{"id":1745,"date":"2011-08-12T00:28:16","date_gmt":"2011-08-12T00:28:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1745"},"modified":"2011-08-12T00:28:16","modified_gmt":"2011-08-12T00:28:16","slug":"lembrai-vos-de-1961","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1745","title":{"rendered":"LEMBRAI-VOS DE 1961"},"content":{"rendered":"\n<p><em> Jacques Gruman *<\/em><\/p>\n<p>Assunto n\u00e3o faltava. O genoc\u00eddio alimentar na \u00c1frica, um artiguinho demolidor do Ruy Castro (\u201cGuerra ao gugu-dad\u00e1\u201d), uma cr\u00f4nica surpreendente do Manuel Bandeira, escrita em 1929, mais uma crise parida pelo capital financeiro. Ainda falo disso tudo, mas esta semana vou de Briza. Com z mesmo.<\/p>\n<p>Acostumamo-nos a comparar pol\u00edtica ao que h\u00e1 de pior, a canalhices e negociatas, a bravatas e oportunismo, a privil\u00e9gios e bandalheiras. Para a popula\u00e7\u00e3o em geral, distante dos gabinetes, pol\u00edtico virou quase sin\u00f4nimo de criminoso. Nem sempre foi assim. H\u00e1 cinquenta anos, o pa\u00eds foi sacudido por um movimento que mobilizou grandes massas e abortou um golpe civil-militar. No epicentro, um governador de estado.<\/p>\n<p>Era 1961. J\u00e2nio Quadros, malandro, renuncia \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica no dia 25 de agosto, esperando voltar nos bra\u00e7os do povo e com poderes extraordin\u00e1rios. A manobra falha. Jango, vice-presidente em visita oficial \u00e0 China, \u00e9 avisado de que h\u00e1 um movimento militar contr\u00e1rio \u00e0 sua posse, prevista pela Constitui\u00e7\u00e3o. Jango poderia ser preso quando desembarcasse no Brasil. Mais uma crise verde-oliva. Parecia tudo armado para o golpe, mas &#8230; No sul, h\u00e1 resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, comanda a Campanha da Legalidade, para garantir a posse de Jango. N\u00e3o foi um movimento trivial. O 3\u00ba Ex\u00e9rcito, sediado no sul, tinha o maior contingente do pa\u00eds. Se aderisse aos golpistas, poderia haver um banho de sangue. Brizola magnetizou os ga\u00fachos com discursos inflamados e dirigiu-se \u00e0 na\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos equipamentos da r\u00e1dio Gua\u00edba, provisoriamente instalados nos por\u00f5es do Pal\u00e1cio do governo. Foi a chamada Cadeia da Legalidade.<\/p>\n<p>As tropas do 3\u00ba Ex\u00e9rcito recusaram-se a aderir aos golpistas, desidratando seu poder de fogo, e a Campanha foi vitoriosa. Depois de intensas negocia\u00e7\u00f5es, Jango volta ao Brasil e, mesmo manietado por uma emenda parlamentarista, assume a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Da not\u00e1vel Campanha da Legalidade, que completa meio s\u00e9culo, vale registrar alguns dados, lembrados em artigo recente de Eleanora de Lucena, da Folha de S. Paulo. Eles mostram a dimens\u00e3o do que aconteceu naqueles dias turbulentos, num pa\u00eds acostumado ao jeitinho e ao conchavo.<\/p>\n<p>1. Antes de receber o comandante do 3\u00ba Ex\u00e9rcito, general Machado Lopes, Brizola faz o seguinte discurso: \u201cN\u00e3o nos submeteremos a nenhum golpe. Que nos esmaguem. Que nos destruam. Que nos chacinem neste Pal\u00e1cio. Chacinado estar\u00e1 o Brasil com a imposi\u00e7\u00e3o de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta r\u00e1dio ser\u00e1 silenciada. O certo \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 silenciada sem balas. Resistiremos at\u00e9 o fim. A morte \u00e9 melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem gl\u00f3ria. Podem atirar. Que decolem os jatos. Que atirem os armamentos que tiverem comprado \u00e0 custa da fome e do sacrif\u00edcio do povo. Joguem essas armas contra este povo. J\u00e1 fomos dominados pelos trustes e monop\u00f3lios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necess\u00e1rio. Um dia, nossos filhos e irm\u00e3os far\u00e3o a independ\u00eancia de nosso povo.\u201d Lendo isso, lembrei-me imediatamente do \u00faltimo discurso de Salvador Allende. Cercado pela corja que implantou uma ditadura assassina no Chile, Allende se dirigiu aos chilenos pela \u00faltima vez, usando um canal de r\u00e1dio. Entre outras coisas, disse: \u201cN\u00e3o vou renunciar ! Colocado numa encruzilhada hist\u00f3rica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo.\u201d E pagou. Quantos pol\u00edticos, como Brizola e Allende, tiveram a coragem de levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias seus projetos pol\u00edticos ?<\/p>\n<p>2. Quando os militares chegaram ao Pal\u00e1cio Piratini para conversar com Brizola, havia cerca de 100 mil pessoas na pra\u00e7a em frente. No momento em que subiam as escadas, Machado Lopes e os generais ouviram o povo come\u00e7ar a cantar o Hino Nacional. Pararam, viraram-se, colocaram a m\u00e3o no peito e cantaram junto. Pouco depois, o 3\u00ba Ex\u00e9rcito afirmava sua ades\u00e3o \u00e0 legalidade. Voc\u00eas conseguem imaginar algo parecido hoje em dia, povo e soldados irmanados por uma vontade pol\u00edtica ? Sei que eram tempos de Guerra Fria, muita polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, muita mobiliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 estou querendo reafirmar que apatia, descaso e mesmo cinismo n\u00e3o s\u00e3o quest\u00e3o de DNA brasileiro.<\/p>\n<p>3. A popula\u00e7\u00e3o de Porto Alegre era de 635 mil habitantes. Em poucos dias, 45 mil pessoas mobilizaram-se para participar da resist\u00eancia e receber treinamento militar. Comparando: seria como se 450 mil cariocas se alistassem, hoje, para campanha semelhante. N\u00e3o estou falando de caminhadas na orla em defesa da liberaliza\u00e7\u00e3o da maconha, nem da defesa de algum animal em extin\u00e7\u00e3o. Refiro-me a gente que se apresentou voluntariamente para defender, com risco da pr\u00f3pria vida, a legalidade constitucional. Era outro pa\u00eds &#8230;<\/p>\n<p>4. Gr\u00eamio e Internacional suspenderam o jogo programado pelo campeonato ga\u00facho e declararam solidariedade \u00e0 campanha. Lembrei-me de uma viagem recente ao Uruguai. Estava nas ruas uma campanha de coleta de assinaturas para a convoca\u00e7\u00e3o de um plebiscito pela revoga\u00e7\u00e3o da anistia dos militares que torturaram e assassinaram opositores entre 1973 e 1985. O time de futebol de areia uruguaio convocou a imprensa e declarou apoio \u00e0 campanha. Que diferen\u00e7a com os Neymares, Kakas e Robinhos, deslumbrados com penteados extravagantes e\/ou prega\u00e7\u00f5es religiosas !<\/p>\n<p>5. A campanha teve um hino:<\/p>\n<p><strong>Avante Brasileiros<\/strong><\/p>\n<p><strong> De p\u00e9 (bis)<\/strong><\/p>\n<p><strong> Unidos pela liberdade<\/strong><\/p>\n<p><strong> Marchemos todos juntos<\/strong><\/p>\n<p><strong> Com a bandeira que prega legalidade<\/strong><\/p>\n<p><strong> Protesta contra os tiranos<\/strong><\/p>\n<p><strong> Te recusa \u00e0 trai\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong> Que um povo s\u00f3 \u00e9 bem grande<\/strong><\/p>\n<p><strong> Se for livre a sua na\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>O hino, de autoria de Dem\u00f3stenes Gonzalez, Lara de Lemos e Paulo C\u00e9sar Pereio (ele mesmo !), teve dois arranjos, feitos pelos maestros Alfredo Hulsberg, Karl Faust e Salvador Campanela. A letra, depois, foi ampliada e gravada na R\u00e1dio Farroupilha pelo Coral supervisionado por Madeleine Ruffier.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou e nunca fui brizolista. O caudilhismo centralizante do velho Briza levou, por exemplo, a uma administra\u00e7\u00e3o confusa e sem participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais no governo do Rio. Isso, no entanto, n\u00e3o diminui minha admira\u00e7\u00e3o pela Campanha da Legalidade. Foi uma das mais vigorosas demonstra\u00e7\u00f5es de paix\u00e3o pol\u00edtica e comunh\u00e3o com a vontade popular de que tenho conhecimento. Merece lugar destacado na mem\u00f3ria coletiva dos brasileiros. E sem essa de que \u201cbrasileiro \u00e9 bonzinho !\u201d, como se fosse um destino manifesto sermos ref\u00e9ns dos conchavos e das t\u00e1ticas conciliat\u00f3rias da classe dominante. Lembrai-vos de 1961 !<\/p>\n<p><em>*Jacques Gruman &#8211; <\/em><em>militante da comunidade judaica progressista do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\n(A Campanha da Legalidade)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1745\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-1745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-s9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1745\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}