{"id":1706,"date":"2011-07-29T04:16:10","date_gmt":"2011-07-29T04:16:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1706"},"modified":"2011-07-29T04:16:10","modified_gmt":"2011-07-29T04:16:10","slug":"a-historia-de-um-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1706","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA DE UM VALENTE"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"JUSTIFY\">Greg\u00f3rio come\u00e7a a autobiografia Mem\u00f3rias narrando a seca e a escassez de alimentos que maltratava constantemente os nordestinos, e que o atingiu duramente em sua inf\u00e2ncia no munic\u00edpio de Panelas, <em>&#8220;Fui, assim, uma crian\u00e7a gerada com fome no ventre materno. Sim, porque minha m\u00e3e passava fome, e eu s\u00f3 podia nutrir-me de suas entranhas enfraquecidas pela fome&#8221;.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando aos sete anos ficou \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e, transformou-se em trabalhador rural assalariado. Condi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 foi interrompida quando, aos dez anos, foi trazido por uma fam\u00edlia latifundi\u00e1ria para o Recife com a promessa de cri\u00e1-lo e alfabetiz\u00e1-lo, promessa que n\u00e3o foi cumprida. Ao inv\u00e9s da escola prometida, o pequeno &#8220;Grilo&#8221;, como era chamado na inf\u00e2ncia, tornou-se um escravo mirim: acordava \u00e0s 4h da manh\u00e3, varria, lavava banheiros, encerava pisos e cuidava de animais. N\u00e3o aceitou este estado de coisas e fugiu. Morou nas ruas do Recife pegando fretes na Esta\u00e7\u00e3o Central, vendendo jornais e dormindo embaixo da ponte Buarque de Macedo. Trabalhou na constru\u00e7\u00e3o civil e aos dezessete anos foi preso e condenado h\u00e1 quatro anos por agita\u00e7\u00e3o grevista, j\u00e1 influenciado pelos recentes acontecimentos protagonizados pelo proletariado russo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os trabalhos no porto do Recife foram sua atividade ap\u00f3s a liberdade. E neste per\u00edodo resolveu dedicar-se \u00e0 carreira militar, entrando no Exercito Brasileiro, onde se destacou nas atividades f\u00edsicas e na pr\u00e1tica de esportes individuais e coletivos. Ao ser humilhado por um colega de farda, ele decide alfabetizar-se. Isso, aos 27 anos. Alfabetizou-se por conta pr\u00f3pria, dedicou-se e foi aprovado para Sargento, consagrando-se Sargento-Instrutor em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sua ascens\u00e3o militar coincide com a aproxima\u00e7\u00e3o com o Partido Comunista Brasileiro, o PCB, ainda em 1929. Mas foi por causa da organiza\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Nacional Libertadora &#8211; ANL, onde foi o principal nome do levante de 1935, liderado pelo Partido Comunista, que Greg\u00f3rio Bezerra foi declarado inimigo n\u00ba 1 das oligarquias pernambucanas e das for\u00e7as armadas. Foi preso e ficou incomunic\u00e1vel por dois anos, integrando-se depois aos demais presos pol\u00edticos da Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife (atual Casa da Cultura). Ali, criou uma s\u00f3lida e influente base do Partido at\u00e9 sua transfer\u00eancia para o Pres\u00eddio na ilha de Fernando de Noronha, onde encontrou com v\u00e1rios camaradas insurretos, oriundos do Rio de Janeiro e de outros estados.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Com o final da Segunda Guerra Mundial e o in\u00edcio do movimento pela democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, s\u00e3o postos em liberdade todos os presos pol\u00edticos e concedida a legalidade ao PCB. Neste Pe-<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">r\u00edodo de reformas pol\u00edticas, o Partido Comunista surge no cen\u00e1rio nacional como uma for\u00e7a significativa, pelo prest\u00edgio da URSS ao fim da guerra. Pela ades\u00e3o de v\u00e1rios intelectuais e artistas ao Partido, pelo reconhecimento da classe oper\u00e1ria e pelo carisma e admira\u00e7\u00e3o em torno de Luiz Carlos Prestes e Greg\u00f3rio Bezerra. Em seguida, a participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es \u00e0 Constituinte de 1946 garante ao PCB uma grande representa\u00e7\u00e3o parlamentar em n\u00edvel federal, elegendo 15 deputados. Greg\u00f3rio \u00e9 eleito Deputado Federal com a maior vota\u00e7\u00e3o em Pernambuco.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A participa\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio Bezerra e dos comunistas na Assembl\u00e9ia Nacional Constituinte e no Congresso Nacional durou pouco. Apenas o suficiente para aprovar uma avan\u00e7ada Constitui\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca e o necess\u00e1rio para mostrar o qu\u00e3o fr\u00e1geis eram os conceitos de liberdade e democracia para as oligarquias nacionais, quando os trabalhadores reivindicam seus direitos e questionam a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Cassados os mandatos dos comunistas, Greg\u00f3rio \u00e9 v\u00edtima de uma grande farsa: ainda residindo no Rio de Janeiro, \u00e9 acusado pelo inc\u00eandio criminoso no 15\u00ba Regimento de Infantaria na Para\u00edba. Foi preso e levado \u00e0 Jo\u00e3o Pessoa, onde \u00e9 hostilizado pelos militares influenciados com aquela arma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ap\u00f3s um longo per\u00edodo incomunic\u00e1vel no 15\u00ba RI, foi transferido para o Recife e jamais poderia imaginar que os fogos que explodiam por toda a cidade eram parte da mobiliza\u00e7\u00e3o do PCB para saudar sua chegada.