{"id":1683,"date":"2011-07-20T20:59:24","date_gmt":"2011-07-20T20:59:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1683"},"modified":"2011-07-20T20:59:24","modified_gmt":"2011-07-20T20:59:24","slug":"nenhuma-conquista-se-acrescentou-ao-rol-dos-direitos-dos-trabalhadores-com-o-pt-no-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1683","title":{"rendered":"\u201cNenhuma conquista se acrescentou ao rol dos direitos dos trabalhadores com o PT no poder\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Como hist\u00f3rico lutador popular, o fundador da CUT e ex-presidente do sindicato dos banc\u00e1rios Ronald Barata observou de lugar privilegiado a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds e a trajet\u00f3ria das grandes lutas populares. Desiludido com o PDT, no qual escreveu importantes p\u00e1ginas ao lado do l\u00edder Leonel Brizola, mas ainda empunhando as bandeiras que nortearam toda sua hist\u00f3ria, concedeu uma longa e reflexiva entrevista ao Correio da Cidadania.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, fala de seus atuais esfor\u00e7os, de estudo da hist\u00f3ria dos movimentos sociais e populares do final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do 20, motivado pelo grande valor dos prim\u00f3rdios de nossa organiza\u00e7\u00e3o da luta de classe. Com isso, mant\u00e9m seu fogo aberto contra as centrais sindicais hegem\u00f4nicas, pois ressalta que elas abandonaram diversas lutas trabalhistas de forma absolutamente ilustrativa de seu corrompimento.<\/p>\n<p>Como exemplo, lembra da conven\u00e7\u00e3o 158 da OIT, que regula a demiss\u00e3o imotivada, e outras pautas convenientemente esquecidas, \u201cpois se a pessoa se sente segura no emprego, vai se interessar pela vida sindical, o que os pelegos n\u00e3o gostam\u201d. Barata, atualmente no Movimento de Resist\u00eancia Leonel Brizola, tamb\u00e9m \u00e9 engajado nas discuss\u00f5es sobre a previd\u00eancia, cujo d\u00e9ficit ele desmistifica, afirmando que o governo s\u00f3 acabar\u00e1 com o fator previdenci\u00e1rio quando encontrar outra forma de \u201cassaltar o segurado\u201d, a fim de desviar os recursos previdenci\u00e1rios de sua finalidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Ronald Barata resgata detalhes da hist\u00f3ria de ascens\u00e3o de Lula como l\u00edder sindical nas greves dos anos 70, expondo nuances pouco conhecidas a respeito da maior refer\u00eancia pol\u00edtica de nossas classes populares. De acordo com suas palavras, desde a \u00e9poca da ditadura o ex-presidente mostrava cordialidade e capacidade de intera\u00e7\u00e3o com agentes de governo e tamb\u00e9m estrangeiros, como mostra sua rela\u00e7\u00e3o com o sindicato AFL-CIO, dos Estados Unidos, \u201cbra\u00e7o sindical da CIA para a\u00e7\u00f5es criminosas e de contra-revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No final, lista quest\u00f5es imprescind\u00edveis para a atual luta pol\u00edtica da esquerda, em escala global e local, sugerindo reformas que ainda estamos longe de ver, mas acreditando que no final os \u2018indignados\u2019, j\u00e1 em marcha em v\u00e1rios cantos do mundo, prevalecer\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que te levou a aprofundar pesquisas sobre a hist\u00f3ria dos movimentos sociais e populares do pa\u00eds no in\u00edcio do s\u00e9culo 20?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> As her\u00f3icas greves oper\u00e1rias, como ficaram conhecidos os movimentos do final do s\u00e9culo XIX e do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, devem ser sempre lembradas, n\u00e3o s\u00f3 pelos belos exemplos de esp\u00edrito de luta, de solidariedade e de organiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelos outros ensinamentos que propiciam. Sem nenhuma legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o, trabalhando em jornadas de 14 e 16 horas di\u00e1rias, sem repouso semanal, sem recursos financeiros, sob monstruosa repress\u00e3o, dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o etc., lograram grandes movimentos com greves que arrostavam todo o poderoso aparato repressivo, que inclu\u00edam pris\u00f5es, torturas, seq\u00fcestros, assassinatos, degredo, expuls\u00e3o de estrangeiros grevistas etc.<\/p>\n<p>Os 13 governos da Rep\u00fablica Velha eram instrumentos da classe dominante, a oligarquia agr\u00e1ria. Os trabalhadores forjaram organiza\u00e7\u00f5es, como a Federa\u00e7\u00e3o de Trabalhadores do Rio Grande do Sul em 1898. Fundaram sindicatos, ligas e uma central sindical em 1906, a Confedera\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Brasileira (COB), que se filiou \u00e0 revolucion\u00e1ria Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Trabalhadores (AIT), a Primeira Internacional.