{"id":1755,"date":"2011-08-14T15:29:16","date_gmt":"2011-08-14T15:29:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1755"},"modified":"2011-08-14T15:29:16","modified_gmt":"2011-08-14T15:29:16","slug":"nelson-werneck-sodre-um-general-diferente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1755","title":{"rendered":"Nelson Werneck Sodr\u00e9, um general diferente"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>A negativa \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da obra de Nelson Werneck Sodr\u00e9 devido a seu conte\u00fado e op\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas determinou o empobrecimento das nossas ci\u00eancias sociais.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com o falecimento de Nelson Werneck Sodr\u00e9, em 13 de janeiro de 1999, o Brasil perdeu um dos seus mais longevos e brilhantes pensadores. Werneck Sodr\u00e9 nasceu em 27 de abril de 1911, h\u00e1 cem anos, e ingressou, jovem, na carreira militar, alcan\u00e7ando o generalato. Ainda jovem oficial, dedicou-se ao estudo da sociedade brasileira, publicando, em 1938, seus dois primeiros livros, <em>Panorama do Segundo Imp\u00e9rio e Hist\u00f3ria da literatura brasileira:seus fundamentos econ\u00f4micos. <\/em><\/p>\n<p>O t\u00edtulo do segundo livro \u2212 que, ampliado, conheceu in\u00fameras reedi\u00e7\u00f5es \u2013 assinalava a op\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica do autor. At\u00e9 sua morte, Sodr\u00e9 dedicou-se \u00e0 an\u00e1lise materialista da sociedade brasileira. Apesar de ter-se consagrado sobretudo como historiador, produziu vasta obra sobre m\u00faltiplos aspectos da forma\u00e7\u00e3o social brasileira &#8211; liter\u00e1rios, geogr\u00e1ficos, sociol\u00f3gicos, pol\u00edticos, etc.<\/p>\n<p>Nos anos 40, 50 e 60, Sodr\u00e9 desempenhou singular import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o da intelectualidade brasileira, em geral, e de esquerda, em particular. O fato de ter sido o mais brilhante defensor da exist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es semi-feudais no passado do Brasil, tese defendida pelo PCB, ent\u00e3o maior partido da esquerda, determinou forte desvaloriza\u00e7\u00e3o de sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, quando da crise daquela organiza\u00e7\u00e3o, golpeada pelo golpe de 1964.<\/p>\n<p>Antes e ap\u00f3s o golpe, diversos pensadores de esquerda propunham, em oposi\u00e7\u00e3o a essa leitura, o car\u00e1ter capitalista acabado da sociedade nacional e, portanto, um programa socialista para o pa\u00eds. Na \u00e9poca, a ideologiza\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o historiogr\u00e1fica levou a que parcelas da intelectualidade e da milit\u00e2ncia de esquerda negassem, em bloco, a produ\u00e7\u00e3o de Sodr\u00e9. O debate entre passado semi-feudal e capitalista seria superado, em 1978, por Jacob Gorender, dirigente dissidente do PCB, ao propor ess\u00eancia escravista do Brasil, at\u00e9 1888, em <em>O escravismo colonial<\/em>.<\/p>\n<p>Intelectual e politicamente ativo ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, Sodr\u00e9 permaneceu, com Oscar Niemeyer, de sua gera\u00e7\u00e3o, ao lado de Luiz Carlos Prestes, quando o velho secret\u00e1rio-geral rompeu com o PCB, acusando sua dire\u00e7\u00e3o de revisionismo. Na d\u00e9cada de 80, sob a press\u00e3o da mar\u00e9 neoliberal, o marxismo conheceu forte desprest\u00edgio entre a intelectualidade, sendo praticamente defenestrado dos cursos universit\u00e1rios. Nesses anos, intelectuais de esquerda abandonaram suas posi\u00e7\u00f5es sob a press\u00e3o da conjuntura hostil. Mesmo ap\u00f3s o fim da URSS, o velho general perseverou em suas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesses anos, construiu-se uma quase conspira\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio em torno da obra de Sodr\u00e9. Diversas gera\u00e7\u00f5es de cientistas sociais formaram-se escutando que o velho pensador constitu\u00eda anacronismo a ser esquecido. Em geral, essa desqualifica\u00e7\u00e3o foi realizada sem o estudo da obra em quest\u00e3o, comumente, por cr\u00edticos que n\u00e3o a conheciam. Tal era essa ignor\u00e2ncia que os pr\u00f3prios cr\u00edticos continuaram veiculando conte\u00fados, corretos e incorretos, atuais ou vencidos, cunhados ou difundidos pelo historiador.<\/p>\n<p>A negativa \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da obra de Sodr\u00e9 devido a seu conte\u00fado e op\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas determinou o empobrecimento das nossas ci\u00eancias sociais. Na sua pr\u00e1xis historiogr\u00e1fica, esse autor aventurou-se por sendas, sobretudo historiogr\u00e1ficas, que d\u00e9cadas mais tarde seriam apresentadas como \u00faltimo grito da p\u00f3s-modernidade, em geral em sentido conservador. Em seus livros encontram-se p\u00e1ginas magistrais sobre a hist\u00f3ria da vida cotidiana e das mentalidades; das rela\u00e7\u00f5es entre hist\u00f3ria e literatura; sobre aspectos inusitados da hist\u00f3ria pol\u00edtica, etc.<\/p>\n<p>Sodr\u00e9 distinguiu-se tamb\u00e9m pela plena consci\u00eancia dos nexos essenciais, tamb\u00e9m nas ci\u00eancias sociais, da forma e conte\u00fado. Por escrever com virtuosismo de artista e de art\u00edfice, a leitura de muitos de seus livros permitem verdadeiro prazer est\u00e9tico.<\/p>\n<p>A obra sodreana construiu-se atrav\u00e9s de seis d\u00e9cadas &#8211; um dedo a mais da metade de hist\u00f3ria republicana do Brasil! Ela constitui tentativa de reflex\u00e3o sistem\u00e1tica, desde o m\u00e9todo marxista, da sociedade brasileira, passada, presente e futura, e singular registro da evolu\u00e7\u00e3o de importante vertente da intelectualidade nacional.<\/p>\n<p><strong>Fonte: ViaPol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p><strong>*M\u00e1rio Maestri, 63, \u00e9 professor do Curso e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. <\/strong><\/p>\n<p><strong> E-mail: <a href=\"mailto:maestri@via-rs.net\" target=\"_blank\">maestri@via-rs.net<\/a> <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nNelson Verneck Sodr\u00e9. 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