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No dia seguinte, em frente ao quartel da Companhia de Guardas da 7\u00aa Regi\u00e3o Militar se concentrou uma verdadeira multid\u00e3o para visit\u00e1-lo. Prevenido pelo comandante respons\u00e1vel por sua guarda que s\u00f3 poderiam visit\u00e1-lo os parentes, Greg\u00f3rio disse: <em>Mas todos os que est\u00e3o a\u00ed fora, tenente, s\u00e3o da minha fam\u00edlia<\/em>. Ele retrucou: <em>Imposs\u00edvel, Greg\u00f3rio. Tem gente a\u00ed fora de todos os tipos: tem gente bem vestida, branca, mas tamb\u00e9m tem pretinhos descal\u00e7os e esfarrapados.<\/em> Ent\u00e3o ele arremata: <em>\u201cPois bem, mande entrar primeiro os pretinhos esfarrapados, que s\u00e3o os meus parentes mais pr\u00f3ximos (&#8230;)\u201d <\/em>O comandante sorriu, e disse: <em>\u201c\u00c9 por isso que tu est\u00e1s aqui, Greg\u00f3rio&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ap\u00f3s um longo per\u00edodo de dura clandestinidade organizando sindicatos rurais em Pernambuco, S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Paran\u00e1, ressurge para atuar na articula\u00e7\u00e3o da Frente do Recife, que elege primeiro Cid Sampaio e depois Miguel Arraes. A atua\u00e7\u00e3o mais expressiva do homem feito de ferro e flor \u00e9 registrada neste per\u00edodo. Gozava de grande prest\u00edgio na zona da Mata Sul, reunindo centenas de delegados sindicais filiados ao Partido Comunista.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em 30 de mar\u00e7o de 1964, retorna ao Recife para oferecer resist\u00eancia ao golpe em andamento e solicitar armas para munir os trabalhadores. Encontrou o Pal\u00e1cio do Campo das Princesas ocupado pelos militares. Tal epis\u00f3dio mereceu um coment\u00e1rio posterior: <em>em 1935 t\u00ednhamos as armas e n\u00e3o t\u00ednhamos os homens, e agora temos os homens e faltam-nos as armas. <\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Foi capturado no dia 2 de abril pelo 20\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores nas proximidades do munic\u00edpio de Cortez enquanto tentava desmobilizar os camponeses desarmados. Levado ao Quartel de Moto mecaniza\u00e7\u00e3o de Casa Forte, sob os \u201ccuidados\u201d do sanguin\u00e1rio coronel Villoc que, com golpes de cano de ferro, pontap\u00e9s na boca, t\u00f3rax e test\u00edculos, e o \u00f3dio de anos fora descarregado. <em>\u201cJ\u00e1 estava totalmente ensopado de sangue e com todos os dentes quebrados. Sentaram-me numa cadeira com tr\u00eas homens me segurando por tr\u00e1s enquanto Villoc arrancava meus cabelos com um alicate. Depois, obrigaram-me a pisar numa po\u00e7a de \u00e1cido de bateria. Em pouco tempo, estava com a sola dos p\u00e9s em carne viva.\u201d <\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O espet\u00e1culo de horrores promovido pelo s\u00e1dico Villoc precisava de plat\u00e9ia. Ent\u00e3o, sa\u00edram \u00e0s ruas. A sola dos p\u00e9s estava repleta de pedregulhos encravados, uma corda no pesco\u00e7o amarrada ao jipe que carregava o verdugo gritando \u201cLinchem este bandido! \u00c9 um monstro!\u201d E assim percorremos as principais ruas do bairro de Casa Forte sob uma dor alucinante. Foi um desfile doloroso. Ningu\u00e9m o aplaudiu. Ningu\u00e9m o atendeu. \u201c<em>Mas eu queria viver<\/em>.\u201d A atitude das pessoas deu for\u00e7as para resistir f\u00edsica e moralmente. Greg\u00f3rio Bezerra foi salvo pelo clamor do povo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No in\u00edcio de setembro de 1969, o mundo foi surpreendido pela not\u00edcia do seq\u00fcestro do Embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Em troca do Embaixador, os sequestradores exigiram a liberta\u00e7\u00e3o de 15 l\u00edderes revolucion\u00e1rios. Greg\u00f3rio era o primeiro da lista. Na URSS, ele tentou, com o luxuoso aux\u00edlio dos m\u00e9dicos sovi\u00e9ticos, recuperar a sa\u00fade debilitada, at\u00e9 poder retornar novamente ao Brasil.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Morreu no dia 23 de outubro de 1983, na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Seu corpo foi trazido para Pernambuco e velado na Assembl\u00e9ia Legislativa. O cortejo f\u00fanebre atraiu milhares de militantes e curiosos. No caminho, um trabalhador do servi\u00e7o de limpeza da Prefeitura do Recife saudou pela \u00faltima vez o l\u00edder comunista de esp\u00edrito inquebrant\u00e1vel. Paulo Cavalcanti recriou bem o ambiente desta \u00faltima homenagem a este lutador no livro <em>O Caso eu conto como o caso foi: \u201c<\/em>Uma toalha vermelha foi hasteada na sacada de um apartamento residencial, e outra faixa reproduzia os versos da m\u00fasica cantada por Elis Regina: choram Marias e Clarices no solo do Brasil\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>* Membros do PCB em Pernambuco<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Carlos Latuff\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Luciano Morais e Roberto Numeriano*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1706\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-rw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}