{"id":17108,"date":"2017-11-10T17:09:07","date_gmt":"2017-11-10T20:09:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17108"},"modified":"2017-11-10T17:09:07","modified_gmt":"2017-11-10T20:09:07","slug":"israel-palestina-entrevista-com-avi-shlaim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17108","title":{"rendered":"Israel-Palestina: Entrevista com Avi Shlaim"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/entrev-avi-shlaim-620x400.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>Avi Shlaim \u00e9 professor em\u00e9rito de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Oxford e membro da Academia Brit\u00e2nica. Um dos principais \u201cnovos historiadores\u201d de Israel, \u00e9 autor, entre outras obras, de Collusion across the Jordan: King Abdullah, the Zionist Movement, and the Partition of Palestine (1988) e The Iron Wall: Israel and the Arab World (2000). Cr\u00edtico declarado de Israel e suas pol\u00edtica e apesar de reconhecer a \u201cgrande injusti\u00e7a\u201d que sofreram os palestinos em 1948, Shlaim insiste na exist\u00eancia de distin\u00e7\u00f5es fundamentais entre Israel antes e depois de 1967. Nesta ampla entrevista ao Jadaliyya, fala dos novos historiadores de Israel, seu atual apoio a uma solu\u00e7\u00e3o de um Estado para o conflito palestino israelense, sua heran\u00e7a iraquiana e sua problem\u00e1tica rela\u00e7\u00e3o com o Estado de Israel do qual continua sendo cidad\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Jadaliyya (J): Como voc\u00ea caracterizaria os novos historiadores de Israel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Avi Shlaim (AS)<\/strong>: A \u201cNova hist\u00f3ria\u201d \u00e9 um termo cunhado por Benny Morris. \u00c9 um pouco autocomplacente, porque implica que tudo o que passou antes \u00e9 hist\u00f3ria antiga. Por\u00e9m, como qualquer r\u00f3tulo, \u00e9 bastante \u00fatil para distinguir uma tend\u00eancia na historiografia israelense. A tend\u00eancia, ou o grupo de Novos Historiadores, incluem Benny Morris, Illan Papp\u00e9 e eu. N\u00f3s tr\u00eas publicamos livros em 1988, no quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e montamos um ataque frontal contra os mitos que chegaram a rodear o estabelecimento de Israel e a primeira guerra \u00e1rabe-israelense. Passaram a nos chamar de historiadores revisionistas ou novos israelenses porque desafiamos a vers\u00e3o sionista padr\u00e3o do conflito e atribu\u00edmos um grau muito maior de responsabilidade a Israel por causar, intensificar e perpetuar o conflito. Algo que diria sobre o termo \u201cNova hist\u00f3ria\u201d \u00e9 que chama aten\u00e7\u00e3o sobre o fato de que a maior parte do que ocorreu antes era uma vers\u00e3o nacionalista da hist\u00f3ria. A nossa era uma vers\u00e3o mais acad\u00eamica da hist\u00f3ria, baseada na investiga\u00e7\u00e3o de arquivos.<\/p>\n<p>A maioria das na\u00e7\u00f5es reescreveu sua hist\u00f3ria, por\u00e9m as vers\u00f5es nacionalistas da hist\u00f3ria t\u00eam algo em comum onde quer que estejam. Seus sinais de identidade s\u00e3o o que eu chamo os quatro S (segundo as palavras em ingl\u00eas. N. do T.): simplista, seletiva, auto-justificada e ego\u00edsta. O fil\u00f3sofo judeu de Oxford, Isaiah Berlin gostava de dizer que os judeus s\u00e3o como qualquer outra pessoa e, da mesma maneira, a hist\u00f3ria sionista \u00e9 como qualquer outra vers\u00e3o nacionalista da hist\u00f3ria e mais ainda. Assim, a principal contribui\u00e7\u00e3o da Nova hist\u00f3ria de Israel tem sido desafiar os preju\u00edzos nacionalistas da historiografia sionista tradicional do conflito.<\/p>\n<p><strong>J: Inicialmente houve um impacto: os livros de textos escolares israelenses foram reescritos para jogar luz sobre uma narra\u00e7\u00e3o que tinha sido suprimida, por\u00e9m os planos de estudo foram reescritos mais uma vez durante o Governo de Sharon, de 2001-2005. Os novos historiadores tamb\u00e9m foram denunciados virulentamente dentro de Israel. Voc\u00ea diria, todav\u00eda, que s\u00e3o importantes em Israel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: A hist\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 escrita no vazio, mas em um contexto pol\u00edtico particular. O contexto no qual surgiu a Nova hist\u00f3ria, em fins da d\u00e9cada de 1980, foi a sequela da Guerra do L\u00edbano, de 1982. Esta tinha sido uma guerra por escolha no sentido de que n\u00e3o existia amea\u00e7a para a seguran\u00e7a de Israel, por\u00e9m o Governo de Menachem Begin, no entanto, decidiu invadir o L\u00edbano por raz\u00f5es geopol\u00edticas. Foi uma guerra muito controversa em Israel, terminou em l\u00e1grimas, terminou em desastre, terminou nos massacres de Sabra e Chatila e n\u00e3o alcan\u00e7ou nenhum de seus objetivos. A cr\u00edtica come\u00e7ou durante a guerra e, como tal, foi a primeira guerra israelense na qual houve desacordo enquanto a guerra estava em curso.