{"id":17558,"date":"2017-12-01T18:16:20","date_gmt":"2017-12-01T21:16:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17558"},"modified":"2017-12-01T18:16:20","modified_gmt":"2017-12-01T21:16:20","slug":"mulher-negra-e-luta-pelo-fim-da-divisao-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17558","title":{"rendered":"Mulher negra e a Luta pelo fim da Divis\u00e3o de Classes!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Mulher negra e a Luta pelo fim da Divis\u00e3o de Classes!\" src=\"https:\/\/graph.facebook.com\/1886646081663379\/picture\" alt=\"Mulher negra e a Luta pelo fim da Divis\u00e3o de Classes!\" \/><!--more-->Por Larissa Gouveia*<\/p>\n<p>&#8220;Por fim compreendi!<br \/>\nPor fim!<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o retrocedo!<br \/>\nPor fim!<br \/>\nAvan\u00e7o segura!<br \/>\nPor fim!<br \/>\nAvan\u00e7o e espero!&#8221; (Gritaram-me negra, Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra)<\/p>\n<p>O que representa ser uma mulher negra? Descobri com o tempo, e continuo descobrindo com o passar do tempo. Esse processo de descoberta \u00e9 um dos resultados de um projeto eug\u00eanico que nos ensinou a renegar tudo o que pudesse ser ligado a aqueles que pertencem a uma das camadas mais subalternizadas da classe trabalhadora. Lembro-me que as mudan\u00e7as come\u00e7aram a acontecer ap\u00f3s eu ingressar na luta por uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e de qualidade para o povo. E se intensificaram mais quando eu de fato entendi quem era o Povo por quem lutava. Quando comecei a me ver enquanto parte desse povo, como mulher negra, nascida e criada no maior bairro perif\u00e9rico de Macei\u00f3; quando comecei a refletir porque tanta gente parecida comigo fazia parte desse Povo na sociedade brasileira. Afinal de contas, o que representa ser uma mulher negra? E porque n\u00f3s, comunistas, feministas-classistas, insistimos tanto na tecla de que s\u00f3 h\u00e1 luta revolucion\u00e1ria se ela for feita pelas m\u00e3os da classe trabalhadora?<\/p>\n<p>Vamos por partes ent\u00e3o, para entender como se estruturou o sistema de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que colocam a mulher negra na base da pir\u00e2mide social, precisamos entender primeiro a origem do patriarcado, da propriedade privada e do Estado que legitima a desigualdade, a divis\u00e3o de classes sociais e as opress\u00f5es. Saffioti (1987) usa o termo patriarcado-racismo-<wbr \/>capitalismo por consider\u00e1-los insepar\u00e1veis, ao analisar a realidade concreta do sistema de opress\u00e3o em que vigora a domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o agravados no regime capitalista. Ao contr\u00e1rio do que muitos-erroneamente- j\u00e1 afirmaram, o patriarcado n\u00e3o foi criado pelo sistema capitalista, mas ele \u00e9 base da cria\u00e7\u00e3o da propriedade privada e do Estado e essa \u00e9 a base para a sociedade dividida em classes.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns s\u00e9culos atr\u00e1s, um grande camarada colocou em papel um estudo radical sobre as rela\u00e7\u00f5es sociais, se chamava \u2018\u2019A Origem da fam\u00edlia da Propriedade Privada e do Estado\u2019\u2019. Engels (1984) analisou, com base nos estudos de Morgan, o desenvolvimento humano nas sociedades primitivas. Ele relatou que inicialmente nas sociedades primitivas as rela\u00e7\u00f5es carnais permeavam uma promiscuidade que tolerava rela\u00e7\u00f5es sexuais entre pessoas de diferentes gera\u00e7\u00f5es, sem rela\u00e7\u00f5es de matrim\u00f4nio ou descend\u00eancia organizada em parentesco. A linhagem materna era \u00fanica, pois n\u00e3o dava para saber quem eram os pais dos frutos gerados