{"id":1749,"date":"2011-08-12T23:59:58","date_gmt":"2011-08-12T23:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1749"},"modified":"2011-08-12T23:59:58","modified_gmt":"2011-08-12T23:59:58","slug":"as-suas-ordens-doto-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1749","title":{"rendered":"\u00c0s suas ordens, dot\u00f4 Mercado!"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>O mercado \u201cpensa\u201d, o mercado \u201cavalia\u201d, o mercado \u201cprop\u00f5e\u201d, o mercado \u201cdesconfia\u201d, o mercado \u201csugere\u201d, o mercado \u201creage\u201d. E a\u00ed sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado \u201cexige\u201d!! E, aos poucos, o que era antes um sujeito, o indiv\u00edduo \u201cmercado\u201d tamb\u00e9m vai ganhando ares de divindade.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma das in\u00fameras li\u00e7\u00f5es que a atual crise econ\u00f4mica tem a nos oferecer \u00e9 a possibilidade de compreender um pouco melhor os mecanismos de funcionamento da economia capitalista em sua fase de t\u00e3o ampla e profunda internacionaliza\u00e7\u00e3o financeira. Depois de baixada a poeira e dado o devido distanciamento temporal, imagino a quantidade de teses que ser\u00e3o desenvolvidas para tentar entender e explicar aquilo que estamos vivendo a quente pelos quatro cantos do planeta.<\/p>\n<p>As alternativas de enfoque s\u00e3o muitas. A rela\u00e7\u00e3o conflituosa entre os interesses do capital produtivo e os do capital financeiro <em>stricto sensu<\/em>. A autonomia \u2013 na verdade, uma quase independ\u00eancia \u2013 do circuito monet\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao chamado lado \u201creal\u201d da economia. A contradi\u00e7\u00e3o entre o discurso liberal ortodoxo patrocinado pelos dirigentes dos pa\u00edses mais ricos at\u00e9 anteontem e a pr\u00e1tica atual de medidas protecionistas de seus pr\u00f3prios interesses nacionais. A postura inequ\u00edvoca e amplamente expandida de defesa das vontades das grandes institui\u00e7\u00f5es financeiras em primeiro lugar, sempre \u00e0s custas de cortes nos gastos or\u00e7ament\u00e1rios na \u00e1rea social voltados \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o de seus pa\u00edses. A dita solidez das estruturas do mercado financeiro, agora t\u00e3o confi\u00e1vel quanto a de um castelo de cartas. A perda completa de credibilidade das institui\u00e7\u00f5es financeiras, a exemplo das chamadas ag\u00eancias de rating, que passam a escancarar a sua rela\u00e7\u00e3o incestuosa com setores econ\u00f4micos. O fim do mito da chamada \u201cindepend\u00eancia\u201d dos Bancos Centrais, cujas pol\u00edticas monet\u00e1rias estariam sendo implementadas de forma neutra e isenta, uma vez que baseadas em crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e cient\u00edficos (sic&#8230;) do conhecimento econ\u00f4mico acumulado. A fal\u00eancia das correntes que se apegavam \u00e0s teorias chamadas da \u201cracionalidade dos agentes\u201d para buscar assegurar que n\u00e3o haveria o que temer com o funcionamento das livres for\u00e7as de mercado, pois o equil\u00edbrio entre oferta e demanda sempre apontaria a solu\u00e7\u00e3o mais racional poss\u00edvel. E por a\u00ed vai. A lista \u00e9 quase infind\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas um elemento, em especial, chama a aten\u00e7\u00e3o em meio a essa enormidade de aspectos. E trata-se de algo importante, pois diz respeito \u00e0 tentativa de legitima\u00e7\u00e3o de toda e qualquer a\u00e7\u00e3o dos poderes p\u00fablicos na busca da sa\u00edda para a crise econ\u00f4mica. Com isso procura-se fugir da conseq\u00fc\u00eancia mais pr\u00f3xima em caso de fracasso: colocar em risco a sua pr\u00f3pria legitimidade pol\u00edtica. Ainda que nos momentos de maior tens\u00e3o seja percept\u00edvel uma contradi\u00e7\u00e3o entre os desejos dos representantes do capital financeiro e as possibilidades oferecidas pelos agentes do governo, no final quase tudo acaba se resolvendo no conluio entre o p\u00fablico e o privado. Nos bastidores do poder, a a\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 ditada, via de regra, pelos interesses do capital.