<\/p>\n<p>A controv\u00e9rsia em torno da Guerra do L\u00edbano criou um espa\u00e7o no qual os Novos historiadores poderiam ter um impacto, porque o que diz\u00edamos era que a guerra do L\u00edbano n\u00e3o era a \u00fanica, contrariamente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que todas as guerras de Israel eram de car\u00e1ter defensivo. Isto nos permitiu ir mais atr\u00e1s na hist\u00f3ria de Israel e olhar as outras guerras. A Guerra do Sinai, de 1956, tamb\u00e9m foi uma guerra de escolha, j\u00e1 que n\u00e3o existia uma amea\u00e7a eg\u00edpcia \u00e0 seguran\u00e7a de Israel esse ano. Contudo, era uma conspira\u00e7\u00e3o colonial entre Israel, Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a para atacar o Egito e derrubar seu l\u00edder, Gamal Abdel-Nasser. Ent\u00e3o, o clima em Israel era receptivo a ideias novas e cr\u00edticas sobre o passado e isso nos ajudou.<\/p>\n<p>Posteriormente, os Acordos de Oslo entre Israel e a Organiza\u00e7\u00e3o pela Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) foram assinados, em 1993, e com isto os palestinos deixaram de ser um inimigo absoluto e irreconcili\u00e1vel. Os israelenses se deram conta de que a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, que a culpa n\u00e3o era s\u00f3 do lado palestino, que Israel tamb\u00e9m tinha a culpa e que havia um caminho adiante, uma forma de reconciliar as duas partes no conflito. Assim, os primeiros anos de Oslo deram um novo impulso \u00e0 Nova hist\u00f3ria e teve um impacto.<\/p>\n<p>Uma das conquistas mais significativos da Nova hist\u00f3ria foi a reescrita dos livros de texto da hist\u00f3ria de Israel para as escolas secund\u00e1rias. Em particular, as descobertas de Benny Morris de que Israel foi em grande parte respons\u00e1vel pelo \u00eaxodo palestino se incorporaram nos novos livros de texto. Isto n\u00e3o quer dizer que a vers\u00e3o anterior da guerra de 1948 tenha sido deixada de lado e substitu\u00edda pela nossa vers\u00e3o. Ou seja, que ocorreu uma maior abertura e os novos livros de textos foram entregues aos escolares de Israel: imagine o que tenha sido ser um menino \u00e1rabe em meio a esta guerra. Portanto, despertou d\u00favidas nas mentes israelenses sobre as vers\u00f5es antigas de que os \u00e1rabes se foram por vontade pr\u00f3pria e porque receberam ordens de cima e que Israel n\u00e3o era de nenhuma maneira respons\u00e1vel pelo problema dos refugiados palestinos. Assim, durante dez ou doze anos depois de aparecerem nossos livros, est\u00e1vamos fazendo progressos constantes e ganhando uma maior legitimidade.<\/p>\n<p>Algumas de nossas ideias se infiltraram na corrente principal intelectual, particularmente a ideia de que Israel era respons\u00e1vel pelo problema dos refugiados. Alguns de meus amigos me disseram: \u201cVoc\u00ea costumava ser um jovem turco, por\u00e9m se converteu em um velho imbecil porque agora \u00e9 oficialista\u201d. Nunca aceitei porque nunca me uni \u00e0 corrente intelectual. E, em qualquer caso, a aceita\u00e7\u00e3o de nosso trabalho foi muito ef\u00eamera. Isto se deve a que o seguinte evento significativo na hist\u00f3ria de Israel foi o estouro da Segunda Intifada, em setembro de 2000. Devido \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o da Segunda Intifada, a viol\u00eancia e mais especialmente os atentados suicidas que tiveram um efeito psicol\u00f3gico muito inquietante sobre os israelenses, o clima em Israel mudou completamente. Tornou-se muito mais hostil \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica como a nossa.<\/p>\n<p>Assim como a d\u00e9cada de Oslo nos ajudou, o estouro da Segundo Intifada levou a um movimento contra n\u00f3s. Os israelenses voltaram a posi\u00e7\u00f5es muito fundamentalistas: estamos corretos e voc\u00eas est\u00e3o equivocados. Esse \u00e9 o come\u00e7o do decl\u00ednio da influ\u00eancia da Nova hist\u00f3ria em Israel.<\/p>\n<p><strong>J: E esta diminui\u00e7\u00e3o continuou no clima de direita que existe atualmente. O que resta dos novos historiadores \u00e0 luz da convers\u00e3o de Benny Morris e dos ataques a este grupo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: O decl\u00ednio continua at\u00e9 o ponto de que o grupo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um grupo e o termo Nova hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o tem sentido no contexto israelense. Um indicador desta tend\u00eancia que se afasta da nova hist\u00f3ria e regressa \u00e0 hist\u00f3ria antiga \u00e9 a convers\u00e3o de Benny Morris. Depois da eclos\u00e3o da Segunda Intifada, Benny Morris se desviou para a extrema direita e revisou radicalmente seus pontos de vista sobre o conflito palestino-israelense, concluindo que s\u00f3 os palestinos s\u00e3o respons\u00e1veis. Disse que os palestinos s\u00e3o mentirosos e que Arafat era um mentiroso inveterado, e por disso n\u00e3o podia confiar em nada que ele dissesse. Tamb\u00e9m disse que para os palestinos a assinatura do acordo de Oslo era s\u00f3 parte de sua teoria das etapas de desmantelamento gradual de Israel e que, portanto, era um erro. Concluiu que s\u00f3 existem duas possibilidades: ou os palestinos nos expulsam ou expulsamos os palestinos, e que n\u00e3o existe distin\u00e7\u00e3o entre Israel e os territ\u00f3rios ocupados porque os palestinos querem tudo. Assim, Morris voltou-se para uma vis\u00e3o extremamente cruel, direitista e bipolar deste conflito como um conflito existencial, sem espa\u00e7o para uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Morris \u00e9 medianamente interessante porque reflete a tend\u00eancia da sociedade israelense, desde o estouro da Segunda Intifada, \u00e0 direita, de culpar os palestinos, demoniza-los e, tamb\u00e9m, uma mudan\u00e7a para um racismo cada vez mais aberto. Em <a href=\"http:\/\/www.webcitation.org\/5pvy2Rvfw?url=http:\/\/www.counterpunch.org\/shavit01162004.