{"id":17383,"date":"2017-11-24T12:17:08","date_gmt":"2017-11-24T15:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17383"},"modified":"2017-11-24T12:17:08","modified_gmt":"2017-11-24T15:17:08","slug":"breve-historia-da-otan-de-1991-aos-dias-de-hoje-vii-viii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17383","title":{"rendered":"Breve hist\u00f3ria da OTAN de 1991 aos dias de hoje (VII, VIII)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-us-west-2.amazonaws.com\/sleuthjournal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/04131707\/bombing-libya.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Manlio Dinucci<\/p>\n<p>Com o seu \u201cnovo conceito estrat\u00e9gico\u201d a OTAN arrogou-se a possibilidade de intervir em \u00abn\u00e3o importa que miss\u00e3o em n\u00e3o importa que parte do mundo\u00bb. Criou e associou-se a grupos terroristas e ao Estado terrorista por excel\u00eancia, o estado sionista de Israel. A destrui\u00e7\u00e3o do Estado L\u00edbio n\u00e3o gerou apenas um saque nacional e uma trag\u00e9dia regional. Assentou um profundo golpe em toda a aspira\u00e7\u00e3o do continente africano a libertar-se do neocolonialismo.<\/p>\n<p><strong>VII<\/strong><\/p>\n<p>A cada vez mais estreita coopera\u00e7\u00e3o militar OTAN-Israel<\/p>\n<p>Em Abril de 2001, no quartel-general da OTAN em Bruxelas, Israel assina o \u00abacordo de seguran\u00e7a\u00bb comprometendo-se a proteger as \u00abinforma\u00e7\u00f5es classificadas\u00bb que receber\u00e1 no quadro da coopera\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p>Em junho de 2003 os governos italiano e israelita assinam um memorando de entendimento para uma coopera\u00e7\u00e3o no setor militar e da defesa, prevendo nomeadamente o desenvolvimento conjunto de um novo sistema de guerra eletr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2004 um avi\u00e3o radar Awacs da OTAN aterra pela primeira vez em Tel Aviv e pessoal israelita vai ser treinado na utiliza\u00e7\u00e3o das suas tecnologias.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2004 \u00e9 anunciado que a Alemanha fornecer\u00e1 a Israel dois novos submarinos Dolphin que ir\u00e3o juntar-se aos tr\u00eas (dois dos quais oferecidos) entregues nos anos 90. Israel pode assim refor\u00e7ar a sua frota de submarinos de ataque nuclear, mantidos em navega\u00e7\u00e3o permanente no Mediterr\u00e2neo, Mar Vermelho e Golfo P\u00e9rsico.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2005 o secret\u00e1rio-geral da OTAN efetua a sua primeira visita oficial a Tel Aviv, onde se encontra com as mais altas autoridades israelitas para<em> \u00abalargar a coopera\u00e7\u00e3o militar\u00bb.<\/em><br \/>\nEm mar\u00e7o de 2005 desenrola-se no Mar Vermelho o primeiro exerc\u00edcio naval conjunto Israel-OTAN: o comando do grupo naval da \u00abFor\u00e7a OTAN de rea\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 confiado \u00e0 marinha italiana que participa com a fragata Bersagliere.<\/p>\n<p>Em maio de 2005, ap\u00f3s ser ratificado no Senado e no Parlamento, o memorando de entendimento \u00edtalo-israelita passa a lei: \u00e9 assim institucionalizada a coopera\u00e7\u00e3o entre os minist\u00e9rios da defesa e as for\u00e7as armadas dos dois pa\u00edses no que diz respeito a \u00abimporta\u00e7\u00e3o, exporta\u00e7\u00e3o e tr\u00e2nsito de materiais militares\u00bb, \u00aborganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas\u00bb, e o \u00abtreino\/forma\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Em maio de 2005, Israel \u00e9 admitido como membro da Assembleia parlamentar da OTAN.