{"id":1774,"date":"2011-08-19T22:47:55","date_gmt":"2011-08-19T22:47:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1774"},"modified":"2011-08-19T22:47:55","modified_gmt":"2011-08-19T22:47:55","slug":"palestra-mauro-iasi-a-universidade-deve-ser-contra-a-mercantilizacao-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1774","title":{"rendered":"Palestra Mauro Iasi &#8211; A universidade deve ser contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida"},"content":{"rendered":"\n<p>O problema da universidade \u00e9 o problema da sociedade. <strong>A produ\u00e7\u00e3o capitalista ataca a vida em v\u00e1rios aspectos, inclusive na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento\u201d<\/strong>, foi o que afirmou o professor Mauro Iasi, da Escola de Servi\u00e7o Social, conferencista da abertura do semin\u00e1rio \u201cA UFRJ em debate: A situa\u00e7\u00e3o da Praia Vermelha\u201d, no audit\u00f3rio Prof. Manoel Mauricio de Albuquerque, do CFCH, no \u00faltimo dia 27.<\/p>\n<p>Mauro Iasi promoveu, logo no in\u00edcio de sua palestra, uma compara\u00e7\u00e3o: \u201cO rei Capital \u00e9 como aquele rei Midas (que transformava em ouro tudo que tocava). <strong>S\u00f3 que o Capital transforma tudo em mercadoria; at\u00e9 mesmo a for\u00e7a de trabalho dos seres humanos\u201d<\/strong>, disse. Segundo ele, pela l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o do capital, a transforma\u00e7\u00e3o deve se estender para todas as esferas da vida, inclusive a Educa\u00e7\u00e3o. \u201cEsse ataque n\u00e3o \u00e9 novo\u201d, observou, antes de fazer um breve hist\u00f3rico dos prim\u00f3rdios da constru\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mauro Iasi destacou que n\u00e3o existe modelo de Universidade isolado das for\u00e7as din\u00e2micas que comp\u00f5em a sociedade: as primeiras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior foram concebidas como locais de acumula\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o do saber a uma pequena elite. Na Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria, Napole\u00e3o prop\u00f5e que a universidade seja um centro de forma\u00e7\u00e3o profissional. Por sua vez, o modelo alem\u00e3o vai sintetizar outro conceito que combina os dois primeiros: sede e desenvolvimento do saber e da pesquisa e a sua capacidade de forma\u00e7\u00e3o das camadas profissionais: <strong>\u201cAt\u00e9 esse momento, a universidade \u00e9 claramente voltada para aos interesses da reprodu\u00e7\u00e3o do capital\u201d<\/strong>, ressaltou.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong> .<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o que vai se repetir no Brasil, desde seus primeiros cursos de Medicina e Direito. Pensamento que prossegue dessa maneira at\u00e9 os anos 1960, quando o movimento estudantil vai questionar a pauta de forma qualitativa: \u201cPra qu\u00ea e pra quem se faz a Universidade? Os estudantes v\u00e3o lembrar \u00e0 universidade que seu conhecimento \u00e9 necessariamente coletivo e deve voltar aos seus verdadeiros donos, ao conjunto da sociedade\u201d. O referencial para essa altera\u00e7\u00e3o \u00e9 a Universidade de C\u00f3rdoba, na Argentina, quando, em 1918, estudantes, professores e funcion\u00e1rios fazem um levante para abrir a institui\u00e7\u00e3o ao povo.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, o movimento \u00e9 vinculado \u00e0s reformas de base. Ou seja, \u00e0s reformas estruturais que abrangiam os setores educacional, fiscal, pol\u00edtico e agr\u00e1rio. Mas cuja trajet\u00f3ria \u00e9 interrompida brutalmente pelo golpe militar de 1964, que retoma, no ensino superior, a ideia do desenvolvimento de uma elite para moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade. \u201cN\u00e3o se trata mais da rela\u00e7\u00e3o entre universidade e sociedade, <strong>da socializa\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/strong> Isso foi expurgado pelo m\u00e9todo que vimos e conhecemos, com interven\u00e7\u00e3o direta nos curr\u00edculos, aposentadorias for\u00e7adas, censura, expuls\u00e3o de professores, fechamento do debate. Essa imposi\u00e7\u00e3o tem por tr\u00e1s uma concep\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica\u201d, observou o professor Mauro Iasi, uma vez que o capitalismo se encontrava em pleno desenvolvimento monopolista. Entre suas novas exig\u00eancias desse est\u00e1gio, <strong>o capitalismo cobra que os Estados promovam um ensino tecnicista, que ser\u00e1 para poucos.