{"id":17449,"date":"2017-11-27T20:10:45","date_gmt":"2017-11-27T23:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17449"},"modified":"2017-11-27T20:10:45","modified_gmt":"2017-11-27T23:10:45","slug":"um-ano-sem-fidel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17449","title":{"rendered":"Um ano sem Fidel"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Um ano sem Fidel\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/48\/2017\/11\/26\/24nov2017---homem-passa-em-frente-a-poster-com-imagem-de-fidel-castro-1511694153903_615x300.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"Um ano sem Fidel\" \/><!--more--><strong>As bases de nosso patriotismo<\/strong><\/p>\n<p>Por Enrique Ubieta G\u00f3mez<\/p>\n<p>Em fins do s\u00e9culo XIX, j\u00e1 era imagin\u00e1vel uma Revolu\u00e7\u00e3o social aut\u00eantica que n\u00e3o localizasse seus sonhos de reden\u00e7\u00e3o no ser humano, um farol que ultrapassasse os limites da ra\u00e7a e da na\u00e7\u00e3o. A democracia grega exclu\u00eda os escravos e as mulheres e \u2013 sem estender-me em exemplos de outras \u00e9pocas \u2013 os ide\u00f3logos da Revolu\u00e7\u00e3o burguesa se desconsideravam, tamb\u00e9m, os povos colonizados.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem estes e nem os oper\u00e1rios e campesinos das metr\u00f3poles podiam emancipar-se sem uma concep\u00e7\u00e3o humanista que abarcasse a todos, inclusive os exploradores e os colonizadores. Quando Napole\u00e3o Bonaparte aceitou, ante a beliger\u00e2ncia dos insurgentes, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o na col\u00f4nia de Saint Domingue e s\u00f3 nela, Toussaint Louverture, um negro analfabeto que tinha sido escravo, protestou:<\/p>\n<p>\u00abO que queremos n\u00e3o \u00e9 uma liberdade de circunst\u00e2ncia, concedida somente a n\u00f3s \u2013 disse com sagacidade pol\u00edtica, alheio a qualquer postura pragm\u00e1tica e \u00abrealista\u00bb\u2013, o que queremos \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o absoluta do princ\u00edpio de que todo homem nascido vermelho, negro ou branco n\u00e3o pode ser a propriedade de seu pr\u00f3ximo. Hoje somos livres porque somos os mais fortes. O C\u00f4nsul mant\u00e9m a escravid\u00e3o em Martinica e na ilha Bourbon; portanto, seremos escravos enquanto ele for o mais forte\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1871, Jos\u00e9 Mart\u00ed, com apenas 18 anos de idade, denunciava a cegueira dos herdeiros do iluminismo, que defendiam na Espanha os direitos que negavam em suas col\u00f4nias:<\/p>\n<p>\u00ab(\u2026) at\u00e9 os homens que sonham com a federa\u00e7\u00e3o universal, com o \u00e1tomo livre dentro da mol\u00e9cula livre, com o respeito \u00e0 independ\u00eancia alheia como base da for\u00e7a e da independ\u00eancia pr\u00f3prias, amaldi\u00e7oaram a peti\u00e7\u00e3o dos direitos que eles pedem, sancionaram a opress\u00e3o da independ\u00eancia que eles predicam, e santificaram como representantes da paz e da moral, a guerra de exterm\u00ednio e o esquecimento do cora\u00e7\u00e3o. (\u2026) Pediram ontem, pedem hoje, a liberdade mais ampla para eles, e hoje mesmo aplaudem a guerra incondicional para sufocar a peti\u00e7\u00e3o de liberdade dos demais\u00bb.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Mart\u00ed lega, em 1895, um conceito b\u00e1sico para os revolucion\u00e1rios cubanos: \u00abP\u00e1tria \u00e9 humanidade, \u00e9 aquela por\u00e7\u00e3o da humanidade que vemos mais de perto, e em que nos tocou nascer\u00bb. A independ\u00eancia de Cuba garantia o espa\u00e7o f\u00edsico e moral para uma rep\u00fablica de justi\u00e7a e solidariedade, com os pobres da Terra, ainda que Mart\u00ed, como Bol\u00edvar, sonhasse tamb\u00e9m com uma P\u00e1tria maior, que integrasse todos os povos que habitam do rio Bravo \u00e0 Patag\u00f4nia.