{"id":1727,"date":"2011-08-05T18:45:32","date_gmt":"2011-08-05T18:45:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1727"},"modified":"2011-08-05T18:45:32","modified_gmt":"2011-08-05T18:45:32","slug":"mil-e-uma-hiroximas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1727","title":{"rendered":"Mil e uma Hiroximas*"},"content":{"rendered":"\n<p>Loucura \u00e9 a primeira palavra diante do horror de um homem que mata dezenas de pessoas. A classifica\u00e7\u00e3o do ato como produto de uma mente insana, doentia, parece tornar o autor imune a uma condena\u00e7\u00e3o nos marcos de uma racionalidade jur\u00eddica. Uma outra palavra \u00e9 chamar o autor de monstro. O monstro \u00e9 um ser inumano, besta inclassific\u00e1vel nos termos de uma ideologia pol\u00edtica ou religiosa. Ambos, louco e monstro, surgem ent\u00e3o como seres irredut\u00edveis a uma compreens\u00e3o de quem, pessoa ou institui\u00e7\u00e3o, se considera h\u00e1bil e capaz para julgar e condenar.<\/p>\n<p>Ocorre que o genocida de Oslo n\u00e3o pode ser compreendido como louco ou monstro. Assim classific\u00e1-lo \u00e9 cair no enredo midi\u00e1tico, sensacionalista e analiticamente rebaixado. Anders Breivik matou 77 pessoas e explodiu um carro-bomba sustentando-se num discurso antigo, reatualizado em contextos ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos novos. Estes contextos s\u00e3o o regresso de agendas comunistas diante da crise econ\u00f4mico-social (e civilizacional, tamb\u00e9m) e a ascens\u00e3o<\/p>\n<p>do islamismo como movimento religioso, social e pol\u00edtico, para al\u00e9m da quest\u00e3o cultural e \u00e9tnica. S\u00e3o, n\u00e3o por acaso, a\u00e7\u00f5es reativas diante da queda desse muro concreto que se chama neoliberalismo \u2013 uma ideologia econ\u00f4mica que significou mais lucro para os ricos e mais mis\u00e9ria para quem trabalha.<\/p>\n<p>H\u00e1 um medo feroz que constitui a rea\u00e7\u00e3o do genocida de Oslo. H\u00e1 uma puls\u00e3o de morte para tentar matar esse medo. H\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o do outro diferente (negro, pobre, homossexual, comunista, aleijado, mulher, judeu, \u00e1rabe, liberal, cego, prostituta etc), que amea\u00e7a uma suposta ordem m\u00edtica, pura, sob a qual todos saberiam quais s\u00e3o as causas do mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1, por fim, uma ideologia cevada nas velhas entranhas do nazismo-fascismo, que sai das sombras justamente porque caiu o muro da mistifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica erguido ap\u00f3s a queda do muro do Berlim e do fim do regime sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>O horror do ato est\u00e1 al\u00e9m do terrorismo pol\u00edtico ou de car\u00e1ter religioso. O horror est\u00e1 no fato de que o autor agiu como um homem comum, como eram comuns milh\u00f5es de alem\u00e3es ou italianos que acompanharam a ascens\u00e3o de Hitler ou Mussolini nos anos 30. O que mais importa para tentar explicar o ato \u00e9 que milh\u00f5es de pessoas comungam dos mesmos ideais desumanos e genocidas do seu autor. E o sinal disso \u00e9 que a extrema-direita tem avan\u00e7ado nas disputas eleitorais em todos os pa\u00edses europeus, cevando-se no medo das burguesias m\u00e9dias e classes de banqueiros e industriais.<\/p>\n<p>Por isso, devemos compreender Anders Breivik nos termos do discurso que o inspira, ideol\u00f3gica e politicamente. H\u00e1, sim, loucura e monstruosidade por tr\u00e1s dele. E ambas devem ser chamadas pelo seu velho nome de batismo: capitalismo, como ideologia e sistema de produ\u00e7\u00e3o. E o capitalismo \u00e9 ainda mais letal quando naturaliza no ser humano a id\u00e9ia de que a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, sua aliena\u00e7\u00e3o e sua escraviza\u00e7\u00e3o num mundo onde n\u00e3o haveria hist\u00f3ria e luta, seriam elementos imanentes \u00e0 sua exist\u00eancia, material e espiritual.<\/p>\n<p>O ide\u00e1rio nazista \u00e9 a express\u00e3o racional desse regime como ideologia e institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O discurso de Breivik apenas torna vis\u00edvel o que constitui a ess\u00eancia do capitalismo. E n\u00e3o deixa de ser sintom\u00e1tico que, entre outros alvos, ele ataque tamb\u00e9m o multiculturalismo: esp\u00e9cie de concess\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica do capitalismo ao \u201cdiferente\u201d, mas desde que este \u201cdiferente\u201d n\u00e3o queira emancipar-se revolucionariamente al\u00e9m dos limites dos seus guetos. Ou seja, Breivik ataca at\u00e9 o que \u00e9, em forma e conte\u00fado, um embuste da ordem liberal-capitalista: ele quer \u201czerar\u201d a ordem a partir do mito de um mundo puro onde habitariam uma classe e ra\u00e7a superiores.<\/p>\n<p>A besta nazista come\u00e7a a sair das sombras nestes tempos de crise econ\u00f4mica e de valores humanos, pol\u00edticos e sociais. Da\u00ed ser necess\u00e1rio reafirmar a luta e a hip\u00f3tese comunista como a maior e melhor cr\u00edtica diante dos escombros de uma Europa e de um mundo submetidos \u00e0 mis\u00e9ria do capital na sua forma mais virulenta e anti-humana. Estamos travando grandes batalhas de uma guerra pol\u00edtico-ideol\u00f3gica longa: Oslo \u00e9 apenas mais um dos combates.<\/p>\n<p><em>*Nosso t\u00edtulo alude a Hiroxima por dois motivos: em mem\u00f3ria dos mortos no ataque covarde e genocida dos EUA contra essa cidade japonesa, e porque as v\u00edtimas de Oslo , em ess\u00eancia, sofreram o mesmo terror engendrado no \u00f3dio e vingan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>**Roberto Numeriano \u00e9 doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pesquisador do N\u00facleo de Estudos de Institui\u00e7\u00f5es Coercitivas e da Criminalidade (NICC\/UFPE).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nRoberto Numeriano**\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1727\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1727","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-rR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1727"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1727\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}