entre si na comunidade. Tudo era do coletivo, n\u00e3o havia acumulo de bens. Com o passar do tempo e do desenvolvimento desses grupos, surgiram proibi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao casamento, e as uni\u00f5es grupais foram substitu\u00eddas pela fam\u00edlia Sindi\u00e1smica. Segundo Engels (1984, p.61-62) \u2018\u2019 \u00e9 um tipo de fam\u00edlia matriarcal segundo o qual o v\u00ednculo conjugal dissolve-se facilmente (a infidelidade e\/ou o div\u00f3rcio s\u00e3o tolerados) e os filhos continuam a pertencer \u00e0 m\u00e3e\u2019\u2019. Nesse est\u00e1gio j\u00e1 existe a divis\u00e3o sexual do trabalho como a primeira forma de divis\u00e3o do trabalho; a figura do verdadeiro pai, que se torna propriet\u00e1rio da for\u00e7a de trabalho, dos meios de produ\u00e7\u00e3o e dos escravos. Depois da fam\u00edlia sindi\u00e1smica, surge a fam\u00edlia monog\u00e2mica, a qual precisou se consolidar por causa da concentra\u00e7\u00e3o de bens nas m\u00e3os do homem e da necessidade de transmitir essas riquezas hereditariamente para os filhos. Para isso, ele precisava saber que os filhos eram seus. A mulher foi relegada ao espa\u00e7o dom\u00e9stico, privado, \u00e0 monogamia que s\u00f3 era v\u00e1lida para ela e o homem passou a ser o patriarca, dono da fam\u00edlia e da propriedade, assumindo o poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>Em todas as sociedades com divis\u00e3o de classes, essa condi\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o da mulher pelo homem predomina em diferentes graus. Na sociedade escravagista, al\u00e9m da opress\u00e3o da mulher pelo homem, o sistema foi sustentado pela escraviza\u00e7\u00e3o que se sustentava pela justifica\u00e7\u00e3o da suposta inferioridade no negro e permeou a opress\u00e3o do negro pelo branco. Para que o capitalismo pudesse se desenvolver foi necess\u00e1rio um processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital, em grande parte sustentada pelo sistema de explora\u00e7\u00e3o escravista com o lucro obtido pelo com\u00e9rcio internacional de escravizados nas col\u00f4nias, ou seja, o tr\u00e1fico de escravizados foi base de acumula\u00e7\u00e3o. Para sustentar esse sistema, foi preciso um alicerce ideol\u00f3gico que legitimasse a inferioriza\u00e7\u00e3o de um povo, que se configura em amarras vestidas com uma nova roupagem no sistema capitalista. No quadro atual, a pir\u00e2mide social \u00e9 composta de baixo para cima: mulher negra, homem negro, mulher branca, homem branco. A mulher negra est\u00e1 na base da pir\u00e2mide social, carregando a tripla discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe. A ela foi negado o direito a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a liberdade, o estigma de promiscuidade, e a submiss\u00e3o aos cargos subalternizados socialmente. O racismo est\u00e1 enraizado na forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em todas as suas esferas.<\/p>\n<p>\u201cQuando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo \u00e9 desestabilizado a partir da base da pir\u00e2mide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo&#8221;. disse Angela Davis. Mas mais do que isso, para que a mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria aconte\u00e7a de fato, devemos disputar a consci\u00eancia delas mostrando que a luta \u00e9 conjunta e que apesar do sistema dividir as mulheres e homens pelo g\u00eanero no movimento negro organizado, nos fragmentar pela cor nos movimentos feministas, algo nos une: fazemos parte da classe que um dia derrubou um czar, fez revolu\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds gigantesco, construindo poder popular com as in\u00fameras