{"id":17618,"date":"2017-12-04T18:32:04","date_gmt":"2017-12-04T21:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17618"},"modified":"2018-02-06T23:43:24","modified_gmt":"2018-02-07T02:43:24","slug":"hipersexualizacao-do-corpo-da-mulher-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17618","title":{"rendered":"Hipersexualiza\u00e7\u00e3o do corpo da mulher negra"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/graph.facebook.com\/1913152435679410\/picture\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Paula Santos*<\/p>\n<p>A hipersexualiza\u00e7\u00e3o da mulher negra teve seu in\u00edcio no sistema escravista, onde foram objetificadas e tiveram seus corpos coisificados e abusados. Isto perpetuou aos dias atuais, atrav\u00e9s de todo um legado hist\u00f3rico. Dentro dos chamados navios negreiros, homens e mulheres eram trazidos \u00e0 Col\u00f4nia em condi\u00e7\u00f5es de extrema barb\u00e1rie para serem vendidos ou trocados como mercadoria e separados em fun\u00e7\u00f5es de acordo com a divis\u00e3o sexual do trabalho. As mulheres negras, vendidas ou trocadas, exerciam a fun\u00e7\u00e3o de lavar, passar, cozinhar e servir. Mas sempre visualizadas como objeto. Para al\u00e9m do trabalho durante o dia, as mulheres negras recebiam visitas noturnas tanto dos senhores de engenhos, quanto dos filhos deles. Para melhor sondar esta parte da hist\u00f3ria, a miscigena\u00e7\u00e3o traz com ela um legado colonial perverso, o racismo e viol\u00eancia sofridos pela mulher negra, que iniciavam a vida sexual dos homens brancos. O pa\u00eds que exalta tanto a miscigena\u00e7\u00e3o ignora como ela se perpetuou, por meio de uma das piores formas de viol\u00eancia que uma mulher pode sofrer, em cima da viola\u00e7\u00e3o de corpos negros e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Devemos ressaltar aqui a hist\u00f3ria de Saartije Baartman, nascida na \u00c1frica do Sul, em 1789. Observamos um exemplo da vida de uma mulher negra submetida a servid\u00e3o e a crueldade, com seu corpo violentamente hipersexualizado, cujas caracter\u00edsticas f\u00edsicas tornaram-na objeto de exibi\u00e7\u00e3o em circos, feiras e teatros. Devido aos tra\u00e7os f\u00edsicos, a V\u00eanus Hotetontes como passou \u00e0 posteridade, era exibida numa jaula, acorrentada para acentuar seu suposto car\u00e1ter animalesco. Mesmo depois de sua morte, aos 26 anos, Saartije teve o corpo vilipendiado ao ser distribu\u00eddo em frascos de formol e exibido em museu.<\/p>\n<p>Atualmente, a hipersexualiza\u00e7\u00e3o da mulher negra tamb\u00e9m se mant\u00e9m nos espa\u00e7os midi\u00e1ticos e reaparecendo nos mais diversos contextos. Isso inclui ass\u00e9dio e abuso na inf\u00e2ncia, viol\u00eancia sexual, tr\u00e1fico humano e explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia por parceiro \u00edntimo, entre outras. A viol\u00eancia do racismo, a humilha\u00e7\u00e3o social \u00e0s mulheres negras, traz consigo car\u00e1ter hist\u00f3rico abusivo e perverso que se articulam na perpetua\u00e7\u00e3o da ideologia dominante e do sistema capitalista, numa constru\u00e7\u00e3o social que interfere de forma desumana na vida da mulher negra, humilhando e inferiorizando a mesma, por sua cor, por seus tra\u00e7os e sua classe.<\/p>\n<p>Segundo os dados da Central de Atendimento \u00e0 Mulher, relativos ao ano de 2013, apontam que 59,4% dos registros de viol\u00eancia dom\u00e9stica no servi\u00e7o referem-se a mulheres negras. O Dossi\u00ea Mulher 2015, do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das v\u00edtimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. O Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a aponta ainda que esse segmento populacional \u00e9 maioria entre as v\u00edtimas de tr\u00e1fico de pessoas. E, de acordo com o Minist\u00e9rio do Trabalho, s\u00e3o tamb\u00e9m a maioria entre as v\u00edtimas de ass\u00e9dio moral e sexual no trabalho. Os dados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (SIM\/MS) de 2012 indicam que as mulheres negras s\u00e3o 62,8% das v\u00edtimas de morte materna. Correspondem tamb\u00e9m 58, 86% das mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica; 53,6% v\u00edtimas de mortalidade materna; 65,9% das v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica; 68,8% das mulheres mortas por agress\u00e3o; 56,8% das v\u00edtimas de estupros registrados no Estado do Rio de Janeiro em 2014 Dossi\u00ea Mulher RJ (ISP\/2015).