<\/p>\n<p>Em junho de 2005 a marinha israelita participa num exerc\u00edcio OTAN no Golfo de Taranto.<\/p>\n<p>Em julho de 2005 tropas israelitas participam pela primeira vez num exerc\u00edcio OTAN, realizado na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Em junho de 2006 um navio de guerra israelita participa num exerc\u00edcio OTAN no Mar Negro, com o objetivo de \u00abcriar uma melhor interoperacionalidade entre a marinha israelita e as for\u00e7as navais OTAN\u00bb.<\/p>\n<p>Em outubro de 2006 a OTAN e Israel concluem um acordo que estabelece uma mais estreita coopera\u00e7\u00e3o israelita com o programa OTAN \u00abDi\u00e1logo mediterr\u00e2neo\u00bb, cujo objetivo \u00e9 o de <em>\u00abcontribuir para a seguran\u00e7a e a estabilidade na regi\u00e3o\u00bb. Neste quadro, \u00abOTAN e Israel acordam sobre as modalidades do contributo israelita para a opera\u00e7\u00e3o mar\u00edtima da NATO Active Endeavour\u00bb<\/em> (Nato\/Israel Cooperation, 16 de outubro de 2006)<br \/>\nIsrael \u00e9 deste modo recompensada pela OTAN pelo seu ataque e invas\u00e3o do L\u00edbano. As for\u00e7as navais israelitas, que juntamente com as for\u00e7as terrestres e a\u00e9reas acabam de fustigar o L\u00edbano com milhares de toneladas de bombas, massacrando civis, s\u00e3o integradas na opera\u00e7\u00e3o OTAN que deveria \u00abcombater o terrorismo no Mediterr\u00e2neo\u00bb. As mesmas for\u00e7as navais que, ao bombardearem a central el\u00e9trica Jiyyeh na costa libanesa provocaram uma enorme mar\u00e9 negra que se espalhou pelo Mediterr\u00e2neo (cujo tratamento vir\u00e1 a custar centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares), colaboram agora com a OTAN para \u00abcontribuir para a seguran\u00e7a da regi\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Em 2 de dezembro de 2008, cerca de tr\u00eas semanas antes do ataque israelita contra Gaza, a OTAN ratifica o \u00abPrograma individual de coopera\u00e7\u00e3o\u00bb com Israel. Compreende um vasto leque de \u00e1reas nas quais \u00aba OTAN e Israel cooperam plenamente\u00bb: contra-terrorismo, nomeadamente troca de informa\u00e7\u00f5es entre os servi\u00e7os respectivos; liga\u00e7\u00e3o de Israel ao sistema electr\u00f3nico OTAN; coopera\u00e7\u00e3o no setor do armamento; aumento dos exerc\u00edcios militares conjuntos OTAN-Israel; alargamento da coopera\u00e7\u00e3o na luta contra a prolifera\u00e7\u00e3o nuclear (ignorando que Israel, a \u00fanica pot\u00eancia nuclear na regi\u00e3o, recusou subscrever o Tratado de n\u00e3o-prolifera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>A OTAN na \u00abca\u00e7a aos piratas\u00bb no Oceano \u00cdndico<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 2008, um grupo naval da OTAN, o Standing Nato Maritime Group 2 (Snmg2), atravessa o Canal de Suez para entrar no Oceano \u00cdndico. Integram-no navios de guerra de It\u00e1lia, EUA, Alemanha, Gr\u00e3-Bretanha, Gr\u00e9cia e Turquia. Este grupo naval (cujo comando \u00e9 assumido rotativamente pelos pa\u00edses membros) integra uma das tr\u00eas componentes do Allied Joint Force Command Naples, cujo comando est\u00e1 permanentemente atribu\u00eddo a um almirante estadunidense, o mesmo que comanda as For\u00e7as navais EUA na Europa. A zona em o Snmg2 deixa a partir deste momento de ter fronteiras, uma vez que constitui uma das unidades da \u00abFor\u00e7a OTAN de rea\u00e7\u00e3o\u00bb, pronta a ser projetada em <em>\u00abn\u00e3o importa que miss\u00e3o em n\u00e3o importa que parte do mundo\u00bb.