{"id":16890,"date":"2017-11-05T15:22:48","date_gmt":"2017-11-05T18:22:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16890"},"modified":"2017-11-05T15:22:48","modified_gmt":"2017-11-05T18:22:48","slug":"mariana-crime-completa-dois-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16890","title":{"rendered":"Mariana: crime completa dois anos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm5.staticflickr.com\/4453\/38097191981_7893f9a2d6_z.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Confira os depoimentos de quem vive na Bacia do Rio Doce; relatos demonstram que a trag\u00e9dia n\u00e3o para de acontecer<\/strong><\/p>\n<p>Rafael Drummond\/Jornal A Sirene<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, o dia 5 de novembro marcaria a vida de milhares de pessoas que vivem ao longo da Bacia do Rio Doce. No primeiro momento, a avalanche de lama destruiu as comunidades de Mariana e Barra Longa \u2013 em Minas Gerais \u2013, tirou a vida de 19 pessoas e seguiu um curso de contamina\u00e7\u00e3o de mais de 650 quil\u00f4metros\u00a0at\u00e9 o Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a trag\u00e9dia, em Mariana, moradores dos distritos de\u00a0Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e outras comunidades rurais foram obrigados a se deslocar para a sede da cidade \u2013 onde vivem, desde ent\u00e3o, em moradias provis\u00f3rias. L\u00e1, viram a dor aguda dos primeiros dias p\u00f3s-rompimento ser substitu\u00edda por um sofrimento cr\u00f4nico, uma ang\u00fastia constante e uma saudade que n\u00e3o para de crescer.<\/p>\n<p>Hoje, os atingidos de Mariana seguem sem indeniza\u00e7\u00e3o definitiva, lutando pelo reconhecimento de direitos emergenciais. Vivem, continuamente, o rompimento da barragem. Na pr\u00e1tica, est\u00e3o aprendendo a ser atingidos \u2013 um saber indesejado e necess\u00e1rio. Brigam na Justi\u00e7a para que sejam indenizados dentro de diretrizes determinadas por seus modos de vida, compat\u00edvel ao sofrimento e \u00e0s perdas que somente eles sabem medir. Em meio \u00e0 dor, lutam para que a lama da rompida barragem de\u00a0Fund\u00e3o n\u00e3o arraste no tempo a vida secular de suas comunidade.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Imaginava um futuro bem diferente&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Desde o in\u00edcio,\u00a0n\u00e3o foi f\u00e1cil. Quando a gente chegou aqui em Mariana, as pessoas foram muito solid\u00e1rias, mas, com o passar do tempo, alguns come\u00e7aram a nos criticar falando que a empresa n\u00e3o voltava por culpa dos atingidos. Pessoas j\u00e1 falaram que estamos nadando em dinheiro. Agora, eu me pergunto: que dinheiro?<\/p>\n<p>Ser um jovem atingido \u00e9 perder os sonhos. Antes eu imaginava um futuro bem diferente. A gente na cidade tem que criar responsabilidade muito cedo, tomar bastante cuidado com o que est\u00e1 por vir. Fico muitos dias sem ver meus amigos, antes os via todos os dias. Hoje eu nem sei onde alguns moram.&#8221;<\/p>\n<p><em>J\u00falio C\u00e9sar Salgado, atingido de Bento Rodrigues<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8220;Atingido \u00e9 aquele cuja vida a lama sujou&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Um dia, o engenheiro da Samarco me ligou pra ir l\u00e1 em casa ver o que tinha acontecido onde eu morava. Chegou l\u00e1, ele come\u00e7ou a menosprezar, dizendo que era pouca lama, que tinha sujado pouco. Eu sa\u00ed de l\u00e1 com o astral baixo, aborrecido, porque se voc\u00ea olhasse, sim, era pouca lama, mas o estrago que ela tinha feito na minha vida, era imenso. A Samarco est\u00e1 medindo o tanto que a pessoa \u00e9 atingida de acordo com o quanto a lama sujou o que ele tem. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 assim. Atingido \u00e9 aquele que a lama sujou a vida. E, nesse sentido, eu estou afogado na lama&#8221;.<\/p>\n<p><em>Marino D\u2019Angelo, Paracatu de Cima<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8220;Vale a pena pensar alguma coisa pro futuro?&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A minha vida est\u00e1 totalmente parada. Sonhos, projetos, expectativas de um amanh\u00e3\u2026 Agora, que eu estou\u00a0vendo que j\u00e1 n\u00e3o estou t\u00e3o jovem, me pergunto: o que eu quero, de verdade, pra minha vida? O que eu quero fazer agora? Vale a pena pensar alguma coisa pro futuro? Quando isso tudo aconteceu, eu j\u00e1 tinha minha vida engatilhada. Eu j\u00e1 tinha meus projetos todos programados. Isso veio e bagun\u00e7ou minha cabe\u00e7a todinha. Hoje eu n\u00e3o posso sonhar, n\u00e3o posso programar\u2026<\/p>\n<p>Eu fico correndo atr\u00e1s de tudo, procuro me informar para n\u00e3o errar. Eu estou tipo um tr\u00e2nsito, onde algu\u00e9m tenta atravessar, eu fico cercando um monte de carro. J\u00e1 vivi at\u00e9 conflitos familiares. Parei para escutar, pois as coisas acontecem r\u00e1pido e n\u00e3o sei qual consequ\u00eancia vir\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p><em>Luzia Queiroz, atingida de Paracatu de Baixo<\/em><\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Frederico Santana<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Dor aguda dos primeiros dias virou sofrimento cr\u00f4nico\/Larissa Helena\/A Sirene<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/11\/03\/tragedia-de-mariana-or-crime-completa-dois-anos-neste-5-de-novembro\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16890\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[224],"class_list":["post-16890","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4oq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16890\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}