{"id":16913,"date":"2017-11-07T11:38:48","date_gmt":"2017-11-07T14:38:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16913"},"modified":"2017-11-06T23:42:09","modified_gmt":"2017-11-07T02:42:09","slug":"financeirizacao-da-economia-e-a-dominacao-ilimitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16913","title":{"rendered":"Financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e a domina\u00e7\u00e3o ilimitada"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/laboratoriofilosofico.files.wordpress.com\/2017\/10\/financeirizac3a7ao.jpg?w=700\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Rafael Silva<\/p>\n<p>Como impedir a classe dominante de dominar? Marx bem tentou responder essa pergunta no seu Manifesto Comunista, que come\u00e7a afirmando que \u201cA hist\u00f3ria de todas as sociedades que existiram at\u00e9 nossos dias tem sido a hist\u00f3ria das lutas de classes\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 que essa tarefa se mostrou bem mais dif\u00edcil do que o grande fil\u00f3sofo materialista imaginou. Mais ainda depois que o capitalismo se libertou de qualquer limita\u00e7\u00e3o material, ou seja, ap\u00f3s o presidente norte-americano Richard Nixon, em 1971, abolir o lastro material do D\u00f3lar. Com esse ato, foi dispensado o fundamento material daquela moeda, e por efeito cascata, o de todas as demais. Doravante o dinheiro, e a domina\u00e7\u00e3o que ele proporciona, passaram a ser inventados. Claro, quem det\u00e9m o poder (pol\u00edtico e militar) para tal \u201calquimia\u201d \u00e9 a classe dominante, que, quanto mais inventa riqueza, mais a inventa para si mesma, e, portanto, mais-domina.<\/p>\n<p>Para inventar sua domina\u00e7\u00e3o de modo legal, e al\u00e9m do mais democr\u00e1tico, basta, por exemplo, que as doze fam\u00edlias mais ricas dos EUA, donas dos doze maiores bancos que formam o Federal Reserv Bank (o banco que cria os d\u00f3lares para os EUA), enfim, basta que a classearquitete uma devastadora crise econ\u00f4mica, para a qual apenas alguns trilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 que ela mesma pode inventar imediatamente \u2013 sejam a solu\u00e7\u00e3o mais objetiva. O governo ent\u00e3o aceita esse dinheiro abstrato e, no mesmo instante, o povo e o futuro desse Estado passam a dever a exata quantia \u00e0 classe, s\u00f3 que agora, obviamente, em forma de riqueza concreta. Se o lastro para o dinheiro que a classe inventa findar\u00e1 em barras de ouro ou em mega favelas na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul tanto faz. A classe cobra concreta e materialmente por centavo que abstratamente inventa.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, dado o montante de dinheiro inventado na nossa economia financeirizada, \u00e9 imposs\u00edvel lastre\u00e1-lo materialmente. H\u00e1 v\u00e1rios limites. Um deles, o ecol\u00f3gico, \u00e9 qui\u00e7\u00e1 o que melhor demonstra essa impossibilidade. H\u00e1 quem diga que seria preciso de seis a dezesseis planetas Terra (em quantidade de ar, \u00e1gua, terra, min\u00e9rios, etc.) para arrancar, da natureza ao mundo humano, a riqueza material necess\u00e1ria para lastrear a riqueza inventada pela classe. Todavia, embora essa d\u00edvida seja de fato material, econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica e ecologicamente impag\u00e1vel, ela s\u00f3 continua sendo criada porque \u00e9 logicamente poss\u00edvel faz\u00ea-lo. Afinal, nada h\u00e1 de errado em cobrar do futuro, que al\u00e9m do mais \u00e9 ilimitado, quando se abstrai o fato concreto de que n\u00e3o haver\u00e1 planeta Terra para tanto.<\/p>\n<p>Para manter essa l\u00f3gica insustent\u00e1vel funcionando, todos os dominados\/endividados que ousam afront\u00e1-la devem ser restringidos legalmente e reprimidos militarmente pela classe. \u00c9 t\u00e3o imposs\u00edvel para a humanidade materializar toda a riqueza abstratamente inventada pela classe quanto deter a classe na sua desenfreada financeiriza\u00e7\u00e3o da econ\u00f4mica. Na \u00e9poca de Marx, o capitalismo ainda era ref\u00e9m do mundo material. A mercadoria, misto de mat\u00e9ria-prima e meios de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e de m\u00e3o de obra prolet\u00e1ria, era fundamental no processo de produ\u00e7\u00e3o de mais-valor que permitia \u00e0 classe mais-dominar. Na financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, entretanto, nada de material precisa ser produzido para que venha ao mundo tanto dinheiro quanto deseja a classe. A produ\u00e7\u00e3o material, obviamente, n\u00e3o desapareceu. Apenas sobrevive em modo zumbi, mentido caducamente que ser\u00e1 atrav\u00e9s dela que se pagar\u00e1 a d\u00edvida \u00e0 classe.