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma entrevista no Ha\u2019aretz, em 2004<\/a>, Morris disse que os palestinos s\u00e3o como animais e que deveriam ser colocados em uma esp\u00e9cie de jaula.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, Illan Papp\u00e9 e eu nos distanciamos por completo dele e de seus pontos de vista de direita, de suas cru\u00e9is opini\u00f5es sobre o conflito e, sobretudo, de seu racismo. Benny Morris <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2002\/feb\/21\/israel2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveru um artigo no <em>The Guardian<\/em><\/a> com seus novos pontos de vista, para os quais n\u00e3o tinha um pingo de evid\u00eancia, e eu escrevi uma resposta no dia seguinte sob o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2002\/feb\/22\/israel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Betrayal of History<\/a> (Uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria, N. do T.). Assinalei neste artigo que Morris costumava ser um historiador positivista, que s\u00f3 transitava por registros escritos, por\u00e9m, aqui neste artigo, n\u00e3o estipulou nenhuma evid\u00eancia para suas afirma\u00e7\u00f5es. Por exemplo, afirmou que a verdade n\u00e3o \u00e9 um valor no Isl\u00e3, pelo que os mu\u00e7ulmanos nunca dizem a verdade. Tamb\u00e9m disse que a paz com a S\u00edria \u00e9 imposs\u00edvel porque n\u00e3o poderia imaginar Hafez al-Assad em seu leito de norte dizendo a seu filho que fa\u00e7a as pazes com os judeus, porque eles s\u00e3o como os cruzados da Idade M\u00e9dia, simplesmente desaparecer\u00e3o. Gostaria que Morris, o historiador emp\u00edrico, nos desse algumas provas concretas da intransig\u00eancia s\u00edria, por\u00e9m n\u00e3o existe nenhuma porque \u00e9 Israel quem sempre foi intransigente, n\u00e3o os s\u00edrios.<\/p>\n<p>Assim, tem raz\u00e3o no fato de que a nova hist\u00f3ria diminuiu sua influ\u00eancia. Al\u00e9m disso, o grupo original j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um grupo: existem divis\u00f5es profundas entre Benny Morris de um lado, que representa a hist\u00f3ria antiga com uma revanche, e por outro lado, estamos Illan Papp\u00e9 e eu.<\/p>\n<p><strong>J: Mencionou a esquerda de passagem. O que resta da esquerda israelense? Com o tremendo decl\u00ednio de sua influ\u00eancia nos \u00faltimos anos v\u00ea grupos orientados \u00e0 esquerda ganhando terreno no futuro pr\u00f3ximo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: Muito pouco resta da esquerda em Israel. O Partido Trabalhista de Rabin costumava representar um enfoque do conflito que era diferente ao do Likud; o Partido Trabalhista defendeu o compromisso territorial, enquanto o Likud \u00e9 um partido ideol\u00f3gico, que representava a Grande Israel, toda a terra de Israel. Ent\u00e3o, havia uma diferen\u00e7a entre os dois principais partidos, por\u00e9m agora se tornou borrada. O ponto cr\u00edtico do obscurecimento desta divis\u00e3o \u00e9 a reuni\u00e3o de Camp David de julho de 2000. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1999, o primeiro ministro Ehud Barak derrotou Benjam\u00edn Netanyahu, apresentando-se como um disc\u00edpulo de Yitzhak Rabin, que queria retomar o caminho de Oslo para a paz. A reuni\u00e3o em Camp David foi o momento da crise por conta de seu fracasso. A principal responsabilidade de seu fracasso recaiu sobre Ehud Barak. Bill Clinton tamb\u00e9m tem uma parte da responsabilidade porque n\u00e3o atuou como um intermedi\u00e1rio honesto, mas como um amigo e aliado de Israel. Assim, Arafat se negou a assinar a linha de pontos e a reuni\u00e3o colapsou.<\/p>\n<p>Clinton havia prometido a Arafat que se a reuni\u00e3o fracassasse n\u00e3o ocorreram acusa\u00e7\u00f5es, por\u00e9m t\u00e3o logo falhou, apontou o dedo a Arafat e Ehud Barak tamb\u00e9m culpou Arafat pelo fracasso. Barak regressou a sua casa e lhe ocorreu a afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existe um parceiro palestino para a paz. Este foi o erro tr\u00e1gico e teve um impacto real na pol\u00edtica israelense, porque se n\u00e3o existe um parceiro palestino para a paz, ent\u00e3o as negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o in\u00fateis e sem esperan\u00e7a. Se n\u00e3o existe um parceiro palestino para a paz, os israelenses n\u00e3o precisam votar por um partido como o trabalhista, que acredita nas negocia\u00e7\u00f5es. E em lugar de um l\u00edder moderado, um homem de compromisso, buscaram algu\u00e9m forte, que seja bom para matar \u00e1rabes. Ariel Sharon era o l\u00edder do Likud e tinha um hist\u00f3rico