{"id":17895,"date":"2017-12-15T12:49:16","date_gmt":"2017-12-15T15:49:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17895"},"modified":"2017-12-15T12:49:16","modified_gmt":"2017-12-15T15:49:16","slug":"luta-de-classes-na-era-do-uber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17895","title":{"rendered":"A luta de classes na era do Uber"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"A luta de classes na era do Uber\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/14162520\/Luta-de-classes-naera-do-Uber.jpg\" alt=\"A luta de classes na era do Uber\" \/><!--more--><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/luta-de-classes-na-era-do-uber\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n<p>Artigo de Marco Antonio Gonsales de Oliveira, Doutor em Administra\u00e7\u00e3o (PUC-SP) e professor da Universidade S\u00e3o Judas Tadeu, Rodrigo Bombonati de Souza Moraes, mestre e doutor em administra\u00e7\u00e3o e professor na Faculdade Drummond e no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo, e Rog\u00e9rio de Souza, publicado por Outras Palavras, 13-12-2017.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a Ford inovou as rela\u00e7\u00f5es de trabalho ao implementar sal\u00e1rios melhores e controle ideol\u00f3gico: um modo de produ\u00e7\u00e3o que combinava a ger\u00eancia racional e cient\u00edfica aliada a um sistema de remunera\u00e7\u00e3o mais agressivo, oferecendo sal\u00e1rios acima da m\u00e9dia e um conjunto de benef\u00edcios at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos do mundo industrial.<\/p>\n<p>Uma das expectativas do fundador era que os pr\u00f3prios trabalhadores pudessem comprar os ve\u00edculos que produziam. Al\u00e9m disso, esses trabalhadores precisavam seguir o perfil desejado pela empresa, o modelo subjetivo proposto por ela. Para tanto, os funcion\u00e1rios da Ford Motor Company deveriam comprovar que seguiam um estilo de vida condizente com a empresa e aprovado por um departamento especializado que examinaria a vida privada dos trabalhadores, impondo valores como fidelidade conjugal, estabilidade familiar e emocional, repulsa ao \u00e1lcool e \u00e0 vida bo\u00eamia, apego \u00e0 religi\u00e3o e ao patriotismo.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, sem desprezar as escolas que lhe antecederam, a Toyota do p\u00f3s-guerra inovou e recuperou a capacidade flex\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o artesanal, regulada pela demanda (just in time), sem perder a capacidade da produ\u00e7\u00e3o em massa, al\u00e9m de promover um novo projeto de engajamento. O paradigma da administra\u00e7\u00e3o toyotista ou flex\u00edvel valeu-se do sentimento de pertencimento a um grupo que parecia ser, no Jap\u00e3o dos anos 1970, ainda mais forte do que a acep\u00e7\u00e3o de individualidade. Para perpetuar tal harmonia nas rela\u00e7\u00f5es entre empresa e trabalhador, principalmente nos pa\u00edses ocidentais, essa pr\u00e1tica sabiamente recorreu \u00e0 escola das Rela\u00e7\u00f5es Humanas e disseminou as ideias da gest\u00e3o participativa, da coopera\u00e7\u00e3o, do consenso, da integra\u00e7\u00e3o e da participa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da ret\u00f3rica da valoriza\u00e7\u00e3o dos grupos informais. Quem fiscaliza o produto e corrobora o seu aperfei\u00e7oamento \u00e9 o pr\u00f3prio trabalhador, transformado em colaborador que faz parte de uma equipe e \u00e9 respons\u00e1vel e responsabilizado diretamente pelos resultados da empresa.<\/p>\n<p>Nesse contexto, foram de suma import\u00e2ncia para o desenvolvimento dos conceitos do toyotismo as escolas da Administra\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica, hegem\u00f4nica no final dos anos 1970, e o seu conceito de core business, e tamb\u00e9m a Administra\u00e7\u00e3o Empreendedora, dominante no final da d\u00e9cada de 1980, que estimulou e profissionalizou uma vasta rede de micro e pequenos neg\u00f3cios, preparando-os para servirem \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma novidade na busca capitalista pelo resultado \u2014 a busca racional pelo lucro, segundo Weber (2004). O fordismo, sob