<\/em><br \/>\nObjetivo oficial da miss\u00e3o do Snmg2 no Oceano \u00cdndico: realizar \u00abopera\u00e7\u00f5es anti-pirataria\u00bb ao longo da costa da Som\u00e1lia, escoltando navios mercantes que transportam ajuda alimentar do World Food Program das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Neste \u00abesfor\u00e7o humanit\u00e1rio\u00bb, a OTAN <em>\u00abcontinua a coordenar a sua assist\u00eancia \u00e0 opera\u00e7\u00e3o Enduring Freedom conduzida pelos EUA\u00bb.<\/em> Por detr\u00e1s desta miss\u00e3o OTAN encontra-se uma coisa bem diferente. Na Som\u00e1lia, nesta altura, a pol\u00edtica dos EUA est\u00e1 em vias de sofrer um novo fracasso: as tropas et\u00edopes, enviadas em 2006 depois do falhan\u00e7o da tentativa da CIA de derrubar os Cursos isl\u00e2micos apoiando uma coliga\u00e7\u00e3o \u00abantiterrorista\u00bb dos senhores da guerra, foram obrigadas a retirar pela resist\u00eancia somaliana.<\/p>\n<p>Washington prepara ent\u00e3o outras opera\u00e7\u00f5es militares para ampliar o seu pr\u00f3prio controlo sobre a Som\u00e1lia, provocando novas e desastrosas consequ\u00eancias sociais. Estas \u00faltimas est\u00e3o na base do fen\u00f3meno da pirataria, surgido na sequ\u00eancia da pesca ilegal por frotas estrangeiras e da descarga de subst\u00e2ncias t\u00f3xica na costa somaliana que arruinaram os pequenos pescadores, alguns de entre os quais passaram a recorrer \u00e0 pirataria.<\/p>\n<p>A Som\u00e1lia \u00e9 importante na estrat\u00e9gia EUA\/OTAN pela sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica na costa do Oceano \u00cdndico. Para controlar esta \u00e1rea foi posicionado em Djibouti, na embocadura do Mar Vermelho, uma task force EUA. A interven\u00e7\u00e3o militar \u2013 direta e indireta \u2013 nesta e noutras zonas intensifica-se com a cria\u00e7\u00e3o do Comando \u00c1frica dos EUA. \u00c9 para a sua \u00ab\u00e1rea de responsabilidade\u00bb que o grupo naval OTAN \u00e9 enviado.<\/p>\n<p>Este tem tamb\u00e9m uma outra miss\u00e3o oficial: visitar certos pa\u00edses do Golfo P\u00e9rsico (Koweit, Bahrein, Qatar e Emirados \u00c1rabes Unidos), parceiros OTAN no quadro da Iniciativa de coopera\u00e7\u00e3o de Istambul. Os navios de guerra da OTAN v\u00e3o assim juntar-se aos porta-avi\u00f5es e outras numerosas unidades que os EUA t\u00eam instaladas no Golfo e no Oceano \u00cdndico, com uma fun\u00e7\u00e3o anti-Ir\u00e3 e, incluindo a avia\u00e7\u00e3o naval, para conduzir a guerra a\u00e9rea no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>VIII<br \/>\nA demoli\u00e7\u00e3o do Estado L\u00edbio <\/strong><br \/>\nA estrat\u00e9gia EUA\/OTAN consiste em demolir os Estados que est\u00e3o totalmente ou em grande parte fora do controlo dos EUA e das maiores pot\u00eancias europeias, sobretudo aqueles situados em zonas ricas em petr\u00f3leo e\/ou com uma importante posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica. Na lista das demoli\u00e7\u00f5es s\u00e3o privilegiados os Estados que n\u00e3o possuem uma for\u00e7a militar capaz de colocar em perigo, atrav\u00e9s de repres\u00e1lias, a for\u00e7a militar dos demolidores.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o come\u00e7a metendo cunhas nas fissuras internas que existem em qualquer Estado. Na Federa\u00e7\u00e3o Iugoslava v\u00e3o ser fomentadas nos anos 90 as tend\u00eancias secessionistas, apoiando e armando os sectores \u00e9tnicos e pol\u00edticos que se op\u00f5em ao governo de Belgrado. Esta opera\u00e7\u00e3o vai ser realizada apoiando-se sobre os novos grupos de poder, frequentemente formados por pol\u00edticos que passam para a oposi\u00e7\u00e3o para granjearem d\u00f3lares e lugares de poder.<\/p>\n<p>Em simult\u00e2neo \u00e9 conduzida uma insistente campanha medi\u00e1tica visando apresentar a guerra como necess\u00e1ria para defender os civis, amea\u00e7ados de exterm\u00ednio por um feroz ditador.