{"id":1751,"date":"2011-08-13T00:25:08","date_gmt":"2011-08-13T00:25:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1751"},"modified":"2011-08-13T00:25:08","modified_gmt":"2011-08-13T00:25:08","slug":"violencia-no-rio-a-farsa-e-a-geopolitica-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1751","title":{"rendered":"Viol\u00eancia no Rio: a farsa e a geopol\u00edtica do crime"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00f3s que sabemos que o \u201cinimigo \u00e9 outro\u201d, na express\u00e3o padilhesca, n\u00e3o podemos acreditar na farsa que a m\u00eddia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.<\/p>\n<p>Achar que as v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es criminosas que vem se abatendo sobre a Regi\u00e3o Metropolitana nos \u00faltimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas for\u00e7as publicas de seguran\u00e7a, e o mal, personificado pelos traficantes, \u00e9 ignorar que nem mesmo a fic\u00e7\u00e3o do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal vers\u00e3o.<\/p>\n<p>O processo de reconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos \u00faltimos 5 anos.<\/p>\n<p>De um lado, mil\u00edcias, aliadas a uma das fac\u00e7\u00f5es criminosas; do outro, a fac\u00e7\u00e3o criminosa que agora reage \u00e0 perda da hegemonia.<\/p>\n<p>Exemplifico. Em Vig\u00e1rio Geral, a pol\u00edcia sempre atuou matando membros de uma fac\u00e7\u00e3o criminosa e, assim, favorecendo a invas\u00e3o da fac\u00e7\u00e3o rival de Parada de Lucas. H\u00e1 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela aus\u00eancia de disputas. Posteriormente, o l\u00edder da fac\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica foi assassinado pela mil\u00edcia. Hoje, a mil\u00edcia aluga as duas favelas para a fac\u00e7\u00e3o criminosa hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em v\u00e1rias favelas. Sabemos que as mil\u00edcias n\u00e3o interromperam o tr\u00e1fico de drogas, apenas o inclu\u00edram na listas dos seus neg\u00f3cios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribui\u00e7\u00e3o de terras, venda de buj\u00f5es de g\u00e1s, venda de voto e venda de \u201cseguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos igualmente que as UPPs n\u00e3o terminaram com o tr\u00e1fico e sim com os conflitos. O tr\u00e1fico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, fac\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica ou mesmo a fac\u00e7\u00e3o que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.<\/p>\n<p>Estes acordos passam por mir\u00edades de vari\u00e1veis: grupos pol\u00edticos hegem\u00f4nicos na comunidade, acordos com associa\u00e7\u00f5es de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparato que ocupa militarmente, etc.<\/p>\n<p>Assim, ao inv\u00e9s de imitarmos a popula\u00e7\u00e3o estadunidense que deu apoio \u00e0s tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Hussein, e depois, viu a farsa da inexist\u00eancia de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual \u00e9 a verdadeira guerra que est\u00e1 ocorrendo?<\/p>\n<p>Ela \u00e9 simplesmente uma guerra pela hegemonia no cen\u00e1rio geopol\u00edtico do crime na Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es ocorrem no eixo ferrovi\u00e1rio Central do Brasil e Leopoldina, express\u00e3o da compress\u00e3o de uma das fac\u00e7\u00f5es criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Justificar massacres, como o de 2007, nas v\u00e9speras dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alem\u00e3o, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a exist\u00eancia de v\u00e1rias execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, \u00e9 apenas uma cortina de fuma\u00e7a que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>\u00d4nibus e carros queimados, com pouqu\u00edssimas v\u00edtimas, s\u00e3o express\u00f5es simb\u00f3licas do desagrado da fac\u00e7\u00e3o que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobreviv\u00eancia, afinal, eles n\u00e3o querem destruir a rela\u00e7\u00e3o com o mercado que o sustenta.<\/p>\n<p>A farsa da opera\u00e7\u00e3o de guerra e seus inevit\u00e1veis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopol\u00edtico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que aus\u00eancia de conflitos \u00e9 igual \u00e0 paz e aus\u00eancia de crime, sem perceber que a hegemoniza\u00e7\u00e3o do crime pela alian\u00e7a de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Mil\u00edcias provou, perpetua nossa eterna desgra\u00e7a: a de acreditar que o mal s\u00e3o os outros.<\/p>\n<p>Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual \u00e9 a atual pol\u00edtica de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro que convive com milicianos, fac\u00e7\u00f5es criminosas hegem\u00f4nicas e \u00e1rea pacificadas que permanecem operando o crime? Quem s\u00e3o os nomes por tr\u00e1s de toda esta cortina de fuma\u00e7a, que faturam alto com bilh\u00f5es gerados pelo tr\u00e1fico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de \u00e1reas, venda de votos e pacifica\u00e7\u00f5es para as Olimp\u00edadas? Quem est\u00e1 por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, suportando as tropas da execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria de pobres em favelas distantes da Zona Sul? At\u00e9 quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual j\u00e1 estamos h\u00e1 tanto tempo, que nos esquecemos que sua \u00fanica finalidade \u00e9 a hegemonia do mercado do crime no Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgir\u00e1 o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobili\u00e1rios a vender condom\u00ednios seguros nos Portos Maravilha da cidade.<\/p>\n<p>Sempre sobrar\u00e1 a massa arrebanhada pela l\u00f3gica da guerra ao terror, reduzida a baixos n\u00edveis de escolaridade e de renda que, somadas \u00e0 classe m\u00e9dia em desespero, eleger\u00e3o seus algozes e o aplaudir\u00e3o no desfile de 7 de setembro, quando o caveir\u00e3o e o Bope passarem.<\/p>\n<p><em>* Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves e soci\u00f3logo, Pr\u00f3-reitor de Extens\u00e3o da UFRRJ e autor do livro: Dos Bar\u00f5es ao Exterm\u00ednio: Uma Hist\u00f3ria da Viol\u00eancia na Baixada Fluminense.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: i1.r7.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves (*)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1751\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-1751","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-sf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}