<\/p>\n<p>Nenhum outro marxista latino-americano foi mais profundamente martiano que Fidel Castro. Mart\u00ed e Fidel foram os \u00fanicos l\u00edderes, na breve e intensa hist\u00f3ria de Cuba, que conseguiram a unidade necess\u00e1ria das for\u00e7as revolucion\u00e1rias; uma unidade alheia a pactos conciliadores, capaz de desarticular os consensos da domina\u00e7\u00e3o \u2013 os que proclamavam a incapacidade do cubano, a inferioridade do negro e da mulher, a inevitabilidade da depend\u00eancia \u2013, e fundar os da emancipa\u00e7\u00e3o, com homens e mulheres virtuosos, que superaram a si mesmos. Fidel e Mart\u00ed tiveram f\u00e9 na vit\u00f3ria, em seu povo, nas raz\u00f5es da luta, na possibilidade do que parecia imposs\u00edvel. Reuniu ambas tradi\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias, a do mundo colonial e neocolonial \u2013 uma de cujas figuras eminentes foi nosso Mart\u00ed \u2013, e a dos explorados do Capital, a do pensamento marxista e da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, cujo centen\u00e1rio acabamos de comemorar.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana de 1959 n\u00e3o pode ser pensada como um fato isolado, mas como parte da rebeli\u00e3o dos colonizados e dos explorados do mundo, como um passo na dif\u00edcil luta pela emancipa\u00e7\u00e3o dos seres humanos. \u00c9 certo que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o exportadas, nascem de condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se repetem e s\u00e3o pr\u00f3prias, por\u00e9m o conceito de solidariedade, aliado ao de justi\u00e7a, \u00e9 b\u00e1sico no socialismo, e n\u00e3o pode ser um bem que acate limite algum: nem o dom\u00e9stico, nem o de bairro, nem o de pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Cuba de Fidel exerceu a solidariedade dos irm\u00e3os, sem condi\u00e7\u00f5es nem c\u00e1lculos geopol\u00edticos, e n\u00e3o se deteve ante conveni\u00eancias que violassem seus princ\u00edpios; assim foi na \u00c1sia, na \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina. N\u00f3s cubanos doamos sangue de forma massiva para o Vietn\u00e3 agredido, cedemos uma libra de nossa cota de a\u00e7\u00facar para o Chile de Allende, lutamos com os que lutavam por seus povos em outras terras do mundo, e muitos foram os que ca\u00edram no caminho; avan\u00e7amos, ombro a ombro, juntos dos sandinistas e dos bolivarianos vitoriosos, na edifica\u00e7\u00e3o do novo pa\u00eds. Constru\u00edmos escolas, hospitais, aeroportos, alfabetizamos, assistimos a comunidades pobres no esporte e na cultura, salvamos ou curamos centenas de milhares de seres que careciam de atendimento m\u00e9dico. O internacionalismo foi um princ\u00edpio inviol\u00e1vel que se exerceu com um claro sentido do momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A Cuba de Fidel n\u00e3o se deteve ante considera\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, nem ante regimes caluniadores que conspiravam para derruba-la, e enviou m\u00e9dicos, por exemplo, \u00e0 Nicar\u00e1gua de Somoza, quando o terremoto de 1972 devastou a capital desse pa\u00eds. Criou um Contingente que leva o nome de um internacionalista nova-iorquino de nossa primeira guerra de independ\u00eancia, para ajudar o povo estadunidense depois do furac\u00e3o Katrina. A \u00fanica ideologia que esgrimiam n\u00e3o se articulava em palavras: estava no ato, no desinteresse, na entrega. Duzentos e cinquenta e seis trabalhadores cubanos da sa\u00fade assistiram os enfermos de ebola na pior epidemia desse v\u00edrus letal registrada na \u00c1frica Ocidental e no mundo. Ali, encontraram m\u00e9dicos africanos, dos pa\u00edses afetados e de outras na\u00e7\u00f5es do continente, que haviam estudado em Cuba, alguns inclusive desde a escola secund\u00e1ria e pr\u00e9-universit\u00e1ria, como outros milhares de jovens \u00e1rabes e latino-americanos.