{"id":17930,"date":"2017-12-17T07:44:17","date_gmt":"2017-12-17T10:44:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17930"},"modified":"2017-12-17T07:46:33","modified_gmt":"2017-12-17T10:46:33","slug":"radiografia-de-um-agro-devastador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17930","title":{"rendered":"Radiografia de um agro devastador"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/171215-Agrot%C3%B3xicos-485x303.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>Primeiro estudo abrangente sobre uso de agrot\u00f3xicos no Brasil aponta: quem abusa dos venenos s\u00e3o os mega-latif\u00fandios; pesticidas n\u00e3o elevaram produtividade; aumento da produ\u00e7\u00e3o deveu-se \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o florestal<\/em><\/p>\n<p>Por <strong>Luiz Marques<\/strong>*, no <em><a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/atlas-do-envenenamento-alimentar-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal da Unicamp<\/a><\/em><\/p>\n<p>No \u00e2mbito da expans\u00e3o global do capitalismo comercial e industrial desde o s\u00e9culo XVI, tr\u00eas aspectos indissoci\u00e1veis conferem ao Brasil posi\u00e7\u00f5es de indisputada proemin\u00eancia. (1) Somos o pa\u00eds que, durante quase quatro s\u00e9culos, mais indiv\u00edduos escravizou em toda a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o humana. (2) A destrui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o conjuntas das coberturas vegetais do pa\u00eds constituem, em rapidez e em escala, a mais fulminante destrui\u00e7\u00e3o da biosfera cometida por uma na\u00e7\u00e3o ou imp\u00e9rio em toda a hist\u00f3ria da esp\u00e9cie humana. Levamos mais de quatro s\u00e9culos para remover cerca de 1,2 milh\u00e3o de km<sup>2<\/sup> dos 1,3 milh\u00e3o de km<sup>2<\/sup> que compunham originariamente a Mata Atl\u00e2ntica (a destrui\u00e7\u00e3o ganhou escala apenas a partir do s\u00e9culo XIX e ainda continua)[1]. Mas apenas nos \u00faltimos 50 anos mais de 3,3 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup> de cobertura vegetal nativa foram suprimidos ou degradados na Amaz\u00f4nia, no Cerrado e na Caatinga[2], sendo que mais quase 1 milh\u00e3o de km<sup>2<\/sup> podem ser <em>legalmente<\/em>desmatados em todo o Brasil segundo o antigo e o novo C\u00f3digo Florestal[3]. (3) O terceiro aspecto, enfim, diz respeito ao uso de agrot\u00f3xicos. \u201cO Brasil \u00e9 o campe\u00e3o mundial no uso de produtos qu\u00edmicos na agricultura\u201d, afirma Jos\u00e9 Roberto Postali Parra, ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq\/USP) [4]. Nos \u00faltimos dez anos, de fato, o Brasil arrebatou dos EUA a posi\u00e7\u00e3o de maior consumidor mundial de pesticidas[5].<\/p>\n<p>Como bem diz seu nome, um pesticida industrial \u00e9 um composto qu\u00edmico que visa atacar uma \u201cpeste\u201d, termo que designa no jarg\u00e3o produtivista toda esp\u00e9cie que compita com a humana pelos mesmos alimentos ou tenha algum potencial de amea\u00e7a \u00e0 produtividade ou sa\u00fade humana ou de esp\u00e9cies que servem de alimenta\u00e7\u00e3o aos homens. O termo pesticida abrange herbicidas, inseticidas e fungicidas, aplicados os dois \u00faltimos em plantas e em animais. Pesticidas s\u00e3o usados tamb\u00e9m contra p\u00e1ssaros (corbicidas, por exemplo), vermes (nematicidas), mam\u00edferos roedores (rodenticidas), microorganismos, etc. Para entender como e por que o Brasil galgou essa posi\u00e7\u00e3o de maior consumidor desses compostos, dispomos agora de uma refer\u00eancia fundamental. Trata-se de <em>Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia<\/em>, de Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da FFLCH\/USP[6]. Coroando interven\u00e7\u00f5es j\u00e1 dedicadas pela estudiosa ao problema desde 2011[7], esse trabalho de maior f\u00f4lego eleva nosso conhecimento a outro patamar, inclusive por comparar sistematicamente o uso dos pesticidas e as legisla\u00e7\u00f5es vigentes a esse respeito no Brasil e na Uni\u00e3o Europeia. Ele culmina num Atlas do uso de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds, por estado, cultura agr\u00edcola e tipo de pesticida, al\u00e9m de uma distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, et\u00e1ria e \u00e9tnica de suas principais v\u00edtimas diretas. Sobretudo, as an\u00e1lises de Bombardi lan\u00e7am luz sobre os nexos entre o uso crescente de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds e a lideran\u00e7a nacional, pol\u00edtica e econ\u00f4mica, do agroneg\u00f3cio, em fina sintonia com as megacorpora\u00e7\u00f5es agroqu\u00edmicas oligopolizadas que controlam toda a cadeia alimentar: das sementes, agrot\u00f3xicos, fertilizantes e demais insumos \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o nos mercados futuros das <em>commodities<\/em> agr\u00edcolas. Ap\u00f3s as fus\u00f5es ou absor\u00e7\u00f5es ocorridas nos \u00faltimos