{"id":1756,"date":"2011-08-14T15:39:11","date_gmt":"2011-08-14T15:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1756"},"modified":"2011-08-14T15:39:11","modified_gmt":"2011-08-14T15:39:11","slug":"homenagem-a-saramago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1756","title":{"rendered":"Homenagem a Saramago"},"content":{"rendered":"\n<p>Joana Carda tra\u00e7ou uma linha no ch\u00e3o com sua vara de negrilho, os c\u00e3es de Cerb\u00e8re, que nunca ladram, ladraram ao fundo, enquanto os estorninhos passaram a seguir o pobre Jos\u00e9 Anai\u00e7o, ao mesmo tempo em que Joaquim Sassa lan\u00e7ava uma pedra ao mar e a terra tremia sob os p\u00e9s incr\u00e9dulos de Pedro Orce<sup>3<\/sup>&#8230; pronto&#8230; a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica se soltou do continente europeu e navegou pelo oceano tenebroso da mesma forma que muito tempo antes navegantes portugueses se lan\u00e7avam com suas naus, sextantes e velas em busca de um novo mundo, ou fugindo do velho mundo que naufragava em terra firme, n\u00e3o se sabe; mas n\u00e3o adiantemos nossa hist\u00f3ria, pois nada disso seria poss\u00edvel se em outro momento, numa mera quinta feira como qualquer outra, pois um dia nada mais \u00e9 que um dia, ainda que todos os dias, mesmo os mais corriqueiros, tenham sua hist\u00f3ria e levaria anos para cont\u00e1-la, mas no mais das vezes n\u00e3o passam mesmo disso, um dia como outro qualquer, e neste em especial nada aconteceu. Nem terra tremeu, nem pen\u00ednsulas se divorciaram de seus continentes e n\u00e3o fosse o fato de que c\u00e3es latiram, ali\u00e1s, como sempre fazem os c\u00e3es que n\u00e3o s\u00e3o de Cerb\u00e8re, nada de especial se veria de neste dia, nesta casa, nesta gente humilde que tem casa, mas n\u00e3o tem terra e ainda assim lavra e planta e colhe naquilo que n\u00e3o tem para produzir aquilo que n\u00e3o ter\u00e1; nesta casa sem terra, neste dia 16 de novembro de 1922 que calhou ser uma quinta feira, e que n\u00e3o se tire deste fato conclus\u00f5es, pois poderia ser quarta ou s\u00e1bado que da mesma maneira o rebento nascia, uma vez que n\u00e3o se vem ao mundo munido de calend\u00e1rios, mas por necessidade de sair do ventre e entrar no mundo, sem pedir licen\u00e7a ou saber aonde, se em Portugal ou Espanha, saber\u00e1 deus onde acaba um e come\u00e7a outro. Coube ao destino que fora em Portugal, mais precisamente em Azinhaga, no conselho de Coleg\u00e3, na prov\u00edncia de Ribatego, onde nada h\u00e1, mas havia uma casa de camponeses que n\u00e3o tinham terra, mas tiveram um filho e o chamaram de Jos\u00e9, condenando-o, sem o saber, a trabalhar como trabalhou o pai do nome e a ver obras serem paridas sem saber se foi ele mesmo que as fez. Para n\u00e3o esquecer de onde veio coloram em seu nome outros nomes para que entre tantos jos\u00e9s ele se encontrasse consigo mesmo e n\u00e3o se confundisse com os outros que como ele trabalhariam no que n\u00e3o tinham, produzindo para n\u00e3o ter; e foi assim que Jos\u00e9 carregou tamb\u00e9m o Souza de sua m\u00e3e e Saramago de seu pai. O Souza seguiu o destino das mulheres de Portugal, de negro e na sombra, lembradas para serem em seguida esquecidas, de forma que o rebento que entrara no mundo naquela quinta feira do m\u00eas de novembro do ano de 1922 ficaria conhecido apenas por Jos\u00e9 Saramago, hoje reconhecido como nome importante de escritor, mas que naquela quinta feira n\u00e3o passava de nome de trabalhadores sem terra e que na verdade dizia no nome fabricado de letras a carne da coisa que representa, n\u00e3o como o nome da rosa, coisa de import\u00e2ncia outra que arrebata cora\u00e7\u00f5es tomados por paix\u00f5es avassaladoras e enfeita mesas sofisticadas de gente de nossa melhor sociedade, ou coisa ainda mais s\u00e9ria que Umberto Eco nos conta, mas n\u00e3o explica; pelo contr\u00e1rio aquele nome dizia respeito \u00e0 coisa bem mais simples e corriqueira, nada mais que uma pequena florzinha silvestre que brota de escombros \u2013 saramago \u2013 em min\u00fasculo mesmo, pois flor n\u00e3o merece distin\u00e7\u00e3o de gente, ainda que como gente brote em qualquer parte, at\u00e9 mesmo em escombros.