impressionante de matar \u00e1rabes e cometer crimes de guerra, e o p\u00fablico israelense votou no l\u00edder forte porque a maioria dos israelenses, esquerda, direita e centro, acreditavam neste mito de que n\u00e3o existe um parceiro palestino para a paz. Assim, Barak fez o pior servi\u00e7o a seu pr\u00f3prio partido ao propagar este mito da intransig\u00eancia palestina. E ao faz\u00ea-lo, tamb\u00e9m destruiu todo o campo da paz, Paz Agora. Ocorreu uma vit\u00f3ria do Likud em 2001 e seja este ou um descendente seu, Kadima, que tamb\u00e9m \u00e9 um partido de direita, esteve no poder desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, o Partido Trabalhista \u00e9 uma sombra do que era e j\u00e1 n\u00e3o representa uma alternativa clara ao Likud. Converteu-se em um partido nacionalista e mudou seu nome de Partido Trabalhista para Uni\u00e3o Sionista, que diz tudo. Ent\u00e3o, \u00e9 um partido sionista que acredita na terra de Israel, que Jerusal\u00e9m \u00e9 a capital unificada e eterna do povo judeu, e que Israel deve manter todos os principais blocos de col\u00f4nias na Cisjord\u00e2nia como uma totalidade. Portanto, n\u00e3o \u00e9 um partido moderado, n\u00e3o \u00e9 um partido socialista, n\u00e3o \u00e9 um partido de esquerda, \u00e9 um tipo h\u00edbrido de centro-esquerda sem uma ideologia coerente e sem uma alternativa clara \u00e0s pol\u00edticas do Likud. \u00c9 por isso que foi t\u00e3o mal nas elei\u00e7\u00f5es sucessivas. Tamb\u00e9m existem outras raz\u00f5es demogr\u00e1ficas de longo alcance para sua decad\u00eancia.<\/p>\n<p>A velha gera\u00e7\u00e3o de imigrantes europeus costuma apoiar o Partido Trabalhista, por\u00e9m o panorama pol\u00edtico mudou e os jovens israelenses n\u00e3o votam pelo trabalhismo porque qualquer pessoa menor de 50 anos nasceu depois da ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que para eles a ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a ordem natural das coisas e um partido que quer terminar com a ocupa\u00e7\u00e3o realmente n\u00e3o significa nada para eles. Outro fator \u00e9 a crescente propor\u00e7\u00e3o de judeus orientais em rela\u00e7\u00e3o aos judeus asquenazes em Israel. Por diversas raz\u00f5es, os judeus orientais tendem a ser mais intransigentes que os judeus asquenazes. Existe outro fator que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o: existe uma correla\u00e7\u00e3o direta entre o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o e as consci\u00eancias que buscam a paz. Muitos dos partid\u00e1rios do Likud e dos partidos de extrema direita n\u00e3o s\u00e3o bem educados e t\u00eam uma vis\u00e3o de mundo em preto e branco. Um \u00faltimo fator de longo prazo \u00e9 o aumento do n\u00famero de judeus ortodoxos em Israel. Os judeus ortodoxos n\u00e3o leem Nova hist\u00f3ria, t\u00eam sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a B\u00edblia, e simplesmente n\u00e3o est\u00e3o interessados nos resultados da investiga\u00e7\u00e3o de arquivos, al\u00e9m de votarem nos partidos da direita. Neste contexto, o apoio ao Partido Trabalhista foi diminuindo e n\u00e3o vejo nenhuma possibilidade de que regresse ao poder.<\/p>\n<p><strong>J: Quanto a sua rela\u00e7\u00e3o pessoal com Israel, diz que serviu no ex\u00e9rcito israelense \u201corgulhosa e lealmente\u201d, por\u00e9m tamb\u00e9m esteve na Inglaterra durante muitos anos e \u00e9 cidad\u00e3o do Reino Unido. Como descreveria sua rela\u00e7\u00e3o com Israel? Todavia \u00e9 cidad\u00e3o israelense?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: Tenho dupla nacionalidade, israelense e brit\u00e2nica. Quando vou a Israel, entro com meu passaporte israelense e a qualquer outro lugar que vou, uso meu passaporte brit\u00e2nico. Ent\u00e3o, essa pergunta \u00e9 f\u00e1cil de responder. Por\u00e9m, minha atitude para com Israel \u00e9 mais complexa e n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, mas mut\u00e1vel. Ela evoluiu gradualmente. Cresci em Israel, minha fam\u00edlia se mudou para Israel quando eu tinha cinco anos, fui \u00e0 escola em Israel, servi no ex\u00e9rcito israelense, por\u00e9m isso foi em meados da d\u00e9cada de 1960. Quando eclodiu a Guerra dos Seis Dias (1967), eu era um estudante do primeiro ano de Hist\u00f3ria em Cambridge e me ofereci como volunt\u00e1rio para voltar e lutar por meu pa\u00eds, mas a guerra terminou em seis dias e integralizei meu curso de Hist\u00f3ria em Cambridge. Por\u00e9m, minha atitude para com Israel come\u00e7ou a mudar depois da Guerra dos Seis Dias muito gradualmente. Me tornei mais cr\u00edtico com Israel e uma raz\u00e3o pessoas para meu desencanto \u00e9 que tinha servido no ex\u00e9rcito muito feliz e lealmente, porque na minha \u00e9poca era fiel a seu nome: era a For\u00e7a de Defesa de Israel e s\u00f3 enfrent\u00e1vamos ex\u00e9rcitos regulares do mundo \u00e1rabe. Acreditei na ideia e tamb\u00e9m que est\u00e1vamos rodeados de inimigos. Por\u00e9m, como resultado da vit\u00f3ria de junho de 1967, Israel se converteu em uma pot\u00eancia colonial, uma pot\u00eancia imperial e as FDI se converteram na brutal for\u00e7a policial de um