{"id":17677,"date":"2017-12-06T13:40:28","date_gmt":"2017-12-06T16:40:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17677"},"modified":"2017-12-06T13:40:28","modified_gmt":"2017-12-06T16:40:28","slug":"entrevista-com-lider-mapuche-moira-millan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17677","title":{"rendered":"Entrevista com a l\u00edder mapuche Moira Mill\u00e1n"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Entrevista com a l\u00edder mapuche Moira Mill\u00e1n\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images.pagina12.com.ar\/styles\/focal_16_9_960x540\/public\/2017-10\/na07fo02_3.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"Entrevista com a l\u00edder mapuche Moira Mill\u00e1n\" \/><!--more--><strong>\u201cO povo mapuche n\u00e3o luta pela propriedade da terra, mas, sim, por um modo de vida na terra\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Moira Mill\u00e1n, refer\u00eancia da comunidade Pill\u00e1n Mahuiza, de Chubut (Puelmapu), \u00e9 sem d\u00favida um dos rostos mais conhecidos em n\u00edvel internacional da\u00a0comunidade mapuche. Fugindo das amea\u00e7as, no m\u00eas passado, percorreu a Europa para informar sobre o povo mapuche e sua resist\u00eancia. Aproveitamos sua presen\u00e7a em Bilbao, em Ekoetxea, para conversar com ela.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de\u00a0Alvaro Hilario, publicada por\u00a0Rebeli\u00f3n, 04-12-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do\u00a0Cepat.<\/p>\n<p><b>Eis a entrevista.<\/b><\/p>\n<p><strong>Poderia explicar, em poucas palavras, qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual da na\u00e7\u00e3o mapuche?<\/strong><\/p>\n<p>O territ\u00f3rio mapuche se denomina\u00a0Wallmapu. O lado oeste, sob administra\u00e7\u00e3o chilena, \u00e9 o Gulumapu; e o que se encontra sob administra\u00e7\u00e3o argentina, ao leste, \u00e9 o Puelmapu. Em conjunto, os que povoam estes territ\u00f3rios somam pouco mais de 4 milh\u00f5es de mapuches. Talvez sejam mais, mas falamos de gente que se autodefine como mapuche: na prov\u00edncia de Chubut, de onde eu venho, o \u00faltimo censo levantou 60% de autoafirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria mapuche.<\/p>\n<p>O Wallmapu vai do centro-sul da prov\u00edncia de\u00a0Buenos Aires, sul de Mendoza, sul de Santa F\u00e9 at\u00e9 a prov\u00edncia de Santa Cruz. Por conta da repress\u00e3o, espalhamo-nos at\u00e9 l\u00e1. Este territ\u00f3rio estrutura 60% da economia argentina e chilena. Nele h\u00e1 g\u00e1s, petr\u00f3leo, minerais e, algo muito importante, h\u00e1 \u00e1gua. A \u00e1gua faz de Wallmapu um territ\u00f3rio especialmente estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave porque, al\u00e9m da presen\u00e7a de transnacionais \u2013 a maioria de origem europeia \u2013 espoliando o territ\u00f3rio, tamb\u00e9m existe, a partir dos latif\u00fandios, a forma\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de novos estados feudais p\u00f3s-modernos. S\u00e3o multimilion\u00e1rios, latifundi\u00e1rios, que compram muit\u00edssimos hectares &#8211; como\u00a0(Luciano)\u00a0Benetton, que tem 1,9 milh\u00e3o de hectares &#8211; e financiam a repress\u00e3o. Tem o\u00a0Ex\u00e9rcito\u00a0e a\u00a0Guarda\u00a0como servis guardi\u00f5es de suas posses. Possuem seus helic\u00f3pteros e fecharam uma infinidade de caminhos.\u00a0Lewis, ex-dono da cadeia\u00a0Hard Rock Caf\u00e9, por exemplo, cercou sua est\u00e2ncia deixando isolado, dentro de suas terras, o\u00a0Lago Escondido. N\u00e3o se pode chegar at\u00e9 o mesmo; \u00e9 preciso fazer isto a p\u00e9, e o caminho, de 40 km, est\u00e1 fechado.