conquistas sociais como: reforma agr\u00e1ria e fim da propriedade privada da terra; desapropria\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias, bancos e grandes estabelecimentos comerciais, que passaram para o controle do Estado prolet\u00e1rio; igualdade de direitos para todos, mulheres e homens; Direito pleno \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, cultura e sa\u00fade totalmente p\u00fablica, proporcionando melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Isso s\u00f3 se concretizou com a for\u00e7a e uni\u00e3o do proletariado.<\/p>\n<p>Falar sobre as conquistas pioneiras da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, por vezes, causou burburinhos entre militantes do movimento negro que n\u00e3o conseguem enxergar o que esse feito tem a contribuir para a luta do povo negro nos pa\u00edses de terceiro mundo. Bem, enquanto mulher negra comunista e militante do movimento negro, tentarei enumerar, mas antes, afirmamos que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi uma revolu\u00e7\u00e3o socialista ANTICOLONIAL.<\/p>\n<ol>\n<li>Direitos das mulheres: licen\u00e7a maternidade remunerada, legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, realizado em hospitais p\u00fablicos de forma gratuita, Novo Estatuto da Fam\u00edlia, que igualava mulheres e homens em seus direitos dentro do casamento; determina\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio igual para trabalho igual de homens e mulheres; institui\u00e7\u00e3o de programas que visavam a constru\u00e7\u00e3o de creches, refeit\u00f3rios e lavanderias p\u00fablicas, fundamentais para retirar da mulher a responsabilidade pelo trabalho dom\u00e9stico;<\/li>\n<li>Reforma agr\u00e1ria e acesso \u00e0 terra;<\/li>\n<li>Garantia a alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o e emprego;<\/li>\n<li>Educa\u00e7\u00e3o universalizada, da pr\u00e9-escola ao p\u00f3s-doutoramento;<\/li>\n<li>Sistema de sa\u00fade totalmente p\u00fablico, estatal, gratuito e de qualidade;<\/li>\n<li>Vit\u00f3ria contra o nazifascismo, com a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra mundial. Defesa e apoio, com recursos materiais e humanos, nas lutas em liberta\u00e7\u00e3o em \u00c1frica e \u00c1sia.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Essas foram algumas das conquistas. Se mesmo assim ainda se perguntar onde entra o proletariado negro brasileiro e o que podemos tirar para n\u00f3s a partir dessas conquistas, citarei algumas coisas:<\/p>\n<ol>\n<li>Mulheres negras brasileiras s\u00e3o uma das maiores componentes da for\u00e7a de trabalho dom\u00e9stico do mundo, deixam de acompanhar a cria\u00e7\u00e3o de seus filhos porque necessitam sustentar o lar; Vale ressaltar tamb\u00e9m que quem mais morre em decorr\u00eancia de abortos clandestinos por falta de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de higiene s\u00e3o mulheres negras e pobres.<\/li>\n<li>Acesso \u00e0 terra ao povo negro brasileiro: ap\u00f3s a Lei de Terras (1850), ainda no sistema escravista, a posse de terras passou a ser conseguida pela compra. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil visualizar quem foi mais prejudicado e vitimado \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o, certo? A luta pela reforma agr\u00e1ria \u00e9 historicamente uma luta do povo negro e ind\u00edgena.<\/li>\n<li>Alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o e emprego para o povo negro brasileiro, que desde a falsa aboli\u00e7\u00e3o comp\u00f5e boa parte do ex\u00e9rcito de reserva (desempregados), condenados a mis\u00e9ria. Exigimos p\u00e3o, trabalho e moradia!