{"id":17613,"date":"2017-12-04T18:24:17","date_gmt":"2017-12-04T21:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17613"},"modified":"2017-12-04T18:24:17","modified_gmt":"2017-12-04T21:24:17","slug":"ficcao-mais-cruel-dos-nossos-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17613","title":{"rendered":"A fic\u00e7\u00e3o mais cruel dos nossos dias"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/media_embedded_fotografia_medio_horizontal_705\/public\/assets\/img\/siria_fds_res.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Os exemplos da cumplicidade entre os operacionais da \u00abguerra contra o terrorismo\u00bb e os terroristas abundam. Quando as tropas s\u00edrias e os seus aliados russos libertaram Deir ez-Zor encontraram um gigantesco arsenal do Daesh \u2013 camuflado e em abrigos subterr\u00e2neos \u2013 constitu\u00eddo essencialmente por armamento, muni\u00e7\u00f5es, tanques e viaturas de transporte de fabrico norte-americano e dos seus aliados, desde as mais relevantes pot\u00eancias da OTAN a Israel. E, agora que em alguns casos protegem a sua retirada, assumem at\u00e9 o risco de importar terroristas para os seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n<p>A mensagem propagand\u00edstica dizendo-nos que os Estados Unidos da Am\u00e9rica e seus mais sonantes aliados combatem o chamado \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb ou Daesh \u00e9, nas suas m\u00faltiplas consequ\u00eancias e nos desmultiplicados efeitos, a fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar mais cruel dos nossos dias.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar porque \u00e9 uma mentira; depois, porque essa trapa\u00e7a, assumida e propagada conscientemente, ilude expectativas e esperan\u00e7as alimentadas nas vastas comunidades que vivem direta ou indiretamente aterrorizadas; al\u00e9m disso, porque mistifica a realidade da situa\u00e7\u00e3o internacional, fazendo com que prevale\u00e7am e surtam efeito as teses disseminadas a prop\u00f3sito de supostas amea\u00e7as que, de fato, n\u00e3o o s\u00e3o; e tamb\u00e9m porque \u00e9 uma mentira que distorce o verdadeiro significado do terrorismo, tenta esconder as suas cumplicidades e permite que se escondam na floresta dos enganos e da desfa\u00e7atez assassina os que tiram mais proveitos do crime.<br \/>\nPor\u00e9m, a cortina cens\u00f3ria que deixa amplo espa\u00e7o \u00e0 mistifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 opaca. H\u00e1 muito que se conhecem cumplicidades entre os cruzados da guerra contra o terrorismo e os seus supostos alvos, cultivadas em terrenos f\u00e9rteis que se alongam do Afeganist\u00e3o \u00e0 L\u00edbia.<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 novidade, para muita gente, que se o Daesh n\u00e3o possui hoje a for\u00e7a que lhe fomentou a aura de arrasador, de horda irresist\u00edvel, isso deve-se aos terr\u00edveis golpes que lhe t\u00eam sido infligidos, na S\u00edria, pela coopera\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as armadas russas e s\u00edrias; e, no Iraque, pelo ex\u00e9rcito iraquiano, desde que conseguiu furtar-se \u00e0s grilhetas da tutela absoluta das for\u00e7as ocupantes norte-americanas, que o condenavam a uma confrangedora inutilidade.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o conseguindo encobrir tudo, o manto da propaganda veda, \u00e0 maioria das pessoas, o conhecimento da realidade integrada do espectro do terrorismo, dos seus apoios e benefici\u00e1rios, transformando-a num produto inconsum\u00edvel, ferido de maneira letal pelas artimanhas das supostas, e cada vez mais abrangentes, \u00abteorias da conspira\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>A BBC, numa situa\u00e7\u00e3o que honra o jornalismo \u00edntegro, rarefeito a esse n\u00edvel, desafiou agora essa maldi\u00e7\u00e3o e foi um dos meios de comunica\u00e7\u00e3o que divulgou a maneira como a \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb chefiada pelos Estados Unidos para \u00abcombater o Daesh\u00bb na S\u00edria organizou, em 12 de outubro, a fuga e salvamento de grande parte da estrutura operacional deste grupo acantonada na sua \u00abcapital\u00bb, a cidade s\u00edria de Raqqa.