{"id":17653,"date":"2017-12-05T20:08:58","date_gmt":"2017-12-05T23:08:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17653"},"modified":"2017-12-06T20:55:20","modified_gmt":"2017-12-06T23:55:20","slug":"%ef%bb%bfna-barriga-da-miseria-extrema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17653","title":{"rendered":"\ufeffNa barriga da mis\u00e9ria extrema"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Na barriga da mis\u00e9ria extrema\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/criticadaeconomia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Favela.jpg\" alt=\"Na barriga da mis\u00e9ria extrema\" \/><!--more-->Jos\u00e9 Martins<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.criticadaeconomia.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Publicado originalmente no site Critica da Economia.<\/a><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9, possivelmente, o pa\u00eds mais miser\u00e1vel do mundo. Principalmente se a flagrante pauperiza\u00e7\u00e3o da sua popula\u00e7\u00e3o for relacionada com o tamanho do territ\u00f3rio, da popula\u00e7\u00e3o e da economia do pais. O Brasil \u00e9 t\u00e3o grande quanto sua galopante mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredita nisso? Recomenda-se, ent\u00e3o, a leitura dos n\u00fameros do recente relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/18376-pnad-continua-2016-10-da-populacao-com-maiores-rendimentos-concentra-quase-metade-da-renda.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cPesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios PNAD Cont\u00ednua 2016\u201d<\/a> do IBGE, divulgado nesta semana.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando com um n\u00famero mais do que importante para o entendimento do processo: a metade dos trabalhadores residentes no Brasil recebe 747 reais mensais. Muito menos que o sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial (880 reais) em 2016, ano em que foi realizada a pesquisa. Pauperiza\u00e7\u00e3o absoluta em alta ebuli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro prato da balan\u00e7a, observa-se que 10% da popula\u00e7\u00e3o com maiores rendimentos (classes improdutivas) concentra quase metade da renda nacional. E 1% deste mesmo segmento recebe em m\u00e9dia R$ 27.500, mensalmente, ou 36,3 vezes mais que aquela metade com os menores rendimentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma balan\u00e7a qualquer. Por tr\u00e1s destes segmentos estat\u00edsticos de cidad\u00e3os pobres e ricos escondem-se as classes sociais. \u00c9 por isso que, al\u00e9m da apar\u00eancia retratada pelo IBGE, n\u00e3o se observa apenas um problema de desigualdade entre cidad\u00e3os livres e iguais, mas de explora\u00e7\u00e3o de classes propriet\u00e1rias de meios de produ\u00e7\u00e3o e de circula\u00e7\u00e3o sobre a classe prolet\u00e1ria sem nenhuma propriedade e desprovida de qualquer reserva.<\/p>\n<p>Os ide\u00f3logos do sistema e seus primos ruminantes populistas de diferentes cores e plumagens focam o problema da mis\u00e9ria nesta injusta desigualdade de rendimentos. Em uma imprecisa diferencia\u00e7\u00e3o da capacidade individual de demanda. Transformam assim o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em um abstrato modo de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda.<\/p>\n<p>A desigualdade e a concentra\u00e7\u00e3o da renda como um constrangimento moral que poderia ser resolvido por pol\u00edticas p\u00fablicas, press\u00f5es tribut\u00e1rias sobre os mais ricos, educa\u00e7\u00e3o acelerada, leis dos pobres, bolsas-fam\u00edlia e outras formas de caridade social incentivadas pelo Banco Mundial, ONU, Vaticano e\u2026 <a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/pt\/247\/revista_oasis\/200261\/Amartya-Sen-A-moral-da-economia.