<\/li>\n<li>A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira carrega percal\u00e7os de descaso estatal e precariza\u00e7\u00e3o, ainda com um grande contingente populacional com acesso, mas sem garantia de perman\u00eancia nas escolas e universidades, que ainda obrigam a classe trabalhadora a escolher entre estudar e trabalhar.<\/li>\n<li>Na sa\u00fade p\u00fablica brasileira, crescemos vendo os nossos morrendo nas filas dos postos de sa\u00fade e hospitais p\u00fablicos sucateados.<\/li>\n<li>Os pa\u00edses colonizados e guerras em \u00c1frica mostram a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra que em continuam a ser massacrada em verdadeiro genoc\u00eddio mundialmente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 o proletariado russo que um dia fez revolu\u00e7\u00e3o. Devido ao racismo estrutural, as guerras pela independ\u00eancia em \u00c1frica e a revolu\u00e7\u00e3o no oeste da ilha de S\u00e3o Domingos (Haiti), que era composta por africanos escravizados, foram invisibilizadas no aprendizado sobre as conquistas do nosso povo. Negro j\u00e1 \u00e9 marginalizado, e a mulher negra? Facilmente esquecida.<\/p>\n<p>Somos revolu\u00e7\u00e3o, camaradas.<\/p>\n<p>Haiti (1791-1804), Mo\u00e7ambique (1964-1975), Angola (1961-1974), Guin\u00e9-Bissau (1963 a 1974) s\u00e3o alguns exemplos.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa sobre o papel fundamental de lideran\u00e7a e articula\u00e7\u00e3o que mulheres desenvolveram na Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana, Tatiane Ribeiro (2017) resgata a mem\u00f3ria de C\u00e9cile Fatiman, Suzanne Sanit\u00e9 B\u00e9lair, Marie Jeanne Lamartiniere, Marie Sainte D\u00e9d\u00e9e Bazile, Henriette Saint Marc, Marie Claire Heureuse Felicit\u00e9 Bonheur e Catherine Flon. Segue abaixo alguns trechos de pesquisa feita por ela.<\/p>\n<p>\u2018\u2019C\u00e9cile Fatiman, ao lado de Dutty Boukman foi respons\u00e1vel pela cerim\u00f4nia mais importante do Vodu na hist\u00f3ria do Haiti, que foi a cerim\u00f4nia Bwa Kayiman ou Bois Caiman de agosto de 1791, na qual todas as pessoas presentes se comprometeram com a luta pela liberdade, e todos ali tinham a miss\u00e3o de se vingarem de seus opressores franceses dando inicio assim a revolu\u00e7\u00e3o do Haiti, que ap\u00f3s uma semana 1800 planta\u00e7\u00f5es j\u00e1 tinham sido destru\u00eddas e 1000 propriet\u00e1rios de escravos mortos. Cecile Fatiman n\u00e3o participou ativamente da revolu\u00e7\u00e3o ou lutou na batalha, mas foi sua orienta\u00e7\u00e3o espiritual e poder ancestral que levou outros Africanos escravizados a lutar, tendo assim um enorme impacto na revolu\u00e7\u00e3o, e \u00e9 altamente respeitada pelo seu povo.<\/p>\n<p>Suzanne Sanit\u00e9 B\u00e9lair, descrita como a Tigresa da Revolu\u00e7\u00e3o era uma afranchi (pessoa preta livre) que participou ativamente na luta contra a escravid\u00e3o, ela serviu ao ex\u00e9rcito de Toussaint L\u2019Ouverture como sargento e devido a suas habilidades e conquistas tornou-se uma tenente liderando a maioria das batalhas em sua cidade natal, L&#8217;Artibonite e respons\u00e1vel pelo levante de quase toda a popula\u00e7\u00e3o escravizada, contra seus senhores de escravos.. Ganhou ainda mais destaque ao participar do confronto com o ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o. Infelizmente B\u00e9lair \u00e9 capturada pelos franceses e em 5 de outubro de 1802 \u00e9 condenada \u00e0 morte por decapita\u00e7\u00e3o e mesmo diante a morte ela manteve sua bravura e se recusou a por a venda e em seu ultimo ato &#8211; \u201cEla gritou para o seu povo &#8220;Viv Lib\u00e8te anba esklavaj!\u201d &#8211; (&#8220;Liberdade, n\u00e3o para a escravid\u00e3o!&#8221;). \u00c9 tida como uma Hero\u00edna da revolu\u00e7\u00e3o Haitiana.