{"id":17472,"date":"2017-11-29T12:10:17","date_gmt":"2017-11-29T15:10:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17472"},"modified":"2017-11-28T15:16:19","modified_gmt":"2017-11-28T18:16:19","slug":"maternidade-negada-e-as-maes-da-juventude-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17472","title":{"rendered":"Maternidade negada e as m\u00e3es da Juventude Negra"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Maternidade negada e as m\u00e3es da Juventude Negra\" src=\"https:\/\/graph.facebook.com\/1886645811663406\/picture\" alt=\"Maternidade negada e as m\u00e3es da Juventude Negra\" \/><!--more-->Por Larissa Gouveia*<\/p>\n<p>&#8221;Nossos mortos t\u00eam voz!&#8221;, esta frase puxa o protesto de m\u00e3es de jovens que entraram nas estat\u00edsticas de morte causada pela viol\u00eancia estatal. Viol\u00eancia esta, que tem fortes ra\u00edzes escravagistas nessa p\u00e1tria que um dia foi col\u00f4nia. Antes de come\u00e7armos a falar sobre mais uma das facetas do exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra, daremos foco para elas, afinal de contas quem s\u00e3o as m\u00e3es da juventude exterminada? S\u00e3o mulheres negras, que n\u00e3o raras vezes s\u00e3o invisibilizadas dentro das in\u00fameras reivindica\u00e7\u00f5es que lutamos e exigimos dentro do movimento negro. &#8221;Nossos mortos t\u00eam voz!&#8221; e essa voz \u00e9 exaustivamente expressada pelos gritos dessas m\u00e3es que antes de terem sido m\u00e3es, s\u00e3o mulheres negras. Tentaremos mostrar como historicamente essas mulheres tiveram um papel feminino diferente do que era posto como natural, e esse papel feminino n\u00e3o tinha espa\u00e7o para nada a n\u00e3o ser o de trabalhadora bra\u00e7al. Enfatizamos como a maternidade-mesmo essa que hoje, felizmente, est\u00e1 sendo desromantizada- foi negada a essas mulheres.<\/p>\n<p>Em &#8221;Mulher, Ra\u00e7a e Classe&#8221;, Angela Davis discorre um pouco sobre a cria\u00e7\u00e3o de uma nova natureza feminina. Ela afirma que mulheres negras eram vistas primeiramente como trabalhadoras e s\u00f3 depois como procriadoras que garantiam o crescimento da for\u00e7a de trabalho escravo. &#8221; Eram \u201cfazedoras de nascimentos\/breeders\u201d- animais, cujo valor monet\u00e1rio podia ser calculado precisamente em fun\u00e7\u00e3o da sua habilidade em multiplicar os seus n\u00fameros. Sendo consideradas como \u201cbreeders\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e3es\u201d, as suas crian\u00e7as podiam ser vendidas para longe delas como se vendiam as crias de animais.&#8221; (DAVIS, 2013, p. 12). N\u00e3o eram considerados gente, eram meio de produ\u00e7\u00e3o, apenas. \u00c0 elas tamb\u00e9m n\u00e3o foi garantido as condi\u00e7\u00f5es minimas para quem gesta uma vida e nem ap\u00f3s o nascimento da crian\u00e7a, esta, para sobreviver era incorporada ao trabalho da m\u00e3e. Civiletti (1991) relata que em registros de viajantes era observado o [&#8230;] &#8221;h\u00e1bito das negras amarrarem os filhos \u00e0s costas a fim de conciliar o trabalho com os cuidados \u00e0 crian\u00e7a&#8221;. Uma tradi\u00e7\u00e3o cultural amplamente utilizada em \u00c1frica e tamb\u00e9m pelas ind\u00edgenas, que se perdurou e se tornou necess\u00e1ria para a manuten\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo m\u00e3e e filho no mundo do trabalho escravo.<\/p>\n<p>Isso na melhor das hip\u00f3teses, quando a crian\u00e7a ficava com a m\u00e3e, pois n\u00e3o raras vezes acabava sendo vendida para longe dela.\u00a0 &#8221;Dei \u00e0 luz treze crian\u00e7as e vi a maior parte delas vendidas para a escravid\u00e3o e quando chorei com a tristeza de m\u00e3e s\u00f3 Jesus me ouviu! E n\u00e3o sou uma mulher?