{"id":17451,"date":"2017-11-27T20:15:29","date_gmt":"2017-11-27T23:15:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17451"},"modified":"2017-11-27T20:15:29","modified_gmt":"2017-11-27T23:15:29","slug":"uberizacao-do-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17451","title":{"rendered":"A &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; do mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"A uberiza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm5.staticflickr.com\/4562\/38590741202_35732af036_b.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"A uberiza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho\" \/><!--more-->As recentes mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista v\u00e3o ampliar um processo de &#8220;uberiza\u00e7\u00e3o&#8221; do mercado de trabalho, ou seja, um novo est\u00e1gio de explora\u00e7\u00e3o, focado no enaltecimento do trabalho aut\u00f4nomo e com pouca cobertura de direitos sociais. Esta \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora Ludmila Costhek Ab\u00edlio, do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>Segundo ela, o processo de precariza\u00e7\u00e3o tomou visibilidade com a empresa estadunidense Uber, que divulgou recentemente ter 500 mil motoristas no Brasil. No entanto, ela pontua que o processo de precariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recente e nem come\u00e7a com as plataformas digitais.<\/p>\n<p>&#8220;Elas [as mudan\u00e7as] j\u00e1 est\u00e3o em jogo no mundo do trabalho h\u00e1 tempos e deixou evidente que tem uma promo\u00e7\u00e3o dessas formas de trabalho agora em jogo, dentro da chave da legalidade. \u00c9 um desafio enorme que estamos enfrentando&#8221;, disse.<\/p>\n<p>A pesquisadora afirma que empresas usam o discurso da media\u00e7\u00e3o entre o consumidor, mas elas det\u00eam todas as formas de controle, de regula\u00e7\u00e3o da produtividade destes trabalhador. &#8220;E de outro lado, voc\u00ea tem uma multid\u00e3o de consumidores que tamb\u00e9m \u00e9 parte desse processo&#8221;, explica.<\/p>\n<p><strong>Para Ludmila Costhek Ab\u00edlio, a l\u00f3gica do Uber exp\u00f5e algo obscurecido: as novas tecnologias atualizam uma deteriora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas iniciada h\u00e1 tempos<\/strong><\/p>\n<p>Havia expectativa de que a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica traria mais tempo e liberdade ao trabalhador. De fato, hoje, h\u00e1 quem acredite que isso ocorre. Entretanto, a cientista social Ludmila Costhek Ab\u00edlio alerta que \u00e9 uma ilus\u00e3o, vide a l\u00f3gica do trabalho no Uber. A realidade \u00e9 que esses usos das tecnologias v\u00eam precarizando as rela\u00e7\u00f5es de trabalho atrav\u00e9s da sedu\u00e7\u00e3o de, por exemplo, uma ilus\u00f3ria ideia de liberdade por n\u00e3o ter patr\u00e3o. \u201cAo mesmo tempo em que se livra do v\u00ednculo empregat\u00edcio, a uberiza\u00e7\u00e3o mant\u00e9m, de formas um tanto evidentes, o controle, gerenciamento e fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre o trabalho\u201d, adverte. Para ela, a perspectiva \u00e9 ainda inteiramente aliada com a ideia de empreendedorismo de si. \u201cTrata-se ent\u00e3o da consolida\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do trabalhador em um nanoempreendedor de si pr\u00f3prio\u201d, pontua.<\/p>\n<p>A pesquisadora salienta que a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o \u00e9 novidade. A l\u00f3gica do capital globalizado n\u00e3o combina com direitos e v\u00ednculos empregat\u00edcios s\u00f3lidos. Da\u00ed as tentativas de reorganiza\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o, de modo que o grande favorecido seja o empregador capitalista. Para Ludmila, o que h\u00e1 de novo \u00e9 o uso das novas tecnologias a servi\u00e7o dessa l\u00f3gica. \u201cA uberiza\u00e7\u00e3o deixa muito evidente uma rela\u00e7\u00e3o facilmente obscurecida, entre desenvolvimento tecnol\u00f3gico e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, completa, na entrevista concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>. \u201cO que \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da uberiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 tirar um olho da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para olhar o que h\u00e1 de mais prec\u00e1rio e socialmente invis\u00edvel no mundo do trabalho\u201d, aponta.<\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio<\/strong> \u00e9 doutora em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas \u2013Unicamp. Possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP e mestrado em Sociologia pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Fez seu P\u00f3s-doutorado (USP) sobre a constitui\u00e7\u00e3o dos discursos sobre a chamada &#8220;nova classe m\u00e9dia&#8221; brasileira, tratando da rela\u00e7\u00e3o entre explora\u00e7\u00e3o do trabalho e acumula\u00e7\u00e3o capitalista, com estudo sobre o trabalho dos motofretistas na cidade de S\u00e3o Paulo. Atualmente \u00e9 pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho \u2013 Cesit, na Faculdade de Economia da Unicamp. Entre suas publica\u00e7\u00f5es, destacamos Sem maquiagem: o trabalho de um milh\u00e3o de revendedoras de cosm\u00e9ticos (S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2014).