{"id":17207,"date":"2017-11-14T13:57:07","date_gmt":"2017-11-14T16:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17207"},"modified":"2017-11-14T13:57:07","modified_gmt":"2017-11-14T16:57:07","slug":"reforma-trabalhista-e-muito-atraso-muito-retrocesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17207","title":{"rendered":"Reforma trabalhista: &#8220;\u00c9 muito atraso, muito retrocesso&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/11\/13_11_reforma_trabalhista_foto_jose_cruz_abr.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Entrevista com Vera Lucia Navarro<\/p>\n<p>Acontece dois dias antes da data em que se comemora a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, mas, para v\u00e1rios analistas cr\u00edticos, \u00e9 como um retorno simb\u00f3lico \u00e0 escravid\u00e3o. No dia 13 de novembro de 2017, entrou em vigor a lei 13.467, que instituiu uma reforma trabalhista\u00a0no Brasil. Proposta pelo governo Temer, reprovada pela maioria da popula\u00e7\u00e3o e comemorada pelo grande empresariado, foi aprovada pelo congresso em julho passado, pouco tempo depois da autoriza\u00e7\u00e3o para a terceiriza\u00e7\u00e3o irrestrita.<\/p>\n<p>Meses depois, portarias da Presid\u00eancia flexibilizaram a concep\u00e7\u00e3o de trabalho escravo, dificultando o combate a essa pr\u00e1tica. Entre as mudan\u00e7as, medidas como a redu\u00e7\u00e3o do tempo m\u00ednimo obrigat\u00f3rio para almo\u00e7o, as diversas brechas para a amplia\u00e7\u00e3o da jornada e a permiss\u00e3o para que gestantes e lactantes trabalhem em ambientes insalubres s\u00e3o alguns exemplos do que pode gerar impacto direto sobre a sa\u00fade do trabalhador.<\/p>\n<p>Em entrevista ao portal EPSJV\/Fiocruz, 09-11-2017, a professora Vera Lucia Navarro, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) de Ribeir\u00e3o Preto, mostra que n\u00e3o para por a\u00ed. Descrevendo a transi\u00e7\u00e3o no perfil epidemiol\u00f3gico das doen\u00e7as do trabalho no Brasil, ela aponta a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho como um fator de adoecimento e alerta que, com as recentes medidas aprovadas, esse cen\u00e1rio vai piorar muito. \u201cEstamos voltando para tr\u00e1s\u201d, lamenta.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista da \u00e1rea de sa\u00fade do trabalhador, quais s\u00e3o os impactos da reforma trabalhista aprovada?<\/strong><\/p>\n<p>Eu destacaria alguns pontos que acho que v\u00e3o ter maior impacto nessa reforma: a preval\u00eancia do negociado sobre o legislado, [a aprova\u00e7\u00e3o do] trabalho intermitente, a facilita\u00e7\u00e3o de trabalho de gestantes e lactantes em locais insalubres, a dificuldade de acesso dos trabalhadores \u00e0 justi\u00e7a do trabalho e a terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse quadro vai tornar mais prec\u00e1rias as rela\u00e7\u00f5es do trabalho. Essa quest\u00e3o da precariedade \u00e9 antiga, tivemos recentemente o crescimento do emprego formal, mas estamos retomando a quest\u00e3o da informalidade. O grande paradoxo \u00e9 o seguinte: tem crescimento de desemprego e intensifica\u00e7\u00e3o de trabalho. Ou seja, quem est\u00e1 desempregado vai sofrer por falta de emprego &#8211; e isso prejudica a sa\u00fade, principalmente a sa\u00fade mental, essa ang\u00fastia pelo fato de estar desempregado, de estar se sentindo culpado por essa situa\u00e7\u00e3o. Uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que ficou desempregada ou n\u00e3o consegue ingressar no mercado de trabalho sofre com a falta de emprego, e a parcela que continua empregada vem sofrendo h\u00e1 algumas d\u00e9cadas um processo de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho. Uma coisa tem a ver com a outra. Mudan\u00e7as que se d\u00e3o dentro da f\u00e1brica, por exemplo, que implicam maior produtividade para diminuir o custo de produ\u00e7\u00e3o, intensificam o trabalho.