&#8221;, disse Sojourner Truth em palavras simples, mas que transpareciam o qu\u00e3o o grupo ao qual ela pertencia a tirou at\u00e9 o direito a sentimentos como a fragilidade humana, condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima inerente ao ser social nesse tipo de sociedade em que vivemos. N\u00e3o vem da\u00ed o mito da mulher negra forte que aguenta tudo? Ou que n\u00e3o tem escolha, pois a ela foi imposto passar por situa\u00e7\u00f5es que arrancaram dela at\u00e9 o direito de sofrer, exigindo uma fortaleza imposta pelo sistema que sempre massacrou com mais for\u00e7a quem estava na base?<\/p>\n<p>Ademais, tamb\u00e9m foram recorrentes os casos de abortos provocados, infantic\u00eddio juntamente com o suic\u00eddio delas, que preferiam a morte a uma vida de controle, desumaniza\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dar \u00eanfase em como a jurisdi\u00e7\u00e3o marcou ponto ao legalizar o exterm\u00ednio da Juventude negra em 28 de setembro de 1871. A Lei do Ventre livre, a priori parecia a salva\u00e7\u00e3o para essas m\u00e3es que ansiavam a liberdade de seus filhos. Mas que na pr\u00e1tica se colocava como pura formalidade, estabelecendo v\u00ednculo com a marginaliza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 os 8 anos de idade, as crian\u00e7as ficariam sob a autoridade dos propriet\u00e1rios de suas m\u00e3es. Ap\u00f3s os filhos negros dos escravizados atingirem a idade estabelecida, o senhor da m\u00e3e teria a op\u00e7\u00e3o de receber do Estado uma indeniza\u00e7\u00e3o pela perda da propriedade ou de utilizar-se dos servi\u00e7os do menor at\u00e9 a idade de 21 anos. Atentamos tamb\u00e9m para o fato de que se uma crian\u00e7a nascida no ano em que a lei foi institu\u00edda (1871) permanecendo explorada pelo senhor da m\u00e3e at\u00e9 a idade estabelecida, s\u00f3 seria\u00a0livre em 1892, quatro anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Estes sujeitos foram expostos a todo tipo de viol\u00eancia e segrega\u00e7\u00e3o racial, desde a Lei da vadiagem (1941) at\u00e9 os percal\u00e7os dos &#8220;Autos de resist\u00eancia&#8221; (1984).<\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o da maternidade sempre intrinsecamente ligada a barb\u00e1rie, ao exterm\u00ednio da juventude negra brasileira e a condi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia que contrapunha a viol\u00eancia sist\u00eamica e Estatal, com seus aparatos repressores. Se em mais de trezentos anos elas resistiram de todas as formas como podiam &#8211; seja se organizando em Quilombos, produzindo menos nas planta\u00e7\u00f5es, os colocando nas Rodas dos Enjeitados,\u00a0 provocando abortos ou cometendo infantic\u00eddio para n\u00e3o dar ao seu filho uma vida onde a condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima de humanidade era negada e ao sistema, menos um a ser explorado-oprimido, at\u00e9 os dias de hoje quando continua a carregar as amarras com nova roupagem, batalhando para criar seus filhos, lutando para que eles n\u00e3o sejam alcan\u00e7ados fatalmente pelo genoc\u00eddio. Algo que infelizmente acontece. Surge no Brasil, em 2006, um movimento chamado M\u00e3es de maio. Este movimento se organiza depois da morte de 564 pessoas durante 10 dias no estado de S\u00e3o Paulo. A maior parte dos casos, apontam pesquisadores, fazia parte de uma a\u00e7\u00e3o de vingan\u00e7a dos agentes de seguran\u00e7a do Estado contra os chamados ataques da fac\u00e7\u00e3o Primeiro Comando da Capital (PCC), que se concentraram nos dois primeiros dias do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Hoje, este ataque, registado entre 12 a 20 de maio \u00e9 considerado