{"id":17114,"date":"2017-11-10T17:19:22","date_gmt":"2017-11-10T20:19:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17114"},"modified":"2017-11-10T17:19:22","modified_gmt":"2017-11-10T20:19:22","slug":"a-revolucao-russa-objetividade-e-subjetividade-na-construcao-do-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17114","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o Russa: objetividade e subjetividade na constru\u00e7\u00e3o do caminho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2017\/10\/lenin-estado-teoria.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Diante da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, o marxismo revolucion\u00e1rio de hoje n\u00e3o tem alternativa a n\u00e3o ser enfrentar o problema da transi\u00e7\u00e3o, debru\u00e7ar-se sobre os acontecimentos e compreender as determina\u00e7\u00f5es que conduziram ao desfecho distinto daquele que se esperava.<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUma sociedade jamais desaparece antes<br \/>\nque estejam desenvolvidas todas as for\u00e7as<br \/>\nprodutivas que possa conter\u201d<br \/>\nKarl Marx, 1859.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um dos argumentos principais da ofensiva conservadora e reacion\u00e1ria contra a Revolu\u00e7\u00e3o Russa reside na afirma\u00e7\u00e3o que a experi\u00eancia socialista teve sua chance na hist\u00f3ria e fracassou. Diante das reconvers\u00f5es capitalistas da R\u00fassia, China e outras experi\u00eancias, atualiza-se a ironia segundo a qual o socialismo seria o caminho mais longo do capitalismo at\u00e9 o capitalismo. Considerando o enorme custo pol\u00edtico, social e humano destes processos o senso comum de nossa \u00e9poca prepara o julgamento e a senten\u00e7a: <em>n\u00e3o vale a pena.<\/em><\/p>\n<p>Interessantemente, o n\u00facleo central deste argumento conservador figura mesmo em alternativas de esquerda que louvam a Revolu\u00e7\u00e3o Russa para descartar os caminhos que ela indica, preferindo o lento desenvolvimento atrav\u00e9s do qual a hist\u00f3ria nos levar\u00e1 ao futuro inexor\u00e1vel de mais justi\u00e7a e igualdade, sem traumas e sem rupturas.<\/p>\n<p>O marxismo revolucion\u00e1rio n\u00e3o tem alternativa a n\u00e3o ser enfrentar o problema da transi\u00e7\u00e3o, debru\u00e7ar-se sobre os acontecimentos e compreender as determina\u00e7\u00f5es que conduziram ao desfecho distinto daquele que se esperava.<\/p>\n<p>Comecemos por recordar os termos em que Marx coloca a quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o. A compreens\u00e3o da hist\u00f3ria em Marx se fundamenta na convic\u00e7\u00e3o de que as sociedades mudam quando as for\u00e7as produtivas se desenvolvem ao ponto de produzir uma contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o existentes. Tal princ\u00edpio nos leva a uma constata\u00e7\u00e3o um tanto inc\u00f4moda: nenhuma sociedade muda antes que desenvolva todas as for\u00e7as produtivas que pode conter, mais ainda, que jamais surgem novas rela\u00e7\u00f5es sociais antes que as condi\u00e7\u00f5es para tanto se desenvolvam no interior da sociedade antiga (Karl Marx, <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, pref\u00e1cio).<\/p>\n<p>Profundamente coerente com sua compreens\u00e3o te\u00f3rica materialista e dial\u00e9tica, o autor acredita que uma sociedade nova se desenvolve a partir da crise da velha sociedade. Neste ponto se apresenta o n\u00f3 central de nosso problema e que \u00e9 assim apresentado por Marx:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO que se trata aqui n\u00e3o \u00e9 de uma sociedade comunista que se desenvolveu sobre sua pr\u00f3pria base, mas de uma que acaba de sair precisamente da sociedade capitalista e que, portanto, apresenta ainda em todos os seus aspectos, no econ\u00f4mico, do moral e no intelectual, o selo da velha sociedade de cujas entranhas procede.\u201d<br \/>\n(Karl Marx, <a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/critica-do-programa-de-gotha-338\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em><\/a>, Boitempo, 2012).