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como a senhora compreende a ideia de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d ? Como ela ajuda a entender o mundo do trabalho na atualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho se refere a uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es do trabalho, que em realidade est\u00e3o em curso h\u00e1 d\u00e9cadas. A empresa Uber deu visibilidade a uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o, controle e gerenciamento do trabalho, que est\u00e1 assentada nestes processos. \u00c9 preciso compreender a economia digital como um campo poderoso de reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho, mas n\u00e3o perder de vista que ela realiza uma atualiza\u00e7\u00e3o de elementos que est\u00e3o em curso no mundo do trabalho, e que, sim, est\u00e3o fortemente ligados com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Trata-se da rela\u00e7\u00e3o das reconfigura\u00e7\u00f5es do papel do Estado \u2013 seja na elimina\u00e7\u00e3o de direitos do trabalho, seja na elimina\u00e7\u00e3o das barreiras ao fluxo do capital, trata-se do desemprego e de uma perda de formas do trabalho, al\u00e9m de mudan\u00e7as na subjetividade do trabalhador.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a uberiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada com a crescente imbrica\u00e7\u00e3o da esfera do consumo na esfera do trabalho, assim como com o encontro contempor\u00e2neo entre vigil\u00e2ncia, coleta de dados, gerenciamento e explora\u00e7\u00e3o do trabalho, e a esfera do consumo. Por fim, a uberiza\u00e7\u00e3o deixa muito evidente uma rela\u00e7\u00e3o facilmente obscurecida, entre desenvolvimento tecnol\u00f3gico e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, e nos possibilita hoje ver como elementos recorrentemente considerados perif\u00e9ricos, desimportantes, por vezes at\u00e9 mesmo definidos como \u201cpr\u00e9-capitalistas\u201d em pleno s\u00e9culo XXI, est\u00e3o hoje no centro desta forma de explora\u00e7\u00e3o. Centro em duplo sentido, pois o que a uberiza\u00e7\u00e3o deixa expl\u00edcito \u00e9 que os pa\u00edses do \u201ccentro\u201d j\u00e1 sabem bem o que \u00e9 vira\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 trabalho informal, o que \u00e9 trabalho amador, sob o nome \u201cglobalizado\u201d para isso (ou seja, cunhado no centro), a Gig economy. Portanto, a empresa Uber deu visibilidade aos elementos centrais desse processo e de como operam agora de forma extremamente bem articulada, al\u00e9m de deixar evidente que ele ocorre de forma global.<\/p>\n<p><strong>Uberiza\u00e7\u00e3o: conceitos e reflexos<\/strong><\/p>\n<p>Podemos ent\u00e3o come\u00e7ar destacando os principais elementos que tecem a uberiza\u00e7\u00e3o e fazem dela uma defini\u00e7\u00e3o relevante. Primeiramente, a quest\u00e3o da elimina\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo empregat\u00edcio. O trabalhador \u00e9 um nanoempreendedor, e a empresa n\u00e3o \u00e9 uma empregadora, mas uma parceira, n\u00e3o h\u00e1 qualquer tipo de contrato de trabalho, nem mesmo de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Este trabalhador passa a ser definido como um microempreendedor, que tem liberdade sobre seu pr\u00f3prio trabalho, que n\u00e3o tem patr\u00e3o, que administra sua pr\u00f3pria vida para sobreviver. Um trabalhador que arca ele pr\u00f3prio com os riscos, com uma s\u00e9rie de custos, e n\u00e3o conta com os direitos que vinham associados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de seu trabalho. O professor Ricardo Antunes refere-se \u00e0 sociedade da terceiriza\u00e7\u00e3o total, \u00e9 isto que est\u00e1 em jogo. A empresa aparece e se legitima como uma mediadora que fornece a infraestrutura para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo o trabalhador foi, no discurso do mercado, transformado em \u201ccolaborador\u201d. A uberiza\u00e7\u00e3o parece consolidar esta perspectiva, que, em realidade, \u00e9 mais uma forma de obscurecer a explora\u00e7\u00e3o e tornar ainda mais prec\u00e1ria a condi\u00e7\u00e3o do trabalhador. Empresas como a Uber se afirmam como mediadoras entre consumidores e estes trabalhadores que se tornam ofertadores de servi\u00e7os. S\u00f3 falta lembrar que nesta media\u00e7\u00e3o elas definem os ganhos do trabalhador, definem e det\u00eam os instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o sobre o seu trabalho, criam regras e formas de est\u00edmulo ao trabalho que se confundem e operam como controles da produtividade do trabalhador. Ao mesmo tempo em que se livra do v\u00ednculo empregat\u00edcio, a uberiza\u00e7\u00e3o mant\u00e9m, de formas um tanto evidentes, o controle, gerenciamento e fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre o trabalho. Trata-se ent\u00e3o da consolida\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do trabalhador em um nanoempreendedor de si pr\u00f3prio. E da empresa como uma simples provedora dos meios de trabalho.<\/p>\n<p>Em segundo, esta transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente discursiva. \u00c9 como se a flexibiliza\u00e7\u00e3o finalmente chegasse ao resultado almejado que est\u00e1 em processo h\u00e1 d\u00e9cadas: o de transformar o trabalhador em trabalhador just-in-time, ou seja, um trabalhador dispon\u00edvel ao trabalho e que pode ser utilizado na exata medida das demandas do capital. A empresa Uber deu visibilidade a este padr\u00e3o, mas, como diz o professor Marcio Pochmann , \u00e9 poss\u00edvel pensar que seja generaliz\u00e1vel por todos os setores econ\u00f4micos. O capital conta com a disponibilidade do trabalhador, e n\u00e3o paga por ela. A elimina\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos tamb\u00e9m quer dizer ent\u00e3o que o tempo de n\u00e3o trabalho j\u00e1 n\u00e3o entra na conta do capital. Este nanoempreendedor torna-se respons\u00e1vel pelo gerenciamento de si pr\u00f3prio nesta disponibiliza\u00e7\u00e3o cambiante e inst\u00e1vel de seu trabalho. Al\u00e9m de estar dispon\u00edvel para o trabalho quando demandado, ele tem de estabelecer suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias que garantam sua reprodu\u00e7\u00e3o no tempo em que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, afinal ele est\u00e1 vivo independentemente das demandas do capital&#8230;<\/p>\n<p>O que estamos vendo em ato \u00e9 a demanda pela capacidade do trabalhador em administrar a pr\u00f3pria vida sem as redes de prote\u00e7\u00e3o m\u00ednimas \u2013 e que, \u00e9 bom sempre lembrar, nunca se consolidaram de forma generalizada em pa\u00edses como o Brasil. Trata-se do savoir-faire que permita ser um motofretista que trabalha para uma empresa e dois aplicativos ao mesmo tempo, ser um engenheiro e motorista Uber, ser uma secret\u00e1ria e revender produtos da Natura. O que est\u00e1 em jogo na uberiza\u00e7\u00e3o \u2013 e novamente \u00e9 preciso salientar que isto n\u00e3o \u00e9 uma novidade \u2013 \u00e9 esta utiliza\u00e7\u00e3o \u2013 agora de forma organizada e racionalizada pelo capital, isso sim uma novidade \u2013 da capacidade do trabalhador de gerenciar seu pr\u00f3prio trabalho, intensificar seu trabalho, estender seu tempo de trabalho. At\u00e9 isto \u00e9 pass\u00edvel de terceiriza\u00e7\u00e3o, uma constata\u00e7\u00e3o que em realidade est\u00e1 no cerne do que convencionamos chamar de flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. Autogerenciamento e transforma\u00e7\u00e3o do trabalhador em trabalhador just-in-time andam juntos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos esquecer que isto envolve uma enorme disputa em torno das determina\u00e7\u00f5es do trabalho, envolve o Estado em diferentes frentes, envolve os movimentos organizados e novos movimentos que j\u00e1 come\u00e7am a tomar forma. Por exemplo, recentemente a justi\u00e7a de Belo Horizonte assim como a da Inglaterra reconheceram o v\u00ednculo empregat\u00edcio dos motoristas com a empresa.<\/p>\n<p>Esta luta \u00e9 permanente, e com ela germinam novas formas de resist\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o. Recentemente, na Inglaterra, trabalhadores \u2013 motoboys e ciclistas \u2013 do aplicativo de entrega de comidas Deliveroo, organizaram-se e enfrentaram a companhia. A organiza\u00e7\u00e3o se deu por meio das redes sociais, dos grupos de whatsapp. O meio de resist\u00eancia foi a greve. Qual greve? Os nanoempreendedores evidenciam a sua condi\u00e7\u00e3o de trabalhadores, e paralisam a distribui\u00e7\u00e3o. Como? Desligando o aplicativo. Durante um dia inteiro, centenas de trabalhadores recusaram-se a fazer entregas. Concentrados em frente a empresa, o diretor desce para conversar com os grevistas. Ele diz: \u201cquero falar com voc\u00eas individualmente, n\u00f3s vamos ouvir a demanda de cada um\u201d. Mas os trabalhadores j\u00e1 compreenderam ali seu poder enquanto movimento. N\u00e3o teve jeito, a empresa teve de ceder, ao menos em parte. Qual era o mote do protesto? Trabalhadores da Deliveroo ganham por hora, e as horas n\u00e3o s\u00e3o fixas (algo que n\u00e3o \u00e9 novo na legisla\u00e7\u00e3o inglesa). Esta semana a empresa diz que voc\u00ea vai trabalhar 70 horas, chega o ver\u00e3o ela diz que s\u00f3 precisa de voc\u00ea por 50. (A solu\u00e7\u00e3o? Recorrer a outro aplicativo). J\u00e1 estavam ent\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de just-in-time, mas ela pode piorar. A Deliveroo queria fazer algo muito simples, transformar o pagamento por hora em pagamento por entrega, eliminando assim os custos sobre tempo de n\u00e3o trabalho. \u00c9 um cabo de guerra.<\/p>\n<p>Em terceiro, temos que entender por que essa subordina\u00e7\u00e3o se realiza por uma nova forma de gerenciamento do trabalho. As terceiriza\u00e7\u00f5es, o empreendedorismo, os elementos da flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho v\u00eam h\u00e1 tempos envolvendo esse esfacelamento de v\u00ednculos que d\u00e3o garantias e algum tipo de seguran\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador. J\u00e1 sabemos h\u00e1 tempos que a flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho foi um ve\u00edculo poderoso para a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho, para a extens\u00e3o do tempo de trabalho, assim como para formas contempor\u00e2neas de engajamento do trabalhador. A novidade da uberiza\u00e7\u00e3o reside na forma como tudo isso opera. Temos um novo gerenciamento do trabalho, que muitas vezes passa a ser executado na esfera do consumo. Se a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento chave no mundo do trabalho neoliberal, agora a sua execu\u00e7\u00e3o pode ser terceirizada para uma multid\u00e3o de consumidores ativos e confiantes no seu papel certificador. O motorista se sabe permanentemente avaliado, \u00e9 disto que depende seu acesso \u00e0s \u201ctarefas\u201d oferecidas; o consumidor, ao mesmo tempo em que avalia, tamb\u00e9m se fia na avalia\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o de consumidores. Isto \u00e9 muito interessante, porque a certifica\u00e7\u00e3o sobre o trabalho sai da m\u00e3o do Estado e de procedimentos publicamente estabelecidos e passa a se dar na rela\u00e7\u00e3o entre gerenciamento da multid\u00e3o de consumidores e o cultivo da for\u00e7a da marca.