a maior chacina do s\u00e9culo XXI no Brasil. O movimento \u00e9 composto principalmente pelas m\u00e3es, familiares e militantes dos movimentos sociais, todas (os) pedem mais do que o fim da viol\u00eancia do aparato militar. No estado de Alagoas, mais de 1.500 jovens negros foram assassinados no ano de 2015, segundo os indicadores registrados e apresentados pela Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Alagoas (OAB-AL). Sobrevivemos em um dos estados que mais mata a popula\u00e7\u00e3o negra. Lutar contra o genoc\u00eddio \u00e9 lutar contra o sistema que explora, oprime e faz uma higieniza\u00e7\u00e3o \u00e9tnica.<\/p>\n<p>Entre em um bairro perif\u00e9rico e tente conhecer cada mulher que perdeu um pai, um irm\u00e3o, um filho para a &#8220;guerra \u00e0s drogas&#8221; e\/ou a viol\u00eancia do aparato militar. Garanto que em cada esquina encontrar\u00e1 pelo menos uma. Essas mulheres s\u00e3o as vozes que os nossos mortos t\u00eam. Elas t\u00eam voz, cor e classe. Lutam para que n\u00e3o exista o perfil suspeito padr\u00e3o, para que as estat\u00edsticas n\u00e3o mostrem apenas n\u00fameros, para que o resto de sua fam\u00edlia n\u00e3o entre nestas estat\u00edsticas, por melhores condi\u00e7\u00f5es de mobilidade nas periferias e tudo isso n\u00e3o pode ser descolado da luta pela destrui\u00e7\u00e3o desse sistema que nos divide, fragmenta e extermina.<\/p>\n<p>*Pedagoga, militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro.<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>BRITO, G. M\u00e3es de Maio: a rea\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia do Estado. Brasil de fato, 2016. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2016\/05\/13\/surgido-da-dor-maes-de-maio-se-tornam-referencia-no-combate-a-violencia-do-estado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.brasildefato.com.<wbr \/>br\/2016\/05\/13\/surgido-da-dor-<wbr \/>maes-de-maio-se-tornam-<wbr \/>referencia-no-combate-a-<wbr \/>violencia-do-estado\/<\/a>&gt; Acesso em: 26 nov. 2017.<\/p>\n<p>DAVIS, A. Mulher, Ra\u00e7a e Classe. Tradu\u00e7\u00e3o Livre. Plataforma Gueto, 2013.<\/p>\n<p>CIVILETTI, M. V. P. O CUIDADO \u00c0S CRIAN\u00c7AS PEQUENAS NO BRASIL ESCRAVISTA. Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas. Cadernos de Pesquisa, n. 76, 1991.<\/p>\n<p>G1 Alagoas. Mais de 1,5 mil jovens negros foram assassinados em Alagoas, diz OAB. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/amp\/g1.globo.com\/al\/alagoas\/noticia\/2016\/11\/mais-de-15-mil-jovens-negros-foram-assassinados-em-alagoas-diz-oab.amp\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.google.com.br\/<wbr \/>amp\/g1.globo.com\/al\/alagoas\/<wbr \/>noticia\/2016\/11\/mais-de-15-<wbr \/>mil-jovens-negros-foram-<wbr \/>assassinados-em-alagoas-diz-<wbr \/>oab.amp<\/a>&gt; Acesso em 26 nov. 2017.<\/p>\n<p>TRUTH, S. N\u00e3o sou uma mulher?. Conven\u00e7\u00e3o de Mulheres em Akron, Ohio, 1851. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/kandimbafilms.blogspot.com.br\/2013\/02\/nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/kandimbafilms.<wbr \/>blogspot.com.br\/2013\/02\/nao-<wbr \/>sou-uma-mulher-sojourner-<wbr \/>truth.html<\/a>&gt; Acesso em: 26 nov. 2017.<\/p>\n<p>https:\/\/www.facebook.com\/cfcam.alagoas\/&lt;wbr&gt;posts\/1886645934996727<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17472\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,124],"tags":[223],"class_list":["post-17472","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4xO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17472"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17472\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}