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Como o senhor analisa a atual situa\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho no Brasil, no contexto de quase uma d\u00e9cada de Partido dos Trabalhadores no poder?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Nenhuma nova conquista se acrescentou ao rol dos direitos dos trabalhadores. A intensa propaganda induz a pensar que os trabalhadores vivem uma fase de pleno emprego, aumento do poder aquisitivo e garantia no emprego. Ora, mais da metade da m\u00e3o-de-obra est\u00e1 na informalidade (eufemismo para ilegalidade), sem a prote\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. Sem f\u00e9rias, sem previd\u00eancia, sem FGTS. A terceiriza\u00e7\u00e3o disseminou-se tanto no setor privado como nos servi\u00e7os p\u00fablicos, causando assustadora precariza\u00e7\u00e3o, que aumenta os acidentes de trabalho.<\/p>\n<p>Os trabalhadores formais s\u00e3o atingidos pela elevad\u00edssima rotatividade da m\u00e3o-de-obra que alcan\u00e7a 37% dos trabalhadores com v\u00ednculo empregat\u00edcio, sendo que dois ter\u00e7os dos demitidos n\u00e3o completam doze meses no mesmo emprego e destes 40% n\u00e3o atingem seis meses. Oitenta por cento do total n\u00e3o completam dois anos. H\u00e1 um enorme contingente trabalhando em condi\u00e7\u00f5es degradantes. Um instrumento adequado para combater isso, a Conven\u00e7\u00e3o 158 da OIT, n\u00e3o est\u00e1 em vigor. O desrespeito \u00e0 jornada de trabalho \u00e9 rotina e os acidentes de trabalho viraram banalidade, principalmente no setor el\u00e9trico e na constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores do governo n\u00e3o atuam convenientemente. S\u00f3 o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho que tem tido melhor desempenho.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Como definiria, ademais, a atua\u00e7\u00e3o do governo petista na media\u00e7\u00e3o do eterno conflito Capital x Trabalho?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1tica de media\u00e7\u00e3o no governo, mas dom\u00ednio, atrav\u00e9s da coopta\u00e7\u00e3o da maioria dos organismos sindicais de trabalhadores, isto \u00e9, submiss\u00e3o que anula esses \u00f3rg\u00e3os, tanto as centrais sindicais como sindicatos. A maioria dos dirigentes abandona as lutas em defesa dos trabalhadores e vive atr\u00e1s de \u201cboquinhas\u201d nos governos em qualquer n\u00edvel, nas estatais, nos fundos de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo conseguiu anular o poder de mobiliza\u00e7\u00e3o dos organismos sindicais. O Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego vive uma paralisia impressionante. \u00c9 apenas \u00f3rg\u00e3o carimbador da cria\u00e7\u00e3o de novas entidades sindicais, mas o ministro vive arrotando vit\u00f3ria pela cria\u00e7\u00e3o de novos empregos. Omite as demiss\u00f5es. Al\u00e9m do mais, quem cria ou anula empregos \u00e9 a macroeconomia, o Minist\u00e9rio do Trabalho \u00e9 apenas catalogador das demiss\u00f5es e admiss\u00f5es, atrav\u00e9s do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).<\/p>\n<p>As greves que t\u00eam ocorrido, apesar das centrais e dos sindicatos, como nas hidrel\u00e9tricas, no sul da Bahia etc. e movimentos como o dos bombeiros do Rio de Janeiro surpreendem os governantes e t\u00eam recebido impressionante solidariedade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, apesar de qualquer media\u00e7\u00e3o, esse \u00e9 um eterno conflito que se agravar\u00e1, apesar da atua\u00e7\u00e3o dos organismos patronais para neutralizar os movimentos de trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> E pensando mais globalmente, como v\u00ea a quest\u00e3o do trabalho no mundo?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> A crise do capitalismo j\u00e1 produziu desemprego elevad\u00edssimo e continuar\u00e1 aumentando. A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho atinge todo o mundo. O desenvolvimento da tecnologia, a informatiza\u00e7\u00e3o e a rob\u00f3tica dispensam a participa\u00e7\u00e3o do trabalhador em v\u00e1rias tarefas. \u00c9 o desemprego estrutural, que n\u00e3o est\u00e1 presente apenas nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, j\u00e1 alcan\u00e7a os pa\u00edses centrais; \u00e9 o resultado de uma pol\u00edtica organizada e implementada pela ditadura do mercado, que drena as riquezas para os bancos e o sistema financeiro.