{"id":16953,"date":"2017-11-08T17:54:19","date_gmt":"2017-11-08T20:54:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16953"},"modified":"2017-11-08T17:54:19","modified_gmt":"2017-11-08T20:54:19","slug":"a-mulher-negra-e-o-trabalho-bracal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16953","title":{"rendered":"A Mulher Negra e o Trabalho Bra\u00e7al"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/graph.facebook.com\/1886642901663697\/picture\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Larissa Gouveia*<\/p>\n<p>A sociedade brasileira, desde a invas\u00e3o europeia juntamente com a coloniza\u00e7\u00e3o, carrega nas costas um longo processo de exterm\u00ednio ind\u00edgena e negro. Entretanto, \u00e9 essencial explicitar que quando falamos sobre exterm\u00ednio nos referimos a um projeto genocida que n\u00e3o tinha outro lugar, al\u00e9m da sarjeta, para a popula\u00e7\u00e3o que sofre racismo. A primeira classe trabalhadora no Brasil tinha cor e fazia parte de uma classe que historicamente teve direitos, que deveriam ser b\u00e1sicos, negados. Falaremos um pouco sobre o papel social que mulheres negras ocuparam socialmente e como a elas foi delegado o trabalho manual\/bra\u00e7al.<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 importante enfatizar que o sistema escravagista deliberou pap\u00e9is diferentes para a mulher que pertencia \u00e0 classe e \u00e0 cor diferentes. Em &#8221;Mulheres, Ra\u00e7a e Classe&#8221;, Angela Davis (2013) apresenta algumas quest\u00f5es referentes ao que denomina a cria\u00e7\u00e3o de bases para uma \u2018\u2019nova natureza feminina\u2019\u2019. O ideal de feminilidade, fragilidade e de maternidade n\u00e3o se encaixava em mulheres negras. Estas eram vistas apenas como trabalhadoras e procriadoras capazes de gestar e parir mais for\u00e7a de trabalho, vulgo propriedade, para o com\u00e9rcio de escravizados que sustentou esse sistema por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de trabalhadoras e procriadoras, elas tamb\u00e9m eram vistas como um peda\u00e7o de carne rent\u00e1vel que poderia e era explorado para satisfazer e, n\u00e3o raras vezes, introduzir sexualmente os filhos dos senhores de engenho, bem como trabalhando nas cidades como ganhadeiras**. Eram uma propriedade e ao seu propriet\u00e1rio era permitido fazer o que bem quisesse. Tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido citar um ditado popular que estereotipava o ideal feminino, determinando o papel social que cada mulher deveria ocupar. &#8220;Negra no fog\u00e3o, mulata na cama, branca no altar&#8221;.***<\/p>\n<p>Segundo Pereira (2011), ap\u00f3s a &#8221;liberta\u00e7\u00e3o&#8221;, a incorpora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra negra liberta no mundo do trabalho assalariado se deu majoritariamente pelo trabalho dom\u00e9stico, continuando a carregar caracter\u00edsticas pr\u00f3ximas \u00e0s ra\u00edzes estruturais do sistema escravista. A mulher negra permaneceu ocupando os cargos de limpeza, e outras fun\u00e7\u00f5es historicamente subalternizadas. Preenchendo a \u00faltima posi\u00e7\u00e3o da pir\u00e2mide social. \u2018\u2019Ela \u00e9 duplamente discriminada: enquanto mulher e enquanto negra. De acordo com o modelo oficial, cabem-lhe, fundamentalmente dois pap\u00e9is: o de empregada dom\u00e9stica e o de objeto sexual\u2019\u2019. (SAFFIOTI, 1987, p. 52)<\/p>\n<p>Em 2017, o Brasil lidera o ranking de pa\u00eds com mais empregados dom\u00e9sticos do mundo, com 7, 2 milh\u00f5es de trabalhadores empregados nesse cargo, e grande parte deles \u00e9 composta majoritariamente por mulheres (92%), em maioria, mulheres negras. Essa \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o de 5,9% das trabalhadoras brasileiras. Muitas delas s\u00e3o m\u00e3es, respons\u00e1veis pelo sustento do lar, e at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, legalmente sem direito a descanso em nenhum dia da semana, m\u00eas e ano. Tendo que se submeter ao trabalho sem carteira assinada, sem as garantias de direitos trabalhistas e, como mulher, ficando vulner\u00e1vel sem prote\u00e7\u00e3o em caso de gravidez.<\/p>\n<p>Em 2015, com a regulamenta\u00e7\u00e3o da PEC das dom\u00e9sticas, direitos b\u00e1sicos finalmente foram legalmente concedidos, como: intervalo de almo\u00e7o, pagamento de adicional noturno, redu\u00e7\u00e3o da carga hor\u00e1ria nos finais de semana e recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Servi\u00e7o (FGTS) das trabalhadoras. Ap\u00f3s os \u00faltimos golpes contra a classe trabalhadora, como a Reforma Trabalhista e a \u2018\u2019PEC da morte\u2019\u2019 (congelamento de gastos e privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos), observamos que a parcela da classe trabalhadora que continua sendo atingida mais duramente pelos golpes \u00e9 aquela que est\u00e1 na base.<\/p>\n<p>Sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, lazer, transporte p\u00fablico de qualidade, descanso e uma aposentadoria antes da morte, s\u00e3o premissas que a cada dia, com o acirramento da luta de classes, parecem distantes da realidade que vivenciamos. Sendo assim, lutar para sobreviver n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma senten\u00e7a que nossos (as) av\u00f3s, pais, filhos (as) e provavelmente netos (as) ir\u00e3o carregar. Se organizar lutando por uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria para quem produz \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda. \u00c0 esquerda, unificando com quem busca os mesmos ideais de nossa classe.<\/p>\n<p>*Pedagoga, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro.<br \/>\n**Segundo Chiavenato (2012), as escravizadas de ganho trabalhavam com o pequeno com\u00e9rcio e tamb\u00e9m eram prostitu\u00eddas nas cidades no inicio da adolesc\u00eancia. Davam a seus senhores uma quantia previamente estabelecida e o que excedesse o valor combinado era apropriado por ela.<br \/>\n*** Prov\u00e9rbio popular no s\u00e9culo XIX, memorizado no livro de Gilberto Freyre &#8221;Casa-Grande e Senzala&#8221;.<\/p>\n<p>Fontes:<br \/>\nCHIAVENATO, J. J. O negro no Brasil. S\u00e3o Paulo: Cortez Editora, 2012.<br \/>\nDAVIS, A. Mulheres, Ra\u00e7a e Classe. 1\u00aa publica\u00e7\u00e3o na Gr\u00e3 Bretanha pela The Women&#8217;s Press, Ltda. Em 1982. Tradu\u00e7\u00e3o Livre. Plataforma Gueto, 2013.<br \/>\nPEREIRA, B.P. De escravas a empregadas dom\u00e9sticas &#8211; A dimens\u00e3o social e o &#8220;lugar&#8221; das mulheres negras no p\u00f3s- aboli\u00e7\u00e3o. In: XXVI SIMP\u00d3SIO NACIONAL DE HIST\u00d3RIA \u2013 ANPUH:<br \/>\n50 ANOS, I, 2011, S\u00e3o Paulo.<br \/>\nSAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. S\u00e3o Paulo: Moderna, 1987.<\/p>\n<div class=\"fb-post\" data-href=\"https:\/\/www.facebook.com\/cfcam.alagoas\/posts\/1886642901663697\/\" data-width=\"552\" style=\"background-color: #fff; display: inline-block;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16953\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[22,180],"tags":[223],"class_list":["post-16953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-feminista","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4pr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}