anos, quase 95% desse mercado global \u00e9 agora comandado por cinco megacorpora\u00e7\u00f5es agroqu\u00edmicas, sendo que apenas tr\u00eas delas controlam 72,6% dele, como mostra a Figura 1<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/img_ART_LM_grafico_001_20171206-485x258.jpg\" alt=\"Figura 1 \u2013 As fus\u00f5es e incorpora\u00e7\u00f5es da Bayer\/Monsanto, ChemChina\/Syngenta e Dow\/DuPont criam um controle quase total por apenas cinco megacorpora\u00e7\u00f5es de todo o ciclo agroqu\u00edmico | Fonte: Bloomberg, citado por Dani Bancroft, \u201cBayer offers Big Buy out for the infamous Monsanto\u201d. 23\/V\/2016\" \/><\/p>\n<p><em>Figura 1 \u2013 As fus\u00f5es e incorpora\u00e7\u00f5es da Bayer\/Monsanto, ChemChina\/Syngenta e Dow\/DuPont criam um controle quase total por apenas cinco megacorpora\u00e7\u00f5es de todo o ciclo agroqu\u00edmico | Fonte: Bloomberg, citado por Dani Bancroft, \u201cBayer offers Big Buy out for the infamous Monsanto\u201d. 23\/V\/2016<\/em><\/p>\n<p><strong>Concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e agroneg\u00f3cio<\/strong><\/p>\n<p>Talvez nenhum outro aspecto expresse com tanta crueza a desigualdade da sociedade brasileira quanto a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade fundi\u00e1ria. Embora os governos do PT exibam alguns resultados sociais muito positivos quando comparados a governos de outras siglas[8], no item propriedade fundi\u00e1ria seu pacto com o agroneg\u00f3cio apenas aprofundou o abismo hist\u00f3rico da desigualdade no pa\u00eds. Os governos do PT n\u00e3o apenas perpetuaram a toler\u00e2ncia \u00e0 grilagem e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da propriedade fundi\u00e1ria, mas acrescentaram a esse quadro de apropria\u00e7\u00e3o violenta da terra a participa\u00e7\u00e3o direta do Estado no agroneg\u00f3cio e a quase inexistente carga tribut\u00e1ria incidente sobre os im\u00f3veis rurais. Em 2015, apenas 0,1% de todos os recursos arrecadados pela Receita Federal veio do Imposto Territorial Rural[9]. Assim, o tra\u00e7o mais saliente das mudan\u00e7as na estrutura da propriedade fundi\u00e1ria na hist\u00f3ria recente do Brasil foi sua r\u00e1pida e extrema concentra\u00e7\u00e3o entre 2003 e 2014, como mostra a Figura 2.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/luiz-figura-2-485x152.jpg\" alt=\"Fig. 2 \u2013 Evolu\u00e7\u00e3o da estrutura fundi\u00e1ria no Brasil entre 2003 e 2014. | Fonte: Incra, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Tabela 1, p. 30\" \/><\/p>\n<p><em>Fig. 2 \u2013 Evolu\u00e7\u00e3o da estrutura fundi\u00e1ria no Brasil entre 2003 e 2014. | Fonte: Incra, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Tabela 1, p. 30<\/em><\/p>\n<p>Em 2003, as 983 propriedades com mais de 10 mil hectares somavam 7% da \u00e1rea dos im\u00f3veis rurais no pa\u00eds. Em 2014, elas passaram a ser 3.057 e acumulavam 28% dessa \u00e1rea. Nesse universo do latif\u00fandio, destaca-se a multiplica\u00e7\u00e3o dos megalatif\u00fandios com mais de 100 mil hectares. Em 2003, eles eram apenas 22 e representavam 2% da \u00e1rea dos im\u00f3veis rurais do pa\u00eds. Em 2014, eles passaram a ser 365 e ocupavam 19% dessa \u00e1rea. No outro extremo da balan\u00e7a, as pequenas propriedades de at\u00e9 10 hectares, que ocupavam 2% dessa \u00e1rea em 2003, representavam em 2014 apenas 1%.<\/p>\n<p>Esse processo de concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria foi uma condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da consolida\u00e7\u00e3o de um novo modelo de economia rural, o agroneg\u00f3cio, adequado \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 convers\u00e3o dos alimentos agr\u00edcolas em <em>soft commodities <\/em>(soja, milho, caf\u00e9, cacau, gado etc), cujo valor \u00e9 negociado na CME (Chicago Mercantile Exchange) e cuja destina\u00e7\u00e3o \u00e9, sobretudo, a China e, em segundo lugar, a Europa e os EUA. Como bem mostra Bombardi, o crescimento do agroneg\u00f3cio brasileiro apoia-se mais na expans\u00e3o da \u00e1rea cultivada, frequentemente em detrimento das florestas, que em ganhos de produtividade e no manejo sustent\u00e1vel do solo e no respeito \u00e0 biodiversidade, como mostra a Figura 3, que compara \u00e1rea, produto e produtividade (kg\/ha) no cultivo da soja.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/luiz-figura-3-485x313.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Fig. 3 \u2013 Compara\u00e7\u00e3o entre \u00e1rea (mil ha), produtividade (Kg\/ha) e produto (em mil toneladas) da soja entre as safras de 2002\/2003 e de 2015\/2016 | Fonte: Companhia Nacional de Abastecimento, 2016, citado por por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Gr\u00e1fico 2, p. 25.