<\/p>\n<p>Pede-se depois autoriza\u00e7\u00e3o ao Conselho de seguran\u00e7a da ONU, justificando a interven\u00e7\u00e3o pela necessidade de destituir o ditador que massacra civis desarmados. Basta um carimbo onde esteja escrito \u00abs\u00e3o autorizadas todas as medidas necess\u00e1rias\u00bb mas, caso n\u00e3o seja concedido (como foi o caso da Jugosl\u00e1via) prossegue-se na mesma. A m\u00e1quina de guerra EUA\/OTAN, j\u00e1 a postos, entra em ac\u00e7\u00e3o com um ataque aeronaval massivo e com opera\u00e7\u00f5es terrestres no interior do pa\u00eds, em torno do qual um muito severo embargo criou um vazio.<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia, depois de ter sido concretizada contra a Federa\u00e7\u00e3o Iugoslava, vai ser de novo adotada em 2011 contra a L\u00edbia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar v\u00e3o ser financiados e armados os sectores tribais hostis ao governo de Tr\u00edpoli, e tamb\u00e9m os grupos islamitas at\u00e9 h\u00e1 alguns meses definidos como terroristas. S\u00e3o ao mesmo tempo infiltradas for\u00e7as especiais na L\u00edbia, entre as quais milhares de comandos do Qatar, facilmente camufl\u00e1veis. Toda a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 dirigida pelos EUA, primeiro atrav\u00e9s do Comando \u00c1frica, depois atrav\u00e9s da OTAN sob comando EUA.<\/p>\n<p>Em 19 de mar\u00e7o de 2011 come\u00e7a o bombardeamento aeronaval da L\u00edbia. Em sete meses a avia\u00e7\u00e3o EUA\/OTAN vai efetuar 30 mil miss\u00f5es, das quais 10 mil ofensivas, utilizando mais de 40 mil bombas e m\u00edsseis. A It\u00e1lia participa nesta guerra com as suas bases e for\u00e7as militares, rasgando o Tratado de amizade, parceria e coopera\u00e7\u00e3o existente entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Para a guerra contra a L\u00edbia a It\u00e1lia coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as EUA\/OTAN 7 bases a\u00e9reas (Trapani, Gioia del Colle, Sigonella, Decimomannu, Aviano, Amendola e Pantelleria), assegurando assist\u00eancia t\u00e9cnica e reabastecimentos. A Aeron\u00e1utica italiana participa na guerra efectuando 1182 miss\u00f5es, com ca\u00e7as-bombardeiros Tornado, F-16 Falcon, Eurofighter 2000, AMX, drones Predator B e avi\u00f5es de reabastecimento KC-767 e KC130J. A Marinha de guerra \u00e9 envolvida na guerra em diversas frentes: de opera\u00e7\u00f5es de bloqueio naval a atividades de patrulha e abastecimento.<\/p>\n<p>Com a guerra EUA\/OTAN de 2011, o Estado l\u00edbio \u00e9 demolido e Khadafi assassinado; o empreendimento \u00e9 atribu\u00eddo a uma \u00abrevolu\u00e7\u00e3o libertadora\u00bb que os EUA se dizem orgulhosos de apoiar, criando \u00abuma alian\u00e7a sem igual contra a tirania e pela liberdade\u00bb. \u00c9 assim demolido este Estado que, sobre a margem sul do Mediterr\u00e2neo face \u00e0 It\u00e1lia, garantia \u00abaltos n\u00edveis de crescimento econ\u00f4mico\u00bb (como o Banco Mundial mostrava em 2010) com um crescimento m\u00e9dio do PIB de 7,5%, e registava \u00abelevados \u00edndices de desenvolvimento humano\u00bb, nomeadamente o acesso universal \u00e0 educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e secund\u00e1ria e, para 46%, \u00e0 de n\u00edvel universit\u00e1rio. Apesar das desigualdades existentes, o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o l\u00edbia era nitidamente mais elevado do que o dos outros pa\u00edses africanos. Era disso testemunho o facto de mais de dois milh\u00f5es de imigrados, na sua maioria africanos, encontrarem trabalho na L\u00edbia.