<\/p>\n<p>Marie Jeanne Lamartiniere foi uma soldada durante a revolu\u00e7\u00e3o haitiana, uma mulher forte e feroz que foi respons\u00e1vel por conduzir e inspirar outros soldados em um dos confrontos mais importantes, conhecido como a batalha de Creta a Pierrot que ocorreu entre 4 de mar\u00e7o a 24 de mar\u00e7o de 1802 onde combateram o ex\u00e9rcito franc\u00eas que contava com mais de 12.000 homens, suas armas eram sua espada e um rifle, foi assim que no momento crucial da batalha, Marie Jeanne toma a frente, e conduz a vit\u00f3ria. Ap\u00f3s esse confronto, ela passa a ser a chefia da seguran\u00e7a de Dessalines, segundo relatos, a \u00fanica vez que Dessalines correu risco de morte foi quando ela n\u00e3o estava no comando.<\/p>\n<p>Marie Sainte D\u00e9d\u00e9e Bazile, conhecida tamb\u00e9m como D\u00e9fil\u00e9e-La-Folle, foi uma Africana escravizada que ao ser estuprada pelo seu senhor desenvolveu um transtorno mental aos 18 anos, e esse foi um dos motivos que ela apresentou para se juntar a revolu\u00e7\u00e3o, ela passou a servir ao ex\u00e9rcito de Dessalines onde marchava ao lado dos soldados os fornecendo armamentos e muni\u00e7\u00f5es, ao decorrer de suas fun\u00e7\u00f5es na luta viu seus filhos serem mortos pelos franceses o que agravou ainda mais o seu transtorno, ela \u00e9 lembrada como uma \u201cmulher da guerra, cora\u00e7\u00e3o indom\u00e1vel que tinha um gosto pela aventura (&#8230;) amava convuls\u00f5es revolucion\u00e1rias e mostrou os soldados de independ\u00eancia benevol\u00eancia de uma hero\u00edna.&#8221;<\/p>\n<p>Henriette Saint Marc foi uma espi\u00e3 e traficante de armas para o Ex\u00e9rcito de Toussaint durante a revolu\u00e7\u00e3o, por ser considerada uma mulher bonita e muito atraente, a qual os soldados franceses n\u00e3o resistiam, ela usava dessa sua estrat\u00e9gica de seduzir tendo a miss\u00e3o n\u00e3o somente vigiar os soldados franceses como tamb\u00e9m roubar suas armas e suas muni\u00e7\u00f5es. Ela foi fundamental para a revolu\u00e7\u00e3o haitiana, n\u00e3o somente por suas informa\u00e7\u00f5es e fornecimento de armas, mas tamb\u00e9m por ser respons\u00e1vel pelas emboscadas feitas para matar os soldados franceses. Ela foi presa e imediatamente condenada a pena de morte, o que causou uma revolta ainda maior entre os escravizados.<\/p>\n<p>Marie Claire Heureuse Felicit\u00e9 Bonheur durante a revolu\u00e7\u00e3o atuou como enfermeira, cuidando dos feridos e salvando muitas vidas, ela foi respons\u00e1vel por liderar uma prociss\u00e3o de mulheres e crian\u00e7as com comidas, roupas e rem\u00e9dios para atender cidades sitiadas, como aconteceu com Jacmel em 1800 (Cerco de Jacmel) para al\u00e9m de suas a\u00e7\u00f5es como enfermeira, F\u00e9licit\u00e9 tamb\u00e9m trabalhou no campo da educa\u00e7\u00e3o onde aconselhou e ensinou o seu povo a ler e escrever. Durante 1804 a 1806 ela foi a Imperatriz do Haiti ao lado de seu marido Dessalines.<\/p>\n<p>Catherine Flon foi mais uma das hero\u00ednas da revolu\u00e7\u00e3o Hatiana e assim como Marie Claire tamb\u00e9m prestou servi\u00e7o de sa\u00fade, sendo enfermeira dos guerrilheiros, mas \u00e9 lembrada por todos por ter costurado e dado vida a primeira bandeira do Haiti, a bandeira do Haiti teve um significado racializado, onde o vermelho + azul representava a uni\u00e3o entre o povo preto, entre os ainda escravizados e os que j\u00e1 eram \u201clibertos\u201d tido com um s\u00edmbolo da revolu\u00e7\u00e3o, abolindo implicitamente escravid\u00e3o e repress\u00e3o\u2019\u2019.<\/p>\n<p>Ademais, al\u00e9m do Haiti, houveram v\u00e1rias guerras pela liberta\u00e7\u00e3o nacional e independ\u00eancia do povo negro em \u00c1frica.