<\/em><\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a \u00e1rea de cultivo da soja aumentou de 18,5 milh\u00f5es de hectares em 2002\/2003 para 33 milh\u00f5es em 2015\/2016, um salto de 79% em 13 anos para um aumento equivalente de 84% da produ\u00e7\u00e3o de soja no mesmo per\u00edodo, com incremento quase irrelevante da produtividade. Para o agroneg\u00f3cio \u00e9 mais barato avan\u00e7ar sobre a floresta, processo que pode inclusive gerar lucro pela venda da madeira, que investir numa cultura de longo prazo. Seu lema \u00e9 considerar a devasta\u00e7\u00e3o ambiental como uma externalidade e aniquilar tudo o que ameace a m\u00e1xima rentabiliza\u00e7\u00e3o imediata de sua mercadoria.<\/p>\n<p><strong>\u201cA monocultura causa desequil\u00edbrios\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de desmatamento, esse modelo monocultor e destrutivo de agricultura \u201ccausa desequil\u00edbrios\u201d, como reitera Jos\u00e9 Roberto Postali Parra, da Esalq\/USP[10]. Para o agroneg\u00f3cio, esses desequil\u00edbrios t\u00eam uma solu\u00e7\u00e3o simples: a supress\u00e3o ou tentativa de supress\u00e3o das esp\u00e9cies animais e vegetais (as esp\u00e9cies insensatamente chamadas \u201cdaninhas\u201d) por meio do uso intensivo de agrot\u00f3xicos. Detentora dos pr\u00eamios Miss Desmatamento e Motosserra de Ouro, al\u00e9m de presidente da Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA) e ministra da Agricultura durante o governo de Dilma Rousseff, K\u00e1tia Abreu definiu com rara felicidade o ideal da classe que ela representa: \u201cQuanto mais defensivos melhor, porque a tend\u00eancia \u00e9 os pre\u00e7os ca\u00edrem em fun\u00e7\u00e3o do aumento da oferta\u201d[11]. A Figura 4, abaixo, mostra os saltos sucessivos no uso de agrot\u00f3xicos a partir de 2006, de resto a taxas muito superiores \u00e0s do aumento da \u00e1rea cultivada e do produto. Observe-se que entre 2002 e 2014, o consumo de agrot\u00f3xicos, medido por peso do ingrediente ativo, aumentou cerca de 340%, de cerca de 150 mil toneladas para mais de 500 mil toneladas de ingrediente ativo, uma taxa muito maior que os 84% de aumento do produto entre 2002\/2003 e 2015\/2016, no caso acima ilustrado da soja (de 52 para 97 milh\u00f5es de toneladas nesse per\u00edodo).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"303\" width=\"485\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/luiz-figura-4-485x303.jpg?resize=485%2C303\" alt=\"Fig. 4 \u2013 Consumo de agrot\u00f3xicos no Brasil em toneladas do ingrediente ativo, 2000 - 2014 | Fonte: Ibama, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Gr\u00e1fico 10, p. 33\" \/><\/p>\n<p><em>Fig. 4 \u2013 Consumo de agrot\u00f3xicos no Brasil em toneladas do ingrediente ativo, 2000 \u2013 2014 | Fonte: Ibama, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Gr\u00e1fico 10, p. 33<\/em><\/p>\n<p>O Brasil participa com apenas 4% do com\u00e9rcio mundial do agroneg\u00f3cio[12], mas consome hoje cerca de 20% de todo agrot\u00f3xico comercializado no mundo todo. Mais importantes, entretanto, que esse desbalan\u00e7o s\u00e3o:<\/p>\n<p>(1) a nocividade, constatada ou potencial, para a sa\u00fade humana e para o meio ambiente dos ingredientes ativos utilizados;<\/p>\n<p>(2) o uso de ingredientes proibidos no exterior;<\/p>\n<p>(3) o Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) permitido pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira para cada um desses ingredientes nas amostras de alimentos e de \u00e1gua. Como se ver\u00e1 abaixo, esses limites s\u00e3o muito superiores aos permitidos pela legisla\u00e7\u00e3o europeia, a qual \u00e9, de resto, frequentemente acusada de ceder \u00e0s press\u00f5es das megacorpora\u00e7\u00f5es da agroqu\u00edmica;<\/p>\n<p>(4) o uso corrente de ingredientes proibidos no Brasil;<\/p>\n<p>(5) as doses excessivas utilizadas;<\/p>\n<p>(6) os res\u00edduos desses compostos encontrados pela Anvisa nos alimentos, que, via de regra, excedem os limites estabelecidos pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Exemplos dos problemas aqui elencados nos itens 4 a 6 abundam na imprensa e nos estudos cient\u00edficos. A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) \u201caponta que quase 30% dos principais alimentos da cesta brasileira apresentaram irregularidades no uso de defensivos agr\u00edcolas\u201d[13]. No ano passado, a revista <em>Exame <\/em>noticiou que a Anvisa \u201cencontrou n\u00edveis elevados de res\u00edduos agrot\u00f3xicos em um ter\u00e7o das frutas, vegetais e hortali\u00e7as analisadas entre 2011 e 2012. Pior, um a cada tr\u00eas exemplares avaliados apresenta ingredientes ativos n\u00e3o autorizados, entre eles dois agrot\u00f3xicos que nunca foram registrados no Brasil: o azaconazol e o tebufempirade[14] \u201d. Segundo a j\u00e1 citada reportagem da CBN, \u201cem S\u00e3o Paulo, por exemplo, desde 2002, nenhuma multa por irregularidades foi aplicada, nem mesmo em casos de repetidas reincid\u00eancias\u201d. Baseando-se em pesquisas de Karen Friedrich, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco) e da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marina Rossi afirma: \u201cSegundo o Dossi\u00ea Abrasco (\u2026), 70% dos alimentos<em> in natura<\/em> consumidos no pa\u00eds est\u00e3o contaminados por agrot\u00f3xicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% cont\u00eam subst\u00e2ncias n\u00e3o autorizadas. Isso sem contar os alimentos processados, que s\u00e3o feitos a partir de gr\u00e3os geneticamente modificados e cheios dessas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas (\u2026). Mais da metade dos agrot\u00f3xicos usados no Brasil hoje s\u00e3o banidos em pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia e nos Estados Unidos\u201d[15].