{"id":1690,"date":"2011-07-22T22:52:05","date_gmt":"2011-07-22T22:52:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1690"},"modified":"2011-07-22T22:52:05","modified_gmt":"2011-07-22T22:52:05","slug":"o-anticomunismo-nas-escolas-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1690","title":{"rendered":"O anticomunismo nas Escolas Militares"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagino os jovens dos Col\u00e9gios Militares, rapazes e mocinhas ardorosos obrigados a decorar algo como uma Hist\u00f3ria vazia e violentadora, a que chamam Hist\u00f3ria do Brasil \u2013 Imp\u00e9rio e Rep\u00fablica, de uma Cole\u00e7\u00e3o Marechal Trompowsky, da Biblioteca do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>O nome, a origem, o marechal, por si, j\u00e1 n\u00e3o garantiriam um bom resultado. Estariam mais para p\u00f3lvora que para a Hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o sejamos preconceituosos, ilustremos com o que os estudantes s\u00e3o obrigados a aprender, como aqui, por exemplo:<\/p>\n<p>\u201cNos governos militares, em particular na gest\u00e3o do presidente M\u00e9dici, houve a censura dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e o combate e elimina\u00e7\u00e3o das guerrilhas, urbana e rural, porque a preserva\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica era condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao progresso do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Uma breve pesquisa aponta que esses livros servem a um ensino orientado pela Diretoria de Ensino Preparat\u00f3rio e Assistencial (DEPA), criado em\u2026 1973, sim, naquele inesquec\u00edvel ano da ditadura M\u00e9dici.<\/p>\n<p>Ou naquele tempo do gestor democr\u00e1tico, segundo a orienta\u00e7\u00e3o dada aos futuros militares. E n\u00e3o se pense que tal ensino est\u00e1 \u00e0 margem da lei, n\u00e3o. Ele se apoia em um certo Art. 4\u00ba do R-69.<\/p>\n<p>Percebem?<\/p>\n<p>A caserna legisla. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, sem nada, pois a DEPA organiza a proposta pedag\u00f3gica \u201cde orientar o processo educacional e o ensino-aprendizagem na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os intelectualmente preparados e c\u00f4nscios do seu papel na sociedade segundo os valores e as tradi\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito Brasileiro\u201d (Grifo do seu documento).<\/p>\n<p>Que valores seriam esses, al\u00e9m das ideias anticomunistas do tempo da ditadura?<\/p>\n<p>Penso agora nesses jovens dos col\u00e9gios militares mantidos com os olhos vendados, pois deles se oculta a viol\u00eancia e o terror sofridos por outros jovens, t\u00e3o brasileiros, generosos e heroicos quanto eles hoje:<\/p>\n<p>\u201cEremias se tornou um cad\u00e1ver aos 18 anos: perfurado de balas, o rosto irreconhec\u00edvel porque uma s\u00f3 ferida, os cabelos, t\u00e3o \u00famidos, t\u00e3o grossos por co\u00e1gulos de sangue, davam a impress\u00e3o de flutuar no ch\u00e3o seco.<\/p>\n<p>Nada havia naquele cad\u00e1ver que lembrasse o jovem que eu conhecera. O menino que eu vira em 1968 n\u00e3o anunciava aquele fim. Eremias n\u00e3o era aqueles olhos apertados, a boca aberta \u00e0 procura de ar, a lembrar um afogamento. Um estranho peixe, com os cabelos a flutuar no seco.<\/p>\n<p>Eremias morreu como um her\u00f3i, permitam-nos dizer. O aparelho onde estava ca\u00edra. Fora entregue por um outro jovem preso, que n\u00e3o suportara as torturas. Cercado por for\u00e7as do Ex\u00e9rcito, Eremias sozinho resistiu. Resistiu \u00e0 bala, sem nenhuma esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Ou aqui, neste depoimento da advogada M\u00e9rcia Albuquerque, que assim viu e viveu no tempo da gest\u00e3o do presidente M\u00e9dici:<\/p>\n<p>\u201cSoledad estava com os olhos muito abertos com express\u00e3o muito grande de terror, a boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade que estava, eu tenho a impress\u00e3o que ela foi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quando coagulou ficou preso nas pernas porque era uma quantidade grande e o feto estava l\u00e1 nos p\u00e9s dela, n\u00e3o posso saber como foi parar ali ou se foi ali mesmo no necrot\u00e9rio que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror.\u201d<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m aqui, nesta personagem oculta aos estudantes:<\/p>\n<p>\u201cMaria Auxiliadora Lara Barcellos atirou-se nos trilhos de um trem na esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 Charlottenburg, em Berlim\u2026 tinha sido presa sete anos antes, em 1969, no Brasil.<\/p>\n<p>Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas ps\u00edquicas deixadas pelas sev\u00edcias e viol\u00eancias de todo tipo a que foi submetida.<\/p>\n<p>Durante o ex\u00edlio, registrou num texto\u2026 \u2018Foram intermin\u00e1veis dias de Sodoma.<\/p>\n<p>Me pisaram, cuspiram, me despeda\u00e7aram em mil cacos.<\/p>\n<p>Me violentaram nos cantos mais \u00edntimos.<\/p>\n<p>Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, de grito no escuro\u2026\u2019\u201d<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria tr\u00e1gica, mas ainda assim fecundante, o papel destruidor de vidas pela Ordem da ditadura militar n\u00e3o pode nem deve ser ocultado. H\u00e1 um clamor cidad\u00e3o contra. Os col\u00e9gios militares n\u00e3o podem mais continuar independentes do Brasil, como se fossem ilhas inexpugn\u00e1veis \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos discursos mais comuns dos oficiais militares que pretendem eternizar uma Escola imune \u00e0 democracia e \u00e0 hist\u00f3ria dos homens, argumenta-se: a) os jovens brasileiros que n\u00e3o se formaram no Col\u00e9gio Militar n\u00e3o pensam nem se instruem; b) a hist\u00f3ria vivida e produzida por intelectuais e doutores das universidades brasileiras n\u00e3o serve para o ensino militar. N\u00e3o seria mais simples que proclamassem, como o general fascista na Espanha, \u201cmorte \u00e0 intelig\u00eancia\u201d?<\/p>\n<p>Em todos os livros das Escolas Militares h\u00e1 um expurgo do genoc\u00eddio de \u00edndios pelos bandeirantes, h\u00e1 uma nova Guerra do Paraguai que teria integrado todos os brasileiros (enquanto destru\u00eda o povo paraguaio), que unia at\u00e9 os escravos nacionais, mortos nas frentes com a promessa de liberdade; e, principalmente, o desaparecimento de vidas e execu\u00e7\u00f5es dos \u201capenas\u201d 144 mortos da ditadura, que almejavam uma felicidade de bandidos.<\/p>\n<p>E assim se formam novos oficiais, como se fossem a encarna\u00e7\u00e3o do Fantasma das hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n<p>De gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o com o mesmo car\u00e1ter, com o mesmo papel, a cavalgar em um cavalo branco pelo vazio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>De 1964 a 2011, apesar de a Guerra Fria ter acabado, apesar de um \u00edndio ter subido \u00e0 presid\u00eancia da Bol\u00edvia, apesar de um oper\u00e1rio ter se tornado o presidente do Brasil mais popular em todo o mundo, tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Igual aos tempos de Castelo Branco, M\u00e9dici e Lyndon Johnson.<\/p>\n<p>*Urariano Mota \u00e9 natural de \u00c1gua Fria, sub\u00farbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opini\u00e3o, Escrita, Fic\u00e7\u00e3o e outros peri\u00f3dicos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Atualmente, \u00e9 colunista do Direto da Reda\u00e7\u00e3o e colaborador do Observat\u00f3rio da Imprensa. As revistas Carta Capital, F\u00f3rum e Continente tamb\u00e9m j\u00e1 veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os cora\u00e7\u00f5es futuristas (Recife, Baga\u00e7o, 1997).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Urariano Mota\n\n\n\n\n\n\n\n\nUrariano Mota*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1690\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-1690","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-rg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1690"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1690\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}