as condi\u00e7\u00f5es de racionaliza\u00e7\u00e3o propiciadas pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, principalmente nos EUA, tornou-se o pioneiro na articula\u00e7\u00e3o entre coer\u00e7\u00e3o capitalista e consentimento da classe trabalhadora. De certo modo, o modelo flex\u00edvel deu continuidade ao processo de racionaliza\u00e7\u00e3o capitalista com os novos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, principalmente por meio da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o, que possibilitaram a reestrutura\u00e7\u00e3o organizacional. Os entusiastas desses modelos flex\u00edveis de gest\u00e3o, como John Naisbitt (1982) e Alvin Toffler (1980), acreditavam que a supera\u00e7\u00e3o do fordismo pelos conceitos do toyotismo nos levaria a uma sociedade mais democr\u00e1tica para al\u00e9m dos muros e das paredes das grandes f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Hoje, no entanto, a realidade daqueles que vivem do trabalho evidencia que tais previs\u00f5es estavam equivocadas e que o que temos \u00e9 uma sociedade mais desigual do que no per\u00edodo fordista, seja nos pa\u00edses centrais ou perif\u00e9ricos, com raras exce\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, o toyotismo, como uma das frentes fundamentais do avan\u00e7o do neoliberalismo, especializou-se em reestruturar e exteriorizar sem perder o foco no objetivo principal da empresa, a partir da coopta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e do gerenciamento de uma vasta rede de terceirizados. Logrou-se atribuir ritmos intensos em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho sem a total consci\u00eancia do trabalhador e de grande parte da rede de terceiros.<br \/>\nA gest\u00e3o uberizada<\/p>\n<p>Depois da gest\u00e3o fordista e toyotista, \u00e9 a vez de a empresa Uber emprestar o seu nome para denominarmos o novo paradigma da gest\u00e3o contempor\u00e2nea: a empresa uberizada.<\/p>\n<p>Nesse novo processo de reestrutura\u00e7\u00e3o organizacional, as empresas inovam a partir de conceitos da economia de plataforma, tamb\u00e9m conhecida como economia compartilhada e economia do bico.<\/p>\n<p>Na realidade, um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o do projeto toyotista de ajuste \u00e0 demanda, exterioriza\u00e7\u00e3o do trabalho e subjetiva\u00e7\u00e3o. Se o modelo japon\u00eas logrou em transformar o trabalhador em colaborador, agora, por meio dos conceitos da economia do compartilhamento, eis que surge o consumidor, colaborador e chefe: uma nova morfologia do trabalho que borra as fronteiras entre consumo e trabalho, entre o que \u00e9 trabalho e o que n\u00e3o \u00e9, entre trabalhador e consumidor, entre o trabalho e o bico (Ab\u00edlio, 2017), entre trabalhador-empreendedor.<\/p>\n<p>Um modelo que se espalha por todo o mundo s\u00e3o as milhares de iniciativas como a TaskRabbit, a Zazcar, a Parkingaki, a Holidog e a famosa Airbnb. Essa \u00faltima, uma empresa que presta servi\u00e7o para pernoite e que nunca construiu um hotel nem mesmo contratou um profissional de turismo, j\u00e1 \u00e9 a maior rede de presta\u00e7\u00e3o desse tipo de servi\u00e7o no mundo. Fundada em 2009, a empresa oferece 1,2 milh\u00e3o de vagas por noite, 500 mil vagas a mais do que a maior rede de hot\u00e9is do mundo, a InterContinental (Slee, 2017). J\u00e1 a norte-americana Taskrabbit, conhecida por oferecer servi\u00e7os r\u00e1pidos dom\u00e9sticos e para escrit\u00f3rios, como montagem de m\u00f3veis, limpeza, pequenas reformas entre outros, n\u00e3o para de aumentar o seu n\u00famero de clientes. No Brasil, a Zazcar tem feito sucesso: mesmo sem nunca ter comprado um autom\u00f3vel, oferece carros de aluguel de pessoas que n\u00e3o est\u00e3o sendo utilizados \u2013 ve\u00edculos on demand, segundo a pr\u00f3pria empresa. A Parkingaki faz o mesmo, n\u00e3o possui estacionamento e tamb\u00e9m n\u00e3o contrata nenhum manobrista, mas oferece, \u201cem um click\u201d, vagas em garagens para loca\u00e7\u00e3o mensal ou de apenas algumas horas. Outra conhecida empresa brasileira presente na economia do compartilhamento \u00e9 a Holidog. A organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de Airbnb para cachorros, onde voc\u00ea pode encontrar pessoas dispostas a receber e hospedar o seu \u201camig\u00e3o\u201d enquanto voc\u00ea viaja.