<\/p>\n<p>Sobre a nocividade dos ingredientes utilizados, muitos deles j\u00e1 proibidos no exterior, e sobre as brutais discrep\u00e2ncias entre as legisla\u00e7\u00f5es europeia e brasileira no tocante ao Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) permitido de cada um desses ingredientes nas amostras de alimentos e de \u00e1gua (os itens 1 a 3, acima), os dados s\u00e3o igualmente estarrecedores. Em 6 de abril de 2015, o Instituto Nacional do C\u00e2ncer Jos\u00e9 Alencar Gomes da Silva (INCA), \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, divulgou um documento em que afirma: \u201cDentre os efeitos associados \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica a ingredientes ativos de agrot\u00f3xicos podem ser citados infertilidade, impot\u00eancia, abortos, malforma\u00e7\u00f5es, neurotoxicidade, desregula\u00e7\u00e3o hormonal, efeitos sobre o sistema imunol\u00f3gico e c\u00e2ncer. (\u2026) Vale ressaltar que a presen\u00e7a de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos n\u00e3o ocorre apenas em alimentos <em>in natura<\/em>, mas tamb\u00e9m em muitos produtos aliment\u00edcios processados pela ind\u00fastria, como biscoitos, salgadinhos, p\u00e3es, cereais matinais, lasanhas, pizzas e outros que t\u00eam como ingredientes o trigo, o milho e a soja, por exemplo. Ainda podem estar presentes nas carnes e leites de animais que se alimentam de ra\u00e7\u00e3o com tra\u00e7os de agrot\u00f3xicos, devido ao processo de bioacumula\u00e7\u00e3o\u201d[16].<\/p>\n<p>O aumento da variedade dos ingredientes ativos impulsionado pelas pesquisas agroqu\u00edmicas \u00e9 impressionante. Segundo a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos EUA (EPA), havia em 2007 \u201cmais de 1055 ingredientes ativos registrados como pesticidas, formulados em milhares de produtos dispon\u00edveis no mercado\u201d[17]. A Figura 5, abaixo, elenca os 10 ingredientes ativos mais utilizados na agricultura brasileira.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"298\" width=\"485\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/luiz-figura-5-485x298.jpg?resize=485%2C298\" alt=\"Fig. 5 \u2013 Os 10 ingredientes ativos mais vendidos no Brasil em 2014, em ordem decrescente | Fonte: Ibama, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Gr\u00e1fico 10, p. 35\" \/><\/p>\n<p><em>Fig. 5 \u2013 Os 10 ingredientes ativos mais vendidos no Brasil em 2014, em ordem decrescente | Fonte: Ibama, citado por Larissa Mies Bombardi, Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. FFLCH \u2013 USP, Novembro, 2017, Gr\u00e1fico 10, p. 35<\/em><\/p>\n<p><strong>Perturbadores end\u00f3crinos, carcinog\u00eanicos, mutag\u00eanicos, teratog\u00eanicos<\/strong><\/p>\n<p>Por motivos de espa\u00e7o, reportamos abaixo a toxicidade de apenas cinco desses compostos para os humanos, n\u00e3o humanos e para o meio ambiente, bem como o Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) permitido no produto e na \u00e1gua segundo a legisla\u00e7\u00e3o europeia e a brasileira[18]:<\/p>\n<p>1\u00ba \u2013 Glifosato (glicina + fosfato). As sementes geneticamente modificadas, chamadas <em>Roundup Ready<\/em> (RR), da Monsanto, s\u00e3o capazes de resistir ao herbicida <em>Roundup<\/em>, o mais vendido no Brasil e no mundo, produzido \u00e0 base de glifosato. Trata-se de um herbicida sist\u00eamico, isto \u00e9, desenhado para matar quaisquer plantas, exceto as geneticamente modificadas para resistir a ele. Seu uso tem sido associado a maior incid\u00eancia de c\u00e2ncer, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da progesterona em c\u00e9lulas de mam\u00edferos, a abortos e a altera\u00e7\u00f5es teratog\u00eanicas por via placent\u00e1ria. Em 15 de mar\u00e7o de 2015, o Centro Internacional de Pesquisas sobre o C\u00e2ncer (IARC) considerou que havia \u201cevid\u00eancia suficiente\u201d de que o composto causava c\u00e2ncer em animais e \u201cevid\u00eancia limitada\u201d de que o causava em humanos, classificando assim o glifosato no Grupo 2A, isto \u00e9, como cancer\u00edgeno \u201cprov\u00e1vel no homem\u201d (ao lado de quatro outros pesticidas)[19]. O Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) de glifosato permitido na soja na UE \u00e9 de 0,05 mg\/kg, no Brasil \u00e9 de 10 mg\/kg, portanto um limite 200 vezes maior.