<\/p><\/blockquote>\n<p>Tal postulado pode levar a dois problemas de interpreta\u00e7\u00e3o acompanhados de equ\u00edvocos pol\u00edticos pr\u00e1ticos. Por um lado, pode levar ao imobilismo. Isto \u00e9, uma vez que n\u00e3o estejam dadas as condi\u00e7\u00f5es e o desenvolvimento necess\u00e1rio das for\u00e7as produtivas, n\u00e3o seria poss\u00edvel fazer a revolu\u00e7\u00e3o. Por outro lado, h\u00e1 o risco de se justificar todas as distor\u00e7\u00f5es ocorridas na transi\u00e7\u00e3o pelas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias de uma transi\u00e7\u00e3o (a presen\u00e7a ainda do velho na cria\u00e7\u00e3o do novo). Creio que tanto um como outro equ\u00edvoco radicam na desconsidera\u00e7\u00e3o do aspecto subjetivo do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 pura objetividade. Isto significa que, mesmo n\u00e3o estando dadas as condi\u00e7\u00f5es objetivas, \u00e9 poss\u00edvel que se apresentem na subjetividade da classe revolucion\u00e1ria as condi\u00e7\u00f5es que coloquem como objetivo a revolu\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. A humanidade, dizia Marx na <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, se s\u00f3 coloca objetivos que pode alcan\u00e7ar, pois quando analisamos mais detidamente j\u00e1 haviam, ou estavam em gesta\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam a a\u00e7\u00e3o humana. Ora, n\u00e3o h\u00e1 um ponto determinado de desenvolvimento m\u00e1ximo das for\u00e7as produtivas e da contradi\u00e7\u00e3o que da\u00ed resulta, e sim um processo, um cont\u00ednuo de desenvolvimento no interior do qual v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es se apresentam (por exemplo, situa\u00e7\u00f5es e crises revolucion\u00e1rias) que podem reunir as condi\u00e7\u00f5es para a a\u00e7\u00e3o daqueles que querem mudar o mundo.<\/p>\n<p>Ocorre que isso n\u00e3o elimina a determina\u00e7\u00e3o material. Ou seja, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9, igualmente, pura subjetividade. Trata-se de uma complexa s\u00edntese: os seres humanos \u00e9 que fazem sua hist\u00f3ria, mas n\u00e3o fazem como querem (Karl Marx, <a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-18-de-brumario-de-luis-bonaparte-232\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em><\/a>). Vejam que tal aproxima\u00e7\u00e3o libera a classe revolucion\u00e1ria do imobilismo, mas n\u00e3o a livra de ter que realizar sua a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em determinadas condi\u00e7\u00f5es dadas.<\/p>\n<p>Os bolcheviques, portanto, podiam e deviam ter ousado emplacar uma revolu\u00e7\u00e3o socialista na atrasada R\u00fassia, pois haviam condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, organizativas e de consci\u00eancia para tanto. Por\u00e9m, s\u00f3 podiam desenvolver sua a\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, morais e intelectuais que caracterizavam a forma\u00e7\u00e3o social onde atuavam.<\/p>\n<p>A vanguarda bolchevique tinha perfeita consci\u00eancia desses limites, tanto que imaginava que o papel da revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia era de ser retaguarda para uma revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha, funcionando como um elo de liga\u00e7\u00e3o entre o processo revolucion\u00e1rio do ocidente e do oriente. Como vimos, no entanto, os seres humanos n\u00e3o fazem a hist\u00f3ria como querem.<\/p>\n<p>A derrota da revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha levar\u00e1 a transi\u00e7\u00e3o por caminhos que marcariam definitivamente seu devir. No entanto, \u00e9 aqui que se inscreve o segundo problema, o de justificar por conta desse contexto todos os problemas que da\u00ed derivam (o socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds, a burocratiza\u00e7\u00e3o, etc.). Aqui tamb\u00e9m opera a dial\u00e9tica entre condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que as condi\u00e7\u00f5es materiais em que teriam que se dar a transi\u00e7\u00e3o apresentavam problemas evidentes. Primeiro, do ponto de vista pol\u00edtico era preciso garantir o poder rec\u00e9m conquistado e as classes derrotadas n\u00e3o pareciam dispostas a aceitar o surgimento de um Estado prolet\u00e1rio. \u00c0 destrui\u00e7\u00e3o causada pela Guerra mundial (1914-1918) se soma a Guerra Civil e o resultado \u00e9 catastr\u00f3fico.