{"id":17470,"date":"2017-11-29T12:08:11","date_gmt":"2017-11-29T15:08:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17470"},"modified":"2017-11-28T15:12:28","modified_gmt":"2017-11-28T18:12:28","slug":"brasil-reserva-regional-de-conservadorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17470","title":{"rendered":"Brasil, reserva regional de conservadorismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Brasil, reserva regional de conservadorismo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdapoliticabrasileira.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/morte-poli%CC%81tica-e1475775362322.jpg\" alt=\"Brasil, reserva regional de conservadorismo\" \/><!--more-->\u201cO colonialismo nunca terminou no Brasil. Mais ainda, vem se refor\u00e7ando com o modelo econ\u00f4mico de acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o\/guerra contra os povos, j\u00e1 que exclui a metade da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem direitos, apenas \u00e9 benefici\u00e1ria de programas sociais\u201d, escreve o jornalista e analista pol\u00edtico uruguaio Ra\u00fal Zibechi, em artigo publicado por La Jornada, 24-11-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do Cepat.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>O medo provoca rea\u00e7\u00f5es defensivas irracionais. Todos observamos que quando um avi\u00e3o se agita mais que o normal, ou um \u00f4nibus amea\u00e7a sair do caminho, os passageiros fazem o sinal da cruz, mesmo que n\u00e3o sejam crentes, ou se apegam a algum objeto, inclusive a pessoas pr\u00f3ximas, com as quais nunca teriam contato f\u00edsico. Com efeito, o medo nos leva a atitudes extremas.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, na cidade de Bras\u00edlia, escutei, em diferentes espa\u00e7os, um relato que me deixou perplexo. Uma m\u00e3e sa\u00eda do cinema abra\u00e7ada com sua filha, em um shopping luxuoso de classe alta. Foram agredidas porque as confundiram com l\u00e9sbicas.<\/p>\n<p>Dias depois, a feminista Judith Butler foi importunada e violentada em um aeroporto de S\u00e3o Paulo por sua ideologia de g\u00eanero. Realizou-se uma manifesta\u00e7\u00e3o contra ela, e outra em favor. Foram coletadas mais de 300.000 assinaturas para impedir sua confer\u00eancia e ocorreram v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es agressivas.<\/p>\n<p>Quando se ouve os argumentos dos detratores, \u00e9 o medo que aparece em primeiro plano. \u2018O sonho de Judith Butler: destruir a identidade sexual de nossos filhos\u2019, era poss\u00edvel ler em um dos cartazes. \u2018Homem \u00e9 homem, mulher \u00e9 mulher. N\u00e3o aceitamos que se difunda a ideia de que um menino pode ser uma menina. E vice-versa. Porque biologicamente \u00e9 imposs\u00edvel\u2019, diz um texto difundido pelo WhatsApp.<\/p>\n<p>Os conservadores, agrupados no Movimento Brasil Livre (MBL) e na Escola Sem Partido, conseguiram que se retirasse um an\u00fancio de sab\u00e3o na televis\u00e3o, que dizia: \u2018Vamos refletir. Brincar de casinha \u00e9 coisa de meninas. Andar de skate \u00e9 coisa de meninos. Essas regras parecem coisa do passado, n\u00e3o \u00e9 verdade? Deixe seu filho saltar e explorar com liberdade\u2019.<\/p>\n<p>O voc\u00e1bulo fascista vem rapidamente \u00e0 mente para dar conta de semelhante intransig\u00eancia, somada a uma ignor\u00e2ncia pr\u00f3xima da estupidez. No entanto, possui pouca utilidade para compreender a esses senhores e esses jovens que realmente sentem medo, e asco, diante da possibilidade de que suas filhas sejam l\u00e9sbicas ou seus filhos gays. Ou que optem por sexualidades que, simplesmente, n\u00e3o compreendem, como transg\u00eanero, transexual ou intersexual, que v\u00e3o al\u00e9m do binarismo homo\/hetero.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que tenha filhos e filhas, que nunca tenha sentido preocupa\u00e7\u00e3o diante da poss\u00edvel op\u00e7\u00e3o sexual heterodoxa de seus filhos-filhas, ainda que esteja predisposto a apoi\u00e1-los. Aceit\u00e1-los implica se desprender de valores, ju\u00edzos e sobretudo preconceitos. O que quero refletir \u00e9 porque pessoas comuns adotam essas atitudes, para al\u00e9m das usinas ideol\u00f3gicas que as difundem.