{"id":16936,"date":"2017-11-07T14:52:31","date_gmt":"2017-11-07T17:52:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16936"},"modified":"2017-11-07T15:09:49","modified_gmt":"2017-11-07T18:09:49","slug":"uma-revolucao-que-mudou-o-mundo-e-a-forma-de-luta-da-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16936","title":{"rendered":"Uma Revolu\u00e7\u00e3o que mudou o mundo e a forma de luta da classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media1.britannica.com\/eb-media\/05\/189405-004-1345EA38.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Heitor Cesar Ribeiro de Oliveira*<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO Estado \u00e9 o produto e a manifesta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter inconcili\u00e1vel das contradi\u00e7\u00f5es de classe. O Estado surge precisamente onde, quando e na medida em que as contradi\u00e7\u00f5es de classe objetivamente n\u00e3o podem ser conciliadas. E inversamente: a exist\u00eancia do Estado prova que as contradi\u00e7\u00f5es de classe s\u00e3o inconcili\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p>Friedrich Engels. A Origem da Fam\u00edlia da Propriedade Privada e do Estado.<\/p><\/blockquote>\n<p>I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Em novembro (outubro) de 1917, quando os Bolcheviques tomavam o poder em Petrogrado (S\u00e3o Petersburgo), n\u00e3o apenas partia a corrente internacional do imperialismo, como tamb\u00e9m rompia-se, a corrente internacional do movimento dos trabalhadores, representada pelo at\u00e9 ent\u00e3o prestigioso centro pol\u00edtico e te\u00f3rico da II Internacional, a Internacional Socialista, que possu\u00eda no Partido Social-Democrata Alem\u00e3o sua maior refer\u00eancia, Kautsky, considerado por muitos como o herdeiro direto de Marx e Engels.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, o Marxismo tido como oficial era formulado pelos te\u00f3ricos da Internacional Socialista (a II Internacional) que guiava a a\u00e7\u00e3o dos Partidos Social-Democratas e socialistas da Europa, al\u00e9m de buscar irradiar-se por todo o mundo.<\/p>\n<p>As formula\u00e7\u00f5es do instrumental te\u00f3rico anal\u00edtico da II Internacional buscavam enquadrar o mundo a partir de uma an\u00e1lise econ\u00f4mica do processo de desenvolvimento do capitalismo, onde, partindo das pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es advindas da constru\u00e7\u00e3o do capitalismo, gestadas em seu processo, conduziriam \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do sistema. Em paralelo, se somaria \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es o fortalecimento da interven\u00e7\u00e3o dos socialistas tanto na sociedade (com sindicatos de massas) e no parlamento (com uma em crescente influ\u00eancia num\u00e9rica e pol\u00edtica). Assim, num processo evolutivo, o poder seria conduzindo para as m\u00e3os dos trabalhadores. Tal encadeamento de ideias comprova a exist\u00eancia no interior do movimento socialista de uma forte influ\u00eancia do pensamento naturalista de Charles Darwin, que se mesclava a teoria marxista num evolucionismo, reduzindo o entendimento do processo hist\u00f3rico a um determinismo economicista, onde os aspectos subjetivos eram secundarizados em detrimento de uma avalia\u00e7\u00e3o \u201cnatural\u201d do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O grupamento pol\u00edtico liderado por L\u00eanin surgia como uma dissid\u00eancia dentro da II Internacional. Fortes cr\u00edticas foram dirigidas \u00e0 c\u00fapula do prestigiado corpo dirigente da Social-Democracia Europeia, como visto na obra \u201cA Fal\u00eancia da II Internacional\u201d, de L\u00eanin.<\/p>\n<p>\u201cA Fal\u00eancia da II Internacional exprimiu-se com especial clareza na trai\u00e7\u00e3o escandalosa, pela maioria dos partidos social-democratas oficiais da Europa, de suas convic\u00e7\u00f5es e de suas resolu\u00e7\u00f5es (&#8230;). Mas essa fal\u00eancia, que marca a vit\u00f3ria total do oportunismo, al\u00e9m da transforma\u00e7\u00e3o dos partidos social-democratas em partidos oper\u00e1rios nacional-liberais, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o resultado de toda a \u00e9poca hist\u00f3rica da II Internacional, do final do S\u00e9culo XIX ao come\u00e7o do S\u00e9culo XX. As condi\u00e7\u00f5es objetivas dessa \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o \u2013 que vai do encerramento das revolu\u00e7\u00f5es burguesas e nacionais na Europa Ocidental ao principio das revolu\u00e7\u00f5es socialistas \u2013 engendraram e alimentaram o oportunismo. Em certos pa\u00edses da Europa, pudemos observar, no decorrer desse per\u00edodo, uma cis\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e socialista, cis\u00e3o que se produziu, no seu conjunto, em fun\u00e7\u00e3o do repudio a linha oportunista (&#8230;). A crise gerada pela guerra ergueu o v\u00e9u, varreu as conven\u00e7\u00f5es, rebentou o abscesso j\u00e1 de h\u00e1 muito maduro e mostrou o oportunismo no seu verdadeiro papel de aliado da burguesia.