<\/p>\n<p>A crise moral e ideol\u00f3gica nos movimentos sindicais, que leva os dirigentes ao oportunismo e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil. Os sistemas eleitorais vigentes nos pa\u00edses capitalistas permite a manipula\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e estamos assistindo a vit\u00f3ria de partidos de direita em v\u00e1rios pa\u00edses. Ocorre que as massas est\u00e3o reagindo, independentemente dos organismos sindicais e dos partidos. Basta olhar para a Espanha, a Gr\u00e9cia. O agravamento da crise e sua dissemina\u00e7\u00e3o, o desemprego, a facilidade de comunica\u00e7\u00e3o, levar\u00e3o a que mais rea\u00e7\u00f5es populares aconte\u00e7am. N\u00e3o vai ficar somente na Europa e nos pa\u00edses \u00e1rabes.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Quanto \u00e0 atual conjuntura da esquerda e dos movimentos sociais no Brasil, como as avalia?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Partidos pol\u00edticos tradicionais de esquerda, como o PT, o PSB e o PDT, transformaram-se; hoje s\u00e3o apenas balc\u00f5es de neg\u00f3cios. A metamorfose ocorrida no PT arrastou-os para pol\u00edticas clientelistas, fisiol\u00f3gicas. Deles nada mais se pode esperar. O que h\u00e1 hoje de esquerda reside em pequenos nichos dispersos e sem for\u00e7a eleitoral.<\/p>\n<p>A criminosa coopta\u00e7\u00e3o praticada pelos governos petistas praticamente destruiu a for\u00e7a de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos e dos movimentos sociais em geral. As milhares de ONGs, formadas desde o governo Sarney, que cresceram nos governos Collor, Itamar, FHC e foram incentivadas e ampliadas no governo Lula continuam sugando os tesouros estatais. S\u00e3o valhacoutos que se sustentam com o dinheiro p\u00fablico doado pelos governos. Ressalvadas as tradicionais exce\u00e7\u00f5es que prestam relevantes servi\u00e7os, a grande maioria \u00e9 dirigida por pessoas que visam apenas enriquecimento r\u00e1pido. O mesmo ocorre com as quase seis mil OSCIPS (Organiza\u00e7\u00e3o da Sociedade Civil de Interesse P\u00fablico).<\/p>\n<p>Acho que v\u00e3o surgir formas alternativas de organiza\u00e7\u00f5es que mobilizar\u00e3o os trabalhadores e as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas. Movimentos e outras formas j\u00e1 est\u00e3o surgindo. Caminhando, mobilizando, participando, lutando, surgir\u00e3o as formas de organiza\u00e7\u00e3o que superar\u00e3o esse triste quadro em que est\u00e3o os partidos e os movimentos sociais.<\/p>\n<p>Essas organiza\u00e7\u00f5es que est\u00e3o surgindo devem realizar semin\u00e1rios, debates e outros eventos de politiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o ficar apenas nas salas. Devem ir para as ruas, apresentar as reivindica\u00e7\u00f5es, criar grupos nas redes sociais, buscar a unidade entre \u00a0que restou das esquerdas, os grupos e pequenos partidos que heroicamente est\u00e3o resistindo.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que pensa da rela\u00e7\u00e3o do governo brasileiro com diversos tratados e conven\u00e7\u00f5es trabalhistas de cunho progressista, como, por exemplo, a conven\u00e7\u00e3o 158 da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), que trata das garantias dos trabalhadores em caso de demiss\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> O maior problema para os trabalhadores \u00e9 o desemprego. Destr\u00f3i a auto-estima do desempregado. A rotatividade est\u00e1 cada vez mais r\u00e1pida, mas o governo, que poderia propiciar um poderoso instrumento para mitigar essa criminosa pr\u00e1tica do patronato, fecha os olhos e deixa que a explora\u00e7\u00e3o se exer\u00e7a em total plenitude. Esse problema pode ser inibido colocando-se em vigor a Conven\u00e7\u00e3o 158 da OIT, que normatiza o t\u00e9rmino das rela\u00e7\u00f5es do trabalho por iniciativa do empregador. Essa Conven\u00e7\u00e3o de 1982, assinada pelo Brasil, foi ratificada atrav\u00e9s do Decreto Legislativo n\u00ba 68 de 1992, assinado pelo presidente do Congresso Mauro Benevides. O governo brasileiro depositou a Carta de Ratifica\u00e7\u00e3o em 5 de janeiro de 1995, passando a vigorar em 5 de janeiro de 1996. O Executivo deu publicidade ao Decreto Legislativo quando FHC assinou o Decreto n\u00ba 1855 de 10\/4\/1996. Cumpridas as formalidades legais, a Conven\u00e7\u00e3o passou a ter plena vig\u00eancia. Eu mesmo, com os servi\u00e7os do advogado Celso Soares, utilizei essa Conven\u00e7\u00e3o e consegui reintegrar 653 funcion\u00e1rios demitidos pela Junta Interventora do Banerj.