<\/p>\n<p>Agora, por mais perverso que seja, esse sistema no qual a classe minorit\u00e1ria dominante pode inventar, em nome da classe majorit\u00e1ria dominada, uma d\u00edvida maior do que o futuro da humanidade, obrigando esta \u00faltima, legal e militarmente, a pag\u00e1-la, materializ\u00e1-la, lastre\u00e1-la com o suor de seus corpos, \u00e9 de uma estrat\u00e9gia admir\u00e1vel. Nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil dominar! \u017di\u017eek bem disse que, desaparecendo a necessidade de fundamento material para a domina\u00e7\u00e3o de classe, e bastando a classe inventar quantas vezes quer ser mais rica e dominante, o que resta \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o direta e injustific\u00e1vel de uns indiv\u00edduos sobre outros, como se se tratasse de uma determina\u00e7\u00e3o divina, extra-humana. Inventar dinheiro, no mundo capitalista, \u00e9 inventar poder. Poder criar uma d\u00edvida em nome de outros, portanto, \u00e9 criar poder sobre eles.<\/p>\n<p>Desfinanceirizar a economia \u00e9, portanto, um urgente passo para libertar os povos dessa insustent\u00e1vel liberdade da classe de inventar, desimpedida de qualquer restri\u00e7\u00e3o material, a sua domina\u00e7\u00e3o. Talvez devamos reconsiderar a velha ideia marxiana segundo a qual o sumo valor \u00e9 t\u00e3o somente fruto de trabalho humano, pois ela reata os p\u00e9s de Ajax da classe no ch\u00e3o material do mundo, impedindo-a de inventar abstratamente sua domina\u00e7\u00e3o concreta. O grande problema, contudo, \u00e9 impedir a classe de se valer compulsivamente de sua maior sofistica\u00e7\u00e3o (inventar sua superioridade) uma vez que ela est\u00e1 de posse dos Estados e de seus ex\u00e9rcitos.<\/p>\n<p>Uma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o seria a solu\u00e7\u00e3o, pois desfinanceirizaria a economia capitalista ao destruir pr\u00f3prio o cosmo capitalista. Ora, se \u00e9 para desafiar o Estado burgu\u00eas e sua opressiva for\u00e7a militar, que seja para a maior das mudan\u00e7as, pois s\u00f3 ela puxar\u00e1 naturalmente todas as demais necess\u00e1rias. Entretanto, a revolu\u00e7\u00e3o parece estar mais desacreditada do que nunca. Todavia, n\u00e3o porque os preceitos socialistas revolucion\u00e1rios tenham perdido sua pertin\u00eancia, mas porque a classe, estrategicamente, assim como vem inventando a sua domina\u00e7\u00e3o, inventa tamb\u00e9m as pseudo verdades que lhes serve, tal como a ideia de que \u00e9 melhor o capitalismo do que qualquer outra forma econ\u00f4mica para a humanidade subsistir materialmente.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer a revolu\u00e7\u00e3o agora, pois, novamente, temos os Estados nacionais e os seus ex\u00e9rcitos contra ela, ao menos alimentemos a ideia de revolu\u00e7\u00e3o tal qual se encontra excelentemente em Marx. Que n\u00e3o seja poss\u00edvel mudar o mundo por esta ou aquela conting\u00eancia n\u00e3o deve significar que a raz\u00e3o da mudan\u00e7a seja inv\u00e1lida. Muito pelo contr\u00e1rio. Talvez seja justamente nessa era de economia financeirizada, na qual a inven\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o concreta a partir de uma mera abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra, que uma simples ideia revolucion\u00e1ria possa, subversivamente, aproveitar a onda e materializar-se. Se n\u00e3o h\u00e1 como vencer uma guerra sem ter ao menos as mesmas armas do inimigo, afrontemos ent\u00e3o a classe usando a sua mais sofisticada artilharia: inventemos um mundo sem domina\u00e7\u00e3o e exijamos, a qualquer custo, que o mundo material e concreto corresponda a essa justa, e at\u00e9 aqui, abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/laboratoriofilosofico.wordpress.com\/2017\/10\/30\/financeirizacao-da-economia-e-a-dominacao-ilimitada\/\">Financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e a domina\u00e7\u00e3o&nbsp;ilimitada<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16913\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[227],"class_list":["post-16913","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4oN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16913"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16913\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}