<\/p>\n<p>Mas nas conjunturas de crise profunda, como a atual, passa a operar tamb\u00e9m a chamada opini\u00e3o p\u00fablica. Os temas de economia e de finan\u00e7as, antes restritos \u00e0s p\u00e1ginas dos jornais especializados, ganham as manchetes de capa e se convertem em preocupa\u00e7\u00e3o de amplos setores da sociedade. A popula\u00e7\u00e3o se assusta, exige mais explica\u00e7\u00f5es, quer entender melhor! Por\u00e9m, n\u00e3o se consegue tornar t\u00e3o claros os mecanismos de funcionamento da din\u00e2mica econ\u00f4mica em t\u00e3o pouco tempo e em t\u00e3o poucas linhas. E nesse momento ganham import\u00e2ncia os interlocutores chamados a explicar: os economistas dos grandes bancos, os analistas das institui\u00e7\u00f5es financeiras, os respons\u00e1veis pelas empresas de consultoria, enfim os chamados \u201cespecialistas\u201d. Cabe a eles a tarefa de convencimento do grande p\u00fablico de que a crise \u00e9 causada por este ou aquele fator, ou ent\u00e3o de que as medidas anunciadas h\u00e1 pouco por um determinado ministro da Economia s\u00e3o ou n\u00e3o adequadas para resolver os problemas a que se prop\u00f5em.<\/p>\n<p>E aqui entra em campo um elemento essencial na din\u00e2mica do discurso. Uma entidade que passa a ser reverenciada em ampla escala, coisa que era antes reduzida a uma plat\u00e9ia restrita. Trata-se do famoso \u201cmercado\u201d \u2013 muito prazer! Um dos grandes enigmas da hist\u00f3ria da humanidade, tanto estudado e ainda t\u00e3o pouco desvendado em seus aspectos essenciais, passa a ser tratado como um ser humanizado, um quase indiv\u00edduo. Isso porque para justificar a necessidade das decis\u00f5es duras e dif\u00edceis a serem tomadas &#8211; sempre \u00e0s custas de muitos e para favorecer uns bem poucos \u2013 recorre-se \u00e0s opini\u00f5es de \u201calgu\u00e9m\u201d que conhe\u00e7a, que assegure que n\u00e3o h\u00e1 realmente outra solu\u00e7\u00e3o. Tem-se a impress\u00e3o de que o mercado vira gente, um dos nossos!<\/p>\n<p>As mat\u00e9rias dos grandes jornais, as p\u00e1ginas das revistas de maior circula\u00e7\u00e3o, os s\u00edtios da internet, os programas na televis\u00e3o e no r\u00e1dio, enfim, por todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o passamos a conhecer aquilo que nos \u00e9 vendido como sendo a opini\u00e3o dessa entidade, dessa quase pessoa. As frases e os estilos podem variar, mas no fundo, l\u00e1 no fundo, tudo \u00e9 sempre mais do mesmo. Recorrer a um mecanismo que beira a abstra\u00e7\u00e3o para justificar as medidas mais do que concretas. Fazer um chamamento a uma entidade externa, com ares de messianismo e divindade, para convencer de que as proposi\u00e7\u00f5es &#8211; expostas numa linguagem e numa l\u00f3gica incompreens\u00edveis para a maioria &#8211; s\u00e3o realmente necess\u00e1rias. Sim, sim, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter f\u00e9! Pois em caso contr\u00e1rio, aquilo que nos espera \u00e9 ainda pior do que o p\u00e9ssimo do vivido agora. Ser\u00e1 o caos!<\/p>\n<p>\u00c9 o que tem acontecido na atual crise da d\u00edvida norte-americana ou na seq\u00fc\u00eancia dos diversos cap\u00edtulos da crise dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. O mercado \u201cpensa\u201d, o mercado \u201cavalia\u201d, o mercado \u201cprop\u00f5e\u201d, o mercado \u201cdesconfia\u201d, o mercado \u201csugere\u201d, o mercado \u201creage\u201d. E a\u00ed sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado \u201cexige\u201d! E depois o mercado \u201camea\u00e7a\u201d. O mercado \u201ccai\u201d, o mercado \u201csobe\u201d, o mercado \u201cse recomp\u00f5e\u201d. O mercado \u201cse sente inseguro\u201d, o mercado \u201cfica satisfeito\u201d, o mercado \u201ccomemora\u201d. O mercado \u201cn\u00e3o