<\/p>\n<p>No registro encontrar-se-\u00e1 o dia 18, mas uma coisa \u00e9 o dia em que se nasce e outra aquele em que se registra o que nasceu, ora s\u00f3 o que faltava \u00e9 n\u00e3o considerar o existente por dois dias, tirar da exist\u00eancia dois dias por coisas burocr\u00e1ticas como registros de nascimento. Nasceu e por dois dias o Estado n\u00e3o o reconheceu, talvez por vingan\u00e7a depois de crescido o nascido tamb\u00e9m o Estado n\u00e3o reconheceu, mas isso s\u00e3o coisas de comunista que depois veremos como se d\u00e3o. Naquele momento n\u00e3o era comunista nem crist\u00e3o, apenas era e assim cresceu e se mudou, porque diferente de flor silvestre que sempre est\u00e1 onde nasce, com gente \u00e9 diferente, sempre carregando suas ra\u00edzes fora da terra, levantado do ch\u00e3o, navegam com suas coisas e filhos para cidades grandes e frias que os recebem com indiferen\u00e7a e asco como se o ch\u00e3o que assenta a cidade n\u00e3o fosse tamb\u00e9m o mesmo ch\u00e3o que abrigava os que antes n\u00e3o tinham terra e na cidade continuam n\u00e3o tendo por profiss\u00e3o. Mas, cidades s\u00e3o escombros de outra natureza feitos dos sonhos daqueles que nelas chegam e o jovem Jos\u00e9 em Lisboa tamb\u00e9m sonhava e estudou no Liceu e no T\u00e9cnico sem, contudo, poder continuar os estudos, pela maldi\u00e7\u00e3o do nome se colocou a trabalhar desde cedo, aos 12 anos, como serralheiro, depois mec\u00e2nico, desenhador e funcion\u00e1rio p\u00fablico de v\u00e1rios afazeres na sa\u00fade e previd\u00eancia social e tanto trabalhou que n\u00e3o seguiu estudando como queria. N\u00e3o podendo desposar os livros em seu templo universit\u00e1rio, os visitava como amante furtivo na Biblioteca Municipal no Pal\u00e1cio Galveias, na freguesia de Nossa Senhora de F\u00e1tima bem de frente \u00e0 Pra\u00e7a de Touros do Campo Pequeno, que fora no s\u00e9culo XVII casa de campo, quando ali ainda era campo, da fam\u00edlia do ilustre e nobre senhor Marques de T\u00e1vora que n\u00e3o receberia em sua casa coisa t\u00e3o pequena como saramago, gente ou flor, mas que em 1759 perdeu a casa por conta de um processo movido pelo Estado envolvendo esc\u00e2ndalo de grande monta ligado \u00e0 tentativa de assassinato de D. Jos\u00e9 I, o que mostra que nem todo Jos\u00e9 carrega a maldi\u00e7\u00e3o do trabalho ocupando-se de coisa mais nobre que \u00e9 governar reinos, sem contar o pr\u00f3prio Jos\u00e9 que depois de se tornar santo n\u00e3o mais se ocupou da marcenaria por uma esp\u00e9cie de nepotismo celestial; mas o fato \u00e9 que Dom Francisco de T\u00e1vora perdeu sua bela casa que de m\u00e3o em m\u00e3o passou at\u00e9 que 1928 por a\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal de Lisboa foi transformada em biblioteca, que diferente de pal\u00e1cios nobres aceita a qualquer um, seja sa\u00eddo ou n\u00e3o de escombros silvestres. Foi ali que o jovem Jos\u00e9 navegou novamente para longe s\u00f3 que desta vez sem sair do lugar, nas asas de p\u00e1ginas amareladas, cheirando a \u00e1caro e mofo, se converteu em \u00cdcaro e voou protegendo suas fr\u00e1geis asas de cera do sol inclemente da realidade no interior das paredes de tal pal\u00e1cio que j\u00e1 foi de Marqueses e agora se diz p\u00fablico, onde se explica abrigar um menino de pais agricultores como os pais deles, que estudou e trabalhou e agora s\u00f3 trabalha de onde foge para amar os livros \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>E amou e de tanto amar tamb\u00e9m passou