<\/p>\n<p>S\u00e3o empresas que se beneficiam de forma criativa dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, promovidos e guiados pelo capital, \u201cdestroem\u201d mercados tradicionais atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias que consideram apenas a \u00e9tica dos neg\u00f3cios, sem levar em conta as rela\u00e7\u00f5es, inclusive legais, que estabelecem com as comunidades onde est\u00e3o inseridas, sejam com os seus concorrentes, consumidores, fornecedores ou trabalhadores.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito do consumo, os chamarizes das empresas da economia do compartilhamento, como apontou a pesquisa, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o recente, da PWC, realizada em 2015 nos EUA, s\u00e3o: o pre\u00e7o, a efici\u00eancia e sua \u201cpegada\u201d ecol\u00f3gica. Segundo a PWC, 44% dos americanos j\u00e1 estavam familiarizados com o termo da economia do compartilhamento. Destes, 86% confirmaram o menor custo dos servi\u00e7os e produtos oferecidos pelas empresas uberizadas. J\u00e1 83% respaldaram os benef\u00edcios e a efici\u00eancia dos servi\u00e7os prestados, e 76% concordaram que a economia compartilhada \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o \u201cmais ecol\u00f3gica\u201d ante o mercado tradicional. Afinal, para que uma furadeira se o que precisamos s\u00e3o apenas furos? Para que um carro se o que precisamos \u00e9 apenas nos deslocar?<\/p>\n<p>Por outro lado, as empresas uberizadas logram a conquista de cora\u00e7\u00f5es e mentes amargurados da classe trabalhadora, os partners \u2013 desempregados ou empregados precarizados em busca de um complemento para a sua renda ou de um ambiente menos desp\u00f3tico. As empresas da economia do compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do trabalho, em crise, oferece: consumidores em busca de baixo pre\u00e7o e trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o de desespero.<br \/>\nEconomia compartilhada<\/p>\n<p>A economia compartilhada n\u00e3o \u00e9 apenas um modelo organizacional, \u00e9 um conceito e uma ferramenta que pode ser apropriado por qualquer empresa em qualquer setor \u2013 ind\u00fastria ou servi\u00e7o, tradicionais ou digitais. \u00c9 uma plataforma digital que ultrapassa a esfera da comunica\u00e7\u00e3o (sites, blogs, e-mail, mensagens de texto e redes sociais) e da venda (e-commerce) e se insere na contribui\u00e7\u00e3o e na coopera\u00e7\u00e3o da fabrica\u00e7\u00e3o do produto ou da presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Mesmo empresas tradicionais da era digital como a Microsoft oferecem aos seus consumidores ajuda de outros clientes experts que trabalham gratuitamente para a empresa. R\u00e1dios, jornais e TVs solicitam informa\u00e7\u00f5es e not\u00edcias dos seus pr\u00f3prios ouvintes, leitores e telespectadores, como, por exemplo, a revista norte-americana Time. A revista cede espa\u00e7os em seu site para que os clientes colaboradores gratuitamente contribuam com conte\u00fado. Em 2007, a gigante farmac\u00eautica Novartis utilizou o conceito de open innovation, promovido por Henry Chesbrough, da Universidade de Berkeley, para avan\u00e7ar em suas pesquisas sobre a diabetes tipo 2. O laborat\u00f3rio disponibilizou grande parte da sua pesquisa de tr\u00eas anos para dom\u00ednio p\u00fablico e solicitou em contrapartida e gratuitamente o trabalho de cientistas e empresas do mundo todo (Tapscott, Willians, 2010).<\/p>\n<p>Para que contratar profissionais se temos milhares de pessoas dispon\u00edveis para trabalhar gratuitamente ou quase? Essa \u00e9 uma pr\u00e1tica conhecida e j\u00e1 amplamente explorada h\u00e1 d\u00e9cadas pelos bancos e pelas f\u00e1bricas de m\u00f3veis, em que tais empresas transferem parte do trabalho para o cliente, seja por meio do sistema internet banking ou do \u2018monte voc\u00ea mesmo\u2019 o seu mobili\u00e1rio, criado pela empresa de m\u00f3veis sueca Ikea. As tradicionais e conhecidas Natura e Avon, entre tantas outras empresas, nunca contrataram um profissional de vendas, utilizam-se das suas pr\u00f3prias clientes como \u201cconsultoras\u201d (na pr\u00e1tica, simplesmente vendedoras) (Ab\u00edlio, 2017).