<\/strong> A vis\u00e3o \u00e9 meritocr\u00e1tica: \u201cA forma de cercear isso \u00e9 o vestibular\u201d, lembrou o palestrante.<\/p>\n<p>Mauro Iasi destacou que, pouco depois, o projeto da ditadura sofre uma resist\u00eancia. Tudo vai culminar com a discuss\u00e3o da Constituinte: \u201cEla \u00e9 reflexo de todas as lutas que ocorrem neste momento, com greves dos banc\u00e1rios, da constru\u00e7\u00e3o civil, dos metal\u00fargicos&#8230; A entrada em cena dos trabalhadores muda a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e os movimentos encontram unidade na luta contra a ditadura. Isso tamb\u00e9m se expressa no ensino superior, que vai exigir da Constitui\u00e7\u00e3o que garanta a universidade como espa\u00e7o p\u00fablico, que tenha autonomia, e que combine o ensino, pesquisa e extens\u00e3o. \u00c9 o que se materializa no famoso artigo 207\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Mas o momento em que isso ser\u00e1 aplicado j\u00e1 ser\u00e1 aquele em que o capital precisa de um novo modelo de Estado. O que acontece nos anos 70 e 80, com a crise do capitalismo \u2013 e do fordismo \u2013 provoca a chamada \u201creestrutura\u00e7\u00e3o produtiva\u201d. Em vez da separa\u00e7\u00e3o dura de fun\u00e7\u00f5es, a polival\u00eancia: \u201cEssa nova forma de produ\u00e7\u00e3o tensiona o conjunto da sociedade. H\u00e1 efeitos nos Estados, e tamb\u00e9m nas formas de universidade\u201d, disse. O modelo estatal agora \u00e9 considerado \u201cpesado demais\u201d, custoso, gastador.<\/p>\n<p><strong>A era FHC<\/strong><\/p>\n<p>A primeira ofensiva, na era Fernando Henrique Cardoso, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica com verbas controladas, como centro de excel\u00eancia <strong>(para poucos),<\/strong> mas com expans\u00e3o do acesso ao ensino superior pelo setor privado: <strong>\u201cO n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es particulares d\u00e1 um salto incr\u00edvel. De 670, em 1997, para 764, em 1998. J\u00e1 em 2003, 1.652, no governo Lula, e, em 2006, 2.022. Abre-se a Educa\u00e7\u00e3o como um neg\u00f3cio\u201d,<\/strong> esclareceu o professor.<\/p>\n<p>O palestrante contou a hist\u00f3ria de um criador de gado que se tornou empres\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o. Perguntaram a ele o motivo da mudan\u00e7a e Jo\u00e3o Carlos Di G\u00eanio, hoje dono do col\u00e9gio Objetivo, do curso Objetivo e da Universidade Paulista (Unip), respondeu que um assessor recomendou, pois investir em Educa\u00e7\u00e3o <strong>\u201cdava mais dinheiro que boi\u201d.<\/strong> O capitalista passa a investir em uma f\u00e1brica de \u2018cabe\u00e7as\u2019. O setor cresce muito vendendo certificados, \u201ccom honrosas exce\u00e7\u00f5es\u201d. A concorr\u00eancia vai levar ao monop\u00f3lio. O resultado \u00e9 que, hoje, essas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo compradas pelos grandes grupos internacionais.<\/p>\n<p><strong>As funda\u00e7\u00f5es privadas<\/strong><\/p>\n<p>A partir desse ponto, \u00e9 cobrada a efic\u00e1cia da institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas relacionada ao cumprimento de metas, sem estourar as receitas. Quando se estabelece isso, o debate se vicia. \u201cN\u00e3o se faz uma discuss\u00e3o do conjunto do fundo p\u00fablico e como est\u00e3o sendo gastos os recursos. N\u00e3o se falam dos bilh\u00f5es para o pagamento dos juros da d\u00edvida. N\u00e3o se fala em vincular a verba da Educa\u00e7\u00e3o ao crescimento do PIB. Restrito isso, fica aberto o debate da mercantiliza\u00e7\u00e3o. \u2018As verbas dispon\u00edveis s\u00e3o essas! Querem ampliar al\u00e9m disso, v\u00e3o buscar financiamento\u2019. Surgem as funda\u00e7\u00f5es, esse monstrengo jur\u00eddico. Como n\u00e3o se pode ter investimento privado direto, cria esse monstrengo capacitado para receber verbas e voc\u00ea oferece projetos \u2013 seja atrav\u00e9s das funda\u00e7\u00f5es ou das ag\u00eancias de fomento \u2013 e inicia-se uma corrida pelas verbas, at\u00e9 mesmo para manuten\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios\u201d, disse. .<\/p>\n<p>Isso faz com que sejam introduzidos tr\u00eas elementos de degrada\u00e7\u00e3o na universidade p\u00fablica: cria-se uma concorr\u00eancia entre centros e profissionais para conquista das verbas; o segundo elemento \u00e9 a quebra da universalidade: existe dinheiro para financiar tanque oce\u00e2nico, via Petrobras, \u201cmas no Servi\u00e7o Social voc\u00ea ganha uma caixa de clipes\u201d. O terceiro elemento, considerado o mais perverso pelo professor, \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es de fomento, p\u00fablicas e privadas, <strong>pautam a pesquisa.