{"id":17573,"date":"2017-12-02T10:22:18","date_gmt":"2017-12-02T13:22:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17573"},"modified":"2017-12-02T10:30:30","modified_gmt":"2017-12-02T13:30:30","slug":"o-engodo-e-o-dinheiro-do-engodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17573","title":{"rendered":"O engodo e o dinheiro do engodo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"O engodo e o dinheiro do engodo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/paraiso_fiscal.jpg\" alt=\"O engodo e o dinheiro do engodo\" \/><!--more-->por Pierre L\u00e9vy *<\/p>\n<p>A surpresa \u00e9 total, a informa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, o furo \u00e9 incr\u00edvel: a fraude e a evas\u00e3o fiscais vicejariam nos quatro cantos do planeta, por meio dos para\u00edsos fiscais. Foi preciso nada menos que um cons\u00f3rcio de 96 meios de comunica\u00e7\u00e3o internacionais e de 400 jornalistas para apoiar uma tal revela\u00e7\u00e3o, doravante conhecida sob a express\u00e3o (for\u00e7osamente) inglesa de &#8220;Paradise papers&#8221;.<\/p>\n<p>Mais ainda do que nos casos anteriores (Primavera 2016, Outono 2016), foi desencadeada uma torrente editorial listando os segredos das multinacionais mencionadas, cobrindo de opr\u00f3brio os bilion\u00e1rios implicados. A seguir aos grandes media, os respons\u00e1veis pol\u00edticos, com todas as tend\u00eancias confundidas \u2013 em Fran\u00e7a e alhures \u2013 foram prontos e (quase) un\u00e2nimes a indignarem-se.<\/p>\n<p>Os ministros das Finan\u00e7as dos 28 de imediato comprometeram-se a refor\u00e7ar a luta contra as &#8220;pr\u00e1ticas fiscais agressivas&#8221;, ainda que legais. A Comiss\u00e3o Europeia apontou com meias palavras os Estados membros que arrastam os p\u00e9s como suspeito de um dumping fiscal deselegante (Malta, Irlanda, Luxemburgo&#8230;). Em Bruxelas, bons esp\u00edritos oportunamente aproveitaram a ocasi\u00e3o para martelar que a regra da unanimidade que subsiste apenas do dom\u00ednio fiscal \u2013 para preservar um dedo de soberania nacional \u2013 estava decididamente obsoleta.<\/p>\n<p>Face a um tal consenso, conv\u00e9m preservar o esp\u00edrito cr\u00edtico. E em primeiro lugar sublinhar que a indigna\u00e7\u00e3o face a pr\u00e1tica &#8220;chocantes&#8221; substitui o terreno da pol\u00edtica pelo da moral \u2013 o que \u00e9 o meio mais seguro de enganar os povos.<\/p>\n<p>Em seguida, a insist\u00eancia recorrente quanto \u00e0 necessidade de combater este &#8220;rumo da globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; p\u00f5e a pergunta: ser\u00e1 mesmo do &#8220;rumo&#8221; que se trata? No fundo, a mensagem subliminar dirigida \u00e0 plebe \u00e9 a seguinte: se apenas cheg\u00e1ssemos a limitar e a civilizar a &#8220;cupidez&#8221; das grandes firmas e a &#8220;avidez&#8221; dos bilion\u00e1rios, poder\u00edamos finalmente lucrar com uma globaliza\u00e7\u00e3o feliz.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 preciso recordar esta verdade que nunca provoca manchetes: a evas\u00e3o fiscal n\u00e3o poderia existir de modo algum, pelo menos nesta escala, se a livre circula\u00e7\u00e3o dos capitais n\u00e3o tivesse sido erigida em artigo de f\u00e9, em particular nos tratados europeus. Quem se lembra que antes da d\u00e9cada de 1980 todo movimento de capitais era estritamente regulamentado e devia ser declarado? A Uni\u00e3o Europeia dinamitou este &#8220;arca\u00edsmo&#8221;.<\/p>\n<p>Portanto, a indigna\u00e7\u00e3o oficial contra a evas\u00e3o fiscal poderia ser uma esp\u00e9cie de engodo, obscurecendo deliberadamente a verdadeira natureza do fen\u00f4meno: uma escolha pol\u00edtica de &#8220;liberdade&#8221;, que os oligarcas globalizados pretendem manter a todo custo.<\/p>\n<p>Por outro lado, d\u00e3o-nos a entender, tudo poderia correr bem melhor se as multinacionais e os hiper-ricos contribu\u00edssem razoavelmente para os or\u00e7amentos p\u00fablicos atrav\u00e9s dos impostos. Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o que nunca \u00e9 colocada: como se constituem os milhares de milh\u00f5es de lucros e de fortunas? Para citar apenas um exemplo, o riqu\u00edssimo Xavier Niel, propriet\u00e1rio de Free (e acionista de refer\u00eancia do <i>Monde<\/i>) \u00e9 coberto de vergonha porque ele teria abrigado suas pequenas economias nos tr\u00f3picos. Mas quando um document\u00e1rio revelou recentemente a verdadeira origem da sua fortuna \u2013 a explora\u00e7\u00e3o pura e dura de milhares de assalariados, verdadeiros escravos modernos \u2013 a repercuss\u00e3o midi\u00e1tica foi ligeiramente mais modesta&#8230; E n\u00e3o \u00e9 de admirar: este \u00e9 o pr\u00f3prio fundamento do sistema.<\/p>\n<p>Pois o problema n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar o que revertem \u2013 ou n\u00e3o \u2013 os detentores de capitais, mas a capacidade destes de prosperar unicamente na base da explora\u00e7\u00e3o do trabalho daqueles que n\u00e3o t\u00eam sen\u00e3o os seus bra\u00e7os e a sua cabe\u00e7a para viver. Colocar o projetor da indigna\u00e7\u00e3o na consequ\u00eancia pode constituir o meio mais seguro de escamotear a natureza profunda do problema. Na <i>Opera dos tr\u00eas vintens, <\/i>de Bertold Brecht, um dos seus her\u00f3is dizia: &#8220;o que \u00e9 o assalto a um banco comparado \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de um banco?&#8221; .<\/p>\n<p>Enfim, aqui e ali, alguns d\u00e3o a entender e explicam: se n\u00e3o limitarmos a evas\u00e3o fiscal dos oligarcas, corremos o risco de o &#8220;populismo&#8221; se desenvolver ainda mais. Mas tentar surfar sobre a c\u00f3lera popular para melhor distrair do essencial n\u00e3o ser\u00e1, precisamente, uma boa defini\u00e7\u00e3o do &#8220;populismo&#8221;?<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de brincar com o fogo (da indigna\u00e7\u00e3o), os aprendizes de feiticeiros midi\u00e1ticos poderiam um dia ter algumas surpresas.<\/p>\n<p>27\/Novembro\/2017<\/p>\n<p>*Redator-chefe de <i>Ruptures. <\/i><\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"https:\/\/ruptures-presse.fr\/actu\/paradise-evasion-fortune-leurre-niel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/ruptures-presse.fr\/<wbr \/>actu\/paradise-evasion-fortune-<wbr \/>leurre-niel\/<\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/p_fiscais_27nov17.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/resistir.info\/crise\/p_fiscais_27nov17.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17573\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"O engodo e o dinheiro do engodo","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[226],"class_list":["post-17573","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4zr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17573"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17573\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}