<\/p>\n<p><strong>Iludidos pelo capital<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, a multid\u00e3o de consumidores apenas executa o gerenciamento. O poder de estabelecer as regras, as formas de controle sobre o trabalho, al\u00e9m dos ganhos do nanoempreendedor, seguem nas m\u00e3os do capital, ou seja, da empresa que \u00e9 a \u201cmediadora\u201d da rela\u00e7\u00e3o entre oferta e procura. Estas m\u00e3os est\u00e3o plenamente automatizadas nos softwares e algoritmos que s\u00e3o propriedade destas empresas. Ou seja, a intangibilidade deste controle e da rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o \u00e9 desafiadora: a empresa \u00e9 um aplicativo, o trabalhador \u00e9 um parceiro, o gerenciamento \u00e9 programado por um software, o gerente \u00e9 uma multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas essa imaterialidade ao mesmo tempo que \u00e9 central, tamb\u00e9m \u00e9 fr\u00e1gil, ela pode se desfazer rapidamente, quando os trabalhadores utilizam os instrumentos da uberiza\u00e7\u00e3o para sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, como no caso dos trabalhadores do Deliveroo. Quando os trabalhadores paralisam seu trabalho, usam as suas redes para se organizar, e demonstram que s\u00e3o centenas, milhares, enfrentando uma empresa, a\u00ed toda aquela intangibilidade cai por terra. Fica evidente que s\u00e3o trabalhadores, fica evidente que a empresa n\u00e3o \u00e9 meramente uma mediadora, mas uma companhia que controla e explora o trabalho, e que os trabalhadores t\u00eam poder de se organizar dentro dessa l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por fim, outro elemento central: a uberiza\u00e7\u00e3o expressa uma crescente ades\u00e3o ao trabalho que vai perdendo suas formas socialmente reguladas e estabelecidas que lhe conferem a concretude de ser trabalho. Temos a\u00ed de recorrer \u00e0 categoria de trabalho amador, ou seja, um trabalho que \u00e9 trabalho, mas que n\u00e3o confere identidade profissional, que n\u00e3o tem alguns dos elementos socialmente estabelecidos que envolvem as regula\u00e7\u00f5es do Estado, que envolvem elementos que estruturam a identidade do trabalhador enquanto tal. O motorista de t\u00e1xi \u00e9 um motorista profissional, j\u00e1 o motorista Uber tem uma identidade flex\u00edvel. Ele pode ser um desempregado fazendo um bico, ele pode ser um trabalhador que complementa a renda, s\u00e3o milhares de exemplos. O que a categoria de trabalhador amador (utilizada por Marie Anne Dujarier ao pensar no trabalho do consumidor) tem enquanto for\u00e7a explicativa \u00e9 essa ideia de que o mundo do trabalho vai sendo tecido por uma s\u00e9rie de atividades que n\u00e3o t\u00eam um estatuto de trabalho bem definido, e isto lhes confere uma enorme maleabilidade. Esta maleabilidade na pr\u00e1tica se traduz em mais explora\u00e7\u00e3o para o trabalhador. Em qual sentido? No sentido de que s\u00e3o atividades que se combinam com outras ocupa\u00e7\u00f5es, que permitem formas informais de extens\u00e3o do tempo de trabalho e de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho. O que \u00e9 muito importante reter \u00e9 que esta perda da forma trabalho pode ser extremamente lucrativa e utilizada de maneira produtiva pelo capital. Em realidade, est\u00e1 sendo utilizada de forma racionalizada e centralizada pelo capital.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 resultado de um processo da economia digital ou de uma complexidade maior das din\u00e2micas de trabalho? Do que se trata essa complexidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> Esta pergunta \u00e9 muito boa para pensarmos dialeticamente na uberiza\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o nos interrogarmos por uma perspectiva \u201cdos debaixo\u201d sobre a novidade de todos esses elementos que apresentei. Trata-se de nos desfazermos de uma perspectiva recorrente, que segue invisibilizando uma s\u00e9rie de processos e contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas ao jogar uma luz excessiva e ofuscante no desenvolvimento tecnol\u00f3gico. O subsolo da uberiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em processos que est\u00e3o em jogo h\u00e1 d\u00e9cadas, mas al\u00e9m disso, realiza uma esp\u00e9cie de globaliza\u00e7\u00e3o de elementos constitutivos de mercados de trabalho recorrentemente definidos como \u201cperif\u00e9ricos\u201d, \u201csemiestruturados\u201d, de baixa produtividade, permeados pelos \u201cservi\u00e7ais pr\u00e9-capitalistas\u201d.<\/p>\n<p>A uberiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo novo, entretanto os seus elementos centrais s\u00e3o uma esp\u00e9cie de atualiza\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas constitutivas do mercado de trabalho brasileiro, por exemplo. E caracter\u00edsticas centrais \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o capitalista, mas que s\u00e3o facilmente invisibilizadas. A vira\u00e7\u00e3o \u00e9 um termo muito expressivo e que poderia ser mais utilizado para compreendermos o mundo do trabalho brasileiro. Na d\u00e9cada de 1990 foi utilizado pela professora Maria Filomena Gregori para analisar a trajet\u00f3ria de meninos de rua e suas formas de sobreviv\u00eancia, assim como pela professora Vera Telles , para definir a trajet\u00f3ria entre trabalho formal e informal, atividades l\u00edcitas e il\u00edcitas, empregos, bicos, trabalhos sem forma trabalho que constituem a sobreviv\u00eancia na periferia.<\/p>\n<p>A economia digital deu visibilidade e, podemos dizer, subsumiu de forma organizada, racionalizada e produtiva, a vira\u00e7\u00e3o. O que isso quer dizer? Primeiramente que o trabalho sem lastro, o trabalho que se realiza sem a forma socialmente estabelecida \u2013 que passa por regulamenta\u00e7\u00f5es do Estado, que confere uma identidade profissional, que oferecia uma estabilidade que tem tamb\u00e9m dimens\u00f5es subjetivas (como dizia Castel , a \u201cpossibilidade de planejar o futuro\u201d) \u2013 agora torna-se uma fonte evidente da explora\u00e7\u00e3o do trabalho que conta com alto desenvolvimento tecnol\u00f3gico, uma atua\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria sobre o mercado da mobilidade urbana no caso do Uber, e de dimens\u00f5es globais.