<\/p>\n<p>A essas mudan\u00e7as est\u00e1 ligado o processo de enxugamento do quadro de pessoal: tem menos pessoas, mas fazendo o trabalho dos postos de trabalho que foram fechados. Nesse novo contexto de mudan\u00e7as, voc\u00ea tem o trabalhador que continua empregado fazendo o trabalho de dois ou tr\u00eas e, com isso, a empresa demite. O sofrimento \u00e9 duplo: \u00e9 daquele que perdeu o emprego e daquele que continua trabalhando numa situa\u00e7\u00e3o de maior intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal.<\/p>\n<p>O fato de haver amea\u00e7a de desemprego \u00e9 uma das coisas que faz com que o trabalhador se autocontrole. No caso de doen\u00e7as do trabalho, a gente tinha um fen\u00f4meno antigamente que era do absente\u00edsmo, o trabalhador faltar ao emprego por motivos de sa\u00fade. Hoje o fen\u00f4meno \u00e9 o presentismo, ou seja, mesmo adoentado, ele vai trabalhar porque tem medo de perder o emprego. Ele vai esconder, inclusive, acidentes de trabalho. Porque, em caso de demiss\u00e3o, o trabalhador que adoece, que tem alguma doen\u00e7a, \u00e9 o primeiro a ser despedido. Quem encabe\u00e7a as listas [de demiss\u00e3o] s\u00e3o os acidentados do trabalho, as pessoas que j\u00e1 foram afastadas por doen\u00e7a do trabalho, e tamb\u00e9m as que s\u00e3o sindicalizadas, que participaram de sindicato. Existe uma l\u00f3gica nessa lista. Ent\u00e3o, as pessoas tendem a esconder problemas de sa\u00fade. E escondem ainda mais os problemas de sa\u00fade de ordem mental, porque h\u00e1 todo um tabu em cima desse tipo de problema. E n\u00f3s sabemos que os adoecimentos ligados \u00e0 sa\u00fade mental t\u00eam crescido, houve uma mudan\u00e7a no perfil epistemol\u00f3gico das doen\u00e7as nas \u00faltimas d\u00e9cadas por conta de press\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Que mudan\u00e7a \u00e9 essa? Quais eram as principais raz\u00f5es de adoecimento no trabalho em outras d\u00e9cadas e quais s\u00e3o as principais causas e doen\u00e7as do trabalho hoje no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, houve um crescimento econ\u00f4mico industrial muito grande. As pessoas vinham, por exemplo, do campo para a cidade para trabalhar na ind\u00fastria. Essa for\u00e7a de trabalho n\u00e3o era bem qualificada e ia mexer com m\u00e1quinas. Com a exig\u00eancia de um trabalho muito intenso e as m\u00e1quinas desprovidas de qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de acidentes de trabalho no pa\u00eds estourou. O Brasil foi considerado o campe\u00e3o mundial de acidente de trabalho nessa \u00e9poca. Esse era o perfil. E havia tamb\u00e9m acidente de trajeto.<\/p>\n<p>Com as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, a diminui\u00e7\u00e3o do emprego industrial e o aumento do emprego no setor de servi\u00e7os, houve mudan\u00e7as. E, junto com isso, veio todo um processo de maior press\u00e3o. Esse perfil, ent\u00e3o, vai mudando. Uma das doen\u00e7as bem emblem\u00e1ticas \u00e9 a les\u00e3o por esfor\u00e7os repetitivos, a LER. \u00c9 uma doen\u00e7a que aparece com o computador, vai ser reconhecida entre os banc\u00e1rios, quando h\u00e1 uma explos\u00e3o e uma intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho nos bancos. Antes se trabalhava numa m\u00e1quina de escrever ou de somar que n\u00e3o era digital, mas esses avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, ao inv\u00e9s de