\u201d<\/p>\n<p>Assim, essa dissid\u00eancia dirigia \u00e0 II Internacional, nucleada at\u00e9 ent\u00e3o pelo forte Partido Social-Democrata Alem\u00e3o de Kautsky, severas cr\u00edticas e apontavam a irreconcili\u00e1vel possibilidade de unidade. Al\u00e9m de L\u00eanin, l\u00edder dos Bolcheviques Russos, v\u00e1rios outros membros de Partidos Socialistas e sociais democratas compartilhavam de tais questionamentos, inclusive no interior do pr\u00f3prio Partido Alem\u00e3o, como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que viriam a liderar a dissid\u00eancia Alem\u00e3 do Partido Social Democrata.<\/p>\n<p>Tais cr\u00edticos da doutrina oficial do movimento internacional dos trabalhadores na Europa ganharam for\u00e7a com o advento da Grande Guerra Mundial (1914-1918), evento no qual os Partidos Sociais Democratas da Europa, em conson\u00e2ncia com as lideran\u00e7as da II Internacional, assumiram a defesa de seus pa\u00edses, inclusive participando da organiza\u00e7\u00e3o da guerra ao lado dos respectivos governos nacionais. O fato \u00e9 evidenciado por L\u00eanin ao colocar o car\u00e1ter extremamente vantajoso da guerra para as burguesias e a postura de Kautsky em omitir o real car\u00e1ter do conflito.<\/p>\n<p>\u201cA Guerra trouxe \u00e0 classe dos capitalistas n\u00e3o apenas benef\u00edcios fabulosos e magn\u00edficas perspectivas de novas pilhagens (Turquia, China etc.), novas encomendas calculadas em bilh\u00f5es, novos empr\u00e9stimos com taxas de lucro majoradas, mas tamb\u00e9m trouxe \u00e0 classe dos capitalistas vantagens pol\u00edticas bem superiores, dividindo e corrompendo o proletariado. Kautsky ajuda nessa corrup\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A Grande Guerra foi um evento que marcou profundamente a Europa. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o haviam ocorrido conflitos de tamanha propor\u00e7\u00e3o em viol\u00eancia, onde novas armas mudavam para sempre a l\u00f3gica belicista do mundo. Por\u00e9m, n\u00e3o se limitando ao cen\u00e1rio do capitalismo, a guerra impulsionou a definitiva ruptura no interior do movimento dos trabalhadores, fortalecendo a cr\u00edtica da fal\u00eancia da II Internacional, que, ao cumprir o papel de unificador nacional durante o confronto, demonstrou suas limita\u00e7\u00f5es em conduzir o movimento do proletariado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, diante da nova caracter\u00edstica e fases do capitalismo.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, marcada pelo atraso e por uma guerra fracassada, os comunistas liderados por L\u00eanin, Zenoviev, Kamenev, Trotsky, Bukarin, Stalin e outros bolcheviques, come\u00e7aram a construir n\u00e3o apenas o regime socialista, mas tamb\u00e9m reorganizar o movimento comunista atrav\u00e9s de uma nova internacional, a Internacional Comunista (Komintern).<\/p>\n<p>O Komintern contou com v\u00e1rios novos partidos comunistas nascidos no calor da revolu\u00e7\u00e3o que transformou a R\u00fassia no primeiro pa\u00eds socialista do mundo. L\u00eanin narra a import\u00e2ncia da revolu\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, assim como tamb\u00e9m as li\u00e7\u00f5es do evento para o proletariado mundial, na ocasi\u00e3o do 4\u00ba anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>\u201cEsta primeira vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 ainda a vit\u00f3ria definitiva, e a nossa revolu\u00e7\u00e3o de Outubro alcan\u00e7ou-a com priva\u00e7\u00f5es e dificuldades inauditas, com sofrimento sem precedentes,(&#8230;); Pela primeira vez depois de s\u00e9culos e mil\u00eanios, a promessa de responder \u00e0 guerra entre escravistas com a revolu\u00e7\u00e3o dos escravos contra toda esp\u00e9cie de escravista foi cumprida at\u00e9 o fim &#8230; e \u00e9 cumprida apesar de todas as dificuldades. N\u00f3s come\u00e7amos esta obra. Quando precisamente, em que prazo os prolet\u00e1rios de qual na\u00e7\u00e3o culminar\u00e3o esta obra \u2013 \u00e9 uma quest\u00e3o n\u00e3o essencial. O essencial \u00e9 que se quebrou o gelo, que se abriu caminho, que se indicou a via.