<\/p>\n<p>A guerra vai, portanto, atingir tamb\u00e9m os imigrados vindos da \u00c1frica sub sariana que, perseguidos sob a acusa\u00e7\u00e3o de terem colaborado com Kadhafi, s\u00e3o presos ou obrigados a fugir. Muitos deles, movidos pelo desespero, tentando a travessia do Mediterr\u00e2neo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. Aqueles que a\u00ed perdem s\u00e3o tamb\u00e9m v\u00edtimas da guerra com que a OTAN demoliu o Estado l\u00edbio.<\/p>\n<p><strong>As verdadeiras raz\u00f5es da guerra contra a L\u00edbia <\/strong><\/p>\n<p>M\u00faltiplos factores tornam a L\u00edbia importante aos olhos dos EUA e das pot\u00eancias europeias. As reservas petrol\u00edferas \u2013 as maiores de \u00c1frica, preciosas pela sua alta qualidade e reduzido custo de extra\u00e7\u00e3o \u2013 e as de g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>Depois de Washington ter abolido as san\u00e7\u00f5es em troca do compromisso de Kadhafi de n\u00e3o produzir armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva, as grandes empresas petrol\u00edferas estadunidenses e europeias afluem \u00e0 L\u00edbia com grandes esperan\u00e7as, que ser\u00e3o todavia frustradas. O governo l\u00edbio concede licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas estrangeiras que deixem \u00e0 empresa nacional l\u00edbia (National Oil Corporation of Libya, Noc) a mais elevada percentagem do petr\u00f3leo extra\u00eddo: dada a forte competi\u00e7\u00e3o existente, esta atinge cerca de 90%. Al\u00e9m disso a Noc requer, nos contratos, que as empresas estrangeiras empreguem pessoal l\u00edbio incluindo para os lugares de dire\u00e7\u00e3o. Ao derrubar o Estado l\u00edbio, os EUA e as pot\u00eancias europeias visam de fato apropriar-se da sua riqueza energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do ouro negro, visam tamb\u00e9m o ouro branco l\u00edbio: a imensa reserva de \u00e1gua f\u00f3ssil no len\u00e7ol n\u00fabio (estimado em 150 mil Km3) que se estende sob a L\u00edbia, Sud\u00e3o e Chade. As possibilidades de desenvolvimento que oferece foram demonstradas pelo governo l\u00edbio, que construiu uma rede de aquedutos com uma extens\u00e3o de 4.000 km para transportar a \u00e1gua, extra\u00edda em profundidade por 1.300 po\u00e7os no deserto, at\u00e9 \u00e0s cidades costeiras e ao o\u00e1sis de Koufra, tornando f\u00e9rteis terras des\u00e9rticas. Estas reservas h\u00eddricas, que t\u00eam uma perspectiva mais valiosa do que as petrol\u00edferas, s\u00e3o cobi\u00e7adas \u2013 atrav\u00e9s das privatiza\u00e7\u00f5es promovidas pelo FMI \u2013 pelas multinacionais da \u00e1gua, que controlam quase metade do mercado mundial da \u00e1gua privatizada.<\/p>\n<p>Na mira EUA\/OTAN encontram-se tamb\u00e9m os fundos soberanos, os capitais que o Estado L\u00edbio investiu no estrangeiro. Os fundos soberanos geridos pela Libyan Investment Authority (Lia) s\u00e3o estimados em cerca de 70 milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, que ascendem a mais de 150 se se inclu\u00edrem os investimentos estrangeiros do Banco central e de outros organismos. Desde a sua constitui\u00e7\u00e3o em 2006 a Lia efetuou em cinco anos investimentos em mais de cem sociedades norte-africanas, asi\u00e1ticas, europeias, norte-americanas e sul-americanas: holding, bancos, imobili\u00e1rias, ind\u00fastrias, empresas petrol\u00edferas e outras. Estes fundos s\u00e3o \u00abcongelados\u00bb, ou seja sequestrados, pelos EUA e pelas maiores pot\u00eancias europeias.