{"id":16858,"date":"2017-11-03T20:35:09","date_gmt":"2017-11-03T23:35:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16858"},"modified":"2017-11-03T20:35:09","modified_gmt":"2017-11-03T23:35:09","slug":"argentina-a-instalacao-da-ditadura-mafiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16858","title":{"rendered":"Argentina: a instala\u00e7\u00e3o da ditadura mafiosa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/beinstein\/imagens\/macri.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jorge Beinstein<\/p>\n<p>S\u00f3 faltam alguns pequenos ajustes para o motor ditatorial funcionar plenamente. Uma reduzida camarilha mafiosa, \u00e0 testa da qual se encontra Maurizio Macri, disp\u00f5e da totalidade do poder p\u00fablico ao qual se acrescentam os poderes midi\u00e1tico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Restam uns poucos res\u00edduos facilmente control\u00e1veis que talvez sobrevivam um pouco mais e que servir\u00e3o, enquanto existirem, para que o super-poder diga que existe pluralismo. Alguns deputados e senadores exibir\u00e3o suas figuras opositoras ainda que ambas as c\u00e2maras j\u00e1 estivessem sob controle nos assuntos fundamentais \u2013 e estar\u00e3o muito mais no futuro. Ainda resta um ou outro juiz marginal relativamente independente, mas altamente vulner\u00e1vel perante uma reprimenda do Poder.<\/p>\n<p>Podemos distinguir uma esp\u00e9cie de &#8220;primeira etapa&#8221; da trag\u00e9dia em que a manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tico-judicial ainda ocupa o centro da cena. Foi a que impulsionou uma forma original de golpe suave em 2015, permitindo a escalada da m\u00e1fia sob um disfarce democr\u00e1tico, esmagando dirigentes sindicais, pol\u00edticos opositores e oficialistas e ofuscando um amplo espectro social cujo n\u00facleo duro neofascista foi mantido em permanente estado de excita\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria. Mas essa etapa, com seus jornalistas mercen\u00e1rios e com as caras sorridentes do presidente e dos seus ministros, ir\u00e1 perdendo efic\u00e1cia no futuro \u00e0 medida que a concentra\u00e7\u00e3o de rendimentos avance um pouco mais e que os saques tarif\u00e1rios e outros se tornem insuport\u00e1veis para grandes massas da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que, antes de a referida etapa cumprir o seu ciclo, vai despontando a segunda fase com gendarmes convertidos em pol\u00edcia militar e com fraude eleitoral (voto eletr\u00f4nico manipulado). Dentro de pouco tempo presenciaremos a revela\u00e7\u00e3o total: midi\u00e1tica, repressiva e institucional de um regime ex\u00f3tico para os argentinos \u2013 em cuja mem\u00f3ria encontra-se uma sinistra s\u00e9rie de ditaduras militares sem a presen\u00e7a de ditaduras civis e muitos menos de despotismos mafiosos.<\/p>\n<p>Para entender o que est\u00e1 se passando ter\u00edamos de observar em primeiro lugar a muta\u00e7\u00e3o (a degrada\u00e7\u00e3o profunda) da nossa elite dirigente convertida em lumpenburguesia. N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno recente, local e inesperado. O mesmo vem se desenvolvendo de modo vis\u00edvel desde a \u00faltima ditadura militar, quando os Macri, por exemplo (e n\u00e3o s\u00f3 eles), deram um enorme salto nos seus neg\u00f3cios e converteram-se num cl\u00e3 membro do reduzido clube dos super-ricos. Continuou a avan\u00e7ar durante a p\u00f3s-ditadura, aproveitando as limita\u00e7\u00f5es, debilidade e corrup\u00e7\u00f5es de uma democracia funcional aos seus interesses.<\/p>\n<p>Em segundo lugar \u00e9 necess\u00e1rio constatar que n\u00e3o nos encontramos perante um fato raro do panorama global e sim da express\u00e3o argentina, subdesenvolvida, de um processo de financiariza\u00e7\u00e3o generalizada do sistema mundial, forma dominante num espa\u00e7o onde pululam pol\u00edticos e tecnocratas corruptos e elitistas, militares, mercen\u00e1rios niilistas e os demais protagonistas de uma civiliza\u00e7\u00e3o decadente.