brutal poder colonial. Assim, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 meu ex\u00e9rcito e o esp\u00edrito da ideia mudou catastroficamente a partir de minha \u00e9poca. Fomos criados com a ideia do <em>Tohar Ha Neshek<\/em> \u2013 a pureza das armas \u2013 segundo o qual n\u00e3o us\u00e1vamos armas contra civis e apenas para fins de defesa. Bom, esta n\u00e3o a do ex\u00e9rcito atual, que comete crimes de guerra de maneira sistem\u00e1tica, que cometeu crimes de guerra em cada um dos \u00faltimos tr\u00eas assaltos na Faixa de Gaza e \u00e9 dirigido contra civis. Assim, estou completamente desencantado com a forma com que o ex\u00e9rcito se desenvolveu. Converteu-se em um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o. Quanto ao resto da sociedade israelense, esteve se movendo constantemente para a direita. Dessa forma, me desencantei com Israel enquanto Estado-na\u00e7\u00e3o devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>J: Visita Israel muitas vezes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: N\u00e3o, devido a minhas reservas pol\u00edticas sobre o pa\u00eds. Simplesmente n\u00e3o gosto da pol\u00edtica, da pol\u00edtica de direita, do chauvinismo e do crescente racismo p\u00fablico israelense. N\u00e3o vou muito seguidamente, por\u00e9m vou. Minha m\u00e3e tem 92 anos, vive em Israel e vou visita-la. Existe outro fator em resposta a sua pergunta sobre minha atitude para com Israel e \u00e9 o fato de que sou um judeu oriental. Nasci em Bagd\u00e1 em 1945 e em 1950 minha fam\u00edlia se mudou para Israel. Agora, estou escrevendo uma mem\u00f3ria sobre meus primeiros anos. N\u00e3o \u00e9 uma autobiografia, mas uma hist\u00f3ria de minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9ramos judeus \u00e1rabes. Sei que o termo n\u00e3o \u00e9 popular em Israel, por\u00e9m isso \u00e9 o que \u00e9ramos. Fal\u00e1vamos \u00e1rabe em casa, a m\u00fasica de meus pais era m\u00fasica \u00e1rabe. Tivemos uma vida feliz no Iraque, sem problemas e isto se produz em um contexto de uma longa hist\u00f3ria de harmonia entre mu\u00e7ulmanos e judeus. O antissemitismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno \u00e1rabe. O antissemitismo \u00e9 um fen\u00f4meno europeu. O sionismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno oriental, \u00e9 um fen\u00f4meno europeu, \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o ao problema dos judeus na Europa. Minha fam\u00edlia n\u00e3o tinha problemas para viver no Iraque e n\u00e3o simpatizava com o sionismo. Por\u00e9m, devido ao contexto pol\u00edtico e devido ao choque pol\u00edtico entre o nacionalismo \u00e1rabe e o sionismo, as vidas dos judeus no Iraque se tornaram quase imposs\u00edveis e houve um grande \u00eaxodo de 100.000 judeus do Iraque para Israel em 1950 e formamos parte dele.<\/p>\n<p>Digo tudo isto porque as principais v\u00edtimas do movimento sionista s\u00e3o os palestinos. Por\u00e9m, ao analisar a hist\u00f3ria de minha fam\u00edlia, me dou conta de que existem outras v\u00edtimas do sionismo: os judeus das terras \u00e1rabes. Havia uma comunidade judia no Iraque que esteve ali durante dois mil\u00eanios e meio e n\u00e3o queria ir embora. \u00c9 s\u00f3 com o surgimento do nacionalismo no s\u00e9culo XX que a coexist\u00eancia pac\u00edfica j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel. Ent\u00e3o, minha atitude para com Israel tamb\u00e9m est\u00e1 influenciada por minha forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>J: Teve contato com outros iraquianos ou tentou voltar para junto de sua fam\u00edlia em Bagd\u00e1 antes de 1950?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: N\u00e3o, eu n\u00e3o. Quando me encontro casualmente com judeus iraquianos, sempre falam com grande nostalgia da vida no Iraque. Minhas duas av\u00f3s, que vieram conosco para Israel, mas que nunca aprenderam o hebreu, costumavam falar do Iraque como <em>Jannat Allah<\/em>, o para\u00edso de Deus. Nunca colocaram seus p\u00e9s no novo Estado. Meu pai tinha 50 anos quando chegamos a Israel. Era um homem muito rico, por\u00e9m perdeu todo seu dinheiro e lutou com o hebreu. Nunca se adaptou ao novo lugar. O impacto foi demasiado grande para ele. Era um homem quebrado. Costumava dizer com um suspiro, os judeus rezaram em v\u00e3o por um Estado durante dois mil anos: por que teve que acontecer isto em minha vida?<\/p>\n<p>Podia ter visitado o Iraque depois da guerra de 2003, por\u00e9m n\u00e3o quis chegar ao Iraque sob a ocupa\u00e7\u00e3o anglo-estadunidense. Por isso, por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, n\u00e3o voltei. Por\u00e9m, estou orgulhoso de minha heran\u00e7a iraquiana, me orgulha definir-me como um judeu \u00e1rabe e a piada aqui no Middle East Center, em St. Antony\u2019s College, de Oxford, era que at\u00e9 que chegar Tariq Ramadan e se converter em um companheiro, eu era o \u00fanico \u00e1rabe entre os companheiros, porque era iraquiano.