<\/p>\n<p>2\u00ba \u2013 2,4-D (\u00e1cido diclorofen\u00f3xiac\u00e9tico). Mais de 1.500 herbicidas cont\u00eam esse ingrediente ativo. A OMS coloca-o no grupo II, isto \u00e9, \u201cmoderadamente t\u00f3xico\u201d (moderately hazardous) e o IARC afirma: \u201co herbicida 2,4-D foi classificado como possivelmente carcinog\u00eanico para humanos (Grupo 2B). (\u2026) H\u00e1 forte evid\u00eancia de que 2,4-D induz estresse oxidativo, um mecanismo que pode ocorrer em humanos, e evid\u00eancia moderada de que 2,4-D causa imunossupress\u00e3o, a partir de estudos <em>in vivo <\/em>e <em>in vitro<\/em>\u201d[20]. Para o National Resource Defense Council (NRDC), h\u00e1 provas conclusivas de que o 2,4-D \u00e9 um perturbador end\u00f3crino, isto \u00e9, um composto que interfere no funcionamento normal do sistema hormonal dos organismos: \u201cEstudos em laborat\u00f3rio sugerem que o 2,4-D pode impedir a a\u00e7\u00e3o normal de horm\u00f4nios estr\u00f3genos, andr\u00f3genos e, mais conclusivamente, da tireoide[21]. Dezenas de estudos epidemiol\u00f3gicos, animais e de laborat\u00f3rio mostraram uma associa\u00e7\u00e3o entre 2,4-D[22] e perturba\u00e7\u00f5es da tireoide\u201d. Luiz Leonardo Foloni (FEAGRI\/Unicamp) assegura numa entrevista a irrestrita aceita\u00e7\u00e3o internacional do 2,4-D. Na realidade, esse composto foi banido no estado de Ont\u00e1rio, no Canad\u00e1, em 2009, na Austr\u00e1lia em 2013 e no Vietn\u00e3 em 2017[23]. E h\u00e1 reiteradas demandas de proibi\u00e7\u00e3o do 2,4-D nos EUA, n\u00e3o atendidas pelas autoridades desse pa\u00eds[24]. O Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) de 2,4-D permitido na \u00e1gua pot\u00e1vel na UE \u00e9 de 0,1 \u03bcg (micrograma = 1\/1000 miligrama), no Brasil \u00e9 de 30 \u03bcg, portanto um limite 300 vezes maior.<\/p>\n<p>3\u00ba \u2013 Acefato. Pertencente \u00e0 classe dos organofosforados, o acefato \u00e9 o inseticida mais usado no Brasil[25]. A OMS coloca-o no grupo II, isto \u00e9, \u201cmoderadamente t\u00f3xico\u201d (moderately hazardous). O Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) de acefato permitido na \u00e1gua pot\u00e1vel na UE \u00e9 de 0,1 \u03bcg (micrograma = 1\/1000 miligrama); no Brasil, ele n\u00e3o tem limite estabelecido.<\/p>\n<p>5\u00ba \u2013 Clorpirif\u00f3s. Inseticida da classe dos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Organofosforados\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">organofosforados<\/a>, que altera o funcionamento de neurotransmissores (acetilcolina) no sistema nervoso central. Em 2009, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) classifica o clorpirif\u00f3s como \u201cmoderadamente t\u00f3xico\u201d (II \u2013 Moderately hazardous). Mas em 2012, esse produto foi associado a potenciais riscos ao desenvolvimento neurol\u00f3gico e o editorial da revista <em>Environmental Health Perspectives<\/em>, de 25 de abril de 2012, intitulado \u201cA Research Strategy to Discover the Environmental Causes of Autism and Neurodevelopmental Disabilities\u201d[26], afirma que: \u201cEstudos prospectivos (\u2026) associaram comportamentos autistas a exposi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-natais a inseticidas organofosforados clorpirif\u00f3s\u201d. J\u00e1 em 2001, seu uso dom\u00e9stico fora banido dos EUA e ao final da administra\u00e7\u00e3o Obama, a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental desse pa\u00eds (EPA) recomendou seu banimento total, recomenda\u00e7\u00e3o anulada por Donald Trump, benefici\u00e1rio durante a campanha eleitoral de doa\u00e7\u00f5es da Dow Chemical, produtora desse composto[27]. Na Uni\u00e3o Europeia (UE), a avalia\u00e7\u00e3o da toxicidade do cloropirif\u00f3s est\u00e1 em curso de revis\u00e3o. O Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) de clorpirif\u00f3s permitido na \u00e1gua pot\u00e1vel na UE \u00e9 de 0,1 \u03bcg (micrograma = 1\/1000 miligrama), no Brasil \u00e9 de 30 \u03bcg, portanto um limite 300 vezes maior.<\/p>\n<p>7\u00ba \u2013 Atrazina. Produzido pela Syngenta, a atrazina \u00e9 um herbicida que afeta a fotoss\u00edntese e atua em sinergia com outros herbicidas. Tyrone B. Hayes, da Universidade de Berkeley, e colegas mostraram que esse composto pode mudar o sexo da r\u00e3-de-unha africana (<em>Xenopus laevis<\/em>) e que \u201ca atrazina e outros pesticidas perturbadores end\u00f3crinos s\u00e3o prov\u00e1veis fatores em a\u00e7\u00e3o nos decl\u00ednios globais dos anf\u00edbios\u201d[28]. Em 2015, Andrea Vogel e colegas mostraram que a atrazina \u00e9 um perturbador end\u00f3crino em invertebrados[29]. A It\u00e1lia e a Alemanha baniram a atrazina em 1991, e em 2004 a atrazina foi proibida em toda a UE[30]. O Limite M\u00e1ximo de Res\u00edduos (LMR) de atrazina permitido na \u00e1gua pot\u00e1vel na UE \u00e9 de 0,1 \u03bcg (micrograma = 1\/1000 miligrama), no Brasil \u00e9 de 2 \u03bcg, portanto um limite 20 vezes maior.