<\/p>\n<p>As dualidades entre trabalho formal e informal, entre trabalho produtivo e improdutivo, e outras linhas divis\u00f3rias que acabam desembocando na separa\u00e7\u00e3o entre os que est\u00e3o dentro e os que est\u00e3o fora dos circuitos da acumula\u00e7\u00e3o acabam por obscurecer o papel que diversos trabalhos t\u00eam no ciclo global do capital, sua import\u00e2ncia, seja como fonte de trabalho produtivo n\u00e3o pago, seja como fonte de elimina\u00e7\u00e3o de custos e riscos para o capital. O que \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da uberiza\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo para consider\u00e1-la uma defini\u00e7\u00e3o cab\u00edvel ou relevante, \u00e9 tirar um olho da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para olhar o que h\u00e1 de mais prec\u00e1rio e socialmente invis\u00edvel no mundo do trabalho. Em realidade, a combina\u00e7\u00e3o entre precariza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 no cerne do desenvolvimento capitalista, \u00e9 isto que a uberiza\u00e7\u00e3o deixa evidente.<\/p>\n<p>Entretanto, a novidade de ter uma multid\u00e3o de trabalhadores \u201cprestando servi\u00e7os\u201d para uma \u00fanica empresa, a qual terceiriza o controle e gerenciamento do trabalho ao mesmo tempo que det\u00e9m a propriedade sobre eles e extrai lucro desta rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o nova. Por exemplo, o ex\u00e9rcito de 1,4 milh\u00e3o de revendedoras de cosm\u00e9ticos da empresa Natura, mulheres que combinam as revendas com diversas outras ocupa\u00e7\u00f5es e atividades, que gerenciam seu pr\u00f3prio trabalho, em um trabalho que nem mesmo tem a forma trabalho bem definida. Para o lado de dentro da f\u00e1brica, o trabalho desta multid\u00e3o \u00e9 muito bem administrado, informalidade se torna informa\u00e7\u00e3o, em uma f\u00e1brica que praticamente tem sua produ\u00e7\u00e3o sob encomenda \u2013 feita por esta multid\u00e3o de trabalhadoras.<\/p>\n<p><strong>Economia digital e sombras de desemprego e do subemprego<\/strong><\/p>\n<p>Em realidade, quando pensamos em Economia digital, temos de pensar no seu solo, do ex\u00e9rcito de trabalhadores que vivem entre a amea\u00e7a do desemprego, o rebaixamento do valor da for\u00e7a de trabalho, os bicos, as duplas jornadas de trabalho. Tudo isso tamb\u00e9m \u00e9 parte do campo da economia digital, mas vai para al\u00e9m dele, e em realidade o precede.<\/p>\n<p>Um bom exemplo, quando o governo de Michel Temer aprovou em outubro de 2016 a invisibilizada lei \u201csal\u00e3o parceiro-profissional parceiro\u201d, deixou evidente que a uberiza\u00e7\u00e3o vai para muito al\u00e9m do campo da economia digital. Pode estar l\u00e1, naqueles desimportantes (para muitas abordagens) centros de trabalho e consumo feminino, que s\u00e3o os sal\u00f5es de beleza. Tornar o sal\u00e3o um provedor de infraestrutura para que suas \u201cparceiras\u201d trabalhem, nada mais \u00e9 do que apresentar e legalizar o modelo que tem muito potencial para se generalizar pelo mundo do trabalho (mesmo que nos interroguemos sobre os limites dessa generaliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Que configura\u00e7\u00f5es a explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano assumiu no s\u00e9culo 21?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> Essa pergunta d\u00e1 pano para muita manga. Falando em manga, podemos come\u00e7ar por uma empresa como a Zara . A explora\u00e7\u00e3o do trabalho nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 e no s\u00e9culo 21 se realiza nesse encontro produtivo entre precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e desenvolvimento tecnol\u00f3gico, o que, como j\u00e1 dito, em realidade est\u00e1 no cerne do desenvolvimento capitalista. Mas temos uma empresa que j\u00e1 nem sabemos bem dizer o que produz. Roupas? Onde est\u00e3o as f\u00e1bricas da Zara? N\u00e3o existem enquanto tais. Ela \u00e9 respons\u00e1vel pela concep\u00e7\u00e3o \u2013 a qual provavelmente tamb\u00e9m deve contar com seu ex\u00e9rcito de trabalhadores de alta qualifica\u00e7\u00e3o transformados em pessoas jur\u00eddicas, ela conta com os setores respons\u00e1veis pelo cultivo da marca, conta com a organiza\u00e7\u00e3o da log\u00edstica \u2013 e para tudo isso ter\u00edamos que pesquisar at\u00e9 onde vai sua terceiriza\u00e7\u00e3o. Sua produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 assentada nos sweatshops, no trabalho escravo, nas redes que organizam a explora\u00e7\u00e3o do trabalho imigrante, nas zonas de livre processamento que fomentam as piores e mais horr\u00edveis formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 global e dif\u00edcil de mapear.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano hoje est\u00e1 assentada numa enorme mobilidade do capital. Esta mobilidade conta com a desregulamenta\u00e7\u00e3o de fluxos financeiros e de investimentos, conta com formas extremamente eficazes de espraiar cadeias produtivas sem perder o controle sobre elas, conta com essa combina\u00e7\u00e3o perversa entre desenvolvimento econ\u00f4mico (obviamente ter\u00edamos de nos interrogar sobre qual desenvolvimento) e progressiva elimina\u00e7\u00e3o de direitos e prote\u00e7\u00f5es do trabalho. O trabalhador hoje pode ter v\u00e1rios estatutos, al\u00e9m da perman\u00eancia e crescimento do trabalho escravo, o de trabalhador formal, o de trabalhador informal, o de pessoa jur\u00eddica, o de micro e nanoempreendedor. Ficou dif\u00edcil mapear os n\u00f3s das cadeias produtivas, reconhecer as rela\u00e7\u00f5es de trabalho. A situa\u00e7\u00e3o toda se complica frente \u00e0s amea\u00e7as do desemprego, que se tornam um vetor da banaliza\u00e7\u00e3o das formas de explora\u00e7\u00e3o, afinal, salve-se quem estiver empregado ou se tornando um propriet\u00e1rio de si pr\u00f3prio na \u201cparceria\u201d com as empresas. Conquistas hist\u00f3ricas v\u00e3o se tornando coisa do passado.