<\/p>\n<p>Menem representou a adapta\u00e7\u00e3o da Argentina \u00e0 vit\u00f3ria dos Estados Unidos contra a URSS. Emergia ent\u00e3o uma super-pot\u00eancia que prometia um dom\u00ednio total e prolongado do planeta e cujo discurso neoliberal assegurava prosperidade para todos gra\u00e7as ao livre mercado. Como sabemos, isso n\u00e3o foi sen\u00e3o uma ilus\u00e3o que pouco tempo depois demonstrou sua falsidade. As emerg\u00eancias da China e da R\u00fassia assinalaram a irrup\u00e7\u00e3o da multipolaridade e na Am\u00e9rica Latina aqueles que n\u00e3o se dobravam perante o Imp\u00e9rio (como Cuba) sobreviveram e geraram um ciclo progressista. A aposta menemista era infame e cipaia, mas exprimia um certo realismo oportunista, naturalmente muito primitivo.<\/p>\n<p>A aventura macrista n\u00e3o se apoia num mito global medianamente cr\u00edvel, t\u00e3o pouco promete prosperidade nem liberdade. Sua ascens\u00e3o re\u00fane \u00f3dios classistas combinados com germes de racismo e obstina\u00e7\u00e3o conservadora, suas refer\u00eancias globais-ocidentais, os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia, mostram diariamente seu decl\u00ednio econ\u00f4mico e suas deteriora\u00e7\u00f5es institucionais. Mas tal como no caso do menemismo, exibe a extrema fragilidade da sua trajet\u00f3ria econ\u00f4mica, o festival de d\u00edvidas p\u00fablicas, o agigantamento do d\u00e9ficit comercial e a redu\u00e7\u00e3o do mercado interno (golpeado por ajustes, sobrepre\u00e7os internos, despedimentos e atrasos salariais) assinalam a rota rumo a uma crise segura muito mais demolidora que a de 2001.<\/p>\n<p>Mas o pior que poder\u00edamos fazer seria cair no reducionismo econ\u00f4mico e acreditar que o desastre financeiro futuro marcar\u00e1 o fim da ditadura. Seus chefes nos \u00faltimos dois anos, sem deixar de fazerem muitos bons neg\u00f3cios, manejaram as coisas dando prioridade aos seus objetivos pol\u00edticos para al\u00e9m de um ou outro desleixo, avan\u00e7ando passo a passo na instala\u00e7\u00e3o do regime ditatorial. Agora que j\u00e1 asseguraram o controle completo do Estado carregar\u00e3o no acelerador econ\u00f3mico, introduzir\u00e3o diversas formas de superexplora\u00e7\u00e3o laboral, desencadear\u00e3o saqueios e ajustes utilizando nos seus aparelhos midi\u00e1tico e judicial uma estrutura repressiva, buscando assim esmagar protestos em curso e revoltas potenciais quando a crise econ\u00f4mica se fizer presente.<\/p>\n<p>Claro que a crise econ\u00f4mica e social golpear\u00e1 a m\u00e1fia, que a desestabilizar\u00e1 e que as bases populares ser\u00e3o impulsionadas rumo aos protestos em grande escala (inclu\u00eddos os setores das classes m\u00e9dias e baixas atualmente drogados pela chupeta eletr\u00f4nica) e que isso deveria coloc\u00e1-las frente a frente. Mas com estas reflex\u00f5es j\u00e1 estamos entrando no mundo dos futuros cen\u00e1rios poss\u00edveis. Para poder constru\u00ed-los dever\u00edamos preparar-nos desde j\u00e1. \u00c9 o que est\u00e3o a fazer Macri e seu bando. Sabem que o seu \u00eaxito est\u00e1 apoiado na degrada\u00e7\u00e3o integral da sociedade argentina, na sua fragmenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica extrema associada \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de identidades populares solid\u00e1rias, no predom\u00ednio da estupidez midi\u00e1tica, processo de embrutecimento que bloquearia toda possibilidade de insubordina\u00e7\u00e3o maci\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez tudo isso n\u00e3o seja mais do que uma utopia fascista. O av\u00f4 de Maurizio, Giorgio Macri, foi um not\u00f3rio mafioso calabr\u00eas benefici\u00e1rio e colaborador do regime de Benito Mussolini. Sua carreira italiana acabou mal e terminada a Segunda Guerra Mundial teve que emigrar, desgra\u00e7adamente para a Argentina. Seu neto, agora embarcado numa aventura tan\u00e1tica, pode chegar a ter (se o povo argentino o decidir) um destino parecido&#8230; ou algo pior.<\/p>\n<p>30\/Outubro\/2017\/Buenos Aires<\/p>\n<p>http:\/\/resistir.info\/beinstein\/macrimafia_30out17.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16858\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[227],"class_list":["post-16858","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4nU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16858"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16858\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}