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amartya Sen, Pr\u00eamio Nobel de Economia em 1998<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que quando as grandes metr\u00f3poles do imperialismo acordam cercadas por favelas e bols\u00f5es de mis\u00e9ria t\u00edpicos da periferia do sistema, amea\u00e7ando a \u201cseguran\u00e7a p\u00fablica\u201d e a governabilidade burguesa. Os economistas liberais resolvem revelar ao mundo a grande \u201cdescoberta\u201d: mesmo no cora\u00e7\u00e3o do sistema existe forte desigualdade de rendimentos entre os cidad\u00e3os e que em todo lugar \u201ca taxa de concentra\u00e7\u00e3o da renda cresce mais rapidamente que a taxa de crescimento da economia\u201d.<\/p>\n<p>Para quem tem tempo de sobra pode conferir essa incr\u00edvel \u201cdescoberta\u201d \u2013 e, claro, a costumeira leviandade do moralismo econ\u00f4mico para a solu\u00e7\u00e3o do problema \u2013 no festejado best-seller \u201cO Capital no S\u00e9culo XXI\u201d, de Thomas Piketty.<\/p>\n<p>Entretanto, todo mundo minimamente informado sabe que a economia pol\u00edtica dos trabalhadores (Marx) certamente n\u00e3o foi a primeira, mas certamente j\u00e1 tem conhecimento de que, h\u00e1 pelo menos duzentos anos, existe essa concentra\u00e7\u00e3o do capital em um polo e da mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o no outro. Afinal, isso faz parte da natureza deste regime de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe tamb\u00e9m do fato que a explora\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria pela classe capitalista e demais parasitas do sistema \u2013 materializada na produtividade da for\u00e7a de trabalho, na produ\u00e7\u00e3o de mais-valia e de lucro \u2013 \u00e9 o principal determinante da din\u00e2mica econ\u00f4mica mundial. Muito mais que um mero problema de reparti\u00e7\u00e3o do produto.<\/p>\n<p>Isso tem que ser levado em conta na an\u00e1lise da din\u00e2mica da demanda especificamente capitalista e na confus\u00e3o que romanticamente se faz com o papel do subconsumo assalariado no ciclo econ\u00f4mico e nas tentativas de explica\u00e7\u00e3o das modernas crises peri\u00f3dicas de superprodu\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>O trabalhador assalariado n\u00e3o foi inventado pelo capital para consumir, servir de demanda para a realiza\u00e7\u00e3o do capital, mas para ser consumido como simples mercadoria nas linhas de produ\u00e7\u00e3o do capital. N\u00e3o ser\u00e1 um rom\u00e2ntico aumento do consumo do proletariado que vai evitar a crise do capital.<\/p>\n<p>Neste sentido, a explora\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria nas linhas de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente distinta desse desequil\u00edbrio abstrato entre diversas modalidades de rendimentos de cidad\u00e3os livres e iguais circulando aleatoriamente pelo mercado.<\/p>\n<p>Como \u00e9 demonstrado pelo caso brasileiro, a ideia da troca de equivalentes (sal\u00e1rio justo ou m\u00ednimo de sal\u00e1rio Smith) falha praticamente e de maneira mais flagrante em economias nacionais onde predomina a <strong>mais-valia absoluta<\/strong> \u2013 caracterizada pelo pagamento do sal\u00e1rio abaixo do valor da for\u00e7a de trabalho e pelo prolongamento sistem\u00e1tico da jornada de trabalho, moderno trabalho escravo, trabalho de crian\u00e7as e outras formas democr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas coisas se apresentam praticamente no Brasil, pa\u00eds continental que tem uma das maiores economias do mundo (em tamanho, n\u00e3o em qualidade) e onde essa realidade da predomin\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o de mais-valia absoluta se revela de maneira mais do que evidente nos n\u00fameros do IBGE.