<\/p>\n<p><strong>Novos prolet\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Vemos tamb\u00e9m uma imensa proletariza\u00e7\u00e3o de trabalhadores intelectuais e de alta qualifica\u00e7\u00e3o. Basta olhar para as l\u00f3gicas que regem o trabalho nas universidades, para os m\u00e9dicos que t\u00eam de atender seis pacientes por hora para cumprir as metas do conv\u00eanio, para os trabalhadores Pessoa Jur\u00eddica &#8211; PJ de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o &#8211; TI, como demonstrou a professora B\u00e1rbara Castro , que n\u00e3o tiram f\u00e9rias, n\u00e3o podem ficar doentes, t\u00eam jornadas extensas.<\/p>\n<p>Esta conversa \u00e9 longa, e ter\u00edamos tamb\u00e9m de adentrar os debates sobre o trabalho imaterial e sobre as formas de explora\u00e7\u00e3o e gerenciamento sobre a subjetividade do trabalhador que ficaram evidentes com o Toyotismo . A transforma\u00e7\u00e3o do trabalhador em um empreendedor de si pr\u00f3prio, cada vez mais respons\u00e1vel em gerenciar seu trabalho, mas um gerenciamento que n\u00e3o deixa de ser subordinado, permeado por novas formas de promo\u00e7\u00e3o da intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho, por novas formas de elimina\u00e7\u00e3o de garantias, de direitos, permeado por diversos mecanismos que garantem a transfer\u00eancia de riscos e custos ao trabalhador, \u00e9 algo que atravessa o mercado de trabalho de cima a baixo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso olhar para as transforma\u00e7\u00f5es do mundo do trabalho na sua rela\u00e7\u00e3o com a domin\u00e2ncia financeira da valoriza\u00e7\u00e3o, ou seja, como bem nos mostram Fran\u00e7ois Chesnais e Leda Paulani , para olhar para o mundo do trabalho na contemporaneidade \u00e9 preciso olhar para as transforma\u00e7\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e1 intimamente ligada \u00e0s press\u00f5es da valoriza\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Por fim, vale ainda lembrar, como bem nos mostra Cristophe Dejours , que depress\u00e3o, suic\u00eddios e uma s\u00e9rie de adoecimentos ps\u00edquicos tamb\u00e9m s\u00e3o parte das configura\u00e7\u00f5es que a explora\u00e7\u00e3o do trabalho tem no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como compreender o paradoxo de que as formas de controle e expropria\u00e7\u00e3o do trabalho com a uberiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o, ao mesmo tempo, evidentes, mas por outro lado, dif\u00edceis de mensurar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> As formas de controle e expropria\u00e7\u00e3o de empresas como a Uber, a Loggi, a Amazon Mechanical Turk ou mesmo das revendedoras Natura, s\u00e3o evidentes, mas ao mesmo tempo \u00e9 dif\u00edcil localiz\u00e1-las, mapear sua fonte e delimitar a forma como operam. Em realidade, elas est\u00e3o assentadas no informal. E informal a\u00ed quer dizer de fato uma perda de formas socialmente estabelecidas e predeterminadas, o que em outras palavras quer dizer, de regula\u00e7\u00f5es que em alguma medida s\u00e3o publicamente constitu\u00eddas. Esta perda de formas \u00e9 tanto do lado do trabalho como do lado do controle, se \u00e9 que podemos de fato pens\u00e1-los separadamente. Transformar o trabalhador em nanoempreendedor quer dizer que as media\u00e7\u00f5es que regulam seu trabalho n\u00e3o ter\u00e3o mais essa dimens\u00e3o p\u00fablica que podem \u2013 ou n\u00e3o \u2013 estabelecer alguns freios \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. No cabo de guerra do capital-trabalho, este \u00e9 um elemento em permanente disputa. Quando se diz que o \u201cacordado estar\u00e1 acima do legislado\u201d, por exemplo, estamos vendo esta disputa em ato (e para que lado a balan\u00e7a da desigualdade vai despencando seu peso).<\/p>\n<p>Esta perda de formas do trabalho confere uma maleabilidade, uma flexibilidade, uma potencialidade de adapta\u00e7\u00e3o surpreendentes. Veja bem, isso n\u00e3o quer dizer que o trabalhador n\u00e3o reconhece o seu trabalho como trabalho, ele sabe muito bem do que se trata. Mas o trabalho que ele desempenha est\u00e1 mais para um trabalho amador. Ser motorista uber, ser revendedora natura, ser um cientista amador do site Innocentive, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque este trabalho \u00e9 trabalho sem um estatuto est\u00e1vel e publicamente estabelecido. Nesta perda de formas fica dif\u00edcil definir o controle sobre o trabalho. Voc\u00ea n\u00e3o passa propriamente por uma sele\u00e7\u00e3o \u2013 adere quem quer, cumprindo crit\u00e9rios m\u00ednimos; voc\u00ea trabalha quando quer, voc\u00ea para de trabalhar quando quiser, voc\u00ea estabelece sua pr\u00f3pria forma de trabalhar; se parar de trabalhar, \u00e9 um n\u00famero desativado em um cadastro, entre centenas que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o controle, quando parece que n\u00e3o se exige nada do trabalhador? Bom, mas este trabalhador \u00e9 avaliado pelos consumidores, ele \u00e9 ranqueado permanentemente, e sabe da competi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 tende a aumentar. Mas ele n\u00e3o tem certeza sobre como esse ranqueamento opera, as regras n\u00e3o s\u00e3o claras, ainda que permanentemente operantes. A competi\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento permanente como forma de controle sobre o trabalho. N\u00e3o se trata da tens\u00e3o entre ser empregado ou ser parte de um ex\u00e9rcito de reserva, se trata da tens\u00e3o permanente em ter acesso \u00e0s tarefas em um universo cada vez mais concorrido. No caso dos aplicativos, o trabalhador tamb\u00e9m pode receber um \u201clog off\u201d da empresa.