aceita\u201d tal medida, o mercado \u201cse rebela\u201d contra tal decis\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim, \u00e0 for\u00e7a de repetir \u00e0 exaust\u00e3o essa f\u00f3rmula aparentemente t\u00e3o simples, o que se busca, na verdade, \u00e9 fazer um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o. Tornar a conviv\u00eancia com um ser que conhece de forma t\u00e3o profunda a din\u00e2mica da economia um ato quase amical e familiar para cada um de n\u00f3s. Mas o \u201cmercado\u201d &#8211; sujeito de tantos verbos de a\u00e7\u00e3o e de percep\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o tem nome! Ele n\u00e3o pode ser achado, pois o mercado n\u00e3o tem endere\u00e7o. Ele n\u00e3o pode ser entrevistado, pois o mercado nunca comparece fisicamente nos compromissos. Ele tampouco pode ser fotografado, pois o mercado n\u00e3o tem rosto. O que h\u00e1, de fato, s\u00e3o uns poucos indiv\u00edduos que fazem a transmiss\u00e3o de suas id\u00e9ias, de seus pensamentos, de seus sentimentos. S\u00e3o verdadeiros profetas, que t\u00eam o poder de fazer a interlocu\u00e7\u00e3o entre o \u201cmercado\u201d e o povo. Pois, n\u00e3o obstante a tentativa de torn\u00e1-la \u00edntima de todos n\u00f3s, essa entidade n\u00e3o se revela para qualquer um.<\/p>\n<p>Ele escolhe uns poucos iluminados para represent\u00e1-lo aqui entre n\u00f3s. Como se, estes sim, tivessem a procura\u00e7\u00e3o sagrada para falar em seu nome e representar aqui seus interesses. E aos poucos o que era antes um sujeito, o indiv\u00edduo \u201cmercado\u201d tamb\u00e9m vai ganhando ares de divindade. Tudo se passa como se ele se manifestasse exclusivamente por meio de seus or\u00e1culos, os \u00fanicos capazes de captar e interpretar o desejo do deus mercado. Pois ele pensa, fala, acha, opina, mas n\u00e3o se apresenta para um aperto de m\u00e3o, ou mesmo para uma prosinha que seja, para confirmar o que andam falando e fazendo em seu nome aqui pelos nossos lados.<\/p>\n<p>Mas, apesar de toda evidente fragilidade da cena constru\u00edda, n\u00e3o h\u00e1 como contest\u00e1-la. O mercado \u00e9 legitimado por quem tem poder de legitimar. O discurso dos que n\u00e3o acreditam e dos que desconfiam n\u00e3o chega \u00e0 maioria. Sim, pois aqui tampouco pode haver espa\u00e7o para a d\u00favida. Nenhuma chance para o ato irrespons\u00e1vel que seria dar o espa\u00e7o para o contradit\u00f3rio. A \u00fanica certeza \u00e9 de que o mercado sempre tem raz\u00e3o. E ponto final. Assim, todos passam horas na ang\u00fastia e na agonia para saber como o mercado \u201creagir\u00e1\u201d na abertura das bolsas de valores na manh\u00e3 seguinte ou para tentar antecipar como o mercado \u201cavaliar\u00e1\u201d hipot\u00e9ticas medidas anunciadas para as transa\u00e7\u00f5es de c\u00e2mbio na noite da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>O resultado de toda essa constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica pode ser sintetizado na tentativa do convencimento pol\u00edtico e ideol\u00f3gico dos caminhos escolhidos para a solu\u00e7\u00e3o da crise. O mercado \u201calertou\u201d, o mercado \u201cponderou\u201d, o mercado \u201cpressionou\u201d, o mercado \u201cexigiu\u201d. E, finalmente, o mercado \u201cconseguiu\u201d. Por todo e qualquer lado que se procure, tentam nos convencer que n\u00e3o havia realmente outra forma poss\u00edvel de evitar o pior dos mundos. Como somos todos mesmo ignorantes em mat\u00e9ria de funcionamento dessa coisa t\u00e3o complexa como a economia, somos chamados a delegar tamb\u00e9m as formas de solu\u00e7\u00e3o para a crise. E, como sempre acontece em nossa tradi\u00e7\u00e3o, estamos \u00e0s suas ordens, Dot\u00f4 Mercado&#8230;<\/p>\n<p>Paulo Kliass \u00e9 Especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nPaulo Kliass\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1749\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-sd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}