<\/p>\n<p>Se, em 2016, a mediana do \u201crendimento m\u00e9dio mensal domiciliar per capita do trabalho\u201d era de R$747, como medido pelo IBGE, no mesmo ano o sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial era de R$880. E a m\u00e9dia anual do sal\u00e1rio DIEESE \u2013 que corresponde \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio definido e estabelecido oficialmente em 1945, na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2013 era de R$ 3875 em 2016. Foi estabelecido conceitualmente na origem como o sal\u00e1rio necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia de dois adultos e duas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O salario do DIEESE \u00e9 atualizado mensalmente e \u00e9 correntemente considerado como uma refer\u00eancia brasileira bastante pr\u00f3xima do <em>sal\u00e1rio natural<\/em> de Smith e Ricardo e do <em>sal\u00e1rio relativo<\/em> de Marx. Quando esses tr\u00eas economistas falam de sal\u00e1rio em suas obras, a n\u00e3o ser com men\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio, est\u00e3o falando do <em>sal\u00e1rio relativo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Nota bene<\/strong>: <em>Existem diferentes modalidades de sal\u00e1rio. O sal\u00e1rio relativo \u00e9 uma express\u00e3o monet\u00e1ria do valor da for\u00e7a de trabalho. J\u00e1 o sal\u00e1rio real corresponde \u00e0 quantidade de mercadorias (ou bens-sal\u00e1rio) que o sal\u00e1rio nominal permite adquirir no mercado. Este sal\u00e1rio nominal \u00e9 aquela quantidade de moeda que o trabalhador recebe do patr\u00e3o (contracheque de hollerith) depois de completada uma determinada jornada de trabalho. O sal\u00e1rio real e o sal\u00e1rio nominal s\u00e3o categorias da circula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o sal\u00e1rio relativo \u00e9 uma categoria da produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 determinado pela taxa de mais-valia ou produtividade. \u00c9 inversamente proporcional \u00e0 produtividade da for\u00e7a de trabalho. Nas economias dominantes o sal\u00e1rio real \u00e9 mais elevado e o sal\u00e1rio relativo \u00e9 mais baixo que nas economias dominadas. Nas economias dominantes a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 maior e a mis\u00e9ria \u00e9 menor que nas economias dominadas. Essa \u00e9 a base do desenvolvimento desigual e combinado entre as na\u00e7\u00f5es no mercado mundial. Em qualquer caso, entretanto, a classe oper\u00e1ria sempre produz seu sal\u00e1rio (e o lucro do capitalista) antes de receb\u00ea-lo. Ela concede, assim, um cr\u00e9dito ao capitalista para comprar a mercadoria for\u00e7a de trabalho e s\u00f3 pagar depois de consumi-la na linha de produ\u00e7\u00e3o de capital. Isso n\u00e3o podia ser feito no regime escravagista, por exemplo. No regime assalariado o trabalhador cria ex ante a \u201cpoupan\u00e7a\u201d que vai ser convertida ex post em \u201cinvestimento\u201d pelo capitalista. Este \u00faltimo n\u00e3o tem, portanto, que se \u201cabster\u201d de nada, de nenhum consumo, de nenhum \u201cprazer\u201d, pois ele n\u00e3o \u201cgasta\u201d do seu bolso nenhum tost\u00e3o quando, na circula\u00e7\u00e3o do capital, ele compra meios de produ\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de trabalho para acumular mais capacidade produtiva (propriedade privada especificamente capitalista), embolsar determinada taxa de lucro e reproduzir sua condi\u00e7\u00e3o de classe capitalista. Outra particularidade relacionada: na fase de submiss\u00e3o real do trabalho ao capital, o capitalista desaparece fisicamente do processo de trabalho. O capital se despersonaliza. Administradores assalariados cumprem a antiga fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do capitalista no processo de trabalho. Este \u00faltimo torna-se um mero carimbador de b\u00f4nus, t\u00edtulos e a\u00e7\u00f5es. Um ser absolutamente improdutivo. Totalmente desnecess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o social. Para esconder-se dessa inutilidade e do sentido pejorativo da palavra capitalista, muda de nome, depois de Shumpeter, para \u201cempres\u00e1rio\u201d, \u201cempreendedor\u201d ou, finalmente, \u201cinvestidor\u201d. Para ver com clareza esse processo b\u00e1sico do regime capitalista deve-se observar corretamente a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre a produ\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o do capital; n\u00e3o se guiar cegamente pela simples circula\u00e7\u00e3o das mercadorias, como o faz a economia vulgar neocl\u00e1ssica e keynesiana. Uma boa leitura do livro 1 de O Capital j\u00e1 \u00e9 suficiente.