<\/p>\n<p>Entre 1918 e 1921 ocorre um debate no Partido e na sociedade sovi\u00e9tica que nos parece expressar de forma did\u00e1tica esta quest\u00e3o: o debate sobre a forma de gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e o papel dos sindicatos.<\/p>\n<p>Os estudiosos concordam que o pais estava em ru\u00ednas.* A interven\u00e7\u00e3o de 14 Estados de tr\u00eas continentes diferentes (Europa, Am\u00e9rica e \u00c1sia) potencializou a destrui\u00e7\u00e3o material do novo Estado que tentava se erguer (Poliakov, et al, 1979, p. 62). Considerando as baixas desde 1914, temos mais de 20 milh\u00f5es de mortos e cerca de 4,4 milh\u00f5es de inv\u00e1lidos entre os 16 e 49 anos. As prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de vida levavam a prolifera\u00e7\u00e3o de epidemias, apenas o tifo atingiu 3,5 milh\u00f5es de pessoas (idem, p. 104-5). A economia resistia a duras penas. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola caiu pela metade, a produ\u00e7\u00e3o industrial caiu mais de dois ter\u00e7os, na grande ind\u00fastria a queda foi de 80%, na produ\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos, como carv\u00e3o e petr\u00f3leo, a queda chegou a 70% (Reis Filho, 2003, p. 71; Ponomarev, 1960, p.389). A popula\u00e7\u00e3o das principais cidades reduzira-se de forma dr\u00e1stica, entre 1917 e 1920 a popula\u00e7\u00e3o de Petrogrado diminu\u00edra em 57,5% e a de Moscou em 44,5% (Reis Filho, 1985: p. 99).<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, L\u00eanin afirmara de maneira dr\u00e1stica que n\u00e3o se tratava de iniciar a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, mas de manter uma sociedade minimamente civilizada. Mas, qual o caminho para enfrentar esta dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o? Dadas estas condi\u00e7\u00f5es objetivas imposs\u00edveis de serem contornadas, existia um grande debate sobre quest\u00f5es essenciais diante do qual a vanguarda bolchevique tinha posi\u00e7\u00f5es divergentes.<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios temas que poder\u00edamos citar, destacaremos um que nos parece central pelas implica\u00e7\u00f5es que traz ao nosso tema: a quest\u00e3o da gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1918 e 1921 ocorre um intenso debate sobre a forma de gest\u00e3o ou controle oper\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o. Veremos que a op\u00e7\u00e3o por um ou outro termo ter\u00e1 implica\u00e7\u00f5es. Tr\u00f3tski, que comandara o Exercito Vermelho no esfor\u00e7o de enfrentar a rea\u00e7\u00e3o, propunha que a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica deveria seguir o modelo implementado com sucesso na organiza\u00e7\u00e3o dos correios e ferrovias. Tal proposta implicaria numa r\u00edgida hierarquia e disciplina militar, de forma que os sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias se centralizariam pelos organismos planejadores do Estado. A Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, liderada por Alekssandra Kollontai, discordava desta tese e ponderava que a classe oper\u00e1ria deveria gerir a produ\u00e7\u00e3o industrial atrav\u00e9s de seus \u00f3rg\u00e3os de poder (sindicatos e conselhos de f\u00e1brica) como forma de aprendizado que levaria a classe oper\u00e1ria a gerir o conjunto da sociedade como nova classe dominante.<\/p>\n<p>Este debate foi muito intenso e p\u00fablico (chegou-se a realizar enormes assembleias de massa discutindo o tema), desembocando em Congressos Sindicais e do Partido. Estou convencido que seu desfecho marcar\u00e1 o caminho da transi\u00e7\u00e3o e seu destino. A posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin sobre o tema ser\u00e1 decisiva. O l\u00edder bolchevique tinha uma forma pr\u00f3pria de condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que foi extremamente \u00fatil para o desenrolar da revolu\u00e7\u00e3o e sua condu\u00e7\u00e3o at\u00e9 aquele momento, isto \u00e9, defendia radicalmente suas posi\u00e7\u00f5es e atacava impiedosamente seus advers\u00e1rios, mas se chegava a posi\u00e7\u00f5es em que v\u00e1rios aspectos de seus interlocutores eram incorporados as decis\u00f5es tomadas. Foi assim nos debates sobre as teses de abril, sobre a insurrei\u00e7\u00e3o, sobre a constituinte, etc.