<\/p>\n<p>Quando perderam o principal reduto, gra\u00e7as \u00e0 ofensiva generalizada das for\u00e7as de Damasco e dos seus aliados russos, os comandantes, destacamentos militares, respectivas fam\u00edlias, armas e muni\u00e7\u00f5es do Daesh beneficiaram de um comboio de transportes, longo de sete quil\u00f4metros e com motoristas pagos a peso de ouro, facultado pela \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb e pelos seus amanuenses das \u00abfor\u00e7as democr\u00e1ticas s\u00edrias\u00bb, um dos v\u00e1rios heter\u00f4nimos do terrorismo internacional que levou a guerra \u00e0 S\u00edria.<\/p>\n<p>Desta maneira, e armados at\u00e9 aos dentes, de acordo com o relato da BBC, os derrotados em Raqqa foram redistribu\u00eddos pelo territ\u00f3rio da S\u00edria ainda sob ocupa\u00e7\u00e3o e alguns chegaram \u00e0 Turquia.<\/p>\n<p>Outros seguiram destino diferente. Segundo um terrorista de origem francesa entrevistado pelo autor da reportagem da televis\u00e3o brit\u00e2nica, ele e outros membros do Daesh receberam instru\u00e7\u00f5es para regressar \u00e0 Europa, designadamente a Fran\u00e7a, para organizarem atentados.<br \/>\nPor essa altura, os servi\u00e7os de espionagem norte-americanos advertiram os seus parceiros do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico para se precaverem contra a possibilidade de acontecerem novos ataques terroristas, sobretudo por ocasi\u00e3o das festas de Dezembro.<\/p>\n<p>Em boa verdade, a NSA e subsidi\u00e1rias n\u00e3o necessitam da sofisticada aparelhagem de combate \u00e0 privacidade dos cidad\u00e3os de que disp\u00f5em ao redor do globo. Sabendo que o Pent\u00e1gono organiza a salva\u00e7\u00e3o de terroristas do Daesh em perigo, e que alguns destes recebem instru\u00e7\u00f5es para realizar atentados, qualquer exerc\u00edcio da mais elementar l\u00f3gica aristot\u00e9lica garante dedu\u00e7\u00f5es \u00f3bvias como a que foi comunicada \u00e0 comunidade europeia da espionagem.<\/p>\n<p>Os apoios assegurados pela \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb ao Daesh em Raqqa n\u00e3o s\u00e3o caso \u00fanico, longe disso. Outros j\u00e1 conhecidos apenas n\u00e3o t\u00eam cobertura da BBC ou similares, logo n\u00e3o existem \u2013 embora aconte\u00e7am.<\/p>\n<p>Como em At Tanf, onde os Estados Unidos, em nome da \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb, criaram uma base a\u00e9rea clandestina \u2013 porque \u00e0 revelia do governo leg\u00edtimo da S\u00edria \u2013 alegadamente \u00abpara combater\u00bb o Daesh. No \u00e2mbito das opera\u00e7\u00f5es nessa base, os ocupantes vedaram o acesso das comunidades locais, e dos refugiados do campo de Rukban, a todo o aux\u00edlio humanit\u00e1rio numa \u00e1rea de 55 quil\u00f3metros em redor. Por duas vezes, pelo menos, o ex\u00e9rcito s\u00edrio e seus aliados foram atacados a partir dessa base quando realizavam opera\u00e7\u00f5es contra o Daesh.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em Abu Kamal se registaram acontecimentos associados a esta estranha guerra da \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional contra o terrorismo\u00bb. A regi\u00e3o foi libertada pelo ex\u00e9rcito de Damasco e n\u00e3o tardou que os sat\u00e9lites registassem o movimento de um longo comboio de \u00eaxodo, dando a fuga aos terroristas derrotados em dire\u00e7\u00e3o a Wadi al-Sabha, ponto de passagem para territ\u00f3rio do Iraque sob controlo norte-americano.<\/p>\n<p>Partilhando as indesment\u00edveis evid\u00eancias registadas, Moscovo entrou em contacto com a \u00abcoliga\u00e7\u00e3o\u00bb sugerindo uma coopera\u00e7\u00e3o operacional para atalhar a fuga dos criminosos e completar o trabalho antiterrorista realizado em Abu Kamal. A resposta de Washington foi negativa: os fugitivos estavam \u00aba render-se voluntariamente\u00bb, pelo que n\u00e3o poderiam ser atacados \u00e0 luz das Conven\u00e7\u00f5es de Genebra.<br \/>\nProvando que levavam a s\u00e9rio o pretexto invocado, apesar de os mercen\u00e1rios se retirarem em condi\u00e7\u00f5es perfeitamente operacionais, prontos a retomar a guerra noutras frentes, tropas da \u00abcoliga\u00e7\u00e3o\u00bb, congregadas em redor dos \u00abmoderados\u00bb das \u00abfor\u00e7as democr\u00e1ticas s\u00edrias\u00bb, internaram-se 15 quil\u00f4metros em redor de Abu Kamal para neutralizarem qualquer ofensiva das for\u00e7as de Damasco contra os terroristas foragidos.