EUA chegaram.<\/p>\n<p>E com super furac\u00f5es caindo sobre n\u00f3s cada vez mais frequentemente, e com a biosfera em colapso, nada disso, afinal, far\u00e1 qualquer diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>De fato, h\u00e1 algo de muito estranho, nesses incans\u00e1veis ataques contra Trump. \u00c9 como se o sistema insistisse em espancar uma crian\u00e7a portadora de necessidades especiais. Onde estavam tanto \u00f3dio e tanta indigna\u00e7\u00e3o moral, antes de Trump ser eleito? Quero dizer, os EUA de Trump, express\u00e3o que tenho ouvido muito, s\u00e3o simplesmente os EUA.<\/p>\n<p>Os EUA temos mais de 2 milh\u00f5es de homens e mulheres encarcerados. L\u00edderes mundiais sem concorrentes. Mas a mortalidade infantil p\u00f5e os EUA entre o 26\u00ba e o 51\u00ba lugar, dependendo de quem classifique. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00fade p\u00fablica nesse pa\u00eds, nem sindicatos que proteja interesses dos trabalhadores, nem licen\u00e7a-maternidade, nenhuma educa\u00e7\u00e3o gratuita.<\/p>\n<p>Por que, diabos, as pessoas sentem-se t\u00e3o especiais por aqui? Trump foi muito popular naquele est\u00fapido <em>show<\/em> de TV. Claro que n\u00e3o poucos dos que hoje tanto se sentem ultrajados por esse buf\u00e3o reacion\u00e1rio passaram horas diante da TV, assistindo \u00e0quele <em>show<\/em>. E o<em>show<\/em> durou, me parece, 15 anos. Quem supunham que esse homem fosse?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em identificar e apontar os crimes do governo Trump. Mas h\u00e1 algo profundamente errado em n\u00e3o ver que o governo Trump \u00e9 simples prorroga\u00e7\u00e3o da velha pol\u00edtica que sempre dominou os EUA. Sim, em algumas \u00e1reas \u00e9 pior. O meio ambiente, para come\u00e7ar. Mas, tamb\u00e9m a\u00ed, 47% da polui\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 provocada pelos militares. E os EUA t\u00eam mais militares que os dez pa\u00edses abaixo dele. E todos os presidentes, desde Bush pai, todos, aumentaram o or\u00e7amento dos militares. Esse pesadelo n\u00e3o come\u00e7ou no dia da posse de Donald Trump.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que ningu\u00e9m <em>gosta dele<\/em>. E todo mundo <em>gostava de Obama<\/em>. E por isso Obama fez tamanho mal aos EUA. Trump \u00e9 perigoso, n\u00e3o pelo que pense (porque praticamente n\u00e3o pensa), mas por causa de sua ignor\u00e2ncia e fraqueza (e medo).<\/p>\n<p>E dessa fraqueza resultou a facilidade com que acolheu o Pent\u00e1gono. Toda a pol\u00edtica exterior dos EUA est\u00e1 em m\u00e3os de um general cujo apelido \u00e9 &#8220;Cachorro Louco&#8221;. Ningu\u00e9m pode pretender que essa situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica seja culpa de um s\u00f3 homem. N\u00e3o. A cat\u00e1strofe \u00e9 cria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria dos EUA.<\/p>\n<p>Foto: Steve Baker (CC BY-ND 2.0)<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do Coletivo Vila Vudu<\/p>\n<p>DI\u00c1RIO LIBERDADE &#8211; Fonte: <a href=\"https:\/\/www.counterpunch.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Counterpunch<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16827\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165,38],"tags":[233],"class_list":["post-16827","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","category-c43-imperialismo","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4np","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16827\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}