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o resistindo \u00e0s press\u00f5es da FEBRABAN e da FIESP, Fernando Henrique Cardoso editou o Decreto n\u00ba 2100 de 20\/11\/1996, denunciando a Conven\u00e7\u00e3o. Ora, era de se esperar que no governo do Partido dos Trabalhadores, com o PDT no Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, essa Conven\u00e7\u00e3o voltasse a vigorar. Eu entreguei ao Carlos Lupi, antes de assumir o minist\u00e9rio, um trabalho sobre isso. Ele ignorou solenemente e o governo, para marcar posi\u00e7\u00e3o, simplesmente remeteu uma mensagem ao Congresso que est\u00e1 rolando pelas comiss\u00f5es ou em alguma gaveta, apesar de o Decreto Legislativo n\u00e3o ter sido revogado. Al\u00e9m disso, a maioria que o governo disp\u00f5e no Congresso, se tivesse vontade pol\u00edtica, j\u00e1 teria resolvido essa importante quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho que o movimento sindical n\u00e3o se mobilize para isso. Ser\u00e1 que n\u00e3o querem que o trabalhador tenha prote\u00e7\u00e3o contra demiss\u00e3o imotivada? \u00c9 claro que se o trabalhador se sentir seguro ir\u00e1 participar da vida de seu sindicato, o que \u00e9 temido pelos pelegos. Ali\u00e1s, h\u00e1 caso de \u201cdirigente\u201d sindical comunicar ao patr\u00e3o a presen\u00e7a de empregado querendo atuar. Repito: por que as centrais sindicais n\u00e3o lutam pela vig\u00eancia desse instrumento?<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a gest\u00e3o do famoso FAT (o Fundo de Amparo ao Trabalhador) em nosso pa\u00eds?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Esse Fundo, mantido com a arrecada\u00e7\u00e3o do PIS\/PASEP, vinculado ao Minist\u00e9rio do Trabalho, destina-se ao pagamento do Seguro Desemprego, do Abono Salarial, da Forma\u00e7\u00e3o e Intermedia\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra e financiamento de programas de desenvolvimento econ\u00f4mico. Mant\u00e9m e administra o PROGER (Programas de Gera\u00e7\u00e3o de Emprego e Renda) e o PRONAF (Programa Nacional de Agricultura Familiar). \u00c9 gerido pelo CODEFAT (Conselho Deliberativo do FAT), que tem representa\u00e7\u00e3o tripartite e parit\u00e1ria: governo, empregadores e empregados. Arrecada vultosas somas, mas grande parcela escoa pelos ralos da m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o e da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O FAT financia projetos voltados \u00e0 infra-estrutura e setores estrat\u00e9gicos, como transporte de massa e turismo, atrav\u00e9s do BNDES. Entretanto, basta ver o notici\u00e1rio para constatar os grandes malabarismos que o banco faz, dando fortunas a juros subsidiados para fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es de empresas, at\u00e9 para algumas estrangeiras comprarem empresas nacionais. Concede financiamentos a juros subsidiados. Nem tudo \u00e9 originado do FAT. H\u00e1 aportes do Tesouro. Em apenas dois anos, o governo aportou R$ 230 bilh\u00f5es nesse banco. Captou a juros de 12% e o banco emprestou a 6%. Fortunas fabulosas para empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es, frigor\u00edficos, empreiteiras comprarem outras empresas. Tamb\u00e9m emprestou para recuperar empresas em dificuldade por inc\u00faria ou por corrup\u00e7\u00e3o, como Banco Votorantin, Aracruz, Sadia etc. E a recente escandalosa opera\u00e7\u00e3o anunciada com o grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. S\u00e3o privatiza\u00e7\u00f5es mais escandalosas que as de FHC. Note-se que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rea\u00e7\u00e3o das entidades sindicais que pertencem ao CODEFAT.<\/p>\n<p>Os recursos que o CODEFAT distribui para cursos de qualifica\u00e7\u00e3o profissional t\u00eam aplica\u00e7\u00e3o altamente question\u00e1vel. Faz doa\u00e7\u00f5es a ONGs, OSCIPS, sindicatos, Sistema S etc. N\u00e3o se tem controle de sua efic\u00e1cia e de como foi gasto o dinheiro. A maioria desses cursos n\u00e3o funciona e quando eu era da dire\u00e7\u00e3o do PDT elaborei um projeto de cria\u00e7\u00e3o de Escolas de Qualifica\u00e7\u00e3o Profissional, com o Estado assumindo essa fun\u00e7\u00e3o que delega a entidades de compet\u00eancia question\u00e1vel. Entreguei ao ent\u00e3o presidente do partido, o \u00ednclito Leonel Brizola, que o aprovou. Infelizmente, o