\u201d<\/p>\n<p>Assim como a revolu\u00e7\u00e3o russa rompeu a corrente internacional capitalista, abrindo brecha para a primeira experi\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o socialista, rompia-se tamb\u00e9m o movimento internacional dos trabalhadores, agora o movimento de inspira\u00e7\u00e3o no marxismo ganharia alguns aspectos novos em rela\u00e7\u00e3o ao ide\u00e1rio da II Internacional, com uma releitura da pr\u00f3pria obra de Marx e Engels acrescida pela teoria e pratica dos Bolcheviques, agora Partido Comunista. Os partidos comunistas seriam a nova mola propulsora do movimento internacional da classe trabalhadora, com a organiza\u00e7\u00e3o inclusive de uma nova Internacional, a III Internacional (Internacional Comunista ou Komintern) e a reordena\u00e7\u00e3o dos comunistas, rompendo com a social democracia e partidos socialistas e construindo Partidos Comunistas, j\u00e1 em alguns lugares, como no Brasil, a partir do acumulo de seus pr\u00f3prios movimentos oper\u00e1rios inspirado no clar\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o russa. Surgia uma nova denomina\u00e7\u00e3o e uma nova forma organizativa na luta pol\u00edtica no cen\u00e1rio internacional, os PCs, e um novo centro revolucion\u00e1rio, Moscou, capital da URSS.<\/p>\n<p>O novo movimento agora sob o signo da III Internacional se diferenciava muito ideologicamente da II Internacional, se esta possu\u00eda ares de uma federa\u00e7\u00e3o a III Internacional possui caracter\u00edsticas de um s\u00f3 partido comunista internacional, um forte centro pol\u00edtico de atribui\u00e7\u00f5es ampliadas, Moscou passaria a ser agora a irradiadora da Revolu\u00e7\u00e3o Mundial:<\/p>\n<p>\u201cAtualmente j\u00e1 possu\u00edmos uma experi\u00eancia internacional bastante consider\u00e1vel, experi\u00eancia que demonstra, com absoluta clareza, que alguns aspectos fundamentais da nossa revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem apenas significa\u00e7\u00e3o local, particularmente nacional, russa, mas revestem-se, tamb\u00e9m, de significa\u00e7\u00e3o internacional (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Os Partidos Comunistas se formavam enquanto os antigos partidos sociais democratas sofriam rupturas internas e perdiam for\u00e7a com os novos adeptos do comunismo. Ganhava for\u00e7a dentro do Movimento Internacional dos Trabalhadores o conjunto de proposta da Revolu\u00e7\u00e3o como uma tomada violenta do Estado Burgu\u00eas, sua demoli\u00e7\u00e3o a partir da constru\u00e7\u00e3o do novo regime. Estava aberta \u00e0 Era do Socialismo, a Era dos Sovietes que marcaria profundamente todo o decorrer do s\u00e9culo XX, causando influ\u00eancias diretas em todo o mundo.<\/p>\n<p>As elites do mundo capitalista, seus governantes, passariam a organizar toda a sua pol\u00edtica internacional e at\u00e9 mesmo interna (os comunista eram vistos como inimigos internos) diante do medo de uma revolu\u00e7\u00e3o mundial, onde a URSS liderava a classe dos trabalhadores. E os primeiros sinais eram aterrorizantes para os capitalistas, justificavam os seus maiores medos, explodiam movimentos revolucion\u00e1rios na Europa ainda se recompondo da Grande Guerra. Os trabalhadores n\u00e3o mais se limitavam a buscar conquistas de direitos, mas na possibilidade da conquistar do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Os impactos da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro (Novembro) n\u00e3o se limitariam ao s\u00e9culo XX, mesmo diante do colapso da experi\u00eancia socialista do leste europeu e do pr\u00f3prio desmonte da URSS, a classe trabalhadora ainda se v\u00ea diante dos mesmos dilemas e dramas que impulsionaram os bolcheviques a constru\u00edrem a revolu\u00e7\u00e3o russa. 100 anos depois, a humanidade se encontra permeada pelo dilema socialismo ou barb\u00e1rie, e a ofensiva da direita mais reacion\u00e1ria com retiradas de direitos e ataques a conquistas hist\u00f3ricas da classe trabalhadora demonstram que n\u00e3o h\u00e1 caminho dentro da l\u00f3gica do capitalismo, que limita, em seu processo de crise, a possibilidade de a\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Mais do que nunca a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma bandeiras ou uma mem\u00f3ria, mas sim algo presente, atual e necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>*Membro do Comit\u00ea Central do PCB e Historiador<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16936\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,74],"tags":[222],"class_list":["post-16936","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c87-revolucao-russa","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4pa","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16936"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16936\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}