<\/p>\n<p>Outra antiga do mundo digital, a Amazon, cada vez mais se insere na economia do compartilhamento por meio de empresas como a Flex, um servi\u00e7o de entregas que usa pessoas comuns, e n\u00e3o funcion\u00e1rios treinados, para entregar caixas e pacotes nos EUA. Ela tamb\u00e9m lan\u00e7ou o Home Services, que localiza encanadores, pintores, montadores de m\u00f3veis, entre outros servi\u00e7os. Outro servi\u00e7o na linha da economia do compartilhamento \u00e9 a loja online Handmade at Amazon, em que produtos artesanais e caseiros s\u00e3o ofertados e distribu\u00eddos (Scholz, 2017). A ind\u00fastria n\u00e3o fica atr\u00e1s no processo de reestrutura\u00e7\u00e3o, exterioriza\u00e7\u00e3o e comprometimento dos consumidores. A impressora 3D promete transformar o setor industrial. Assim, al\u00e9m de montarmos os m\u00f3veis em casa, a impressora 3D permitir\u00e1 a finaliza\u00e7\u00e3o de in\u00fameros produtos em nossas pr\u00f3prias resid\u00eancias. Steve Vincent (2011) denominou esse tipo de trabalho de voluntary emotional labour (trabalho volunt\u00e1rio emocional).<br \/>\nCooperativismo de plataforma<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o em rede foram para o toyotismo o que novo consumidor, agora, como parceiro empreendedor, est\u00e1 sendo para as empresas uberizadas: a possibilidade de se reduzir ainda mais o custo da m\u00e3o de obra. As constantes reestrutura\u00e7\u00f5es organizacionais transformam a morfologia do trabalho, e dos seus resultados derivam as principais implica\u00e7\u00f5es para a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida, dada a precariza\u00e7\u00e3o crescente das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. S\u00e3o reestrutura\u00e7\u00f5es que se inserem na pr\u00f3pria din\u00e2mica do capitalismo do s\u00e9culo XXI. Portanto, as novas formas de organizar e de remunerar a for\u00e7a de trabalho fazem com que a regularidade do assalariamento formal e a garantia dos direitos sociais e trabalhistas sejam reduzidas drasticamente (Ab\u00edlio, 2017; Fleming, 2017; Pochmann, 2017) e nos obriguem a indagar: que tempos s\u00e3o esses em que ser explorado e ter um trabalho formal tornou-se um privil\u00e9gio?<\/p>\n<p>Rafael Zanata (2017), Trebor Scholz (2017), Tom Slee (2017), entre outros, entendem que as plataformas de compartilhamento n\u00e3o s\u00e3o novidades, s\u00e3o apenas grandes classificados digitais, em que pessoas que precisam de um bem ou servi\u00e7o encontram os que possam oferec\u00ea-los por interm\u00e9dio de grandes empresas. Portanto, o intermedi\u00e1rio que possibilita esse encontro de troca deveria ser o menos importante nesse elo. Para contrapor essa l\u00f3gica, os autores prop\u00f5em que os\/as pr\u00f3prios\/as trabalhadores e trabalhadoras desenvolvam as suas plataformas, com a ajuda de prefeituras, sindicatos e iniciativas aut\u00f4nomas. J\u00e1 s\u00e3o centenas de trabalhadores e trabalhadoras que desenvolvem o que chamam de cooperativismo de plataforma, valendo-se da autogest\u00e3o e do cooperativismo.<\/p>\n<p>O cooperativismo de plataforma pretende ressignificar os conceitos de inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e efici\u00eancia tendo em vista o benef\u00edcio de todos, e n\u00e3o de poucos propriet\u00e1rios e acionistas. Tal proposta assemelha-se \u00e0 Economia Solid\u00e1ria, desenvolvida no Brasil pelo economista Paul Singer. S\u00e3o plataformas como a de servi\u00e7o de transporte realizado pela Transunion Car Service de Newark, a Bliive, em S\u00e3o Paulo, e a Coopify, de Nova York, na conex\u00e3o entre pessoas da mesma comunidade com o objetivo de trocar compet\u00eancias e conhecimentos, a Cooperative Cleaning, de Nova York, onde as trabalhadoras da limpeza residencial e comercial criaram a sua pr\u00f3pria plataforma, ou mesmo, a La\u2019Zooz, de Tel Aviv, que atua na oferta de caronas dentro da cidade. S\u00e3o diversos exemplos de iniciativas similares pelo mundo como contrapeso aos modelos de neg\u00f3cios da Uber, Airbnb e tantas outras.