a amar gente que como sabemos difere de flores e da mesma forma dos livros ainda que como eles conte hist\u00f3rias que carregamos n\u00e3o em p\u00e1ginas, mas nos olhos e no corpo e nas palavras que dizemos como nos livros e, da mesma forma que nos livros, \u00e0s vezes nos vemos melhor que em n\u00f3s mesmos ou em outro qualquer tipo de espelho, \u00e0s vezes vemos outras pessoas em que nos vemos e, por um momento, j\u00e1 n\u00e3o sabemos onde acaba ela, onde come\u00e7a a gente e, em fim, nos apaixonamos. E foi assim com Jos\u00e9 que encontrou Ilda Reis e com ela se casou no ano que ent\u00e3o corria e que era o de 1944. Logo depois a terra tremeria e a culpa n\u00e3o foi ainda de Joana Carda e sua vara, mas de um pintor e seu tambor que varreria o mundo com suas hordas e que, ao contr\u00e1rio de nosso personagem, n\u00e3o amava os livros, mas os queimava. No entanto, mesmo em tempos de barb\u00e1rie nos quais a humanidade mesma quase vira escombros, nascem flores, ainda mais aquelas que por voca\u00e7\u00e3o e nome nascem em escombros, e foi assim que no mesmo ano duas flores nasceram e nenhuma delas era flor: uma na forma de gente, tamb\u00e9m pequena flor silvestre brotando em ru\u00ednas, que recebeu o nome de Violante, sua filha; e outra, um pouco flor, um pouco filha, na forma de livro que batizou (porque livros tamb\u00e9m t\u00eam nomes) como o nome de <em>A vi\u00fava <\/em>(1947). Nomes s\u00e3o coisas interessantes, uns ficam com a gente a vida toda, mas por vezes colam em n\u00f3s nomes que n\u00e3o s\u00e3o nossos e ficam sendo mais nossos nomes que os nomes que nos deram, como aconteceu com L\u00eanin que era Vladimir, e foi isso que se deu com o primeiro livro de nosso escritor que nasceu com o nome de <em>A vi\u00fava<\/em>, mas o editor achou que assim n\u00e3o venderia e o rebatizou de <em>Terra do pecado<\/em> e desta forma foi conhecido, menos pelo pr\u00f3prio autor que odeia o nome dado, talvez porque tenha sido a primeira vez que se reencontrou com seu destino e de sua fam\u00edlia, aquele de produzir coisas que se v\u00e3o e n\u00e3o mais ficam nossas.<\/p>\n<p>Talvez por isso mesmo, ou porque nasceu com nome de flor silvestre que nasce em escombros, ou por serem seus pais camponeses que n\u00e3o tinham terra como seus av\u00f3s, ou por trazer marcado no corpo a sina daqueles que trabalham para ver seu produto fugir de suas m\u00e3os, ou porque se chamava Jos\u00e9 e tinha que trabalhar e trabalhar, ou porque se parecia a Blimunda<sup>4<\/sup> que quando n\u00e3o comia seu p\u00e3o pela manh\u00e3 podia ver dentro das pessoas, ou porque amava as palavras e os livros, e por isso as pessoas, ou porque podia construir na sua cabe\u00e7a outro mundo que n\u00e3o este no qual flores, pessoas e livros s\u00e3o queimados, ou talvez por tudo isso, se tornou comunista: em 1969 entrou no Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Assim como ningu\u00e9m nasce crist\u00e3o ou comunista, um escritor n\u00e3o nasce quando escreve seu primeiro livro. Jos\u00e9 foi se procurando naquele mar de palavras, mas n\u00e3o se via bem naquilo que escrevia. Seu segundo livro foi rejeitado pelas editoras, chamava-se <em>Clarab\u00f3ia<\/em> e permaneceu in\u00e9dito para sempre; s\u00f3 voltaria a publicar dezenove anos depois, mas agora bravo com a prosa resolveu se procurar na poesia e os chamou de <em>Os poemas poss\u00edveis <\/em>(1966). \u00c9 mais f\u00e1cil da gente se ver na poesia, ainda que seja mais dif\u00edcil faz\u00ea-la, porque ela se mostra assim inacabada de maneira que uma pessoa olha o que \u00e9 mostrado e se encontra naquilo que n\u00e3o \u00e9 revelado, ent\u00e3o, ela inventa o resto imaginando que o poeta escreveu para ela. Outros dois livros de poemas viriam, <em>Provavelmente alegria <\/em>(1970) e <em>O ano de 1993 <\/em>(escrito em 1975, porque os