<\/p>\n<p><strong>A guerra qu\u00edmica insensata e de antem\u00e3o perdida contra a natureza<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos 55 anos, desde o c\u00e9lebre livro de Rachel Carson, <em>Primavera Silenciosa <\/em>(1962), sabemos que os pesticidas industriais lan\u00e7aram a esp\u00e9cie humana numa guerra biocida, suicida e de antem\u00e3o perdida. A ideia mesma de um pesticida sint\u00e9tico usado sistematicamente contra outras esp\u00e9cies no fito de aniquil\u00e1-las d\u00e1 prova cabal da insanidade da agricultura industrial: envenenam-se nossos alimentos para matar outras esp\u00e9cies ou impedi-las de com\u00ea-los. As doses do veneno, pequenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 massa corp\u00f3rea humana, n\u00e3o nos matam. Mas, ao atirarem numa esp\u00e9cie com uma metralhadora girat\u00f3ria, os pesticidas provocam \u201cdanos colaterais\u201d: matam ou debilitam esp\u00e9cies n\u00e3o visadas, provocando desequil\u00edbrios sist\u00eamicos que promovem sele\u00e7\u00f5es artificiais capazes de refor\u00e7ar a toler\u00e2ncia das esp\u00e9cies visadas, ou a invas\u00e3o de esp\u00e9cies oportunistas, por vezes t\u00e3o ou mais amea\u00e7adoras para as planta\u00e7\u00f5es e para os homens que as esp\u00e9cies visadas pelos pesticidas. Al\u00e9m disso, a m\u00e9dio e longo prazo os pesticidas intoxicam e adoecem o pr\u00f3prio homem, tanto mais porque somos obrigados a aumentar as doses dos pesticidas e a combin\u00e1-los com outros em coquet\u00e9is cada vez mais t\u00f3xicos, \u00e0 medida que as esp\u00e9cies visadas se tornam tolerantes \u00e0 dose ou ao princ\u00edpio ativo anterior. Uma suma de pesquisas cient\u00edficas[31] mostra o car\u00e1ter contraproducente dos agrot\u00f3xicos, seja do ponto de vista de seus efeitos sobre outras esp\u00e9cies \u2013 por exemplo, as abelhas e demais polinizadores \u2013, seja do ponto de vista da sa\u00fade humana e de outras esp\u00e9cies n\u00e3o visadas, seja ainda da pr\u00f3pria produtividade agr\u00edcola. Citemos apenas tr\u00eas desses estudos. Um documento da FAO de 2003 mostra que o uso crescente de pesticidas desde os anos 1960 n\u00e3o aumenta, mas, ao contr\u00e1rio, diminui relativamente as colheitas, sendo que as perdas de safra por causa de pestes eram em 1998 j\u00e1 da ordem de 25% a 50%, dependendo da cultura. O documento assim comenta esse fato: \u201c\u00c9 perturbador que ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas ou quatro dec\u00eanios, as perdas de colheitas em todas as maiores culturas aumentaram em termos relativos. (\u2026) <em>\u00c9 interessante notar que o aumento das perdas de colheitas \u00e9 acompanhado por um crescimento na taxa de uso de pesticidas<\/em>\u201d[32] (grifo nosso). Em 2013, um artigo publicado na revista <em>Proceedings of the National Academy of Sciences<\/em> refere-se ao mortic\u00ednio de diversas esp\u00e9cies causado por pesticidas, mesmo utilizados em concentra\u00e7\u00f5es consideradas seguras pela legisla\u00e7\u00e3o europeia: \u201cPesticidas causam efeitos estatisticamente significantes em esp\u00e9cies em ambas as regi\u00f5es [Europa e Austr\u00e1lia], com perdas de at\u00e9 42% nas popula\u00e7\u00f5es taxon\u00f4micas registradas. Al\u00e9m disso, os efeitos na Europa foram detectados em concentra\u00e7\u00f5es que a atual legisla\u00e7\u00e3o considera ambientalmente protetiva. Portanto, a atual avalia\u00e7\u00e3o de risco ecol\u00f3gico de pesticidas falha em proteger a biodiversidade, tornando necess\u00e1rias novas abordagens envolvendo ecologia e ecotoxicologia\u201d[33]. Enfim, em 2014, um grupo internacional de trabalho de quatro anos sobre os pesticidas sist\u00eamicos, o Task Force on Systemic Pesticides (TFSP), reunindo 29 pesquisadores, declara em seus resultados que os pesticidas sist\u00eamicos (os neonicotinoides, por exemplo) constituem uma inequ\u00edvoca e crescente amea\u00e7a tanto \u00e0 agricultura quanto aos ecossistemas. Jean-Marc Bonmatin, um pesquisador do CNRS franc\u00eas, pertencente a esse grupo de trabalho, assim resumiu esses resultados: \u201cA evid\u00eancia \u00e9 clara. Estamos testemunhando uma amea\u00e7a \u00e0 produtividade de nosso ambiente natural e agr\u00edcola, uma amea\u00e7a equivalente \u00e0 dos organofosfatados ou DDT [denunciados em 1962 por Rachel Carson]. Longe de proteger a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o uso de inseticidas neonicotinoides est\u00e1 amea\u00e7ando a pr\u00f3pria infraestrutura que permite essa produ\u00e7\u00e3o\u201d[34].