<\/em><\/p>\n<p>Voltando aos n\u00fameros. Do mesmo modo que as diferentes modalidades de sal\u00e1rios, os diferentes e desiguais \u201cextratos de rendimentos\u201d do IBGE tamb\u00e9m podem e devem ser relacionados com a din\u00e2mica geral do<strong> ex\u00e9rcito industrial de reserva<\/strong>, que configura a lei da popula\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito industrial de reserva formaliza-se em uma dimens\u00e3o absolutamente diferente e muito mais ampla do que o conhecido \u201cmercado de trabalho\u201d da economia vulgar. Al\u00e9m dos locais de trabalho (f\u00e1bricas, minas e fazendas) ele se espalha por todo o espa\u00e7o do territ\u00f3rio nacional e mundial como uma classe especial e majorit\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o em geral. Por isso s\u00f3 pode ser observado na dimens\u00e3o territorial da economia. No Brasil, ele aparece recenseado atrav\u00e9s das diferentes m\u00e9dias (medianas, para ser mais preciso) salariais em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/criticadaeconomia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Desigualdade-2.jpg\" \/><\/p>\n<p>Regi\u00e3o Norte: R$ 560<br \/>\nRegi\u00e3o Nordeste R$ 485<br \/>\nRegi\u00e3o Sudeste R$ 909<br \/>\nRegi\u00e3o Sul R$ 949<br \/>\nRegi\u00e3o Centro Oeste R$ 886<br \/>\nBrasil R$ 747<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros enfileirados acima s\u00e3o os que representam melhor a forma\u00e7\u00e3o da taxa de sal\u00e1rios e do sal\u00e1rio real m\u00e9dio da economia brasileira. O sal\u00e1rio do DIEESE de R$ 3875, que exprime grosseiramente o sal\u00e1rio relativo, ou valor da for\u00e7a de trabalho nacional, pode ser considerado tamb\u00e9m a linha abaixo da qual se situa os diversos patamares de pobreza real do ex\u00e9rcito industrial de reserva, como registram os n\u00fameros acima<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, observa-se que nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, mais atingidas pelos desequil\u00edbrios regionais do desenvolvimento econ\u00f4mico nacional, os sal\u00e1rios reais s\u00e3o os menores da amostra e, portanto, a pauperiza\u00e7\u00e3o \u00e9 maior que nas demais regi\u00f5es (Sudeste, Centro Oeste e Sul).<\/p>\n<p>Tratamos em <strong><a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/desequilibrios-regionais-no-brasil-tudo-como-dantes-no-bordel-de-abrantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recente boletim<\/a><\/strong> da natureza e do papel destes desequil\u00edbrios regionais para o aprofundamento continuo do subdesenvolvimento econ\u00f4mico e a mis\u00e9ria extrema que n\u00e3o para de aumentar no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O que dizer, agora, de um pais de dimens\u00f5es continentais com elevado sal\u00e1rio relativo (valor da for\u00e7a de trabalho) e mediana dos sal\u00e1rios reais abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial, que n\u00e3o passa ele mesmo de uma perversa fic\u00e7\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho?<\/p>\n<p>Pa\u00edses que n\u00e3o diminuem o sal\u00e1rio relativo (mais-valia relativa) como necessidade para um efetivo desenvolvimento econ\u00f4mico nacional s\u00f3 podem reproduzir o ex\u00e9rcito industrial de reserva na mais abjeta mis\u00e9ria, como se presencia no Brasil<\/p>\n<p>As desigualdades e a concentra\u00e7\u00e3o da renda nos n\u00edveis inimagin\u00e1veis que ocorrem no Brasil s\u00e3o resultados deste imut\u00e1vel padr\u00e3o do desenvolvimento desigual e combinado de economias dominantes e dominadas na ordem imperialista mundial.