<\/p>\n<p>Neste sentido, L\u00eanin discordou radicalmente da posi\u00e7\u00e3o de Tr\u00f3tski, mas sabia do papel central da produ\u00e7\u00e3o na quest\u00e3o da seguran\u00e7a e manuten\u00e7\u00e3o do Estado Sovi\u00e9tico, assim como da necessidade da centraliza\u00e7\u00e3o e do planejamento na organiza\u00e7\u00e3o do ato econ\u00f4mico. Atacou impiedosamente as posi\u00e7\u00f5es da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, mas ressaltava a import\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e dos sindicatos, mesmo em um Estado Oper\u00e1rio. No entanto, a habilidade pol\u00edtica tem limites. A solu\u00e7\u00e3o que pode parecer mais adequada e politicamente poss\u00edvel em um determinado momento, pode levar a graves consequ\u00eancias no desenrolar dos fatos.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin era, sobre v\u00e1rios aspectos, problem\u00e1tica. Em primeiro lugar pela valoriza\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Tratava-se muito mais de criar meios pelos quais a pol\u00edtica do estado chegasse at\u00e9 a classe trabalhadora do que formas de autopoder da classe e sua experi\u00eancia de gerir uma produ\u00e7\u00e3o socializada. \u00c9 neste ponto que n\u00e3o \u00e9 surpresa que L\u00eanin opte pelo termo \u201ccontrole oper\u00e1rio\u201d e n\u00e3o \u201cgest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d. Uma vez que o Estado n\u00e3o era apenas Oper\u00e1rio, mas oper\u00e1rio e campon\u00eas, era necess\u00e1rio que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desse Estado criasse condi\u00e7\u00f5es de enraizamento nas massas, neste sentido o sindicato seria um elo entre o Partido e o Estado, nos quais os segmentos de classe e das massas pudessem apresentar suas demandas e agir em nome de seu Estado, eram, nos termos do pr\u00f3prio L\u00eanin, instrumentos para criar mais que um poder de Estado, uma hegemonia (L\u00eanin, V. Sobre os sindicatos, o momento atual e os erros de Tr\u00f3tski. In_ Sobre os Sindicatos. S\u00e3o Paulo: Polis, 1979, p. 191).<\/p>\n<p>Mas, controle e centraliza\u00e7\u00e3o para fazer o que? \u00c9 neste ponto que a posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, que acabou prevalecendo \u00e9 muito problem\u00e1tica. L\u00eanin assim coloca o problema:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA \u00faltima palavra do capitalismo neste terreno \u2013 o sistema Taylor \u2013, da mesma forma que todos os progressos do capitalismo, re\u00fane toda a refinada ferocidade da explora\u00e7\u00e3o burguesa e v\u00e1rias conquistas cient\u00edficas de grande valor no que concerne aos movimentos mec\u00e2nicos durante o trabalho, a supera\u00e7\u00e3o dos movimentos sup\u00e9rfluos e torpes, a ado\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de trabalho mais racionais, a implanta\u00e7\u00e3o do sistemas \u00f3timos de contabilidade e controle.\u201d<br \/>\n(Vlad\u00edmir L\u00eanin, \u201cAs tarefas imediatas do poder sovi\u00e9tico\u201d, p. 110).<\/p><\/blockquote>\n<p>A Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria ir\u00e1 confrontar este argumento com pontos que no m\u00ednimo dever\u00edamos considerar. Diz o texto da Oposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA causa desta crise se encontra na suposi\u00e7\u00e3o de que \u201chomens realistas\u201d \u2013 t\u00e9cnicos, especialistas e organizadores da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 podem libertar-se repentinamente das suas concep\u00e7\u00f5es tradicionais sobre a maneira de gerir o trabalho (concep\u00e7\u00e3o neles profundamente impregnadas pelos anos passados ao servi\u00e7o do capital) e adquirir a capacidade de criar novas formas de produ\u00e7\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e de motiva\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Supor que isto \u00e9 poss\u00edvel \u00e9 esquecer que um sistema de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser mudado por alguns indiv\u00edduos geniais, mas somente pelas necessidades de uma classe.