<\/p>\n<p><strong>Pesticidas, o outro lado da moeda das armas qu\u00edmicas de destrui\u00e7\u00e3o em massa<\/strong><\/p>\n<p>Entre os pesticidas industriais e as guerras qu\u00edmicas h\u00e1 uma \u00edntima intera\u00e7\u00e3o, passada e presente. Ambos imp\u00f5em-se como um fato absolutamente novo na hist\u00f3ria da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente pelo homem e de sua autointoxica\u00e7\u00e3o. Os inseticidas organoclorados e organofosforados, e os herbicidas baseados em horm\u00f4nios sint\u00e9ticos nascem nos anos 1920-1940 como resultado das pesquisas sobre armas qu\u00edmicas usadas durante a I Grande Guerra pelos dois campos beligerantes. Essa intera\u00e7\u00e3o continua no per\u00edodo entre-guerras, em especial na Alemanha, ent\u00e3o em busca de recuperar sua supremacia na ind\u00fastria qu\u00edmica. Em seu quadro de cientistas, a Degesh (Deutsche Gesellschaft f\u00fcr Sch\u00e4dlingsbek\u00e4mpfung<em> \u2013 <\/em>Sociedade Alem\u00e3 para o Controle de Pragas), criada em 1919, contava qu\u00edmicos como Fritz Haber (Pr\u00eamio Nobel) e Ferdinand Flury, que desenvolveu em 1920 o Zyklon A, um pesticida \u00e0 base de cianureto, precedente imediato de outro inseticida, o Zyklon B, patenteado em 1926 por Walter Heerdt eusado sucessivamente nas c\u00e2maras de g\u00e1s dos campos de exterm\u00ednio de Auschwitz-Birkenau e Majdanek. Outro exemplo \u00e9 o da IG Farben, de cujo desmembramento ap\u00f3s 1945 resultou a Agfa, a BASF, a Hoechst e a Bayer. Para esse conglomerado industrial alem\u00e3o, trabalhavam qu\u00edmicos como Gerhard Schrader (1903-1990), funcion\u00e1rio da Bayer e respons\u00e1vel pela descoberta e viabiliza\u00e7\u00e3o industrial dos compostos de organofosforados que agem sobre o sistema nervoso central. De tais compostos derivam pesticidas como o bladan e o parathion (E 605) e armas qu\u00edmicas como o Tabun (1936), o Sarin (1938), o Soman (1944) e o Cyclosarin (1949), as tr\u00eas primeiras desenvolvidas, ainda que n\u00e3o usadas, pelo ex\u00e9rcito alem\u00e3o na II Grande Guerra. Ap\u00f3s a guerra, Schrader foi por dois anos mantido prisioneiro dos Aliados, que o obrigaram a comunicar-lhes os resultados de suas pesquisas sobre \u00e9steres de fosfato org\u00e2nicos, em seguida desenvolvidos na fabrica\u00e7\u00e3o de novos pesticidas.<\/p>\n<p>Essa intera\u00e7\u00e3o entre pesticidas e armas qu\u00edmicas, hoje melhor denominadas qu\u00edmico-gen\u00e9ticas, continua em nossos dias. O Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa), do Pent\u00e1gono, est\u00e1 investindo US$ 100 milh\u00f5es em projetos, potencialmente catastr\u00f3ficos, de \u201cextin\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u201d de esp\u00e9cies consideradas nocivas ao homem, sem esconder, contudo, seu interesse em poss\u00edveis desdobramentos militares dessas pesquisas[35]. Um especialista da Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica (CBD) da ONU declarou ao <em>The Guardian<\/em>: \u201cPode-se ser capaz de erradicar um v\u00edrus ou a inteira popula\u00e7\u00e3o de um mosquito, mas isso pode ter efeitos ecol\u00f3gicos em cascata\u201d. O potencial militar das pesquisas em edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica (o chamado \u201cgene drive\u201d) manifesta-se j\u00e1 no fato de que seu principal patrocinador \u00e9 o Pent\u00e1gono. Entre 2008 e 2014, o governo dos EUA investiu US$ 820 milh\u00f5es em biologia sint\u00e9tica, sendo que desde 2012 a maior parte desse investimento veio do Darpa e de outras ag\u00eancias militares. Referindo-se ao risco de que armas baseadas em tecnologias qu\u00edmico-gen\u00e9ticas sejam usadas por \u201c<em>hostile or rogue actors<\/em>\u201d, um porta-voz do Darpa afirmou que essas pesquisas s\u00e3o de \u201ccr\u00edtica import\u00e2ncia para permitir ao Departamento de Defesa defender seu pessoal e preservar sua prontid\u00e3o militar. (\u2026.) \u00c9 de responsabilidade do Darpa desenvolver tais pesquisas e tecnologias que podem proteger contra seu mau-uso, acidental ou intencional\u201d. \u00c9 preciso uma boa dose de amn\u00e9sia para n\u00e3o perceber nessa intera\u00e7\u00e3o \u201cdefensiva\u201d entre o Pent\u00e1gono e a pesquisa qu\u00edmico-gen\u00e9tica de aniquila\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica um <em>revival<\/em> das intera\u00e7\u00f5es entre \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d e a guerra qu\u00edmica e de exterm\u00ednio humano, durante e ap\u00f3s a I Grande Guerra [36].<\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p>*<strong>Luiz Marques <\/strong>\u00e9 professor livre-docente do Departamento de Hist\u00f3ria do IFCH \/Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, <em>Vida de Michelangelo <\/em>(1568), 2011 e <em>Capitalismo e Colapso ambiental<\/em>, 2015, 2<sup>a<\/sup>edi\u00e7\u00e3o, 2016. Coordena a cole\u00e7\u00e3o Palavra da Arte, dedicada \u00e0s fontes da historiografia art\u00edstica, e participa com outros colegas do coletivo <em>Cris\u00e1lida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate &amp; Atualiza\u00e7\u00e3o <\/em>(<a href=\"http:\/\/crisalida.eco.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">crisalida.eco.br<\/a>).