aliviarem, intensificam a labuta humana do trabalho. O banc\u00e1rio que trabalhava na compensa\u00e7\u00e3o ganhava por toque que dava na m\u00e1quina. O cara tinha que fazer aquelas compensa\u00e7\u00f5es de cheques com muita rapidez e isso aumentou de uma forma explosiva as les\u00f5es nos bra\u00e7os. Foi pela luta dos banc\u00e1rios que a LER passou a ser considerada doen\u00e7a de trabalho. Hoje a LER est\u00e1 espalhada por v\u00e1rios outros setores da economia e \u00e9 uma doen\u00e7a que tem muito a ver com repeti\u00e7\u00e3o, com intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho. Foi nesse sentido que mudou o perfil.<\/p>\n<p>Por outro lado, tem toda uma organiza\u00e7\u00e3o do trabalho que implica maior controle, maior press\u00e3o sobre o trabalhador, por exemplo, com cobran\u00e7a de metas. H\u00e1 uma disputa entre os trabalhadores. Por outro lado, junto com esse processo, a gente assiste tamb\u00e9m a uma forma de retirar o sindicato de cena. Agora, com o processo de terceiriza\u00e7\u00e3o se ampliando, vai haver menos controle ainda porque a terceiriza\u00e7\u00e3o implica trabalho prec\u00e1rio, que pode ser realizado em domicilio, em oficinas de fundo de quintal, onde n\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o. A permiss\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o de atividades-fim da empresa significa um desmonte muito grande do mercado formal do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Um estudo produzido em 2013 pelo Dieese e pela CUT afirma que em cada dez acidentes de trabalho no Brasil, oito envolvem terceirizados, e quatro em cada cinco mortes por acidente de trabalho tamb\u00e9m se d\u00e3o entre terceirizados. H\u00e1 dados ou evid\u00eancias que mostrem que o v\u00ednculo terceirizado \u00e9 pior do que o v\u00ednculo direto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade do trabalhador?<\/strong><\/p>\n<p>Vou falar a partir do que eu pesquisei. Por exemplo, na ind\u00fastria de cal\u00e7ados a terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma novidade. At\u00e9 os anos 80, as empresas n\u00e3o se referiam a isso como terceiriza\u00e7\u00e3o: quando recebiam uma encomenda muito grande e a capacidade produtiva n\u00e3o alcan\u00e7ava, elas repassavam o servi\u00e7o para ser feito fora. Esporadicamente, os seus pr\u00f3prios funcion\u00e1rios levavam para casa determinada parte do cal\u00e7ado, depois traziam pronto, com costura, essas coisas. A partir da d\u00e9cada de 90, isso vai explodir. Terceirizar vira tend\u00eancia, com um \u00fanico objetivo: diminuir custo de produ\u00e7\u00e3o. Diminuir custo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante que vai melhorar nada para o trabalhador, porque vai recair sobre ele uma s\u00e9rie de coisas, desde os custos com energia que ele gasta trabalhando em casa at\u00e9 a quest\u00e3o da seguran\u00e7a do trabalho.<\/p>\n<p>Eu visitei casas em \u00e9poca de frio. Entrei numa casa que estava fechada e eles estavam colando pe\u00e7as de cal\u00e7ado, usando cola, e dentro da casa tinha carrinho com beb\u00ea, tinha um senhor&#8230; A quest\u00e3o da sa\u00fade extrapola quem est\u00e1 trabalhando. Quando voc\u00ea leva o trabalho para um local que n\u00e3o \u00e9 propriamente um ambiente de trabalho &#8211; como a f\u00e1brica, que precisa ter controle e cumprir determinada fiscaliza\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o acontece com o trabalho na casa das pessoas -, os preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade v\u00e3o para a fam\u00edlia toda. Ali estava todo mundo aspirando cola. Estou dando um exemplo, mas voc\u00ea pode estender para