<\/p>\n<p>O controle opera permanentemente, e a sua falta de clareza \u00e9 o que lhe confere ainda mais efic\u00e1cia. J\u00e1 a expropria\u00e7\u00e3o \u00e9 mais reconhec\u00edvel. De sa\u00edda, s\u00e3o aqueles 20 ou 25% que a empresa abocanha a cada tarefa por fazer a \u201cmedia\u00e7\u00e3o\u201d entre consumidor e trabalhador.<\/p>\n<p>Mas, como disse antes, toda esta imaterialidade se desfaz quando a resist\u00eancia vem \u00e0 tona.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Estamos diante do fim da era do trabalho salarial? E agora, para onde vamos? O futuro do trabalho \u00e9 o da gig economy ou ainda temos alternativas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o complexa, e que, em realidade, interroga quais s\u00e3o os limites da uberiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel pensar em trabalhadores uberizados em todos os setores? Ela \u00e9 mais t\u00edpica e poss\u00edvel no setor de servi\u00e7os? Estas s\u00e3o quest\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o respondidas, e que talvez nem devam ser ainda, temos de aventar sobre as tend\u00eancias e possibilidades. Para complicar mais a quest\u00e3o, ao mesmo tempo temos de nos perguntar: \u201c\u00e9 poss\u00edvel um oper\u00e1rio uberizado?\u201d. Temos de lidar com a perspectiva sobre poss\u00edveis transforma\u00e7\u00f5es qualitativas que v\u00eam por a\u00ed, quando o desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial j\u00e1 deixa claro a possibilidade de realmente eliminar massivamente uma s\u00e9rie de postos de trabalho e profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>O que, de sa\u00edda, est\u00e1 claro \u00e9 que a uberiza\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que \u00e9 uma novidade, em realidade confere materialidade a processos em cursos nos mais diversos setores do mundo do trabalho h\u00e1 um bom tempo. Intuitivamente faz sentido rapidamente pensar em professores, m\u00e9dicos, profissionais de limpeza, seguran\u00e7a, engenheiros, advogados, uberizados. A uberiza\u00e7\u00e3o subsume de forma mais clara o trabalho de profissionais liberais, transforma empregados em nanoempreendedores, transforma fazedores de bico em trabalhadores amadores bem subordinados. Em resumo, \u00e9 disto que se trata.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m poder\u00edamos complexificar mais ainda o debate. Se olharmos para o Brasil, alcan\u00e7amos a \u201cera do trabalho salarial\u201d de fato para podermos dizer que ela chegar\u00e1 ao fim? S\u00e3o quest\u00f5es dif\u00edceis que nos desafiam a pensar nos nossos horizontes, nas nossas refer\u00eancias, nas nossa persistentes invisibiliza\u00e7\u00f5es. O que est\u00e1 mais do que claro \u00e9 que os freios postos ao capital em determinados pa\u00edses com mais clareza e efetividade, durante um per\u00edodo bem determinado do s\u00e9culo XX, estes freios est\u00e3o em jogo, e o que vemos \u00e9 uma luta em dimens\u00f5es globais pela elimina\u00e7\u00e3o destes limites.<\/p>\n<p>A flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, o neoliberalismo e a globaliza\u00e7\u00e3o, por essa perspectiva, t\u00eam de ser compreendidos nesta chave. Direitos sociais se tornam custos sociais, media\u00e7\u00f5es publicamente constitu\u00eddas na rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho s\u00e3o postas em xeque, a tend\u00eancia a tornar o trabalhador um trabalhador-empreendedor just-in-time \u00e9 evidente e j\u00e1 est\u00e1 em ato. No caso brasileiro, os elementos que em realidade s\u00e3o constitutivos da vida de grande parte da classe trabalhadora, em outras palavras, que s\u00e3o estruturais em nosso mercado de trabalho, agora passam a ter visibilidade. Mas mais do que isto, passam a ser elementos importantes em uma forma de expropria\u00e7\u00e3o do trabalho que se apropria deles de forma racionalizada e centralizada. \u00c9 neste sentido que fa\u00e7o a provoca\u00e7\u00e3o, de que a uberiza\u00e7\u00e3o realiza a subsun\u00e7\u00e3o real da vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Gig economy<\/strong><\/p>\n<p>Quando vemos o termo gig economy, entendemos: ah sim, agora a vira\u00e7\u00e3o tem visibilidade social. Por qu\u00ea? Porque ela ultrapassou as fronteiras dos pa\u00edses \u201cperif\u00e9ricos\u201d, porque ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais \u201cpr\u00e9-capitalista\u201d, porque ela chegou ao \u201ccentro\u201d. Enfim, s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es de poder que hierarquizam e definem a nossa pr\u00f3pria compreens\u00e3o sobre nossa realidade e nosso lugar no mundo. \u00c9 dif\u00edcil se desvencilhar dessa engrenagem, e das dualidades que organizam pensamentos dominantes e obscurecem uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es que em realidade est\u00e3o no cerne do desenvolvimento capitalista. Ent\u00e3o \u00e9 bom n\u00e3o perder de vista essas hierarquiza\u00e7\u00f5es quando pensamos em uma esp\u00e9cie de globaliza\u00e7\u00e3o da vira\u00e7\u00e3o. Podemos sim falar em globaliza\u00e7\u00e3o, contanto que isso n\u00e3o signifique reafirmar uma perspectiva que pensa em um movimento como o que vai das \u201cmargens\u201d para o \u201ccentro\u201d. O que est\u00e1 em jogo, talvez pensando mais simplesmente, \u00e9 que os freios \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho que aqui pouco se consolidaram, agora tamb\u00e9m est\u00e3o sendo postos \u00e0 baila nos pa\u00edses do&#8230; \u201ccentro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Caminhos e perspectivas<\/strong><\/p>\n<p>Para onde vamos? N\u00e3o tenho ideia, mas n\u00e3o me parece uma perspectiva muito