governador do estado do Rio de Janeiro, que era do partido, logo depois se bandeou. Quando Lupi assumiu o Minist\u00e9rio, entreguei-lhe o projeto. Acho que foi jogado na lata de lixo. Sequer mandou que os \u00f3rg\u00e3os t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio o examinassem. E bilh\u00f5es de reais continuam sendo distribu\u00eddos a organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o possuem nenhum \u201cknow-how\u201d e de probidade duvidosa. Como sempre, ressalve-se as exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> A previd\u00eancia e o seu aventado d\u00e9ficit, tanto no que se refere ao regime geral como \u00e0 previd\u00eancia p\u00fablica, s\u00e3o outro alvo constante de avalia\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, ressaltando o seu d\u00e9ficit e a necessidade de reforma. Qual a sua opini\u00e3o quanto \u00e0 veracidade dessas constata\u00e7\u00f5es, bem como \u00e0 forma como v\u00eam sendo divulgadas pela m\u00eddia?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Em 2006 fiz um livro que denominei \u201cO Falso D\u00e9ficit da Previd\u00eancia\u201d, provando que a Previd\u00eancia \u00e9 superavit\u00e1ria, apesar dos grandes assaltos que h\u00e1 d\u00e9cadas s\u00e3o praticados aos seus cofres. Desvios para a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, da Ponte Rio-Niter\u00f3i, da Transamaz\u00f4nica e at\u00e9 para pagamento de juros da d\u00edvida.<\/p>\n<p>O criminoso Fator Previdenci\u00e1rio, criado no governo do PSDB, permanece nos governos do PT\/PMDB. \u00c9 um atentado contra quem contribui por 30 e 35 anos e, na hora de se aposentar, sofre redu\u00e7\u00e3o dos proventos. Agora o governo, cinicamente, afirma que pode acabar com o Fator se houver compensa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, outra forma de assaltar o segurado.<\/p>\n<p>O falso d\u00e9ficit \u00e9 propalado para justificar a retirada ou redu\u00e7\u00e3o de direitos. Para \u201ccomprovar\u201d o d\u00e9ficit, fazem uma esdr\u00faxula conta de chegar: cotejam o total de despesas com apenas a arrecada\u00e7\u00e3o proveniente da Folha Salarial, abandonando as outras receitas, como a da COFINS, da CSLL, das loterias e outras. Enfim, em linguagem bem popular, \u00e9 uma escrotid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que levou o PDT (Partido Trabalhista Brasileiro), assim como outros partidos de esquerda, como o PT (Partido dos Trabalhadores), a se afastar de suas orienta\u00e7\u00f5es originais, de modo a tentar agora, por meio de militantes que ficaram isolados em seus partidos, uma reorganiza\u00e7\u00e3o mediante um contexto de supremacia do capital e do mercado?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Elementar, meu caro entrevistador. Basta ver a vertiginosa subida no n\u00edvel de vida dos dirigentes. A Reforma Pol\u00edtica que sai apenas a algumas gotas deveria impedir sigilo banc\u00e1rio de pol\u00edticos com mandato eletivo, inclusive dirigentes dos partidos.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que significou o governo Lula para o senhor?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Poxa, nessa vou precisar me estender. Embora cansativo, n\u00e3o vou perder essa oportunidade de rememorar alguns epis\u00f3dios que muitos j\u00e1 esqueceram. Vou transcrever trechos de um artigo que fiz em fevereiro de 2010. E para fundamentar as conclus\u00f5es a que pretendo chegar, transcrevo trechos do livro \u201cJogo Duro\u201d (Editora Best Seller, 1988), escrito pelo empres\u00e1rio Mario Garnero, que surfava nos bastidores da ditadura, foi amigo de generais presidentes, mas tamb\u00e9m angariou inimigos da sua mesma estirpe, como Francisco Dornelles, Elmo Cam\u00f5es, Lemgruber e outros tristes personagens. Testemunhou epis\u00f3dios que a m\u00eddia nunca divulgou. No livro, ele narra epis\u00f3dios \u201csui generis\u201d sobre Lula e outras figuras importantes da ditadura e da Nova Rep\u00fablica. Entre as p\u00e1ginas 130 e 135 escreve sobre um bilhete que enviou a Lula.<\/p>\n<p>Relata: \u201c&#8230; tentei recordar ao constituinte mais votado de S\u00e3o Paulo duas ou tr\u00eas coisas do passado&#8230; (pois) o grande l\u00edder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo li\u00e7\u00f5es de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973&#8230; e a facilidade com que se procedeu a ascens\u00e3o irresist\u00edvel de Lula, nos anos 70, \u00e9poca em que outros advers\u00e1rios do governo, \u00e0s vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, n\u00e3o \u2013 foi em frente, progrediu&#8230;.