<\/p>\n<p>Enquanto a eleva\u00e7\u00e3o da taxa de produtividade da for\u00e7a de trabalho (taxa de explora\u00e7\u00e3o ou de mais-valia) na economia brasileira for executada necessariamente com a redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio real e o prolongamento da jornada ocorrer\u00e1, como diz\u00edamos em 2013, em um de muitos boletins tratando desse \u201cpadr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cDif\u00edcil de esconder: de que vale um Produto Interno Bruto (PIB) muito grande e uma pobreza maior ainda? Um grande mist\u00e9rio da globaliza\u00e7\u00e3o do capital nos \u00faltimos anos nas grandes \u201ceconomias emergentes\u201d: quanto maior o PIB, maior a pobreza da popula\u00e7\u00e3o. E as tens\u00f5es sociais aumentam junto. (<strong>A Economia do Crioulo Doido<\/strong>. 2\u00aa semana Fevereiro 2013.)<\/p>\n<p>Quase cinco anos depois, existem coisas novas neste prom\u00edscuo regime burgu\u00eas de acumula\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria. A primeira consequ\u00eancia: o aumento da mis\u00e9ria a n\u00edveis inimagin\u00e1veis desde os primeiros sinais de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e desmantelamento acelerado da Seguridade Social: sa\u00fade, moradia, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia social, etc. Nos \u00faltimos cinco anos, principalmente. Isso aumenta a ingovernabilidade pol\u00edtica nacional a n\u00edveis incontrol\u00e1veis.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia importante: se em 2013 ainda se podia falar de \u201cum Produto Interno Bruto (PIB) muito grande e uma pobreza maior ainda\u201d, agora tem que se atualizar tamb\u00e9m a primeira perna da equa\u00e7\u00e3o. Coloque no lugar \u201cum PIB insignificante que insiste em ficar estagnado e uma pobreza muito maior do que antes\u201d.<\/p>\n<p>No 3\u00ba trimestre deste ano o PIB brasileiro cresceu a \u201cenormidade\u201d de 0.1%. Como \u00e9 que fica a situa\u00e7\u00e3o do emprego? A ind\u00fastria patina, a constru\u00e7\u00e3o civil n\u00e3o sai do lugar. O \u00fanico aumento de contrata\u00e7\u00e3o \u00e9 dos chamados empregos informais. A reforma trabalhista j\u00e1 se apresenta \u00e0 luz do dia. Envolta em trevas.<\/p>\n<p>Os economistas do mercado est\u00e3o prevendo um crescimento de 0.7% para todo o ano de 2017. E acredite se quizer: est\u00e3o festejando o resultado. Vejam o que dizem o ministro da Fazenda e o presidente da Rep\u00fablica: \u201cO ministro da Fazenda comemorou os resultados em uma rede social. O presidente Michel Temer, que tamb\u00e9m festejou o PIB, disse que a reforma da Previd\u00eancia \u00e9 essencial para economia. \u201cFalta agora a reforma da Previd\u00eancia, fundamental para garantir a continuidade desse crescimento que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed\u201d, afirmou o presidente\u201d. (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2017\/12\/pib-brasileiro-cresce-01-no-terceiro-trimestre-do-ano.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>O Globo<\/strong><\/a>, 1 dezembro 2017)<\/p>\n<p>Que beleza de burguesia! Mas ela se defronta atualmente com uma sinuca de bico. Acontece que o padr\u00e3o tradicional que funcionou at\u00e9 2014, de reduzir o sal\u00e1rio real, aumentar a mis\u00e9ria e se contentar com ef\u00eameros crescimentos do PIB, agora n\u00e3o funciona mais.<\/p>\n<p>Aumenta-se com muito mais velocidade a mis\u00e9ria do proletariado e o PIB n\u00e3o sai do lugar. Esse travamento econ\u00f4mico, como temos analisado h\u00e1 um bom tempo em in\u00fameros outros boletins, tem a ver com as novas condi\u00e7\u00f5es internacionais de valoriza\u00e7\u00e3o e de concorr\u00eancia do capital no mercado mundial. E que nem a carnificina social ora em marcha for\u00e7ada no Brasil ser\u00e1 capaz de destravar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17653\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Na barriga da mis\u00e9ria extrema","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,38],"tags":[223],"class_list":["post-17653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c43-imperialismo","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4AJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}