<\/p>\n<p>Tudo isto est\u00e1 ocorrendo em uma realidade onde as comunidades est\u00e3o dispersas fisicamente. A Patag\u00f4nia \u00e9 imensa. H\u00e1 meia pessoa por quil\u00f4metro quadrado, o que a torna um lugar conveniente para a forma\u00e7\u00e3o de latif\u00fandios.<\/p>\n<p><strong>Parece ter aumentado a repress\u00e3o em Puelmapu, com a ado\u00e7\u00e3o das mesmas modalidades que se observam, h\u00e1 tempo, do lado oeste da cordilheira&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>As mineradoras e madeireiras que operavam em Gulumapu percebem que h\u00e1 uma estrutura prejudicial para sua ancoragem naquelas terras. Nosso povo realiza a\u00e7\u00f5es de autoprote\u00e7\u00e3o, de defesa do territ\u00f3rio, sabotagens. O inc\u00eandio de caminh\u00f5es e maquinaria, golpes efetivos e certeiros contra seu capital, lhes preocupa muit\u00edssimo. Precisam contratar seguran\u00e7a particular para cuidar dos caminh\u00f5es com os quais depredam a mata, e isto \u00e9 um gasto adicional. Na medida em que o cen\u00e1rio da resist\u00eancia mapuche contra as transnacionais se torna mais complexo, a produ\u00e7\u00e3o vai se encarecendo. Sendo assim, decidem se mudar para uma regi\u00e3o com os mesmos recursos, e a\u00ed tem Puelmapu. E v\u00e3o com as garantias de que em sua nova localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorrer\u00e3o conflitos sociais.<\/p>\n<p>Em Puelmapu, conseguiu-se articular com o povo argentino. A luta contra a minera\u00e7\u00e3o em Esquel (Chubut) conseguiu frear o avan\u00e7o da minera\u00e7\u00e3o na cordilheira, porque as comunidades mapuche articularam sua luta com outras organiza\u00e7\u00f5es de base, especialmente, com vizinhos autoconvocados. A partir desta resist\u00eancia, cresceram as assembleias de cidadania autoconvocadas, centradas na problem\u00e1tica ambiental, em todo o Estado argentino. Isto preocupa as transnacionais e o governo.<\/p>\n<p>Em Puelmapu o povo mapuche tem uma ferramenta legal que o restante do povo argentino n\u00e3o tem: a\u00a0Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT\u00a0[Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho] e o artigo 75 da\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0argentina. Gra\u00e7as a estes dois suportes legais, foram apresentados muitos amparos para deter o avan\u00e7o mineiro, as represas, o\u00a0fracking. Sendo assim, a \u201ccorporocracia\u201d necessita que o Estado argentino retire, anule essas garantias legais. E para isso precisa criar um cen\u00e1rio favor\u00e1vel que justifique a aplica\u00e7\u00e3o da nova lei antiterrorista; precisa convencer a popula\u00e7\u00e3o de que somos terroristas. Por isso, criam um inimigo interno, que \u00e9 o povo mapuche. Valem-se dos irm\u00e3os (Jones Huala) que recuperam legitimamente terras usurpadas por\u00a0Benetton: assediam e reprimem estes, diante da indiferen\u00e7a social e o tremendo racismo que existe na Argentina. A Argentina \u00e9 a Europa sul-americana, \u00e9 a branca da Indoam\u00e9rica, que n\u00e3o quer assumir a quantidade de povos que a formam. A Argentina invadiu o territ\u00f3rio de mais de 40 na\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias; na atualidade, existem 36. Desse modo, o Estado argentino lan\u00e7a uma campanha midi\u00e1tica de demoniza\u00e7\u00e3o do povo mapuche.<\/p>\n<p>Na prov\u00edncia de\u00a0Chubut\u00a0h\u00e1 145 mapuches desaparecidos.\u00a0Santiago Maldonado\u00a0n\u00e3o foi o primeiro. Um dos casos mais emblem\u00e1ticos que denunciamos \u00e9 o de Luciano Gonz\u00e1lez. Desapareceu no dia 8 de mar\u00e7o de 2009, durante uma opera\u00e7\u00e3o muito violenta de invas\u00e3o. Vinha de uma comunidade muito pobre, foi torturado e assassinado. Ningu\u00e9m marchou por ele.<\/p>\n<p><strong>A repress\u00e3o s\u00f3 se torna vis\u00edvel quando atinge brancos, como Elena Varela e Santiago Maldonado?