<\/p>\n<p>Um contrapeso importante, mas n\u00e3o nos iludamos. As cooperativas e as empresas autogestion\u00e1rias, no sistema capitalista, sofrem in\u00fameras desvantagens que n\u00e3o caberia levant\u00e1- las neste momento. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que tamb\u00e9m na economia compartilhada a alternativa pelo cooperativismo ser\u00e1, assim como no mercado tradicional, importante, mas de pequena express\u00e3o. S\u00e3o alternativas \u00e0 heterogest\u00e3o que podem tamb\u00e9m se beneficiar das plataformas de compartilhamento. S\u00e3o importantes \u00e0 resist\u00eancia ao capital, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para que sejam consideradas constitutivas de mudan\u00e7as na estrutura de reprodu\u00e7\u00e3o sociometab\u00f3licas do capital (M\u00e9sz\u00e1ros, 2002).<\/p>\n<p>Destarte, o modelo que se alastra mundo afora \u00e9 o da Uber, pois d\u00e1 sequ\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica da reestrutura\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do sistema capitalista que permite a moment\u00e2nea supera\u00e7\u00e3o das suas crises, propiciando novamente o excedente de capital. No entanto, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho nas organiza\u00e7\u00f5es fordistas, e mesmo nas toyotistas, valorizam, no limite, o trabalhador e a garantia de uma dose de direitos, com destaque para a previd\u00eancia social. O uberismo marca o retorno das condi\u00e7\u00f5es de trabalho semelhantes \u00e0quelas praticadas antes das conquistas da classe trabalhadora. Ou seja, estamos diante da recapitula\u00e7\u00e3o da economia de bico \u2013 um \u201cneg\u00f3cio da China\u201d para os \u201cneopatr\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Ab\u00edlio, L. C. (2017)\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/503\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Uberiza\u00e7\u00e3o traz ao debate a rela\u00e7\u00e3o entre precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e tecnologia. IHU-Online 503<\/a>.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros, I. (2002) Para al\u00e9m do capital: rumo a uma teoria da transi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>Morozov, E. (2015)<a href=\"http:\/\/diplomatique.org.br\/resistir-a-uberizacao-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0Resistir \u00e0 uberiza\u00e7\u00e3o do mundo<\/a>.<\/p>\n<p>Naisbitt, J. (1980) Megatend\u00eancias. As dez grandes transforma\u00e7\u00f5es ocorrendo na sociedade moderna. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 E. Mendon\u00e7a. Amana.<\/p>\n<p>PWC (2015). The sharing economy. Consume Intelligence Series.<\/p>\n<p>Scholz, T. (2017) Cooperativismo de plataforma. Tradu\u00e7\u00e3o: Rafael A. F. Zanatta. Editora Elefante, Autonomia Liter\u00e1ria &amp; Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo.<\/p>\n<p>Slee, T. (2017) Uberiza\u00e7\u00e3o: a nova onda do trabalho precarizado. Tradu\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Peres. Editora Elefante.<\/p>\n<p>Tapscott, D. Willians, A. D. (2010). Macrowikinomics: new solutions for a connected planet.<\/p>\n<p>Toffler, A. (1980) A terceira onda. A morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o T\u00e1vora. Record.<\/p>\n<p>Vincent, S. (2011) The emotional labour process: An essay on the economy of feelings. Human Relations 64(10): 1369\u20131392.<\/p>\n<p>Weber, M. (2004) A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 Marcos Mariani de Macedo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/luta-de-classes-na-era-do-uber\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17895\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[15],"tags":[233],"class_list":["post-17895","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s18-sindical","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4ED","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17895"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17895\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}