v\u00e1rias outras coisas. A ind\u00fastria de confec\u00e7\u00e3o que produz essas roupas tipo cal\u00e7as jeans usa determinados produtos para descolorir. Al\u00e9m de fazer mal para quem est\u00e1 perto, para o meio ambiente, o produto vai embora, contamina o solo. Esse processo de precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho \u00e9 um preju\u00edzo para todo mundo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 diferen\u00e7a sim: os terceirizados est\u00e3o mais expostos. Eu n\u00e3o tenho nenhuma pesquisa que quantifique isso, mas sabemos por evid\u00eancia de alguns estudos que geraram visitas, por exemplo, que as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o piores, mesmo dentro do servi\u00e7o p\u00fablico. Eu estive recentemente no Congresso Brasileiro de Enfermagem e, l\u00e1, uma pessoa exp\u00f4s um trabalho mostrando que, com esse processo de contrata\u00e7\u00e3o de trabalhadores de forma tempor\u00e1ria, est\u00e1 havendo uma rotatividade muito grande dos atendentes de enfermagem que atuam nas unidades de terapia intensiva. Quando o profissional come\u00e7a a se qualificar para um posto, j\u00e1 muda. Ele estava citando o exemplo de um tratamento de hemodi\u00e1lise: a pessoa que est\u00e1 operando os aparelhos tem que ter n\u00e3o s\u00f3 qualifica\u00e7\u00e3o: quanto mais experi\u00eancia, quanto mais tempo ela trabalhar num lugar, mais consegue resolver um problema que possa aparecer no curso de um tratamento como esse. Para o trabalhador tamb\u00e9m \u00e9 muito angustiante trabalhar sem experi\u00eancia numa coisa que tem risco de vida. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso tomar cuidado com essa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de trabalho via terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Voltando \u00e0s mudan\u00e7as no perfil epidemiol\u00f3gico da doen\u00e7a do trabalho hoje, existem dados ou evid\u00eancias significativas de um aumento dos problemas relacionados \u00e0 sa\u00fade mental, mesmo com toda a subnotifica\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea comentou?<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social, de 2008 a 2009 o n\u00famero de afastamento do trabalho em decorr\u00eancia de transtornos mentais e comportamentais subiu de 12.818 para 13.478. Esse n\u00famero em 2010 teve uma queda, passou para 12.150, mas a concess\u00e3o de aux\u00edlio doen\u00e7a em fun\u00e7\u00e3o de transtornos mentais e comportamentais voltou a subir em 2011, passando para 12.337 casos. Dentro dos transtornos mentais e comportamentais, as doen\u00e7as que mais afastavam trabalhadores em 2011 foram epis\u00f3dios depressivos, outros, transtornos ansiosos e rea\u00e7\u00f5es ao estresse grave e transtornos de adapta\u00e7\u00e3o. Esses s\u00e3o dados de um informativo eletr\u00f4nico da Previd\u00eancia Social de 2012.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o trabalho com grandes pesquisas estat\u00edsticas, mas podemos pensar que isso tem a ver com trabalho. A\u00ed est\u00e1 a dificuldade por conta da mudan\u00e7a no perfil epidemiol\u00f3gico. Porque, quando acontece um acidente t\u00edpico de trabalho, para o trabalhador \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre o acidente e a atividade que ele fazia. No caso desses transtornos mentais e comportamentais, para isso ser relacionado ao trabalho, h\u00e1 uma dificuldade maior. Mesmo no acidente de trabalho, existe uma pr\u00e1tica de querer atribuir ao pr\u00f3prio trabalhador a culpa pelo acidente. Individualiza-se a culpa, d\u00e1-se um jeito de dizer que o trabalhador n\u00e3o usou os equipamentos individuais de seguran\u00e7a, mas nunca se questiona do ponto de vista coletivo das condi\u00e7\u00f5es de trabalho quem realmente \u00e9 o culpado. E quando o problema \u00e9 de ordem de sa\u00fade ps\u00edquica, mental, a dificuldade \u00e9 muito maior. E agora, com essa reforma, vai ficar pior ainda, porque al\u00e9m de tudo isso, vai-se dificultar o acesso \u00e0 pr\u00f3pria justi\u00e7a. O trabalhador vai encontrar muito mais dificuldade para pleitear seus direitos. Nesse sentido, a reforma \u00e9 bem devastadora para o trabalhador.