{"id":16835,"date":"2017-10-31T20:27:25","date_gmt":"2017-10-31T23:27:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16835"},"modified":"2017-10-31T20:27:25","modified_gmt":"2017-10-31T23:27:25","slug":"uma-nova-canudos-em-sao-bernardo-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16835","title":{"rendered":"Uma Nova Canudos em S\u00e3o Bernardo do Campo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/10\/30_10_2017_mtst_-roberto_parizottio.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A ocupa\u00e7\u00e3o do MTST se tornou um experimento social. Ali a organiza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m da quest\u00e3o da moradia. O crescimento tem a ver com acolhimento, solidariedade e organiza\u00e7\u00e3o social coletiva. S\u00f3 Canudos\u00a0atualizada em termos modernos ajuda a explicar sua for\u00e7a e dinamismo, escreve Lu\u00eds Fernando Vitagliano,\u00a0cientista pol\u00edtico,\u00a0em artigo publicado por Brasil Debate, 27-10-2017.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>Em 01 de setembro deste ano, cerca de quinhentas fam\u00edlias organizadas em torno do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) ocuparam um terreno na zona metropolitana de S\u00e3o Bernardo do Campo. Em dois ou tr\u00eas dias eram mais de novecentas, depois 5 mil, e hoje, com dois meses de ocupa\u00e7\u00e3o, somam mais de 8 mil fam\u00edlias. O crescimento \u00e9 exponencial e n\u00e3o se limita \u00fanica e exclusivamente a sem tetos h\u00e1 muito esperando uma oportunidade de moradia. Gente que n\u00e3o consegue pagar aluguel, trabalhador muito pobre e sufocado pela recente crise, miser\u00e1veis da regi\u00e3o e car\u00eancias dos mais diversos tipos encontram muito mais do que uma lona erguida em torno de alguns peda\u00e7os de paus naquele lugar; encontram respeito e, principalmente, solidariedade.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o cresce e tem potencial para crescer muito. Somente no ABC paulista estima-se que 230 mil fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam moradias, sem contar aqueles que hoje t\u00eam dificuldade para pagar o aluguel ou problemas econ\u00f4micos vindos da crise e da perda do emprego. Al\u00e9m disso, muita gente cansada de lutar e \u00e0 procura de um espa\u00e7o que permita no dia a dia sobreviver. Ou seja, \u00e0queles que n\u00e3o encontram nenhum respeito dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, aos poucos a ocupa\u00e7\u00e3o vai se tornando refer\u00eancia de acolhimento.<\/p>\n<p>Mas, o direito privado tem dificuldade para fazer valer as conquistas da Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988. Facilitam-se os direitos de propriedade do im\u00f3vel, j\u00e1 foi conseguida liminar de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Os desequil\u00edbrios do Estado brasileiro s\u00e3o arrasadores: ao defender unilateralmente o direito \u00e0 propriedade sem observ\u00e2ncia das diversas aus\u00eancias na \u00e1rea social, condena a popula\u00e7\u00e3o pobre do pa\u00eds a uma vida sem dignidade, e a falta de acolhimento expulsa o trabalhador para as margens da cidadania.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso entender que a ocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bernardo do Campo n\u00e3o \u00e9 causa de problemas, \u00e9 consequ\u00eancia de in\u00fameras mazelas sociais. Ali a organiza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m da quest\u00e3o da moradia. Seu bem-sucedido crescimento tem a ver com acolhimento, solidariedade e organiza\u00e7\u00e3o social coletiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel perceber as raz\u00f5es de como tem se tornado a maior ocupa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria sem observar que as formas de tratamento t\u00eam como princ\u00edpio o respeito e a dignidade e a prioridade ao atendimento das necessidades humanas b\u00e1sicas. Ali a comida, o abrigo e as vestimentas distribu\u00eddas dividem espa\u00e7o com atividades culturais, pol\u00edticas, educativas e art\u00edsticas. E ningu\u00e9m ali vai reclamar de museu ou de exposi\u00e7\u00e3o, existem respeito e vontade de aprender e entender da arte sem pr\u00e9-julgamento.<\/p>\n<p>Agora, o voluntarismo pol\u00edtico, midi\u00e1tico e econ\u00f4mico ser\u00e1 implac\u00e1vel para acabar com isso, que vai para al\u00e9m de uma ocupa\u00e7\u00e3o comum e se tornou um experimento social.