<\/p>\n<p>Segundo Santana (2009), a greve de B\u00fazi (Mo\u00e7ambique), em 1947, obteve a participa\u00e7\u00e3o de 7 mil mulheres que se recusaram ao cultivo do algod\u00e3o, queimaram as sementes e participaram em outras a\u00e7\u00f5es contra as concession\u00e1rias algodoeiras, conseguindo a isen\u00e7\u00e3o deste trabalho para as gr\u00e1vidas e m\u00e3es com crian\u00e7as de at\u00e9 4 anos de idade. Outra iniciativa de fundamental import\u00e2ncia foi a atua\u00e7\u00e3o das mulheres na propaganda de desprest\u00edgio do governo colonial perante a popula\u00e7\u00e3o. Josina Machel, integrante da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional de Mo\u00e7ambique (FERIMO), de linha pol\u00edtica socialista marxista e revolucion\u00e1ria, foi chefia do Departamento de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Assuntos Sociais. Prestou assist\u00eancia, em especial, \u00e0s causas das mulheres militantes e tamb\u00e9m das n\u00e3o-militantes da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o, impulsionou a cria\u00e7\u00e3o de orfanatos para os filhos das combatentes. Morreu em 1971, durante a luta armada em seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nwanyeruwa, uma nigeriana, foi a respons\u00e1vel por uma curta guerra que geralmente \u00e9 considerada o primeiro grande desafio da autoridade brit\u00e2nica no oeste da \u00c1frica, durante o per\u00edodo colonial. Ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com um oficial de censo que a mandou \u201ccontar suas cabras, ovelhas e fam\u00edlia\u201d, cobrando taxas de impostos, mesmo mulheres n\u00e3o pagando impostos naquele pa\u00eds por tradi\u00e7\u00e3o, ela organizou outras mulheres, da\u00ed surgiram protestos chamados \u2018\u2019Guerra das mulheres\u2019\u2019 que teve dura\u00e7\u00e3o de dois meses. Mais de 25 mil mulheres protestaram contras as mudan\u00e7as nas leis tribut\u00e1rias e o autoritarismo das autoridades burguesas, os fazendo recuar abandonando seus planos de cobran\u00e7a de impostos.<\/p>\n<p>Deolinda Rodrigues foi militante dirigente do movimento revolucion\u00e1rio pelos direitos humanos em Angola, pegou em armas contra a opress\u00e3o colonial em \u00c1frica; ajudou a fundar a Organiza\u00e7\u00e3o da Mulher Angolana (OMA). Em 2 de mar\u00e7o de 1968, ao retornar de uma miss\u00e3o na selva, ela e outras quatro companheiras da OMA (Engr\u00e1cia dos Santos, Irene Cohen, Lucr\u00e9cia Paim e Teresa Afonso) foram capturadas, torturadas e esquartejadas vivas. A data do assassinato se tornou o Dia da Mulher Angolana, sete anos antes da independ\u00eancia da Angola.<\/p>\n<p>Carmen Pereira participou da guerra das mulheres pela liberta\u00e7\u00e3o na Guin\u00e9-Bissau, foi a \u00fanica presidente da hist\u00f3ria deste pa\u00eds. Ingressou na luta pela liberta\u00e7\u00e3o em 1961, teve que deixar seus filhos para acompanhar mulheres guineenses das tabancas para uma forma\u00e7\u00e3o de um ano em Kiev, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Ajudou na cria\u00e7\u00e3o de brigadas sanit\u00e1rias para atender a popula\u00e7\u00e3o em meio aos bombardeios.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso valorar os acertos, entender os limites e resgatar as conquistas frutos da rebeldia do Povo, desviando do anticomunismo latente em nossa sociedade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso entender as particularidades da luta de classes brasileira, e ter em mente que o sujeito revolucion\u00e1rio deste pa\u00eds, desde o inicio, tem cor. Entender que a luta da mulher negra \u00e9 a luta da classe trabalhadora \u00e9 essencial para nossa organiza\u00e7\u00e3o coletiva em uma perspectiva