<\/strong><\/p>\n<p>Sim.\u00a0Santiago Maldonado\u00a0foi se solidarizar com a causa pela liberdade do lonkoFacundo Jones Huala, na comunidade mapuche\u00a0Pu Lof em Resist\u00eancia, de Cushamen, que s\u00e3o aqueles que realizaram o bloqueio de estrada, violentamente reprimido e no qual\u00a0Santiago\u00a0desapareceu. Da\u00ed aparece para a sociedade argentina, porque\u00a0Santiago Maldonado\u00a0era um jovem branco, sua fam\u00edlia vem do epicentro da regi\u00e3o sojeira, 25 de Maio, seu irm\u00e3o \u00e9 empres\u00e1rio&#8230; Tudo isto fez com que a sociedade argentina pensasse que poderia ter ocorrido com qualquer um deles. A luta come\u00e7a a transcender a dor e a cor da pele do povo mapuche, come\u00e7a a tocar o povo argentino, que se v\u00ea remetido a fatos da \u00faltima ditadura militar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 setores que querem abstrair o desaparecimento de\u00a0Santiago\u00a0da luta mapuche. Outros, diretamente, culpam as v\u00edtimas, questionando\u00a0Santiago, sua fam\u00edlia e os mapuches. E h\u00e1 um terceiro setor que, solidariamente, come\u00e7a a descobrir que h\u00e1 mapuches na Argentina, que algo est\u00e1 acontecendo na Patag\u00f4nia, que h\u00e1 interesses multimilion\u00e1rios em nosso territ\u00f3rio, que s\u00e3o a origem do conflito. O povo mapuche n\u00e3o luta pela propriedade da terra, mas, sim, por um modo de vida na terra. Esse modo est\u00e1 em harmonia com a natureza, em reciprocidade com os povos; e essa l\u00f3gica, \u00e9 claro, n\u00e3o se encaixa dentro do sistema, dos valores da matriz civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que ocorreu n\u00e3o foi s\u00f3 o desaparecimento de\u00a0Santiago Maldonado\u00a0e com ele a tentativa de fazer desaparecer a solidariedade dos povos, mas, sim, a tentativa de fazer desaparecer a luta do povo mapuche. N\u00e3o se pode mostrar a ideologia que alimenta essa luta, que nutre de esperan\u00e7a a esse povo, porque essa esperan\u00e7a tamb\u00e9m pode chegar a voc\u00ea. Trata-se de uma esperan\u00e7a que abra\u00e7a o planeta, porque estamos apresentando uma nova matriz civilizat\u00f3ria, a constitui\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, de uma nova humanidade que repense a forma de viver e recupere a arte de habitar que t\u00ednhamos outrora. \u00c9, ent\u00e3o, uma luta revolucion\u00e1ria sumamente estruturada.<\/p>\n<p><strong>Que desafios voc\u00eas enfrentam a curto prazo?<\/strong><\/p>\n<p>Queremos a imediata liberdade do lonko\u00a0Facundo Jones Huala, o cessar da repress\u00e3o. Eu estou na Europa porque est\u00e3o me amea\u00e7ando de morte: torturaram, sacrificaram e penduraram na porta de minha casa uma raposa, ressaltando que o cad\u00e1ver seguinte ser\u00e1 o meu. Mensagens mafiosas que revelam a impunidade com que atuam. Sabemos que aqueles que nos amea\u00e7am, agora, s\u00e3o a pr\u00f3pria\u00a0Guarda\u00a0e a\u00a0Pol\u00edcia, com o consentimento do governo. Sendo assim, estamos em alerta, pedindo solidariedade, tamb\u00e9m pedindo ao povo argentino por minha seguran\u00e7a, j\u00e1 que n\u00e3o temos nenhuma inst\u00e2ncia a qual recorrer.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/comentario-do-evangelho\/78-noticias\/574339-o-povo-mapuche-nao-luta-pela-propriedade-da-terra-mas-sim-por-um-modo-de-vida-na-terra-entrevista-com-a-lider-mapuche-moira-millan<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17677\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57,163],"tags":[224],"class_list":["post-17677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","category-movimento-indigena","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4B7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}