<\/p>\n<p>Em Abu Kamal, o contingente libertador encontrou provas de que as \u00abfor\u00e7as democr\u00e1ticas s\u00edrias\u00bb e o Daesh atuam, afinal, em conjunto. Philip Giraldi, ex-operacional da CIA e analista israelita, desmentiu que exista qualquer colabora\u00e7\u00e3o entre os terroristas \u00abmoderados\u00bb e os \u00abextremistas\u00bb, apesar das evid\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00abO que pode haver \u00e9 uma certa mistura em alguns enclaves\u00bb, admitiu. Remetendo-nos mais uma vez para a den\u00fancia feita pelo general norte-americano Wesley Clark, ex-comandante supremo da OTAN, segundo a qual Israel tamb\u00e9m contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o \u00abdo projeto do Daesh\u00bb.<\/p>\n<p>Os exemplos da cumplicidade entre os operacionais da \u00abguerra contra o terrorismo\u00bb e os terroristas abundam. Quando as tropas s\u00edrias e os seus aliados russos libertaram Deir ez-Zor encontraram um gigantesco arsenal do Daesh \u2013 camuflado e em abrigos subterr\u00e2neos \u2013 constitu\u00eddo essencialmente por armamento, muni\u00e7\u00f5es, tanques e viaturas de transporte de fabrico norte-americano e dos seus aliados, desde as mais relevantes pot\u00eancias da NATO a Israel.<\/p>\n<p>No impressionante mostru\u00e1rio n\u00e3o faltavam avan\u00e7ados sistemas de comunica\u00e7\u00e3o e reconhecimento, al\u00e9m dos m\u00edsseis anti-tanque TOW, que se obt\u00eam unicamente por fornecimento direto e n\u00e3o em qualquer revendedor de v\u00e3o de escada. O fen\u00f4meno teve uma explica\u00e7\u00e3o oficial norte-americana, a de sempre: \u00abos fornecimentos foram feitos pelos Estados Unidos aos seus aliados no terreno, mas ca\u00edram nas m\u00e3os dos terroristas\u00bb.<\/p>\n<p>As explica\u00e7\u00f5es oficiais de Washington, j\u00e1 o sabemos, valem o que valem. No auge da vaga de propaganda em torno da suposta participa\u00e7\u00e3o da \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb na liberta\u00e7\u00e3o do feudo do Daesh em Raqqa, o secret\u00e1rio norte-americano da Defesa, James Mattis, explicou que o objetivo dos Estados Unidos \u00e9 \u00abo exterm\u00ednio\u00bb dos terroristas.<\/p>\n<p>\u00abProcuraremos que nenhum sobreviva a este combate\u00bb, assegurou. Confrontado, entretanto, com a opera\u00e7\u00e3o de salvamento e fuga das estruturas criminosas derrotadas, o general norte-americano Ryan Dillon, porta-voz da \u00abcoliga\u00e7\u00e3o internacional\u00bb, assegurou que esta pr\u00e1tica n\u00e3o contradiz a estrat\u00e9gia definida por Mattis. \u00abDemos aos nossos aliados s\u00edrios o poder de decidir, uma vez eles \u00e9 que morrem no terreno; escolheram evitar os tiroteios e poupar vidas humanas\u00bb, sentenciou.<\/p>\n<p>Ainda em mat\u00e9ria de explica\u00e7\u00f5es oficiais, segundo a CNN o Pent\u00e1gono prepara-se para anunciar que s\u00e3o dois mil, e n\u00e3o apenas 500, os efectivos militares norte-americanos na S\u00edria, e todos eles do ramo de opera\u00e7\u00f5es especiais. Trata-se de um contingente de invas\u00e3o, porque entrou e permanece \u00e0 revelia do governo leg\u00edtimo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O objetivo, justifica Mattis, \u00e9 que \u00abos Estados Unidos se mantenham militarmente no terreno para apoiar uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica\u00bb. Mas como as explica\u00e7\u00f5es oficiais, j\u00e1 o sabemos, valem o que valem, n\u00e3o custa admitir que Washington, a par de Israel, tente evitar, a todo o custo, a vit\u00f3ria de Damasco, a reunifica\u00e7\u00e3o s\u00edria e o restabelecimento da normalidade no pa\u00eds.<br \/>\nAlgu\u00e9m disse que a insist\u00eancia no desmembramento da S\u00edria pode ser \u00abum novo Vietnam\u00bb para os Estados Unidos. Uma interpreta\u00e7\u00e3o capaz de ser bem menos ficcional que as declara\u00e7\u00f5es norte-americanas \u2013 e da OTAN \u2013 garantindo que praticam o \u00abcombate ao terrorismo\u00bb, e prometendo at\u00e9 \u00abo exterm\u00ednio do Daesh\u00bb.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/ficcao-mais-cruel-dos-nossos-dias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.abrilabril.pt\/<wbr \/>ficcao-mais-cruel-dos-nossos-<wbr \/>dias<\/a><\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/a-ficcao-mais-cruel-dos-nossos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17613\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A fic\u00e7\u00e3o mais cruel dos nossos dias","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[224],"class_list":["post-17613","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4A5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17613"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17613\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}