revolucion\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio aprender com os erros hist\u00f3ricos cometidos pela esquerda, que por vezes negligenciou o proletariado que est\u00e1 na base e n\u00e3o repetir esses erros, conquistando as pretas e pretos de nossa classe, pois s\u00f3 com eles poderemos destruir este sistema, construindo um Estado prolet\u00e1rio que seja feito pelas m\u00e3os do povo, para que um dia possamos alcan\u00e7ar uma sociedade totalmente sem desigualdades, sem classes sociais, onde o trabalho n\u00e3o seja explora\u00e7\u00e3o e onde homens e mulheres construam rela\u00e7\u00f5es mais humanas e saud\u00e1veis, sem opress\u00f5es.<\/p>\n<p>*Pedagoga, militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>ARROBAS, B. Mulheres de Angola. Conhe\u00e7a Deolinda Rodrigues \u2018Langidila\u2019. Blog Yetwene, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/yetwene.online\/mulheres-angola-conheca-deolinda-rodrigues-langidila\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">http:\/\/yetwene.online\/<wbr \/>mulheres-angola-conheca-<wbr \/>deolinda-rod<\/a>\u2026\/&gt; Acesso em: 27 nov. 2017.<\/p>\n<p>DAVIS, A. Angela Davis: \u201cQuando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela\u201d. In: ALVES, A. El Pa\u00eds, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">https:\/\/brasil.elpais.com\/<\/a>\u2026\/<wbr \/>27\/polit\u2026\/1501114503_610956.<wbr \/>html&gt; Acesso em: 28 nov. 2017.<\/p>\n<p>DW \u00c1frica. Carmen Pereira e a guerra das mulheres na Guin\u00e9-Bissau. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/m.dw.com\/en\/top-stories\/s-9097\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">http:\/\/m.dw.com\/<\/a>\u2026\/carmen-<wbr \/>pereira-e-a-guerra-das-\u2026\/a-<wbr \/>17656419&gt; Acesso em: 27 nov. 2017.<\/p>\n<p>ENGELS, F. A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado. 3 ed. S\u00e3o Paulo: Global, 1984.<\/p>\n<p>GOMES, V. 10 hist\u00f3rias de mulheres revolucion\u00e1rias que voc\u00ea n\u00e3o aprendeu na escola. Revista F\u00f3rum, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/2014\/09\/04\/mulheres-revolucionarias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">www.revistaforum.com.br\/2014\/<wbr \/>09\/04\/mulheres-<wbr \/>revolucionarias\/<\/a>&gt; Acesso em: 28 nov. 2017.<\/p>\n<p>Jornal O Poder Popular. Outubro de 1917: A revolu\u00e7\u00e3o que mudou o mundo!. Edi\u00e7\u00e3o 26, Ano 03, Out\/nov. 2017.<\/p>\n<p>RIBEIRO, J. Conhe\u00e7a quem foram as mulheres por tr\u00e1s da Revolu\u00e7\u00e3o do Haiti. Blog Alma Preta, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/www.almapreta.com\/editorias\/o-quilombo\/conheca-quem-foram-as-mulheres-por-tras-da-revolucao-do-haiti\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">http:\/\/www.almapreta.com\/\u2026\/<wbr \/>conheca-quem-foram-as-<wbr \/>mulheres-p\u2026<\/a>&gt; Acesso: 27 nov. 2017.<\/p>\n<p>SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. S\u00e3o Paulo: Moderna, 1987.<\/p>\n<p>SANTANA, J. S. A Participa\u00e7\u00e3o das Mulheres na Luta de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional de Mo\u00e7ambique em Not\u00edcias (REVISTA TEMPO 1975-1985). Sankofa. Revista de Hist\u00f3ria da \u00c1frica e de Estudos da Di\u00e1spora Africana N\u00ba 4 dez.\/2009.<\/p>\n<p>https:\/\/www.facebook.com\/ricomuna\/posts\/<wbr \/>1927568830592973<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17558\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,124,180],"tags":[223],"class_list":["post-17558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","category-feminista","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4zc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}