<\/p>\n<p><strong>Algumas das medidas mais comentadas da reforma trabalhista \u00e9 o fim da obrigatoriedade do intervalo para refei\u00e7\u00e3o, que agora pode ser substitu\u00eddo por uma indeniza\u00e7\u00e3o, e a redu\u00e7\u00e3o do tempo m\u00ednimo de almo\u00e7o para 30 minutos e n\u00e3o mais uma hora. Esses par\u00e2metros que at\u00e9 hoje orientaram a CLT s\u00e3o influenciados pela \u00e1rea de sa\u00fade do trabalhador?<\/strong><\/p>\n<p>Reduzir o tempo para as refei\u00e7\u00f5es implica quest\u00f5es s\u00e9rias de risco para a sa\u00fade. Os que nunca sentiram na pele n\u00e3o sabem, mas imagina as pessoas que trabalham em p\u00e9 por nove horas! J\u00e1 t\u00eam uma s\u00e9rie de problemas causados pelo trabalho em p\u00e9: fatores ergon\u00f4micos, a quest\u00e3o do trabalho repetitivo&#8230; Esse hor\u00e1rio do almo\u00e7o era tamb\u00e9m um momento de descanso, para sentar, deitar, p\u00f4r a perna para cima&#8230; Quando voc\u00ea est\u00e1 comendo, tamb\u00e9m est\u00e1 descansando o corpo. Isso \u00e9 o m\u00ednimo! Mesmo assim a gente sabe que muitas vezes os locais onde as pessoas comem s\u00e3o totalmente inapropriados. O que est\u00e1 acontecendo agora? Ao inv\u00e9s estarmos discutindo o que podemos fazer para avan\u00e7ar em termos de garantias, de condi\u00e7\u00f5es humanas de sobreviv\u00eancia, estamos tendo que enfrentar o retrocesso. Aqui na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto, n\u00f3s temos muitos cortadores de cana. Com a mecaniza\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ou-se um grau de tecnologia altamente avan\u00e7ada. As m\u00e1quinas colhedeiras de cana hoje em dia podem andar para baixo e para cima em tudo que \u00e9 terreno, s\u00e3o modernas, guiadas por GPS, com ar condicionado. Isso a gente v\u00ea nas exposi\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas agr\u00edcolas. S\u00f3 que a m\u00e1quina colheitadeira \u00e9 igual carro: quando voc\u00ea vai comprar, tudo isso \u00e9 acess\u00f3rio, o ar condicionado, o banco que \u00e9 mais ergon\u00f4mico&#8230;<\/p>\n<p>E a mentalidade do capitalista brasileiro \u00e9 escravocrata, por isso, ele compra sem nada. No in\u00edcio do capitalismo, quando, com muita luta, se conseguiu regular a jornada de trabalho, o capitalista, para manter seu patamar de lucratividade, inventou o trabalho em turno e o trabalho noturno: 12 horas de dia, 12 horas de noite. E aqui, com a mecaniza\u00e7\u00e3o da cana, voc\u00ea retorna um pouco a isso. Eu conversei com um trabalhador que trabalhava a noite inteira operando a m\u00e1quina e perguntei que horas ele comia. Ele falou: \u201cn\u00e3o paro para comer\u201d. Ele levava uma sopa numa garrafa t\u00e9rmica e, enquanto operava a m\u00e1quina, tomava a sopa de canudo. Isso \u00e9 refei\u00e7\u00e3o? Essa situa\u00e7\u00e3o prejudica muito a sa\u00fade dos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>V\u00e1rias medidas da reforma trabalhista dizem respeito \u00e0 jornada de trabalho. H\u00e1, por exemplo, um novo regime de compensa\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios, que significa o banco de horas, a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de horas extras permitidas e a aprova\u00e7\u00e3o da jornada intermitente. Junto com isso houve uma generaliza\u00e7\u00e3o da jornada por escala (12 X 36 horas). Todas essas medidas acabam permitindo que o trabalhador trabalhe mais horas seguidas. Que efeitos isso pode ter sobre a sa\u00fade do trabalhador?