<\/strong> E, portanto, quebram a autonomia que era defini\u00e7\u00e3o da universidade: <strong>\u201cComo dizia meu pai, quem paga a banda escolhe a m\u00fasica!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os tr\u00eas elementos combinados jogam para o servi\u00e7o p\u00fablico \u2013 ainda que a oferta continue p\u00fablica \u2013 <strong>uma l\u00f3gica de mercantiliza\u00e7\u00e3o.<\/strong> A cobran\u00e7a da efic\u00e1cia da sa\u00fade financeira das universidades implica que a disputa das verbas <strong>se torne um instrumento de grande chantagem<\/strong>, como foi o Reuni: \u201cQuer verbas? Expanda deste jeito, com gradua\u00e7\u00e3o aligeirada\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Um exemplo singular dado pelo palestrante veio da ainda recente Universidade Federal do ABC (criada em 2005): \u201cFoi criada a universidade e o reitor, indicado, pois n\u00e3o tinha nem comunidade. Nesse tempo chega uma proposta das empresas da regi\u00e3o. <strong>O trabalho acad\u00eamico deveria ser pautado pelo grande capital da regi\u00e3o.<\/strong> O reitor, muito gentilmente, recebeu a proposta como um subs\u00eddio, mas lembra que a universidade \u00e9 federal, tem autonomia e quem vai decidir sobre isso s\u00e3o os pesquisadores. Como se resolveu esse impasse? O (Fernando) Haddad (ministro da Educa\u00e7\u00e3o) demitiu esse reitor e indicou outro\u201d, relatou. <\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para Mauro Iasi, a universidade precisa voltar \u00e0s suas voca\u00e7\u00f5es: <strong>\u201cNosso destino n\u00e3o \u00e9 especial em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da sociedade. O que est\u00e1 chegando pra gente \u00e9 uma mensagem do povo l\u00e1 de fora. A universidade precisa entrar nesse debate contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. A universidade se transforma na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d,<\/strong> disse. <strong>\u201cA luta contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta anticapitalista. A luta s\u00f3 tem sentido aqui como trincheira contra mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. Imaginem o ar, que \u00e9 um bem necess\u00e1rio. Imaginem algu\u00e9m se apropriar e s\u00f3 se ter direito a isso pela forma liberal. O ensino n\u00e3o \u00e9 assim tamb\u00e9m?<\/strong>\u201d, comparou.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7o da Praia Vermelha<\/strong> .<\/p>\n<p>O professor conclamou a comunidade acad\u00eamica \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o da Praia Vermelha para impedir os interesses do capitalismo: \u201cJ\u00e1 ouvi dizer que cabem quatro <em>shoppings<\/em> aqui dentro. N\u00f3s temos que utiliz\u00e1-lo (o <em>campus<\/em>). Fa\u00e7o cursos no fim de semana e vejo isso aqui vazio. O que v\u00e3o fazer do Canec\u00e3o? Cultura! O <em>campus<\/em> tinha que ser ocupado pela comunidade para passear. As pessoas v\u00eam jogar bola e t\u00eam que pagar taxa&#8230;\u201d, lamentou. Outra revitaliza\u00e7\u00e3o seria a ocupa\u00e7\u00e3o pelo ensino noturno: \u201cCabem cursos aqui, sim. Brigamos muito no Servi\u00e7o Social para ter o curso noturno. Sobre a revitaliza\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio Universit\u00e1rio, falam em fazer um centro de conven\u00e7\u00f5es. Mas ser\u00e1 aberto aos estudantes, por exemplo?\u201d, questionou.<\/p>\n<p>O problema, refor\u00e7ou o professor, n\u00e3o \u00e9 democratizar o acesso, nem socializar o conhecimento. O problema tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a car\u00eancia de desenvolvimento do capitalismo no Brasil: <strong>\u201cPrecisamos retomar esse protagonismo de pensar o Brasil. Nossa prioridade n\u00e3o \u00e9 preparar essa cidade para a Copa do Mundo e Olimp\u00edadas\u201d<\/strong>, ressaltou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nRio de Janeiro\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1774\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1774","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-sC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1774\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}