<\/p>\n<p>Teremos problemas s\u00e9rios para cumprir essa ordem de execu\u00e7\u00e3o. Diante de 30 ou 40 mil pessoas, qual o efetivo necess\u00e1rio para a desocupa\u00e7\u00e3o do terreno? Fa\u00e7amos as contas: o Estado de S\u00e3o Paulo tem pouco mais de 200 mil policiais militares. Para uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta seria preciso pelo menos uma fra\u00e7\u00e3o de 5 oficiais para cada manifestante, o que significa que seria necess\u00e1rio todo o efetivo policial do Estado para que se ocupasse o lugar e n\u00e3o se praticasse viol\u00eancia na desocupa\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o vai acontecer e, no caso de uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse, n\u00e3o vai ocorrer de outra forma que n\u00e3o seja com o abuso de viol\u00eancia f\u00edsica contra os pobres que est\u00e3o ali lutando por um peda\u00e7o de dignidade. E sabemos como opera a pol\u00edtica contra os pobres.<\/p>\n<p>Precedentes hist\u00f3ricos para os massacres existem aos montes. Pinheirinho em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos\u00a0\u00e9 o mais recente desastre das autoridades p\u00fablicas. Ocorrido em 2012 eram \u201capenas\u201d 1.800 fam\u00edlias \u2013 obviamente, se comparados aos cerca de 40 mil de SBC. A viol\u00eancia contra os pobres remonta \u00e0 desocupa\u00e7\u00e3o de \u201ccabe\u00e7a de porco\u201d no Rio de Janeiro no final do s\u00e9culo XIX. Em 1983, mais de 4 mil pessoas tiveram seus casebres destru\u00eddos pela prefeitura da cidade de forma covarde e violenta.<\/p>\n<p>Arraial de Canudos \u00e9 a refer\u00eancia e a origem de tudo isso. E foi muito mais que uma aglomera\u00e7\u00e3o urbana voluntarista. Tinha organiza\u00e7\u00e3o, forma de atuar, ordem social. Foi uma cidade formada pela popula\u00e7\u00e3o pobre sertaneja do final do s\u00e9culo XIX que tinha na figura de Ant\u00f4nio Conselheiro sua principal refer\u00eancia. De uma pequena aldeia chegou a abrigar cerca de 25 mil pessoas que migraram para o lugar em busca n\u00e3o apenas de um abrigo, mas de esperan\u00e7a, acolhimento, dignidade que a vida que boa parte das metr\u00f3poles brasileiras n\u00e3o permite.<\/p>\n<p>Lembrando que no relato de Euclides da Cunha (ent\u00e3o enviado especial do Estado de S\u00e3o Paulo para cobrir a guerra da desocupa\u00e7\u00e3o) surge o termo \u201cfavela\u201d. Canudos ficava depois do morro da favela \u2013 planta nativa abundante e que dava nome \u00e0 geografia \u2013 e a palavra ganha nossos s\u00edmbolos para descrever os casebres pobres das ocupa\u00e7\u00f5es desordenadas e carentes. Cabe\u00e7a de porco, depois, no Rio, ficava antes do Morro da Provid\u00eancia, em refer\u00eancia direta aos esp\u00f3lios de Canudos.<\/p>\n<p>Obviamente, devemos ter cuidado com as compara\u00e7\u00f5es. Mas, pela dimens\u00e3o j\u00e1 tomada, S\u00e3o Bernardo n\u00e3o pode ser comparada a uma nova crise como o Pinheirinho (para ficar no exemplo mais recente dos muitos casos de viol\u00eancia contra favelas no Brasil). S\u00f3 Canudos atualizada em termos modernos ajuda a explicar a for\u00e7a e o dinamismo da ocupa\u00e7\u00e3o em SBC. E o MTST tem programa de a\u00e7\u00f5es bem desenhado, tem organiza\u00e7\u00e3o interna, sabe defender suas conquistas, organizar a luta e ainda conta com a lideran\u00e7a de Guilherme Boulos, com uma leitura privilegiada da realidade brasileira que faltava a Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p>Aos desavisados da elite econ\u00f4mica do pa\u00eds \u00e9 importante avisar o \u00f3bvio: o MTST n\u00e3o ocupou aquela propriedade para daqui uns meses devolver; nem sob a amea\u00e7a de a\u00e7\u00e3o violenta.<\/p>\n<p>E, finalmente, \u00e9 importante dizer que a dignidade daquela gente n\u00e3o se far\u00e1 com mais uma exclus\u00e3o diante das muitas j\u00e1 praticadas pela sociedade brasileira contra seu povo mais necessitado. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de uma das frases mais repetidas n\u2019Os Sert\u00f5es\u00a0em que Euclides da Cunha define o sertanejo. Mesmo regado a preconceitos positivistas, o escritor reconheceu: o sertanejo antes de tudo \u00e9 um forte.<\/p>\n<p>Pois bem, diante de tanta opress\u00e3o, o brasileiro de modo geral \u00e9 antes de tudo um forte e hoje sabe que seus direitos est\u00e3o sendo negados, retirados, desviados para a boa vida dos rentistas e exploradores. A for\u00e7a e a coragem para reorganizar a luta j\u00e1 encontram espa\u00e7o e a retomada do enfrentamento contra as arbitrariedades que s\u00f3 crescem no pa\u00eds vem do povo com esperan\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a ocupa\u00e7\u00e3o se define como um povo sem medo.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573121-uma-nova-canudos-em-sao-bernardo-do-campo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16835\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[200],"tags":[225],"class_list":["post-16835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-moradia","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4nx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16835"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16835\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}