poemas tamb\u00e9m n\u00e3o nascem com calend\u00e1rios e \u00e0s vezes se confundem); t\u00edmidos como seu pai\/flor silvestre, n\u00e3o se mostraram facilmente a todos que o procuraram e tamb\u00e9m neles Jos\u00e9 n\u00e3o se encontrou verdadeiramente. Tinha, pela maldi\u00e7\u00e3o do nome, que continuar trabalhando, mas foi assim procurando um jeito de ficar perto das amadas palavras e pouco a pouco foi trabalhar em editoras e jornais<sup>5<\/sup> e percebeu que as palavras, assim como as flores mudam, ainda que sejam sempre as mesmas flores, n\u00e3o s\u00e3o sempre as mesmas palavras, que plantadas em prosa soam solenes, em poesia se tornam leves como plumas e no jornal se apresentam duras. Como ele amava as palavras incondicionalmente, as amava como elas eram, leves ou densas, alegres ou c\u00ednicas, po\u00e9ticas, sublimes ou duras, como amava as pessoas que da mesma forma assim se apresentam, como flores e palavras, \u00e0s vezes meigas, \u00e0s vezes cru\u00e9is, portanto, n\u00e3o poderia am\u00e1-las menos pela crueza do dia a dia contando-nos coisas prosaicas e corriqueiras, sobres coisas que marcam t\u00e3o fortemente um dia, mas que raramente s\u00e3o lembradas na semana, nas cinzas do m\u00eas ou no t\u00famulo dos anos. Desta forma, pois a vida encontra formas muito v\u00e1rias para promover encontros, uma flor silvestre sem terra, nascida de escombros, que havia encontrado e amado os livros, que por amar palavras, pessoas e flores se tornou comunista, que por querer ser escritor pariu dois romances nos quais n\u00e3o se viu, que na poesia se procurou sem se achar, encontrou-se com a cr\u00f4nica. Deste encontro foram seus filhos: <em>Deste mundo e do outro <\/em>(1971), <em>A bagagem do viajante<\/em> (1973), <em>As opini\u00f5es que o DL (Di\u00e1rio de Lisboa) teve<\/em> (1974), <em>Os apontamentos (1977)<\/em>.<\/p>\n<p>Foi quando estava a trabalhar nos jornais a escrever cr\u00f4nicas, pequenos peda\u00e7os da vida tomados pelas palavras, que a vida mesma se virou do avesso em sua Portugal e as palavras e as flores e as gentes tomaram as cidades\/escombros de onde nasceram e marcharam nas ruas recolhendo os sonhos daqueles tantos que por elas haviam passado, como pequenas flores que rompem os escombros e buscam o sol e se tornam vivas e se tornam vermelhas e se tornam cravos, que s\u00e3o flores estranhas e belas que se d\u00e3o para as amadas, se atiram aos toureiros, s\u00e3o mordidas por l\u00e1bios de irrequietas dan\u00e7arinas espanholas e ornam t\u00famulos desafiando o fim de tudo com a continuidade sutil da beleza e que ali ornavam fuzis, instrumentos de morte, transformando-os em vasos de flores, porque um fuzil, como as flores, as palavras e as pessoas podem ser muitas coisas al\u00e9m delas mesmas, como um soldado adestrado na arte de matar, que j\u00e1 foi flor pequena em sua aldeia, que j\u00e1 foi gente antes de se tornar engrenagem da m\u00e1quina de morte pode se transformar novamente em cravos, que podem ser pregos grandes que prenderam Jesus na cruz ou flores belas que tiram o povo dela, e abra\u00e7ar seu povo que virou uma linda flor vermelha chamada Revolu\u00e7\u00e3o e que nasceu no dia 25 de abril de 1974: um s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Saramago volta ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias, agora como seu diretor, veja onde flores pequenas podem chegar levadas pelas p\u00e9talas de uma revolu\u00e7\u00e3o. A vida lhe parecia agora um livro sendo escrito no qual as palavras reencontram as coisas que as pariram, os poemas, os livros e as cr\u00f4nicas empalidecem diante desta obra coletiva. Mas as revolu\u00e7\u00f5es, como a terra e seus produtos, como as flores, os livros e as pessoas, podem fugir de nossas m\u00e3os, podem virar livros nos quais n\u00e3o nos reconhecemos mais. Em novembro de 1975, dez