\u201d<br \/>\n(Alexandra Kollontai, <em>Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria<\/em>. S\u00e3o Paulo: Global, 1980 p. 27).<\/p><\/blockquote>\n<p>Nenhum membro da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria desconhecia o fato que os trabalhadores deveriam ser preparados para gerir a produ\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica e politicamente, e que n\u00e3o estavam preparados naquele momento. A quest\u00e3o \u00e9 outra, trata-se de organizar a produ\u00e7\u00e3o de forma a fortalecer o poder da classe oper\u00e1ria ou de enfraquecer este poder pela fun\u00e7\u00e3o, aparentemente t\u00e9cnica de administradores \u201ccientificamente preparados\u201d, ou nos termos que L\u00eanin colocava a quest\u00e3o: a gest\u00e3o de um s\u00f3 homem. O fato \u00e9 que esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o simplesmente t\u00e9cnica, mas ter\u00e1 implica\u00e7\u00f5es decisivas, como antecipa o pr\u00f3prio texto da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNuma Rep\u00fablica oper\u00e1ria, o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas pela t\u00e9cnica desempenha um papel secund\u00e1rio em compara\u00e7\u00e3o com o segundo fato, o da eficiente organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a cria\u00e7\u00e3o de um novo sistema de economia. Mesmo que a R\u00fassia consiga levar \u00e0 cabo seu projeto de eletrifica\u00e7\u00e3o geral, sem introduzir nenhuma mudan\u00e7a essencial no sistema de controle e organiza\u00e7\u00e3o da economia e produ\u00e7\u00e3o ela n\u00e3o far\u00e1 mais do que aliar-se aos pa\u00edses capitalistas mais avan\u00e7ados em mat\u00e9ria de desenvolvimento.\u201d<br \/>\n(idem: p. 39).<\/p><\/blockquote>\n<p>Muitos anos depois, diante de um novo e diferente contexto, Che Guevara encarar\u00e1 esta problem\u00e1tica retomando alguns destes elementos, vejamos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cResta um longo trabalho por fazer na constru\u00e7\u00e3o da base econ\u00f4mica e a tenta\u00e7\u00e3o de seguir caminhos j\u00e1 trilhados do interesse material, como alavanca propulsora de um desenvolvimento acelerado, \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>Corre-se o risco de que as \u00e1rvores impe\u00e7am a vis\u00e3o do bosque. Perseguindo a quimera de realizar o socialismo com os meios legados que v\u00eaem do capitalismo (a mercadoria como c\u00e9lula econ\u00f4mica, a rentabilidade, o interesse material individual como alavanca, etc.) se pode chega \u00e0 um beco sem sa\u00edda. E se chegamos \u00e0 um ponto, depois de percorrer uma grande distancia em que os caminhos se entrecruzam muitas vezes e onde \u00e9 dif\u00edcil perceber o momento em que nos equivocamos de caminho? A base adaptada, entretanto, ter\u00e1 feito seu trabalho de solapar o desenvolvimento da consci\u00eancia. Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material, teremos que construir um homem novo(\u2026) N\u00e3o se trata de quantos quilos de carne se come ou quantas vezes por ano se pode ir \u00e0 praia passear, nem de quantos belezas se pode trazer do exterior e comprar com os sal\u00e1rios atuais. Se trata, precisamente, de que os indiv\u00edduos se sintam mais plenos, com muita riqueza interior e com mais responsabilidade.\u201d (Che, apud Tablada Perez, <em>Ernesto Che Guevara: hombre y sociedad<\/em>. Buenos Aires: Antarca, 1987: p. 66-67).<\/p><\/blockquote>\n<p>Evidente que nenhum processo hist\u00f3rico se resolve em uma \u00fanica determina\u00e7\u00e3o, mas estamos convencidos que neste caminho escolhido iniciou-se a forma\u00e7\u00e3o de uma base material para os descaminhos que levariam \u00e0s deforma\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas e aos impasses da transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas pelas op\u00e7\u00f5es tomadas, n\u00e3o unicamente pela objetividade que constrangiam a a\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios, mas certamente pela combina\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o destes fatores.