<\/p>\n<p><strong>J: Passando a temas mais contempor\u00e2neos, voc\u00ea afirmou em um artigo publicado no <em>The Guardian<\/em> em princ\u00edpios deste ano que \u201cObama foi o presidente mais pr\u00f3-Israel desde Truman\u201d. Voltaria a avaliar isto agora, \u00e0 luz da presid\u00eancia de Donald Trump e suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sobre Israel\/Palestina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: Os Estados Unidos t\u00eam uma grande parte da responsabilidade do estancamento diplom\u00e1tico dos \u00faltimos cinquenta anos entre Israel e os palestinos, porque ap\u00f3s a guerra de 1967, os Estados Unidos adotaram um monop\u00f3lio sobre a diplomacia que rodeia o conflito \u00e1rabe-israelense. As Na\u00e7\u00f5es Unidas deveriam ter abordado este conflito porque \u00e9 um conflito internacional. Por\u00e9m, os Estados Unidos assumiram ou usurparam um monop\u00f3lio que n\u00e3o era seu e exclu\u00edram todos os demais jogadores durante a Guerra Fria e depois dela. Todavia, excluiu a R\u00fassia, a ONU e a UE. Por\u00e9m, n\u00e3o conseguiu trazer a paz.<\/p>\n<p>O processo de paz patrocinado pelos Estados Unidos, que come\u00e7aram em 1991, depois da Guerra do Golfo, \u00e9 s\u00f3 um processo e n\u00e3o existe paz. \u00c9 uma farsa. \u00c9 simula\u00e7\u00e3o. \u00c9 pior que uma farsa porque o processo de paz d\u00e1 a Israel a cobertura que necessita para continuar seu agressivo projeto colonial na Cisjord\u00e2nia. E o problema com o apoio estadunidense a Israel \u00e9 que \u00e9 incondicional, ent\u00e3o os Estados Unidos d\u00e3o dinheiro a Israel, d\u00e3o armas a Israel e d\u00e3o conselhos a Israel. Israel recebe o dinheiro, recebe as armas e repudia o conselho.<\/p>\n<p>Israel n\u00e3o paga nenhum pre\u00e7o por seu desafio aos Estados Unidos. Agora, Obama sabe mais sobre a hist\u00f3ria palestina que que qualquer outro presidente estadunidense, pronunciou o discurso no Cairo, em 2009, no qual prometeu somente seu apoio ao Estado palestino. Prometeu, por\u00e9m n\u00e3o cumpriu. Obama foi muito bom para falar, mas n\u00e3o conseguiu nada. Nunca usou a influ\u00eancia econ\u00f4mica sobre Israel para empurra-lo a um acordo com os palestinos. Durante seus oito anos no cargo, Obama aumentou constantemente a ajuda militar e econ\u00f4mica estadunidense a Israel e, oportunamente, para sua despedida, decretou um pacote de ajuda de 38 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para os pr\u00f3ximos dez anos. Ent\u00e3o, Obama n\u00e3o tem conquistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o do conflito israelense-palestino, por\u00e9m ao menos tentou. Identificou a expans\u00e3o das col\u00f4nias, como o principal problema e enfrentou Netanyahu tr\u00eas vezes sobre este tema, por\u00e9m cada vez retrocedeu. Netanyahu fez sua vontade; continuou com a expans\u00e3o das col\u00f4nias e continuou recebendo a ajuda estadunidense.<\/p>\n<p>Com Trump, ocorreu uma mudan\u00e7a importante na pol\u00edtica estadunidense para o conflito, porque n\u00e3o existe a pretens\u00e3o de imparcialidade. Obama tentou fingir que era imparcial, por\u00e9m Trump \u00e9 p\u00fablica e abertamente unilateral pr\u00f3-israelense. As pessoas em que Trump confia s\u00e3o sionistas. Seu principal assessor em Israel-Palestina \u00e9 seu genro, judeu ortodoxo, Jared Kushner, que n\u00e3o tem nenhuma experi\u00eancia em assuntos governamentais ou p\u00fablicos. A fam\u00edlia de Kushner apoia as col\u00f4nias da direita na Cisjord\u00e2nia. O embaixador de Trump em Israel \u00e9 David Friedman, seu advogado, especializado em bancarrotas, que \u00e9 um sionista de extrema direita, \u00e0 direita de Benjamin Netanyahu. Friedman repassa cerca de dois milh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano para Beit El, que \u00e9 uma col\u00f4nia de linha dura na Cisjord\u00e2nia. Tamb\u00e9m est\u00e1 firmemente a favor de transferir a embaixada estadunidense de Tel Aviv para Jerusal\u00e9m. Tamb\u00e9m anexar Ma\u2019ale Adumim, nos arredores de Jerusal\u00e9m. Embora o Governo n\u00e3o tenha aceitado isso, se informou que Friedman apoia a anexa\u00e7\u00e3o de partes da Cisjord\u00e2nia a Israel. Depois de uma reuni\u00e3o entre Trump e Netanyahu na Casa Branca, um jornalista perguntou a Trump se apoiava o acordo de dois Estados, ao qual ele respondeu: \u201cSe Bibi est\u00e1 de acordo com dois Estado, estou a favor e se Bibi quer o Estado \u00fanico, \u00e9 o que teremos\u201d. Em outras palavras, abdicou de uma posi\u00e7\u00e3o estadunidense independente sobre como resolver este conflito. Estava se referindo a \u201cBibi\u201d e n\u00e3o tinha nem ideia dos direitos palestinos ou do que os palestinos poderiam dizer sobre o tema. Portanto, nunca tivemos um presidente estadunidense que ignore mais as realidades deste conflito e os respectivos direitos e injusti\u00e7as em virtude do direito internacional e que seja t\u00e3o p\u00fablico e abertamente parcial como Trump.