<\/p>\n<p>Acreditamos que as discuss\u00f5es sobre a sexualiza\u00e7\u00e3o do corpo negro devem ser cada vez mais intensas, resgatando a for\u00e7a de v\u00e1rias mulheres negras que resistiram assim como Saartije, por nunca terem sido tratadas como um ser humano, que deixou uma hist\u00f3ria indispens\u00e1vel \u00e0s mulheres negras, para que entendamos o quanto isso afeta todos os aspectos de nossas vidas, tanto pessoal, profissional, emocional e outros. O combate ao racismo precisa ser organizado junto com a classe trabalhadora, para que com esta for\u00e7a gigantesca possa libertar dos grilh\u00f5es da escravid\u00e3o moderna os setores mais oprimidos de nossa sociedade composto por milh\u00f5es de mulheres negras que carregam em suas costas uma deixa desumana de ra\u00edzes escravistas. E isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel acerca de uma imensa transforma\u00e7\u00e3o de todas as bases sociais que condicionam a humanidade!<\/p>\n<p>Resistimos e lutamos. N\u00e3o nos calaremos.<\/p>\n<p>*Estudante secundarista do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e da Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC).<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>BRASIL. Dossi\u00ea Viol\u00eancia e racismo. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.agenciapatriciagalvao.org.br\/dossie\/violencias\/violencia-e-racismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.<wbr \/>agenciapatriciagalvao.org.br\/\u2026<wbr \/>\/violencia-e-raci\u2026\/<\/a>&gt; Acesso em: 27 nov. 2017<\/p>\n<p>FERRAZ, A. As V\u00eanus negras. Carta Capital, 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/cultura\/as-venus-negras-5562.html\/@@amp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">https:\/\/www.cartacapital.com.<wbr \/>br\/\u2026\/as-venus-negras-556\u2026\/@@<wbr \/>amp<\/a>&gt;<br \/>\nAcesso em: 27 nov. 2017<\/p>\n<p>PEREIRA, J. Premissas hist\u00f3ricas sobre a rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o de g\u00eanero ra\u00e7a\/etnia e sexualidade no Brasil. Desfazendo o g\u00eanero, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/desfazendogenero.com\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/ARTIGO-DG-ST40.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">http:\/\/desfazendogenero.com\/\u2026<wbr \/>\/up\u2026\/2017\/08\/ARTIGO-DG-ST40.<wbr \/>pdf<\/a>&gt; Acesso em: 27 nov. 2017<\/p>\n<p>TRISTAN, J. Mulheres negras, capitalismo e revolu\u00e7\u00e3o. Esquerda di\u00e1rio, 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Mulheres-negras-capitalismo-e-revolucao-16536\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">http:\/\/www.esquerdadiario.<wbr \/>com.br\/Mulheres-negras-<wbr \/>capitalism\u2026<\/a>&gt; Acesso em: 26 nov. 2017.<\/p>\n<p>https:\/\/www.facebook.com\/cfcam.alagoas\/<wbr \/>posts\/1913152685679385<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17618\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Hipersexualiza\u00e7\u00e3o do corpo da mulher negra","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,180],"tags":[223],"class_list":["post-17618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-feminista","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Aa","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17618\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}