<\/strong><\/p>\n<p>O corpo n\u00e3o suporta. H\u00e1 um impacto f\u00edsico mesmo. [Com a jornada intermitente], as pessoas t\u00eam que se deslocar de um lado para outro, h\u00e1 uma ansiedade e uma ang\u00fastia muito grandes por n\u00e3o saberem que tipo de trabalho as espera&#8230; Por que as pessoas preferem um trabalho com mais estabilidade, como no emprego p\u00fablico? Porque elas conseguem se planejar, sabem que t\u00eam um hor\u00e1rio para entrar, outro para sair, t\u00eam determinadas tarefas a fazer. E que, ao longo do tempo, aquilo vai ficando mais f\u00e1cil, \u00e0 medida que elas v\u00e3o se acostumando com o que fazem. Quando tudo \u00e9 sempre novidade, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai fazer, \u00e9 complicado. Aqui em Ribeir\u00e3o Preto n\u00f3s tivemos uma proposta que era uma aberra\u00e7\u00e3o. Para resolver o problema de falta de professores, a Prefeitura queria criar com aplicativo, tipo \u00faber: faltou um professor, aquelas pessoas que est\u00e3o cadastradas t\u00eam que estar dispon\u00edveis e, em 30 minutos devem estar dentro de sala de aula, sem nem saber o conte\u00fado que v\u00e3o dar. Pensa bem na loucura que \u00e9 um neg\u00f3cio desses! Foi chamado de uberiza\u00e7\u00e3o do professor. N\u00e3o foi aprovado, mas v\u00e1rias pessoas defenderam. Isso certamente aumenta problemas de hipertens\u00e3o, infarto&#8230; \u00c9 esse perfil de doen\u00e7a que eu falo que muda: se, em outros tempos, havia muito acidente de trabalho, doen\u00e7as que eram cl\u00e1ssicas em algumas atividades, porque mexiam com determinados produtos, agora temos esse tipo de doen\u00e7a que \u00e9 provocada por press\u00e3o, por aumento de jornada, por cumprir metas. O ass\u00e9dio moral vai crescer muito porque s\u00e3o coisas subjetivas que v\u00e3o medir a compet\u00eancia de uma pessoa. Qual \u00e9, por exemplo, a inten\u00e7\u00e3o dessa tentativa de se retirar a estabilidade do emprego no funcionalismo p\u00fablico?<\/p>\n<p><strong>Outra mudan\u00e7a muito criticada, trazida pela reforma trabalhista, \u00e9 a permiss\u00e3o para que mulheres gr\u00e1vidas e que est\u00e3o amamentando possam trabalhar em locais insalubres. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 proibido o trabalho de gestantes e lactantes em ambientes que s\u00e3o contaminados, que s\u00e3o muito quentes, que t\u00eam muita poeira, em postos de trabalho em p\u00e9, com muito ru\u00eddo, com radia\u00e7\u00e3o&#8230; Isso comprovadamente faz mal aos beb\u00eas e \u00e0s m\u00e3es que est\u00e3o amamentando. Essa reforma vai permitir que se trabalhe nessas condi\u00e7\u00f5es desde que o m\u00e9dico &#8211; e pode ser o m\u00e9dico da empresa &#8211; ateste que isso n\u00e3o \u00e9 problema. \u00c9 uma coisa indecente.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel estabelecer uma compara\u00e7\u00e3o entre a nova legisla\u00e7\u00e3o trabalhista brasileira e os padr\u00f5es internacionais?