<\/p>\n<p>O assalto aos fundos soberanos l\u00edbios tem um impacto particularmente forte em \u00c1frica. Fora l\u00e1 que a Libyan Arab African Investment Company fizera investimentos em mais de 25 pa\u00edses, dos quais 22 na \u00c1frica subsariana, programando increment\u00e1-los sobretudos nos sectores mineiro, manufactureiro, tur\u00edstico e das telecomunica\u00e7\u00f5es. Os investimentos l\u00edbios tinham sido decisivos para a concretiza\u00e7\u00e3o do primeiro sat\u00e9lite de telecomunica\u00e7\u00f5es da Rascom (Regional African Satellite Communications Organization) o qual, entrado em \u00f3rbita em agosto de 2010, permitia aos pa\u00edses africanos come\u00e7arem a tornar-se independentes das redes de sat\u00e9lites estado-unidenses e europeias, economizando anualmente centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Mais importantes ainda tinham sido os investimentos l\u00edbios na concretiza\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas organismos financeiros lan\u00e7ados pela Uni\u00e3o Africana: o Banco africano de investimento, com sede em Tr\u00edpoli; o Fundo monet\u00e1rio africano, com sede em Yaound\u00e9 (Camar\u00f5es); o Banco central africano, com sede em Abidjan (Nig\u00e9ria). O desenvolvimento destes organismos teria podido permitir aos pa\u00edses africanos libertar-se, pelo menos em parte, do controlo do Banco mundial e do Fundo monet\u00e1rio internacional, instrumentos de domina\u00e7\u00e3o neocolonial, enfraquecendo o d\u00f3lar e o franco Cfa (moeda que 14 pa\u00edses africanos, ex. col\u00f3nias francesas, s\u00e3o obrigados a utilizar. O congelamento dos fundos l\u00edbios atingiu mortalmente todo o projecto.<\/p>\n<p>As mensagens de correio eletr\u00f4nico de Hillary Clinton (secret\u00e1ria de Estado da administra\u00e7\u00e3o Obama em 2011) revelados em 2016 confirmam qual foi o verdadeiro objectivo da guerra: bloquear o plano de Kadhafi de utilizar os fundos soberanos l\u00edbios para criar organismos financeiros aut\u00f3nomos da Uni\u00e3o africana e uma moeda africana alternativa ao d\u00f3lar e ao franco CFA.<\/p>\n<p>Para os EUA e a OTAN \u00e9 importante a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da L\u00edbia, na interse\u00e7\u00e3o entre Mediterr\u00e2neo, \u00c1frica e M\u00e9dio Oriente. Recorde-se que o Rei Idrisse tinha, em 1953, concedido aos inglese a utiliza\u00e7\u00e3o de bases a\u00e9reas, navais e terrestres na Cirenaica e Tripolit\u00e2nia. Um acordo an\u00e1logo tinha sido conclu\u00eddo em 1954 com os EUA, que tinham obtido a utiliza\u00e7\u00e3o da base a\u00e9rea de Wheelus Field \u00e0s portas de Tr\u00edpoli. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da monarquia, a Rep\u00fablica \u00e1rabe L\u00edbia tinha, em 1970, obrigado as for\u00e7as estadunidenses e brit\u00e2nicas a evacuar as bases militares e, no ano seguinte, tinha nacionalizado as propriedades da British Petroleum e obrigado as outras empresas a entregar ao Estado l\u00edbio percentagens muito mais elevadas dos seus lucros.<\/p>\n<p>(Continua)<\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/breve-historia-da-nato-de-1991-4\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17383\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Breve hist\u00f3ria da OTAN de 1991 aos dias de hoje (VII, VIII)","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165,18,38],"tags":[227],"class_list":["post-17383","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","category-s22-europa","category-c43-imperialismo","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4wn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17383","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17383"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17383\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}