<\/p>\n<p><strong>J: Voc\u00ea continua sendo defensor de um acordo de dois Estados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: Fui partid\u00e1rio de uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados durante a maior parte de minha vida porque nunca pode existir uma justi\u00e7a absoluta para os palestinos. Creio que a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel implicou uma injusti\u00e7a monumental contra os palestinos, por\u00e9m n\u00e3o quero dar um passo mais e dizer que Israel deve ser desmantelado para fazer justi\u00e7a aos palestinos. Aceito a realidade de Israel dentro de suas fronteiras originais, aceito a legitimidade de Israel dentro de suas fronteiras originais anteriores a 1967.<\/p>\n<p>Edward Said descreveu as duas comunidades como duas comunidades de sofrimento. Devemos considerar a tr\u00e1gica hist\u00f3ria dos judeus e o sofrimento dos palestinos. A solu\u00e7\u00e3o de dois Estados parecia n\u00e3o ser uma solu\u00e7\u00e3o perfeita, mas uma solu\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. A OLP, ao assinar os Acordos de Oslo, renunciou a reivindica\u00e7\u00e3o de 78% do Mandato Palestino com a esperan\u00e7a de obter um Estado palestino independente nos 22% restantes, na Cisjord\u00e2nia e Gaza. Assim, apoiei a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, por\u00e9m Israel, sob os governos trabalhista e do Likud, continuou expandindo as col\u00f4nias. Isto \u00e9 incompat\u00edvel com uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados.<\/p>\n<p>As col\u00f4nias representam a apropria\u00e7\u00e3o de terras. A apropria\u00e7\u00e3o de terras e a constru\u00e7\u00e3o da paz n\u00e3o se complementam, \u00e9 uma coisa ou outra. Por suas a\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o sempre em sua ret\u00f3rica, Israel optou pela apropria\u00e7\u00e3o de terra e, enquanto falamos, Israel est\u00e1 expandindo as col\u00f4nias. Ent\u00e3o, Israel esteve destruindo sistematicamente as bases para um Estado palestino vi\u00e1vel e este \u00e9 o objetivo declarado do Likud e Netanyahu, que diziam pretender aceitar uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados. No per\u00edodo pr\u00e9vio \u00e0s \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, disse que n\u00e3o existir\u00e1 nenhum Estado palestino sob seu Governo. A expans\u00e3o das col\u00f4nias e o muro significam que n\u00e3o pode existir um Estado palestino vi\u00e1vel com contiguidade territorial. O m\u00e1ximo que os palestinos podem esperar s\u00e3o bantust\u00f5es, uma serie de territ\u00f3rios rodeados de col\u00f4nias israelenses e bases militares israelenses.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel e \u00e9, por isso, que me converti em partid\u00e1rio da solu\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 Estado, um Estado \u00fanico com os mesmos direitos para todos os seus cidad\u00e3os. Ideologicamente, n\u00e3o tenho nenhum problema com uma solu\u00e7\u00e3o de um Estado. Ideologicamente, \u00e9 muito atrativo, \u00e9 uma vis\u00e3o nobre de duas comunidades que vivem em harmonia em um espa\u00e7o, com os mesmos direitos para todos os seus membros. Contudo, n\u00e3o sou t\u00e3o ing\u00eanuo como para pensar que a solu\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 Estado \u00e9 uma perspectiva realista, porque n\u00e3o existe respaldo para uma solu\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 Estado em Israel. E se me pressionam muito, creio que Israel retirar\u00e1 o muro e anexar\u00e1 tudo o que quiser da Cisjord\u00e2nia. Seriam anexados os principais blocos de col\u00f4nias em Ma\u2019ale Adumim e toda a \u00e1rea em torno de Jerusal\u00e9m, e o faria de forma unilateral em lugar de ter um Estado \u00fanico. Por isso, n\u00e3o sou em absoluto otimista de que a solu\u00e7\u00e3o de um Estado seja uma proposta vi\u00e1vel. Por\u00e9m, aqui \u00e9 onde estou parado e culpo Israel por eliminar a alternativa de uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados.<\/p>\n<p><strong>J: Como voc\u00ea percebe as \u00faltimas posi\u00e7\u00f5es do Hamas e, particularmente, as proclamadas em seu novo documento de pol\u00edtica, publicado em maio de 2017?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: O Hamas se converteu em um partido pol\u00edtico, se apresentou para as elei\u00e7\u00f5es em janeiro de 2006 e ganhou. Existiram muitos monitores internacionais e todos coincidiram que foi uma elei\u00e7\u00e3o livre e justa. Assim, considero o Hamas o Governo leg\u00edtimo da Palestina. Por\u00e9m, Israel repudiou os resultados das elei\u00e7\u00f5es e os Estados Unidos, para sua vergonha, seguiu Israel ao repudiar os resultados das elei\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m o fez a Uni\u00e3o Europeia. Os estadunidenses pretendem ser promotores da democracia. Afirmam que invadiram o Iraque para promover a democracia, por\u00e9m a \u00fanica democracia \u00e1rabe aut\u00eantica com a poss\u00edvel exce\u00e7\u00e3o do L\u00edbano \u00e9 a Palestina, que teve uma elei\u00e7\u00e3o, o povo falou, votou pelo Hamas e Israel e seus aliados ocidentais repudiaram os resultados porque as pessoas votaram pelo grupo de l\u00edderes \u201cequivocados\u201d. Assim, sempre considerei o Hamas o Governo leg\u00edtimo da Palestina e tamb\u00e9m acredito que o Hamas moderou constantemente seu programa. Seus l\u00edderes fizeram muitas declara\u00e7\u00f5es aceitando a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados e o documento recente, que ainda que n\u00e3o tenha anulado o estatuto de 1988, \u00e9 um novo conjunto de diretrizes para o Hamas e \u00e9 muito mais explicitamente moderado. Todo o antissemitismo da carta se foi, o novo documento deixa claro que a luta do Hamas n\u00e3o \u00e9 com os judeus, mas com os sionistas. Diz explicitamente que o Hamas aceitaria um Estado palestino independente ao longo das fronteiras de 1967, caso aprovado pelo povo em um referendo. Ent\u00e3o, o problema n\u00e3o \u00e9 o Hamas. O problema \u00e9 a intransig\u00eancia israelense, porque o rep\u00fadio israelense do Hamas n\u00e3o \u00e9 condicional, mas absoluto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Hamas n\u00e3o \u00e9 o obst\u00e1culo para a paz, \u00e9 Israel o principal obst\u00e1culo para a paz. O \u00faltimo documento do Hamas \u00e9 mais um passo para o caminho da modera\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma pena que tenha existido muito pouco reconhecimento da import\u00e2ncia deste movimento no Ocidente.<\/p>\n<p>Existe outro problema: Israel diz que a raz\u00e3o principal pela qual n\u00e3o pode negociar com os palestinos \u00e9 porque os palestinos est\u00e3o fragmentados. Isso \u00e9 um completo lixo, porque existiram muitas tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o entre o Hamas e o Fatah. Cada vez que chegam a um acordo, Israel lan\u00e7a uma guerra em Gaza para interromp\u00ea-lo e a \u00faltima vez foi em 2014, quando Fatah e Hamas formaram um Governo de consenso. A estrat\u00e9gia israelense \u00e9 dividir e governar. E tamb\u00e9m \u00e9 separar Gaza da Cisjord\u00e2nia para derrotar a luta pelo Estado palestino.<\/p>\n<p><strong>J: Quais s\u00e3o seus pontos de vista sobre o movimento Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es (BDS)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS<\/strong>: O BDS \u00e9 um movimento de alcance mundial que reuniu apoio a um ritmo impressionante e teve um grande n\u00famero de \u00eaxitos com importantes companhias que se desligaram de Israel. Tamb\u00e9m teve um impacto consider\u00e1vel na opini\u00e3o p\u00fablica em todo o mundo, deslegitimando a ocupa\u00e7\u00e3o israelense. Os israelenses o levam muito a s\u00e9rio. Formaram uma unidade com um or\u00e7amento de 40 milh\u00f5es de libras esterlinas para lutar contra o BDS, lan\u00e7ar ataques contra pessoas e deslegitima-las em lugar de comprometer-se com os argumentos do BDS. E me parece que agora existe esperan\u00e7a de que os governos ocidentais mudem sua pol\u00edtica de apoio a Israel. Doze parlamentos europeus reconheceram a Palestina, por\u00e9m s\u00f3 o Governo sueco reconheceu a Palestina, pelo que o reconhecimento da Palestina por parte dos governos ocidentais n\u00e3o ocorre. O governo brit\u00e2nico sob Theresa May \u00e9 completamente unilateral em seu apoio a Israel. Theresa May descreveu Israel como um farol de liberdade e toler\u00e2ncia, disse que se orgulha da Declara\u00e7\u00e3o Balfour e que planeja celebra-la este ano em seu anivers\u00e1rio [2 de novembro]. Ent\u00e3o, a primeira ministra brit\u00e2nica defendeu a Declara\u00e7\u00e3o Balfour, que \u00e9 um documento colonial cl\u00e1ssico e n\u00e3o poderia ser mais unilateral. Portanto, n\u00e3o tenho a esperan\u00e7a de que a pol\u00edtica ocidental ponha Israel em seu lugar.<\/p>\n<p>Estou a favor das san\u00e7\u00f5es da UE contra Israel n\u00e3o cumpre os termos do acordo de ades\u00e3o com a UE. O pre\u00e2mbulo deste acordo diz que Israel deve respeitar os direitos humanos de todas as pessoas sob seu dom\u00ednio. Israel viola sistematicamente os direitos humanos dos palestinos e, portanto, penso e espero que a UE suspenda este acordo at\u00e9 que Israel cumpra suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Voltando ao BDS, n\u00e3o existem esperan\u00e7as de que os palestinos ponham fim \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o com o apoio dos governos ocidentais ou da ONU. A \u00fanica esperan\u00e7a que t\u00eam os palestinos \u00e9 atrav\u00e9s do BDS.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que, em um futuro previs\u00edvel, o BDS poderia provocar o fim da ocupa\u00e7\u00e3o israelense. Por\u00e9m, essa \u00e9 a \u00fanica esperan\u00e7a que t\u00eam os palestinos de progredir.<\/p>\n<p>Traduzido do ingl\u00eas para Rebeli\u00f3n por J. M.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2017\/11\/06\/analisis-israel-palestina-entrevista-a-avi-shlaim-sobre-los-nuevos-historiadores-de-israel-hamas-y-el-movimiento-bds\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.<wbr \/>resumenlatinoamericano.org\/<wbr \/>2017\/11\/06\/analisis-israel-<wbr \/>palestina-entrevista-a-avi-<wbr \/>shlaim-sobre-los-nuevos-<wbr \/>historiadores-de-israel-hamas-<wbr \/>y-el-movimiento-bds\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17108\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38,78],"tags":[228],"class_list":["post-17108","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4rW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17108\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}