\u201d E prossegue: \u201cLembro-me do primeiro Lula, l\u00e1 por 1976, sendo apresentado por seu patr\u00e3o Paulo Villares ao Werner Jessen, da Mercedes Benz e, de repente, eis que aparece o tal Lula \u00e0 frente da primeira greve que houve na ind\u00fastria automobil\u00edstica durante o regime militar&#8230; Recordo-me de a imprensa cobrir Lula de elogios, estimulando-o, num momento em que a distens\u00e3o apenas come\u00e7ava, e de um epis\u00f3dio que \u00e9 capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com um p\u00e9 atr\u00e1s. Foi em 1978&#8230; os metal\u00fargicos tinham cruzado os bra\u00e7os, e n\u00f3s, da ANFAVEA, conversando com o governo sobre o que fazer&#8230; o Ministro Mario Henrique Simonsen informou que o presidente Geisel recomendou modera\u00e7\u00e3o: tentar negociar com os grevistas, sem alarido. Imagine: era um passo que nenhum governo militar jamais dera, o da negocia\u00e7\u00e3o com oper\u00e1rio em greve. Geisel devia ter alguma coisa a mais na cabe\u00e7a. Ele e, tenho certeza, o ministro Golbery\u201d.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o banqueiro banido por um rombo de US$ 95 milh\u00f5es foi reabilitado pelo governo em 2004, como principal figura em um semin\u00e1rio patrocinado pelo Banco do Nordeste, em Fortaleza, com a participa\u00e7\u00e3o dos presidentes do Senado, Jos\u00e9 Sarney e do STF, Nelson Jobim, dos ministros Dilma Rousseff e Ciro Gomes e v\u00e1rios governadores.<\/p>\n<p>Lula nem disfar\u00e7ou sua alian\u00e7a com grandes grupos econ\u00f4micos, financeiros, com o agroneg\u00f3cio e com as velhas oligarquias, de Sarney, Severino Cavalcanti, Jader Barbalho, Collor, Renan Calheiros e ainda Bispo Rodrigues, Sergio Cabral&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea quer dizer que um dos fatores que permitiu a Lula erigir-se l\u00edder grande l\u00edder das greves da \u00e9poca da ditadura por conseguir manter rela\u00e7\u00f5es cordiais com o regime de repress\u00e3o?<\/p>\n<p>O povo que em 2002, acertadamente, escolheu o oper\u00e1rio em vez de um liberal jamais poderia imaginar o comportamento pragm\u00e1tico do esquerdista no governo. Somente tendo conhecimento de sua secreta trajet\u00f3ria durante a ditadura passa-se a entender.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Victor Campos, diretor cultural da AEPET (Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros da Petrobras), em artigo publicado no \u201cAlerta Total\u201d da Associa\u00e7\u00e3o, afirmando que \u201cem 1968 Lula cursou no IADESIL (Instituto Americano de Desenvolvimento do Sindicalismo Livre), escola de doutrina\u00e7\u00e3o mantida pela AFL-CIO (American Federation of Labor-Congress of Industrial Organizations), central sindical dos EUA\u201d.<\/p>\n<p>Tanto o IADESIL como a AFL-CIO ministram cursos contra-revolucion\u00e1rios de \u201clideran\u00e7a sindical\u201d, com maquiagens para parecer de esquerda, mas servem ao imperialismo norte americano. Ressalte-se que esse Instituto instalou-se em S\u00e3o Paulo no ano de 1963, quando a CIA preparava o golpe de 1964. Assumiu abertamente sua participa\u00e7\u00e3o na derrubada do governo Salvador Allende. A AFL-CIO \u00e9 o bra\u00e7o sindical da CIA para as a\u00e7\u00f5es criminosas em todo o mundo.<\/p>\n<p>Lula tornou-se amigo de Stanley Gacek, diretor da AFL-CIO para Am\u00e9rica Latina, que o acompanhou em v\u00e1rias visitas a Washington. Esse terr\u00edvel representante estadunidense, na ocasi\u00e3o j\u00e1 aposentado, estava no palanque em S\u00e3o Paulo, na festa da vit\u00f3ria de Lula em 2002.<\/p>\n<p>Eleito em 2002, ainda antes da posse, logo ap\u00f3s reuni\u00e3o com George Bush, anunciou que entregaria o comando da economia ao banqueiro Henrique Meirelles, ex-presidente internacional do segundo maior credor do Brasil, o BankBoston. No final de 2002, passou um final de semana na fazenda, em Arax\u00e1, da fam\u00edlia Moreira Sales, testa de ferro da multinacional Molycorps, que explora e exporta, a pre\u00e7o de banana, o nosso nobre mineral ni\u00f3bio.<\/p>\n<p>Abandonando as ideias da esquerda, governando segundo os princ\u00edpios da economia capitalista e transformando o Bolsa-Escola em Bolsa-Fam\u00edlia, assumiu as bandeiras do PSDB, que ficou sem discurso oposicionista. E o PT e o PSDB disputaram as elei\u00e7\u00f5es em alian\u00e7a em mais de mil munic\u00edpios. Verdadeira esquizofrenia tomou conta dos ex-combativos dirigentes sindicais, que hoje conformam uma nova oligarquia que apenas disputa cargos p\u00fablicos, abandonando a classe trabalhadora, enquanto o PT sofreu profunda metamorfose.