meses depois de assumir a dire\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio, os militares demitem os funcion\u00e1rios acusados de promover os excessos da revolu\u00e7\u00e3o de abril. J\u00e1 murcharam sua festa oh p\u00e1, mas certamente, esconderam uma semente n\u2019algum canto de jardim. Mas, isso quem disse n\u00e3o foi Jos\u00e9, foi Francisco com seus olhos de \u00e1gua clara que cultiva o h\u00e1bito de guardar l\u00e1grimas que n\u00e3o s\u00e3o suas. Saramago reage como um dia, do outro lado do mundo, amaldi\u00e7oou Jack London ao dizer: \u201cn\u00e3o vou nunca mais trabalhar como trabalhei e que Deus me fulmine se algum dia eu der de mim mais do que meu corpo pode dar e desde ent\u00e3o tenho me dedicado a fugir do trabalho\u201d. Nosso amado escritor reagiu de forma mais prudente, talvez por ser ainda flor pequena, talvez por ser portugu\u00eas, mas no mesmo sentido ao dizer: \u201cEstava \u00e0 espera de que as pedras do puzzle do destino \u2013 supondo-se que haja destino, n\u00e3o creio que haja \u2013 se organizassem. \u00c9 preciso que cada um de n\u00f3s ponha a sua pr\u00f3pria pedra, e a que eu pus foi esta: N\u00e3o vou procurar trabalho!\u201d Assim, como amante que se esquece da hora no corpo da amada, nosso Jos\u00e9 se entregou \u00e0s palavras para viver nelas e delas viver.<\/p>\n<p>Por falar em amadas, quase nos esquecemos falando de coisas de livros e de revolu\u00e7\u00e3o, que os amores, como as flores, as palavras e as revolu\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m envelhecem e o dele envelheceu como palavras que por muito tempo n\u00e3o ditas, guardadas em seus t\u00famulos de papel, distantes do carinho da l\u00edngua, n\u00e3o mais se reconhecem quando encontradas, da mesma forma amores passaram e amores vieram, como Isabel de N\u00f3brega em 1966. Mas, da mesma forma que nas palavras e nos livros, tamb\u00e9m nos amores \u00e0s vezes n\u00e3o nos encontramos e seguimos procurando at\u00e9 que ele nos encontra. Foi assim, um pouco pelos livros, um pouco pelos encontros, que outra mo\u00e7a que lia o autor que se escondia atr\u00e1s das palavras que escrevia, conseguiu v\u00ea-lo atr\u00e1s das palavras que o escondiam. Seu nome era Pilar del Rio que procurou o Jos\u00e9 por tr\u00e1s das palavras de Saramago e dizem que o encontrou e ele a ela e assim ficaram, ele nascido em Portugal, ela em Espanha, mas como j\u00e1 se disse, sabe-se l\u00e1 onde termina um e come\u00e7a a outra, como eles tamb\u00e9m se confundiram desde 1986 e assim ficaram sem bem saber onde acabava um e come\u00e7ava a outra.<\/p>\n<p>Tendo se procurado nos romances e nos poemas e nas cr\u00f4nicas e nas revolu\u00e7\u00f5es, seguindo seu destino de Jos\u00e9, de flor pequena que nasce em escombros, sem se encontrar verdadeiramente em nada embora em tudo se buscando, o portugu\u00eas demitido escreveu mais um livro, assim como algu\u00e9m que n\u00e3o enxergando direito o caminho \u00e0 frente resolve voltar atr\u00e1s para ver se consegue se encontrar, e assim nasceu o <em>Levantado do ch\u00e3o <\/em>(1980)<sup>6<\/sup> no qual camponeses do Alentejo lutam por terra desde o s\u00e9culo XIX at\u00e9 o 25 de abril de 1974. Sem bem saber se escrevia romances, poemas, cr\u00f4nicas, se mesmo escrevia ou pensava o mundo e assim filosofava, ou se conversava, ou se como seus pais e av\u00f3s fizeram por toda a vida, plantava sem ter terra, por isso constru\u00eda sua obra no ar das palavras, Saramago resolver misturar tudo isso e escrever romances-poemas-cr\u00f4nicas-fil\u00f3ficas, enfim, conversas e como tal sem par\u00e1grafo e travess\u00e3o, sem indicar quem fala e se fala ou s\u00f3 pensa, levam o leitor para dentro de uma trama de tal modo que ele fica sem saber ao certo se l\u00ea ou participa, se \u00e9 ele pensando o que o autor esta escrevendo ou este