<\/p>\n<p>Resta saber se isso, como costumam afirmar os detratores conservadores da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, desmente as teses centrais do marxismo. Me parece que n\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, como costumo afirmar, Marx estava dramaticamente correto, n\u00e3o apenas porque confirmou-se que nenhuma sociedade pode gerar novas rela\u00e7\u00f5es sociais antes que se desenvolvam as condi\u00e7\u00f5es materiais para tanto, como tamb\u00e9m pelo fato que os seres humanos mudaram a sociedade e foi sua a\u00e7\u00e3o que levou a novas contradi\u00e7\u00f5es que precisaram ser enfrentadas e solucionadas em uma ou outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 come\u00e7amos a construir o futuro, mas a velha sociedade ainda agoniza sem morrer. N\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser buscar os sinais do novo nas entranhas do velho que perece. Como dizia Brecht: na mudan\u00e7a de lua, a lua nova segura a lua velha uma noite inteira nos bra\u00e7os. Como sabem os bons navegantes, mudan\u00e7a de lua n\u00e3o \u00e9 uma \u00e9poca f\u00e1cil, mas nem por isso desistem de navegar.<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Ver a respeito Poliakov, Leltchuk e Protopopov (1979), Carr (1979), Ponomarev (1960), Reis Filho (1983,2003), Netto (1981).<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Aleksandra Kollontai, <em>Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria (1920-1921)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Global, 1980.<br \/>\nBoris Ponomarev (org.), <em>Histoire du Parti Communiste de L\u2019Union Sovietque<\/em>. Moscou, 1960.<br \/>\nCarlos Tablada Perez, <em>Ernesto Che Guevara: hombre y sociedade. <\/em>Buenos Aires: Antarca, 1987<br \/>\nDaniel Aarao Reis Filho, <em>R\u00fassia, anos vermelhos (1917-1921)<\/em>. <a href=\"https:\/\/maps.google.com\/?q=S%C3%A3o+Paulo:+Brasiliense,+1985&amp;entry=gmail&amp;source=g\">S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1985<\/a>.<br \/>\n____. <em>URSS: o socialismo real (1921-1964)<\/em>. <a href=\"https:\/\/maps.google.com\/?q=S%C3%A3o+Paulo:+Brasiliense,+1983&amp;entry=gmail&amp;source=g\">S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1983<\/a>.<br \/>\n____. <em>As revolu\u00e7\u00f5es russas e o socialismo sovi\u00e9tico<\/em>. S\u00e3o Paulo: UNESP, 2003.<br \/>\nEdward Hallet, <em>A revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique II<\/em>. Porto: Afrontamento, 1979.<br \/>\nJos\u00e9 Paulo Netto, <em>O que \u00e9 o stalinismo?<\/em>. <a href=\"https:\/\/maps.google.com\/?q=S%C3%A3o+Paulo:+Brasiliense,+1981&amp;entry=gmail&amp;source=g\">S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1981<\/a><br \/>\nKarl Marx, <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007.<br \/>\n____. <em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/critica-do-programa-de-gotha-338\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cr\u00edtica do programa de Gotha<\/a><\/em>. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2012.<br \/>\n____. <a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-18-de-brumario-de-luis-bonaparte-232\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em><\/a>. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2011.<br \/>\nPoliakov, V. Leltchuk, A. Protopopov, <em>Hist\u00f3ria da sociedade sovi\u00e9tica<\/em>, Moscou: Ed. Progresso, 1979.<br \/>\nVlad\u00edmir L\u00eanin, \u201cSobre os sindicatos, o momento atual e os erros de Tr\u00f3tski\u201d. Em <em>Sobre os sindicatos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Polis, 1979.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/11\/09\/a-revolucao-russa-objetividade-e-subjetividade-na-construcao-do-caminho\/\">A Revolu\u00e7\u00e3o Russa: objetividade e subjetividade na constru\u00e7\u00e3o do&nbsp;caminho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17114\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[223],"class_list":["post-17114","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4s2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17114\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}