<\/p>\n<p>Quando no ano 1998 o furac\u00e3o Mitch arrasou com o Caribe centro-americano \u2013 outro furac\u00e3o de car\u00e1ter ideol\u00f3gico havia paralisado a esquerda internacional, depois da derrubada do chamado \u00abcampo socialista\u00bb \u2013 Fidel relan\u00e7ou o internacionalismo e com ele, a certeza de que outro mundo melhor \u00e9 poss\u00edvel caso exista vontade pol\u00edtica. Cada brigada m\u00e9dica que viajava para um pa\u00eds em situa\u00e7\u00e3o de desastre ou que havia solicitado nossa ajuda, era despedida pessoalmente por ele, que insistia no respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as e credos pol\u00edticos dos pacientes que atenderiam.<\/p>\n<p>Fidel, na realidade, ativava com isso a voca\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria de toda aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o depois de uma obscura e luminosa d\u00e9cada de resist\u00eancia, a dos anos noventa \u2013 a solidariedade fundacional, respaldada por uma condu\u00e7\u00e3o da crise que evitou sempre prejudicar os mais pobres e que sobrevivia entre apag\u00f5es e car\u00eancias, em a\u00e7\u00f5es t\u00e3o simples e significativas como a chamada \u00abgarrafa\u00bb nas ruas da cidade \u2013, e a expandia para o exterior, com o Plano Integral de Sa\u00fade na Am\u00e9rica Central e Haiti (depois se incorporaria a Venezuela) e para o interior, com a chamada Batalha de Ideias, que se propunha resgatar jovens de segmentos populacionais menos favorecidos. Ambas a\u00e7\u00f5es de solidariedade teriam sempre impacto no interior do pa\u00eds: cada trabalhador da sa\u00fade que salvava vidas em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, em zonas marginais ou muito intricadas e cada trabalhador social que reorientava seus semelhantes pelos caminhos pavimentados e belos da autossupera\u00e7\u00e3o, podia (se levasse no peito a semente) \u00abreciclar\u00bb seu esp\u00edrito revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Protagonizar a justi\u00e7a era a \u00fanica maneira de reativar a Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nesse empenho, Fidel encontrou um igual: Hugo Ch\u00e1vez. Juntos percorreram cada terreno baldio, cada rio, cada montanha, cada bairro urbano de Nossa Am\u00e9rica, cada cora\u00e7\u00e3o de latino-americano. Juntos exclamaram: seja a unidade na solidariedade!<\/p>\n<p>O conceito de Revolu\u00e7\u00e3o fidelista (que \u00e9 seu c\u00f3digo moral), adquire sentido no contexto da vida e da obra de Fidel. Se P\u00e1tria \u00e9 Humanidade, Socialismo \u00e9 justi\u00e7a, \u00e9 humanismo revolucion\u00e1rio. N\u00e3o se pode entender nenhum dos aspectos ou as ideias que exp\u00f5e esse conceito caso sejam separadas de seu princ\u00edpio norteador: a luta contra a injusti\u00e7a, onde quer que se produza, e contra o capitalismo, contra o imperialismo, que necessita dela. Quem disse que Fidel j\u00e1 n\u00e3o vive? Seu conceito de Revolu\u00e7\u00e3o ultrapassa o conceito, ou seja, as palavras que o comp\u00f5em; e interage com a hist\u00f3ria, a que foi e a que ser\u00e1; porque sem justi\u00e7a n\u00e3o existe P\u00e1tria, sem solidariedade \u2013 interna e externa \u2013, n\u00e3o existe P\u00e1tria, sem as conquistas que alcan\u00e7amos, e sem as quais nos propomos alcan\u00e7ar, n\u00e3o existe P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2017\/11\/24\/un-ano-sin-fidel-las-bases-de-nuestro-patriotismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.<wbr \/>resumenlatinoamericano.org\/<wbr \/>2017\/11\/24\/un-ano-sin-fidel-<wbr \/>las-bases-de-nuestro-<wbr \/>patriotismo\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17449\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,47],"tags":[224],"class_list":["post-17449","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c57-revolucao-cubana","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4xr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17449"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17449\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}