escrevendo o que ele j\u00e1 pensou ou vai pensar. N\u00e3o sabemos ao certo de onde veio isto, de Cam\u00f5es ou de Marx, de Azinhaga ou de Lisboa, dos escombros de um Portugal que j\u00e1 foi grande, ou da pequenez de uma flor silvestre, mas, certamente, chegou com o <em>Memorial do Convento<\/em> (1982), livro que Pilar leu em sua Espanha e n\u00e3o descansou at\u00e9 que achou quem o escreveu, livro que come\u00e7a com a promessa do Rei de construir um convento caso a rainha engravidasse e acaba envolvendo tr\u00eas personagens: Blimunda, filha de uma herege queimada na fogueira da Inquisi\u00e7\u00e3o e que tem o poder de ver dentro das pessoas quando n\u00e3o come pela manh\u00e3, Baltazar Sete-sois que perdeu a m\u00e3o na guerra com a Espanha e o Frei Bartolomeu Loren\u00e7o que insiste que o homem podia voar fazendo uma m\u00e1quina que se levanta com o \u00e9ter das pessoas aprisionados em frascos de \u00e2mbar.<\/p>\n<p>Seguiriam <em>O ano da morte de Ricardo Reis<\/em> (1984), <em>A jangada de pedra <\/em>(1986), no qual nossa Joana Carda e sua vara de negrilho risca o ch\u00e3o e a pen\u00ednsula Ib\u00e9rica singra os mares n\u00e3o encontrando lugar nem na Europa de onde partiu, nem no Novo Mundo onde n\u00e3o chegou; <em>A hist\u00f3ria do cerco de Lisboa <\/em>(1989), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Evangelho_Segundo_Jesus_Cristo\"><em>O Evangelho Segundo Jesus Cristo<\/em><\/a> (1991), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ensaio_Sobre_a_Cegueira\"><em>Ensaio Sobre a Cegueira<\/em><\/a> (1995), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Todos_os_Nomes\"><em>Todos os Nomes<\/em><\/a> (1997), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Caverna\"><em>A Caverna<\/em><\/a> (2000), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Homem_Duplicado\"><em>O Homem Duplicado<\/em><\/a> (2002), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ensaio_Sobre_a_Lucidez\"><em>Ensaio Sobre a Lucidez<\/em><\/a> (2004), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/As_Intermit%C3%AAncias_da_Morte\"><em>As Intermit\u00eancias da Morte<\/em><\/a> (2005), <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Viagem_do_Elefante\"><em>A Viagem do Elefante<\/em><\/a> (2008) e seu \u00faltimo romance, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caim_(livro)\"><em>Caim<\/em><\/a> (2009), al\u00e9m de pe\u00e7as de teatro, contos e livros de viagens.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse Fernando Pessoa, personagem de <em>O ano da morte de Ricardo Reis<\/em>, um dos alteregos do poeta, o poeta \u00e9 um fingidor de tal maneira e t\u00e3o completamente que chega a fingir que \u00e9 dor a dor que deveras sente. Saramago em sua prosa falada, ou sua conversa escrita (como nosso Guimar\u00e3es, que tamb\u00e9m \u00e9 flor, s\u00f3 que rosa) nos conduz a uma mir\u00edade de personagens t\u00e3o fant\u00e1sticos como reais, t\u00e3o liter\u00e1rios quanto corriqueiros, fingindo um mundo fingido que s\u00f3 vemos claramente quando ficamos cegos, como em seu fant\u00e1stico <em>Ensaio sobre a cegueira<\/em>. Fechamos os olhos para o mundo e os abrimos para as p\u00e1ginas saramagianas e eis que o mundo se nos revela mais f\u00e1cil de compreender, ainda que cada vez mais dif\u00edcil de aceitar tal como est\u00e1, como no dia da elei\u00e7\u00e3o na qual ningu\u00e9m comparece para votar em seu <em>Ensaios sobre a Lucidez, <\/em>lucidez, ali\u00e1s, que o povo brasileiro deveria exercitar qualquer dia. Saramago nos parece \u00e0s vezes que levantava cedo e n\u00e3o comia seu p\u00e3o para poder olhar para dentro das pessoas como Blimunda, ou sendo o \u00fanico que v\u00ea nos leva a n\u00f3s cegos pelos caminhos de um mundo em destro\u00e7os que conhece bem no seu of\u00edcio de flor silvestre, de forma que j\u00e1 n\u00e3o sabemos onde acaba o autor onde come\u00e7am os personagens, como acontece nas paix\u00f5es e nas revolu\u00e7\u00f5es, com Portugal e Espanha, com Jos\u00e9 e Pilar, com o leitor e o livro.