<\/p>\n<p>Lula colocou-se na depend\u00eancia do PMDB para aprovar projetos no Congresso Nacional. Sem sequer disfar\u00e7ar, apelava para formas de coopta\u00e7\u00e3o, de fisiologismo e de corrup\u00e7\u00e3o que condenava quando era oposi\u00e7\u00e3o. Conseguiu alian\u00e7a com partidos que se tornaram simples sat\u00e9lites e submeteu institui\u00e7\u00f5es republicanas importantes a um processo de desmoraliza\u00e7\u00e3o, especialmente a C\u00e2mara, o Senado e o TSE.<\/p>\n<p>E essa rela\u00e7\u00e3o cordial, com tra\u00e7os de subservi\u00eancia, se estenderia tamb\u00e9m aos agentes externos, inclusive que patrocinaram a ditadura, reproduzindo-se hoje nas rela\u00e7\u00f5es internacionais?<\/p>\n<p>O corol\u00e1rio foi uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e radicais mudan\u00e7as em partidos que abandonaram seus princ\u00edpios em troca de benesses para apaniguados. No final do governo, na surdina, ressuscitou o Acordo Militar com os EUA, que Geisel havia denunciado. Fez isso depois que os EUA reativaram a IV Frota, que fora desativada em 1950, para policiar o Atl\u00e2ntico Sul e interferir no pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>Outro epis\u00f3dio importante, iniciado com FHC, mantido at\u00e9 hoje, mas que Lula certamente \u201cn\u00e3o sabia\u201d: o general-de-brigada da reserva, Durval Antunes de Andrade Nery, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos Estrat\u00e9gicos da Escola Superior de Guerra, denunciou a presen\u00e7a da Blackwater (empresa estadunidense de mercen\u00e1rios) em reservas na Amaz\u00f4nia e em plataformas de petr\u00f3leo da empresa Halliburton, na costa do pa\u00eds. Disp\u00f5e de lanchas, ancoradouros, armas, avi\u00f5es anf\u00edbios etc. Atuam livremente na reserva Yanomani, enquanto um oficial do ex\u00e9rcito brasileiro l\u00e1 s\u00f3 pode entrar com autoriza\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>O general denunciou que a Halliburton mant\u00e9m um de seus diretores na Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo (ANP), o que permite acesso a dados secretos das jazidas de petr\u00f3leo. V\u00e1rios dados sobre a reserva Tupi vieram a p\u00fablico, criminosamente. Afirmou que \u201cmembros fortemente armados da Blackwater j\u00e1 atuam em reservas ind\u00edgenas brasileiras contando com bases fluviais bem equipadas\u201d.<\/p>\n<p>Outro fato digno de nota: vetou o artigo 64 da Lei n\u00ba 12.351\/2010 (novo marco regulat\u00f3rio do petr\u00f3leo), oriundo de emenda apresentada pelo Senador Pedro Simon, por inspira\u00e7\u00e3o do engenheiro Fernando Siqueira, presidente da AEPET, QUE PROIBIA A DEVOLU\u00c7\u00c3O DOS ROYALTIES pagos por quem produz petr\u00f3leo. Quanto a bacias sedimentares, 41,7 mil km\u00b2, ou seja 28% da \u00e1rea total da prov\u00edncia do pr\u00e9-sal, j\u00e1 foram concedidos, privatizados. FHC deu concess\u00f5es nas diversas bacias petrol\u00edferas, na extens\u00e3o de 176,4 mil km\u00b2, enquanto o governo Lula deu 349,7 mil km\u00b2. Lula instituiu novo marco regulat\u00f3rio, a partilha, que \u00e9 um avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o ao sistema de concess\u00f5es institu\u00eddo por FHC. Mas vale apenas para o pr\u00e9-sal. E n\u00e3o reinstituiu a Lei 2.004 do monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo, que substituiria a entreguista Lei 9.478.<\/p>\n<p>O general Golbery, um dos articuladores e planejadores do Golpe Militar, em a\u00e7\u00e3o coordenada pela CIA, foi quem planejou a ascens\u00e3o de Lula e incentivou a cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores. Armou esquema para barrar os passos de Leonel Brizola na volta do ex\u00edlio, para impedir que voltasse com possibilidades de assumir a presid\u00eancia, excluindo-o da sigla PTB. Tentou impedir a posse de Brizola para o governo do estado do Rio, em 1982.<\/p>\n<p>Mais importante do que meu pensamento foi o comportamento de ilustres brasileiros, fundadores do PT, que se desfiliaram do partido e denunciaram a insatisfa\u00e7\u00e3o com os esc\u00e2ndalos no governo e com a metamorfose do presidente. Cito alguns: Francisco de Oliveira, Cesar Benjamin, Pl\u00ednio de Arruda Sampaio, H\u00e9lio Bicudo, Milton Temer, Marina Silva, Fernando Gabeira, Cristovam Buarque.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> E o que espera de Dilma? Vai, de alguma forma, se diferenciar de Lula?