{"id":1711,"date":"2011-07-31T10:38:05","date_gmt":"2011-07-31T10:38:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1711"},"modified":"2011-07-31T10:38:05","modified_gmt":"2011-07-31T10:38:05","slug":"libia-otan-nao-aprendeu-as-duras-licoes-do-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1711","title":{"rendered":"L\u00edbia: OTAN n\u00e3o aprendeu as duras li\u00e7\u00f5es do Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Ataques a\u00e9reos s\u00e3o a principal arma com que as pot\u00eancias ocidentais contam para controlar o Oriente M\u00e9dio e o sul da \u00c1sia, sem ter de p\u00f4r soldados em terra, onde as mesmas pot\u00eancias podem sofrer graves baixas, al\u00e9m de humanas, tamb\u00e9m pol\u00edticas. Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a e EUA s\u00f3 t\u00eam poder a\u00e9reo para fazer guerra contra a L\u00edbia, que se arrasta h\u00e1 quatro meses. Os EUA tamb\u00e9m est\u00e3o ampliando a ofensiva a\u00e9rea no I\u00eamen, onde a CIA deve come\u00e7ar a operar \u00e0 dist\u00e2ncia os avi\u00f5es-rob\u00f4s <em>drones<\/em>, sem soldados em terra; e prosseguem os ataques de avi\u00f5es-rob\u00f4s tamb\u00e9m no noroeste do Paquist\u00e3o. Tamb\u00e9m no Iraque, de onde se espera que os EUA se retirem em breve, a popula\u00e7\u00e3o da cidade de Amarah, semana passada, foi aterrorizada por ataques de jatos bombardeiros.<\/p>\n<p>O emprego de for\u00e7as a\u00e9reas como policiais coloniais na Regi\u00e3o tem hist\u00f3ria longa e sangrenta, e sempre, no longo prazo, mostrou-se ineficaz. O piloto da OTAN, que bombardeou Ain Zara, ao sul de Tr\u00edpoli, no in\u00edcio desse m\u00eas com certeza jamais ouvir contar que seu ataque aconteceu quase exatamente 100 anos depois de a mesma cidade ter sido atingida por duas bombas lan\u00e7adas de um avi\u00e3o italiano, em 1911.<\/p>\n<p>O ataque a\u00e9reo italiano foi o primeiro da hist\u00f3ria, lan\u00e7ado pouco depois de a It\u00e1lia ter invadido o que depois viria a ser a L\u00edbia, durante um dos muitos conflitos com o Imp\u00e9rio Otomano. O primeiro voo de reconhecimento militar tomou uma rota pr\u00f3xima de Benghazi em outubro de 1911 e dia 1\u00ba de outubro o subtenente Giulio Gavotti tornou-se o primeiro aviador a despejar bombas. Voou baixo sobre um campo turco em Ain Zara e ali despejou quatro granadas de 4,5lb que levava numa sacola de couro no <em>cockpit<\/em>. Os turcos protestaram que as bombas de Gavotti atingiram um hospital e feriram v\u00e1rios civis.<\/p>\n<p>Eu estava em Bagd\u00e1 durante o bombardeio dos jatos norte-americanos em 1991 e depois, novamente, durante a opera\u00e7\u00e3o \u201cRaposa do Deserto\u201d em 1998. Acocorado num canto do meu quarto de hotel, vendo as colunas de fogo surgirem pela cidade e a pat\u00e9tica rea\u00e7\u00e3o do fogo antia\u00e9reo, foi experi\u00eancia limite. Por outro lado, encurralado num abrigo a oeste de Beirute durante as guerras civis, foi ainda pior, em certo sentido, porque durou mais tempo e tudo era menos previs\u00edvel. Em Bagd\u00e1, eu supunha que os norte-americanos soubessem contra que alvos atiravam, se por mais n\u00e3o fosse, por raz\u00f5es de \u2018Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas\u2019. Mas minha confian\u00e7a logo acabou, quando mataram cerca de 400 civis num abrigo em Amariya.<\/p>\n<p>Por mais assustador que seja sentir-se alvo de bombardeio a\u00e9reo, as for\u00e7as a\u00e9reas sempre superestimam a pr\u00f3pria import\u00e2ncia. Jamais s\u00e3o precisos como alegam ser; a efic\u00e1cia de ataques a\u00e9reos depende integralmente de informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia. Bombardear d\u00e1 mais certo como arma para aterrorizar civis; como arma de puni\u00e7\u00e3o generalizada. Contra soldados bem preparados, como os guerrilheiros do Hezbollah, os bombardeios a\u00e9reos sempre funcionaram mal.<\/p>\n<p>A desastrosa aventura de Israel no L\u00edbano poderia bem entrar para a hist\u00f3ria como a mais espantosamente ineficaz guerra a\u00e9rea de todos os tempos, n\u00e3o fosse o dia em que Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha resolveram aliar-se \u00e0quelas mil\u00edcias entusi\u00e1sticas, mas sem qualquer treinamento, para derrubar o coronel Muammar Gaddafi.<\/p>\n<p>N\u00e3o come\u00e7ou assim. Quando os avi\u00f5es da OTAN atacaram pela primeira vez, foi apenas para impedir que os tanques de Gaddafi avan\u00e7assem pela estrada, de Ajdabiya rumo \u00e0 Benghazi dos \u2018rebeldes\u2019. Esses ataques foram efetivos. Mas o objetivo foi repentinamente alterado, e a coisa converteu-se em guerra sem prazo para terminar para derrubar Gaddafi; a OTAN, ent\u00e3o, passou a dar apoio a\u00e9reo aos \u2018rebeldes\u2019. Muito parecido com o que fizeram as for\u00e7as imperiais francesas na \u00c1frica Ocidental, \u00e9 espantoso que essa aberta interven\u00e7\u00e3o estrangeira contra pa\u00eds soberano ainda n\u00e3o tenha sido adequadamente criticada na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Os \u2018rebeldes\u2019 sempre foram muito mais fracos do que seus patrocinadores da OTAN divulgaram. Claro que quem queira pode reconhec\u00ea-los como leg\u00edtimo governo da L\u00edbia, mas n\u00e3o \u00e9 o que pensam os l\u00edbios. O grupo internacional Crisis Group, em geral sempre bem informado, diz que um item chave \u201cna capacidade de Gaddafi para permanecer em seu posto sem oponentes no oeste da L\u00edbia \u00e9 o n\u00famero \u00ednfimo de defec\u00e7\u00f5es, at\u00e9 agora, entre as principais tribos que, tradicionalmente, s\u00e3o aliadas do regime\u201d. A verdade \u00e9 que uma OTAN dividida escolheu um dos lados de uma guerra civil na L\u00edbia \u2013 exatamente como fizera antes no Afeganist\u00e3o; e como EUA e Gr\u00e3-Bretanha fizeram no Iraque.<\/p>\n<p>Em ataques a\u00e9reos, a primeira semana \u00e9, quase sempre, a melhor. Ao final de uma primeira semana de ataques bem planejados e bem executados, os alvos mais expostos do inimigo j\u00e1 devem estar destru\u00eddos; nesse momento, o inimigo j\u00e1 aprendeu a esconder-se, dispersou as for\u00e7as e evita expor-se como alvo. No caso da L\u00edbia, as tropas pr\u00f3-Gaddafi come\u00e7aram a usar caminh\u00f5es velhos com uma metralhadora pesada, pela retaguarda dos rebeldes. A OTAN atingiu v\u00e1rias vezes os pr\u00f3prios aliados, com efeitos devastadores.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora n\u00e3o houve na L\u00edbia ataque a\u00e9reo da OTAN com morte de grande n\u00famero de civis. Depois que isso aconteceu pela primeira vez no abrigo de Amariya em Bagd\u00e1 em 1991, a sele\u00e7\u00e3o de alvos passou a ter de ser confirmada pelo pr\u00f3prio comandante do ex\u00e9rcito, Colin Powell; e n\u00e3o houve outros ataques a\u00e9reos contra a capital. Os generais da For\u00e7a A\u00e9rea costumam elogiar a precis\u00e3o de suas armas maravilhosas, capazes de atingir alvos pontuais min\u00fasculos. Mas s\u00f3 muito raramente explicam que essa \u2018precis\u00e3o\u2019 depende de informa\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia tamb\u00e9m muito precisa.<\/p>\n<p>Essas informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia s\u00e3o, quase sempre, confusas. Eu estava em Herat, no oeste do Afeganist\u00e3o em 2009, quando jatos norte-americanos mataram 147 pessoas em tr\u00eas vilas ao sul. As bombas pulverizaram as casas de tijolos de barro e destro\u00e7aram os moradores, cujos cad\u00e1veres foram recolhidos aos peda\u00e7os. Naquelas vilas, em territ\u00f3rio \u2018profundo\u2019 dos Talib\u00e3, alguns ve\u00edculos norte-americanos e afeg\u00e3os haviam sido emboscados; assustados e sem saber o que fazer, os soldados requisitaram apoio a\u00e9reo. Aos gritos de \u201cMorte aos EUA\u201d e \u201cMorte ao Governo\u201d, sobreviventes enfurecidos recolheram numa ca\u00e7amba os restos dos mortos e, com a ca\u00e7amba atrelada a um trator, levaram os cad\u00e1veres at\u00e9 o gabinete do governador em Farah.<\/p>\n<p>A resposta do secret\u00e1rio de Defesa dos EUA, Robert Gates, \u00e0queles eventos, foi dizer que os Talib\u00e3s haviam invadido as vilas, jogando granadas. Mentiras desse tipo podem ter algum efeito interno, nos EUA, mas enfureceram ainda mais os afeg\u00e3os, que, diariamente, viam pela televis\u00e3o as crateras abertas pelas explos\u00f5es. A campanha a\u00e9rea na L\u00edbia terminar\u00e1 em desastre semelhante? J\u00e1 \u00e9 pequena a toler\u00e2ncia nos EUA e na Gr\u00e3-Bretanha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra na L\u00edbia. E qualquer not\u00edcia de morte em massa de civis pode gerar indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica em toda a Europa e nos EUA.<\/p>\n<p>Desde quando, h\u00e1 100 anos, quando o subtenente Gavotti jogou aquela granadas pela janela do <em>cockpit<\/em>, os governos ocidentais t\u00eam-se deixado seduzir pela ideia de que podem vencer guerras s\u00f3 com avi\u00f5es \u2013 hoje, os avi\u00f5es-rob\u00f4s <em>drones<\/em> tripulados \u00e0 dist\u00e2ncia. Parece ser guerra barata, que n\u00e3o compromete soldados nem os exp\u00f5e a riscos em campo. Tarde demais descobre-se, como j\u00e1 se v\u00ea hoje na L\u00edbia, que s\u00f3 muito excepcionalmente se vencem guerras pelo ar.<\/p>\n<p><em>The Independent<\/em>: <a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/opinion\/commentators\/patrick-cockburn-nato-in-libya-has-failed-to-learn-costly-lessons-of-afghanistan-2319539.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.independent.co.uk\/opinion\/commentators\/patrick-cockburn-nato-in-libya-has-failed-to-learn-costly-lessons-of-afghanistan-2319539.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: The Independent\n\n\n\n\n\n\n\n\nPatrick Cockburn\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1711\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1711","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-rB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1711\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}