<\/p>\n<p>O leitor s\u00f3 se reconhece na obra em que o autor se reconheceu, assim como o humano no humano, o homem se reconhece primeiro em seu semelhante, disse Marx<sup>7<\/sup>, atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o com o homem Jos\u00e9, na condi\u00e7\u00e3o de seu semelhante, toma o homem Mauro consci\u00eancia de si mesmo como homem, de forma que \u00e9 porque o autor se coloca inteiro como ele \u00e9 na obra que o leitor pode reconhecer naquilo que \u00e9 o outro, aquilo que ele \u00e9. Como um c\u00e3o velho que trazia como nome Achado<sup>8<\/sup>, porque isso mesmo era \u2013 achado \u2013, tivesse ele pai para cham\u00e1-lo de flor, nome de flor teria, mas como encontrado foi, Achado era seu nome, e que desenvolve a vaga sensa\u00e7\u00e3o de pertencer a algo maior que ele, como n\u00f3s a uma classe, um escritor ao seu pa\u00eds, um homem \u00e0 humanidade. Este velho h\u00e1bito de nos procurar fora de n\u00f3s mesmos, em palavras, livros, poemas, pessoas e flores, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m, nos leva para longe de n\u00f3s mesmos em coisas que se voltam contra n\u00f3s, como nas mercadorias e em Deus. Por isso, Saramago viveu buscando o caminho de volta neste estranho fen\u00f4meno no qual uma rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos assume a forma fantasmag\u00f3rica de uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas, como tamb\u00e9m disse Marx, e fala atrav\u00e9s de um de seus personagens: \u201c\u00c9 preciso reconstruir tudo&#8230; n\u00e3o t\u00ednhamos rem\u00e9dio, quando as coisas \u00e9ramos n\u00f3s. N\u00e3o voltar\u00e3o os homens a ser postos no lugar das coisas\u201d<sup>9<\/sup>. Foi assim que reescreveu o evangelho e nele Jesus era um homem e era filho de um homem que como ele chamava Jos\u00e9, que concebeu um filho em sua Maria, que \u00e9 como os homens fazem quando o esp\u00edrito santo n\u00e3o est\u00e1 por perto, um filho que tinha medo e tinha d\u00favidas e errava, como no dia que expulsou os dem\u00f4nios colocando no corpo dos porcos que se jogaram na \u00e1gua e foi perseguido pelos enraivecidos donos dos porcos que perderam seu sustento, ou como quando em um barco reunidos Jesus, o diabo e Deus, o diabo sabendo de tudo que a humanidade ir\u00eda passar por causa da religi\u00e3o e da morte de Jesus, guerras, cruzadas e inquisi\u00e7\u00f5es, resolve se render e voltar aos c\u00e9us submetendo-se \u00e0 vontade de Deus se isso salvasse o menino e a humanidade de tanto sofrimento, e uma voz acima deles responde: n\u00e3o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Joana Carda riscou o ch\u00e3o com sua vara de negrilho e separou-se Jos\u00e9 e seu Portugal, e os crist\u00e3os n\u00e3o gostaram de ver Cristo como um homem porque estavam desacostumados a se ver em outras pessoas, acostumados que estavam a ser coisas e a projetar feuerbachianamente o sol da sua exist\u00eancia para alguma coisa fora deles, n\u00e3o gostaram daquilo que leram, mas a culpa n\u00e3o \u00e9 do livro como culpado n\u00e3o \u00e9 o espelho do velho que nos substituiu e das rugas que ele tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Saramago navegou uma vez mais, agora para fora de Portugal, exilando-se em sua ilha, em seus livros e no cora\u00e7\u00e3o de Pilar. Nunca parou de escrever, de amar os livros e as palavras, as flores e as pessoas, nunca parou de pensar, menino pequeno flor silvestre, Jos\u00e9 condenado ao trabalho, cravo rebelado com os soldados que em um abril ficaram \u201cnus, rodeados pelos homens e pelas mulheres que antes tinham sido roupas e armas\u201d<sup>10<\/sup>, quando ganhou o