animadora. Pelo simples fato de que as for\u00e7as do trabalho s\u00e3o atacadas em dimens\u00f5es cada vez piores. Entretanto, o capital est\u00e1 cada vez mais centralizado, e os mesmos meios que hoje possibilitam a domina\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o os meios que propiciam formas de resist\u00eancia que ainda est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando olho para os aplicativos, eu me lembro do professor Paul Singer . Logo teremos figuras high tech que atualizar\u00e3o perspectivas sobre a economia solid\u00e1ria, movimentos em busca de formas de organiza\u00e7\u00e3o que resistam e rompam com a explora\u00e7\u00e3o e a desigualdade no campo da Economia digital. Claro que com elas vir\u00e3o os limites, as capturas etc. O fato \u00e9 que as contradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o muito evidentes, e \u00e0s vezes parecem beirar o insuport\u00e1vel. O que vir\u00e1 da\u00ed, felizmente, \u00e9 o imponder\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Afinal de contas, a Multid\u00e3o se tornou um bom neg\u00f3cio? De que forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> Sem d\u00favida que sim. J\u00e1 temos nome para isso. O crowdsourcing . Sobre tudo que j\u00e1 conversamos, me parece que \u00e9 importante salientar que a explora\u00e7\u00e3o do trabalho hoje d\u00e1 conta de transferir trabalho, riscos, custos para uma multid\u00e3o, sem perder o controle sobre o trabalho. E a explora\u00e7\u00e3o neste caso est\u00e1 assentada justamente no fato da multid\u00e3o operar como multid\u00e3o. A esfera do consumo tamb\u00e9m \u00e9 parte disto, quando a multid\u00e3o de consumidores se torna executora do gerenciamento sobre o trabalho. Tudo est\u00e1 misturado, e n\u00e3o d\u00e1 para separar sem enfraquecer a an\u00e1lise. A multid\u00e3o \u00e9 feita de nanoempreendedores cadastrados, que concorrem entre si de forma ilocaliz\u00e1vel, que se sabem parte de uma multid\u00e3o. Motoristas Uber se enfileiram em um terreno ao lado do aeroporto de Guarulhos, e aguardam na fila, \u201cvoc\u00ea \u00e9 o n\u00famero 200 na lista de espera\u201d, em busca da corrida mais lucrativa (e estar na fila n\u00e3o lhe garante em realidade nada).<\/p>\n<p>O crowdsourcing \u00e9 algo novo, e que desafia nossa compreens\u00e3o. Borra as fronteiras entre consumo e trabalho. Borrar as fronteiras entre o que \u00e9 trabalho e o que n\u00e3o \u00e9. O que \u00e9 a multid\u00e3o ativa e engajada de usu\u00e1rios do Facebook? Como a atividade dessa multid\u00e3o \u00e9 fonte de valoriza\u00e7\u00e3o para a empresa? Podemos colocar os usu\u00e1rios do Facebook e os cientistas do site Innocentive sob uma mesma categoria de an\u00e1lise? N\u00e3o tenho isto claro. Mas o que est\u00e1 claro \u00e9 que as empresas entenderam que podem agir como mediadoras entre a multid\u00e3o de trabalhadores e outras empresas, entre a multid\u00e3o de trabalhadores e a multid\u00e3o de consumidores. S\u00f3 que esta media\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de subordina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, e reorganiza consideravelmente o mundo do trabalho.<\/p>\n<p>Por fim, o que nos mostra a multid\u00e3o de motoristas Uber (quantos s\u00e3o pelo mundo?)? O que nos mostra a multid\u00e3o de revendedoras Natura? O que nos mostra o fato de que empresas que hoje dominam o mercado como a Procter e Gamble tenham estendido seus departamentos de pesquisa e desenvolvimento para os laborat\u00f3rios caseiros da multid\u00e3o de cientistas amadores?<\/p>\n<p>Podemos ver o engajamento do trabalhador em formas informais de intensifica\u00e7\u00e3o de seu trabalho, em extens\u00e3o do tempo de trabalho. Podemos ver que o trabalhador tem o savoir faire para trabalhar cada vez mais, e temos de nos interrogar sobre suas motiva\u00e7\u00f5es, as quais s\u00e3o tamb\u00e9m muito pouco compreendidas. Trata-se apenas de complementar renda? Sabemos que os sentidos do mundo do trabalho, do lado do trabalhador, v\u00e3o para muito al\u00e9m de garantir sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ludmila Costhek Ab\u00edlio \u2013<\/strong> Apenas acrescentaria esta dimens\u00e3o de que em realidade tenho pouco a dizer, e isto \u00e9 um problema. Quando entrevisto um motoboy, ele me diz da liberdade de passar 14 horas por dia sobre uma moto e n\u00e3o ter patr\u00e3o. Ele conta da satisfa\u00e7\u00e3o em decidir que entrega fazer ou n\u00e3o, se quer trabalhar 7 dias por semana ou apenas 5. A uberiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada ao empreendedorismo, \u00e0 flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. Isto j\u00e1 compreendemos bem, mas ser\u00e1 que compreendemos de fato o engajamento produtivo do trabalhador? Suas motiva\u00e7\u00f5es? Para al\u00e9m das amea\u00e7as do desemprego?<\/p>\n<p>Fontes:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/11\/24\/como-a-reforma-trabalhista-vai-acelerar-a-uberizacao-do-mercado-de-trabalho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.brasildefato.com.<wbr \/>br\/2017\/11\/24\/como-a-reforma-<wbr \/>trabalhista-vai-acelerar-a-<wbr \/>uberizacao-do-mercado-de-<wbr \/>trabalho\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6826-uberizacao-traz-ao-debate-a-relacao-entre-precarizacao-do-trabalho-e-tecnologia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.ihuonline.unisinos.<wbr \/>br\/artigo\/6826-uberizacao-<wbr \/>traz-ao-debate-a-relacao-<wbr \/>entre-precarizacao-do-<wbr \/>trabalho-e-tecnologia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17451\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-17451","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4xt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}