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conhe\u00e7o dados com precis\u00e3o, mas o que a gente sabe \u00e9 que a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional sempre foi feita \u00e0 custa de baixos sal\u00e1rios. E a\u00ed se explica, inclusive, o trabalho escravo e toda uma s\u00e9rie de explora\u00e7\u00e3o. Em termos de sa\u00fade dos trabalhadores, est\u00e1vamos engatinhando ainda para conseguir uma situa\u00e7\u00e3o que fosse menos violenta. Agora perdemos, inclusive, esse ponto de partida, porque temos que correr atr\u00e1s de uma situa\u00e7\u00e3o muito pior. \u00c9 muito atraso, \u00e9 muito retrocesso. Imagina, em pleno s\u00e9culo 21, voc\u00ea falar em ampliar jornada de trabalho! A gente n\u00e3o chegou a fazer uma discuss\u00e3o sobre a redu\u00e7\u00e3o de jornada e est\u00e1 falando em ampliar. Essa hist\u00f3ria de levar o trabalho para casa, que \u00e0s vezes \u00e9 apresentado para a popula\u00e7\u00e3o como uma coisa boa, na verdade n\u00e3o \u00e9. Porque voc\u00ea leva o problema junto. N\u00e3o \u00e9 por estar em casa trabalhando que voc\u00ea est\u00e1 pr\u00f3ximo da fam\u00edlia: quando est\u00e1 trabalhando em casa, voc\u00ea n\u00e3o quer que seu filho chegue perto porque vai te atrapalhar, voc\u00ea n\u00e3o vai dar aten\u00e7\u00e3o para o pai, para a m\u00e3e, para a esposa&#8230; A nossa vida est\u00e1 sendo pautada cada vez mais por trabalho e, quando se retira o trabalho do espa\u00e7o p\u00fablico e leva para dentro de casa, existe a invas\u00e3o do seu espa\u00e7o de fam\u00edlia com todos os problemas da ordem do trabalho. Isso, consequentemente, atinge a sa\u00fade, n\u00e3o s\u00f3 do trabalhador em particular, mas da fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p><strong>Qual o tamanho de todo esse retrocesso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu lido h\u00e1 muito tempo com essa quest\u00e3o de trabalho. T\u00ednhamos uma esperan\u00e7a de que a coisa s\u00f3 poderia caminhar para frente. Sem sermos ing\u00eanuo de achar que f\u00f4ssemos avan\u00e7ar muito nessa condi\u00e7\u00e3o de trabalho dentro dos limites de uma sociedade capitalista, ach\u00e1vamos que poderia demorar para chegar, mas alcan\u00e7ar\u00edamos uma condi\u00e7\u00e3o melhor. Poder\u00edamos conseguir que os sindicatos tivessem realmente uma atua\u00e7\u00e3o fiscalizat\u00f3ria maior, que pudessem denunciar, cobrar penalidades, lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, ampliar e fazer cumprir as leis. Imagin\u00e1vamos, por exemplo, que atrav\u00e9s das pesquisas conseguir\u00edamos fazer um retrato melhor do que estava acontecendo e, portanto, os organismos respons\u00e1veis pela fiscaliza\u00e7\u00e3o no trabalho, organismos governamentais, poderiam fiscalizar e cobrar, que a pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o da imprensa poderia ser de den\u00fancia dessas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Mas estamos vendo que a imprensa \u00e9 conivente com esse tipo de coisa. Agora estamos voltando para tr\u00e1s. Imagina, falar em trabalho escravo, falar em aumento de jornada de trabalho, enquanto dever\u00edamos estar lutando por diminui\u00e7\u00e3o de jornada! Nessa conjuntura, em que os trabalhadores est\u00e3o mais desorganizados, e v\u00e3o ficar muito mais ainda com esse processo de terceiriza\u00e7\u00e3o que fragmenta a classe trabalhadora e enfraquece os sindicatos, est\u00e1 tudo por fazer de novo. Acho que tem que recome\u00e7ar. O que se espera? Que a gente tenha for\u00e7a.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573562-reforma-trabalhista-e-muito-atraso-e-muito-retrocesso<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17207\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,15],"tags":[222],"class_list":["post-17207","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-s18-sindical","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4tx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}