pr\u00eamio Nobel em 1998, o mesmo Nobel que inventou a dinamite no mesmo ano que Marx publicou o primeiro livro de O capital, que como ele nunca deixou de ser comunista, mesmo sob escombros de muros e estados, acostumado que estava a brotar de escombros, disse: \u201cEu sou o que poderia se chamar de um comunista hormonal. Da mesma forma que tenho no meu corpo, n\u00e3o sei onde, um horm\u00f4nio que me faz crescer a barba, h\u00e1 um outro horm\u00f4nio que me leva, ainda que n\u00e3o queira, a ser comunista\u201d<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>E Joana Carda riscou o ch\u00e3o mais uma vez.<\/p>\n<p>A terra n\u00e3o tremeu, pen\u00ednsulas n\u00e3o partiram como jangadas enfrentando o mar tenebroso, os c\u00e3es de Cerb\u00e8re n\u00e3o ladraram, nem estorninhos seguiram ningu\u00e9m. Blimunda que esquecer\u00e1 de comer seu p\u00e3o viu um grande vazio dentro das pessoas. Cegos, votantes, Cipriano Algor, oleiro por profiss\u00e3o e sua filha Marta, c\u00e3es achados e perdidos, Jesus e o diabo, Ricardo Reis, homens duplicados, Baltazar Sete-Sois e Frei Bartolomeu Loren\u00e7o, nos olham incr\u00e9dulos de suas casas de papel. Seu pai partia tranq\u00fcilamente do mundo, em sua jangada de nada para lugar algum, no colo de sua amada, porque as pessoas, como as flores, as palavras e as revolu\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m passam, porque tudo flui e tudo segue. Mas, algumas flores, como certas palavras e determinadas pessoas, desenvolvem a arte de ficar, porque foram elas mesmas e se viram nos outros e generosas nos mostraram a n\u00f3s mesmos e nos deixaram morar em suas palavras como se fosse nossa casa e nossa terra, terra que seus pais nunca tiveram e meus camaradas ainda n\u00e3o t\u00eam, mas que um dia teremos, como ele hoje tem, n\u00e3o apenas aquela onde descansa, mas no cora\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s, seus personagens. Dizem que em Azinhaga, no conselho de Coleg\u00e3, na prov\u00edncia de Ribatego, na mesma hora uma pequena flor silvestre brotava de um escombro e um c\u00e3o uivou um ganido t\u00e3o triste, t\u00e3o triste que todas as mulheres de Portugal soltaram ao mesmo tempo um suspiro. Saramago morreu escritor, comunista e pequena flor silvestre no dia 18 de julho: um domingo.<\/p>\n<p>1. Publicado na Revista Em Pauta, da Faculdade de Servi\u00e7o Social da UERJ, n. 26, dezembro de 2010, pp. 129-136.<\/p>\n<p>2. Mauro Luis Iasi \u00e9 Professor Adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, autor de Meta Amor Fases (Express\u00e3o Popular, 2008), Ensaios sobre Consci\u00eancia e Emancipa\u00e7\u00e3o (Express\u00e3o Popular, 2007), O Dilema de Hamlet (Viramundo, 2002), entre outros, membro do CC do PCB.<\/p>\n<p>3. Personagens do romance <em>Jangada de pedra (1986) <\/em>de Saramago.<\/p>\n<p>4. Personagem do livro de Saramago \u2013 <em>O memorial do convento <\/em>(1982).<\/p>\n<p>5. Saramago trabalhou na Editorial Estudos Cor e nos jornais Di\u00e1rio de Not\u00edcias e Di\u00e1rio de Lisboa.<\/p>\n<p>6. Antes dele houve outro que o pr\u00f3prio autor reconhece n\u00e3o ser aquele em que encontra finalmente seu estilo \u2013 <em>Manual de Pintura e caligrafia<\/em> (1977).<\/p>\n<p>7. Marx em O Capital, livro I, volume I, nota 18, p\u00e1gina 60, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, s\/d.<\/p>\n<p>8. Personagem canino do romance <em>A Caverna (2000)<\/em>.<\/p>\n<p>9. Conto <em>As coisas, <\/em>integrante do livro <em>Objecto quase (1984).<\/em><\/p>\n<p>10. Idem, idibem. (SARAMAGO, J. <em>Objecto quase<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2005, p. 105.<\/p>\n<p>11. Entrevista \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo, 13 de abril de 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: F. J. 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