<\/p>\n<p>Parece-me importante, al\u00e9m disso, tentar compreender a raz\u00e3o pela qual o Brasil se tornou, aqui e agora, um reservat\u00f3rio de conservadorismo que pode ser o suficientemente intenso para influenciar em toda a regi\u00e3o sul-americana, com a mesma for\u00e7a que h\u00e1 uma d\u00e9cada influenciou nas propostas de integra\u00e7\u00e3o regional e no projeto de tornar o Brasil uma pot\u00eancia global.<\/p>\n<p>Encontro tr\u00eas problemas para debater.<\/p>\n<p>Um, a enorme desigualdade existente no Brasil, o pa\u00eds mais desigual do mundo. O 1% acumula entre 25 e 30% da renda, e isso se manteve sem mudan\u00e7as ao longo do tempo, de modo que a desigualdade se naturalizou em uma sociedade onde, al\u00e9m do mais, a ascens\u00e3o social historicamente esteve reservada aos ricos, brancos e var\u00f5es com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Dois, o colonialismo e o racismo, que s\u00e3o o n\u00facleo duro da desigualdade. Algo mais que a metade da popula\u00e7\u00e3o, 100 milh\u00f5es de pessoas, se considera negros e negras. Ocupam os escal\u00f5es mais baixos da pir\u00e2mide de ingressos, vivem nos bairros mais prec\u00e1rios (em geral em favelas) e t\u00eam os postos de trabalho menos qualificados e [mais] prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>O colonialismo nunca terminou no Brasil. Mais ainda, vem se refor\u00e7ando com o modelo econ\u00f4mico de acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o\/guerra contra os povos, j\u00e1 que exclui a metade da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem direitos, apenas \u00e9 benefici\u00e1ria de programas sociais.<\/p>\n<p>Tr\u00eas, o pentecostalismo e o narcotr\u00e1fico refor\u00e7am as tend\u00eancias anteriores e, al\u00e9m disso, defendem um patriarcado fundamentalista, com a inten\u00e7\u00e3o de retroceder as rela\u00e7\u00f5es sociais ao s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Traficantes e pentecostais atacam a cultura negra para disciplinar os mais pobres, que encontram nas religi\u00f5es de origem africana formas de se relacionar sem media\u00e7\u00f5es, horizontais e com certa autonomia em espa\u00e7os pr\u00f3prios, como os terreiros. Em apenas cinco anos, as den\u00fancias por intoler\u00e2ncia religiosa cresceram 4.960%, de 15, em 2011, para 759, em 2016.<\/p>\n<p>A maioria s\u00e3o ataques a terreiros de umbanda e candombl\u00e9, sendo a Baixada Fluminense (13 munic\u00edpios pobres do estado do Rio de Janeiro) um de seus objetivos. Os traficantes e os pentecostais se tornaram a nova inquisi\u00e7\u00e3o. Os evang\u00e9licos figuram entre os que participam em maior porcentagem nas agress\u00f5es.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre pentecostais e traficantes est\u00e1 sendo forjada nas pris\u00f5es, algo quase invis\u00edvel para os analistas acad\u00eamicos. A Igreja Universal do Reino de Deus marcha \u00e0 cabe\u00e7a, j\u00e1 que firmou acordos para reformar ou construir templos em 51 pris\u00f5es. Segundo seus dados, s\u00f3 ela atende 80% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do pa\u00eds (meio milh\u00e3o de pessoas, mais seus familiares), oferecendo cursos, realizando um trabalho de ressocializa\u00e7\u00e3o para os presos e as fam\u00edlias, o que n\u00e3o poucos denominam como tr\u00e1fico evangelizado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a crise econ\u00f4mica, o consumismo e a ascens\u00e3o de novas classes m\u00e9dias (que necessitam se diferenciar dos mais pobres\/mais negros) criaram um coquetel devastador nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o suficiente denunciar que algu\u00e9m est\u00e1 planejando uma alian\u00e7a tr\u00e1fico\/evang\u00e9lica\/patriarcal para amarrar os pobres \u00e0s cadeias de domina\u00e7\u00e3o. Devemos nos perguntar: Recordam quando n\u00f3s, militantes, faz\u00edamos trabalho nas pris\u00f5es, nas favelas, com os doentes mentais e os consumidores?<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574029-brasil-reserva-regional-de-conservadorismo-artigo-de-raul-zibechi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17470\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[224],"class_list":["post-17470","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4xM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17470"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17470\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}