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> \u00c9 um governo que se sustenta numa coaliz\u00e3o que \u00e9 um saco de gatos, lagartos, lacraias e outros bichos. Partidos insaci\u00e1veis levam o fisiologismo ao extremo e a presidente n\u00e3o mostra compet\u00eancia de enfrent\u00e1-los. Acaba de render-se, prorrogando o pagamento de Restos a Pagar, exig\u00eancia da base de apoio e que ela e o ministro da Fazenda sustentavam que n\u00e3o cederiam.<\/p>\n<p>As vacila\u00e7\u00f5es foram expostas em diversos epis\u00f3dios; o \u00faltimo foi o do sigilo eterno de documentos ultraconfidenciais. Primeiro apoiou o fim do sigilo, depois rendeu-se a Sarney e Collor e afirmava que o sigilo eterno prevaleceria. E j\u00e1 mudou novamente.<\/p>\n<p>Mant\u00e9m a pol\u00edtica econ\u00f4mica, tem projetos que agridem os direitos dos trabalhadores, principalmente os previdenci\u00e1rios, e continua com a firme alian\u00e7a que Lula tinha com o agroneg\u00f3cio. Os banqueiros e as empreiteiras, os maiores financiadores de campanhas eleitorais, continuam se locupletando.<\/p>\n<p>A queda do ex-ministro Palocci mostrou a profundidade das contradi\u00e7\u00f5es da base, principalmente dentro do pr\u00f3prio PT. Sendo assim, o que esperar? Deve ser mesmo um mandato tamp\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> O que o senhor enxerga como principais temas nacionais e internacionais que deveriam estar na linha de frente da luta pol\u00edtica de esquerda, consideradas as possibilidades oferecidas pelo atual contexto hist\u00f3rico?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> Em n\u00edvel internacional, a luta anti-imperialista e pela mudan\u00e7a nos rumos da economia globalizada. Em nosso quintal, considero importante acabar com a autonomia do Banco Central, com a pol\u00edtica de c\u00e2mbio flex\u00edvel e metas de infla\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a Reforma Tribut\u00e1ria e a Reforma Pol\u00edtica, o restabelecimento do monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo que deve ser estendido a todos os min\u00e9rios. \u00c9 preciso tamb\u00e9m rever a pol\u00edtica de concess\u00e3o de terras da Amaz\u00f4nia a estrangeiros.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania:<\/strong> Como v\u00ea, finalmente, a rela\u00e7\u00e3o entre as bandeiras anticapitalista e socialista? Acredita que a primeira seja uma forma vi\u00e1vel de substituir ou renovar a segunda, mais estigmatizada ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas?<\/p>\n<p><strong>Ronald Barata:<\/strong> N\u00e3o acredito que haja rela\u00e7\u00e3o entre os dois sistemas. Ao contr\u00e1rio. S\u00e3o conflitantes. A crise capitalista deve se aprofundar. H\u00e1 economistas que afirmam ser essa crise terminal. Leonardo Boff corrobora essa tese em recente artigo. Fundamenta com a depreda\u00e7\u00e3o que se faz do planeta, que est\u00e1 perdendo sua capacidade de recupera\u00e7\u00e3o e \u00e9 um dos dois principais pilares do capitalismo. O outro sustent\u00e1culo, o trabalho, est\u00e1 sendo precarizado ou prescindido devido aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Entende que, por isso, n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de o capitalismo se manter.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o disponho de conhecimentos para uma defini\u00e7\u00e3o dessas. Por\u00e9m, tor\u00e7o para que seja verdadeiro. E s\u00f3 poder\u00e1 ser substitu\u00eddo por formas socialistas. Apesar da degrada\u00e7\u00e3o dos partidos de esquerda e do movimento sindical, j\u00e1 surgem organiza\u00e7\u00f5es que se preocupam com politiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o das massas. Os insurretos da Espanha, da Gr\u00e9cia, do mundo \u00e1rabe, da Am\u00e9rica Latina, a maioria de jovens, v\u00e3o prevalecer.<\/p>\n<p><strong>Gabriel Brito \u00e9 jornalista; Val\u00e9ria Nader, economista, \u00e9 editora do Correio da Cidadania.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Correio da Cidadania\n\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista com Ronald Barata\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1683\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-1683","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-r9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1683","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1683"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1683\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}