<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Segundo o Instituto Brasileiro de Florestas, a \u00e1rea original da Mata Atl\u00e2ntica era originalmente 1.315.460 km\u00b2, 15% do territ\u00f3rio brasileiro. Atualmente o remanescente \u00e9 102.012 km\u00b2, 7,91% da \u00e1rea original. Entre 1985 e 2013, a Mata Atl\u00e2ntica perdeu mais 18.509 km<sup>2<\/sup>. \u201cA cada 2 dias, um Ibirapuera de Mata Atl\u00e2ntica desaparece\u201d. <a href=\"https:\/\/www.sosma.org.br\/17811\/divulgados-novos-dados-sobre-o-desmatamento-da-mata-atlantica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cf. SOS Mata Atl\u00e2ntica. \u201cDivulgados novos dados sobre o desmatamento da Mata Atl\u00e2ntica\u201d, 27\/V\/2014<\/a>.<\/p>\n<p>[2] Na Amaz\u00f4nia brasileira, a \u00e1rea de corte raso da floresta (1970-2017) chega a 790 mil km<sup>2<\/sup>, sendo 421.775 km<sup>2<\/sup> de corte raso no acumulado de 1988-2016 (INPE). Mas \u201ca \u00e1rea de corte raso e a de degrada\u00e7\u00e3o representam juntas cerca de dois milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, ou seja 40% da floresta amaz\u00f4nica brasileira\u201d (dados de 2013). Cf. A. D. Nobre, \u201cIl faut un effort de guerre pour reboiser l\u2019Amazonie\u201d. <em>Le Monde<\/em>, 24\/XI\/2014. No Cerrado, um bioma de cerca de 2 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, a devasta\u00e7\u00e3o em 35 anos [1980-2015] foi da ordem de 1 milh\u00e3o de km<sup>2<\/sup>. \u201cEntre 2002 e 2011, as taxas de desmatamento nesse bioma (1% ao ano) foram 2,5 vezes maior que na Amaz\u00f4nia. (\u2026) Mantidas as tend\u00eancias atuais, 31% a 34% da \u00e1rea restante da cobertura vegetal do Cerrado deve ser suprimida at\u00e9 2050 (\u2026), levando \u00e0 extin\u00e7\u00e3o ~480 esp\u00e9cies de plantas end\u00eamicas \u2013 tr\u00eas vezes mais que todas as extin\u00e7\u00f5es documentadas desde 1500\u201d. Cf. Bernardo B.N. Strassburg <em>et al.<\/em>, \u201cMoment of truth for the Cerrado hotspot\u201d. <em>Nature Ecology &amp; Evolution,<\/em> 23\/III\/2017. Segundo o INPE, a Caatinga j\u00e1 perdeu cerca de 45% dos 734.478 km\u00b2 originais de sua vegeta\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>[3] Mais precisamente, 957 mil km<sup>2<\/sup>, segundo <a href=\"http:\/\/www.observatorioflorestal.org.br\/noticia\/passivo-florestal-e-de-quase-um-parana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gerd Sparovek (Esalq\/USP), <\/a>Observat\u00f3rio do C\u00f3digo Florestal . Para Britaldo Soares Filho e colegas, \u201ctanto o antigo quanto o novo C\u00f3digo Florestal permitem um desmatamento legal de ainda mais 88 (+\/-6) milh\u00f5es de hectares [880 mil km<sup>2<\/sup>] em propriedades privadas. Essa \u00e1rea de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, ao abrigo das exig\u00eancias de Reserva Legal e Entornos de Cursos de \u00c1gua, constituem um \u2018excedente ambiental\u2019 (<em>\u201cenvironmental surplus<\/em>) com potencial de emiss\u00e3o de 18 Gt de CO2-eq\u201d. Cf. Britaldo Soares-Filho <em>et al.<\/em>, <em>\u201cCracking Brazil\u2019s Forest Code\u201d. <\/em><em>Science, 344, 6182,<\/em> 25\/IV2014, pp. 363-364<em>.<\/em><\/p>\n<p>[4] Entrevista concedida a Marcos Pivetta e Marcos de Oliveira, \u201cAgricultor de insetos\u201d. <em>Pesquisa Fapesp<\/em>, 18, 261, novembro de 2017, pp. 32-37.<\/p>\n<p>[5] Cf. Michelle Moreira, \u201cBrasil \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do mundo\u201d. <em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>, 3\/XII\/2015; Fl\u00e1via Milhorance, \u201cBrasil lidera o ranking de consumo de agrot\u00f3xicos\u201d. <em>O Globo<\/em>, 8\/IV\/2015.<\/p>\n<p>[6] Cf. Larissa Mies Bombardi, <em>Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia<\/em>, Laborat\u00f3rio de Geografia Agr\u00e1ria, FFLCH\/USP, Novembro, 2017, 296 p.<\/p>\n<p>[7] Para a bibliografia anterior de Bombardi, veja-se &lt;<a href=\"https:\/\/www.larissabombardi.blog.br\/blog-geo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.larissabombardi.blog.br\/blog-geo<\/a>&gt;, em particular, \u201cIntoxica\u00e7\u00e3o e morte por agrot\u00f3xicos no Brasil: a nova vers\u00e3o do capitalismo oligopolizado\u201d. <em>Boletim Dataluta<\/em>, setembro de 2011 (em rede).<\/p>\n<p>[8] Veja-se S\u00e9rgio L\u00edrio, \u201cO abismo n\u00e3o \u00e9 intranspon\u00edvel\u201d. <em>Carta Capital<\/em>, 29\/XI\/2017, pp. 26-28.<\/p>\n<p>[9] Cf. Pedro Dur\u00e1n, \u201cDesde 2009, o Brasil \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do mundo\u201d. <em>CBN<\/em>, 3\/V\/2016.<\/p>\n<p>[10] Pivetta &amp; Oliveira, \u201cAgricultor de insetos\u201d (cit): \u201ca monocultura causa desequil\u00edbrios\u201d.<\/p>\n<p>[11] \u201cK\u00e1tia Abreu quer libera\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida de agrot\u00f3xicos pela ANVISA\u201d. <em>Viomundo<\/em>, 19\/X\/2011.<\/p>\n<p>[12] <a href=\"https:\/\/ainfo.cnptia.embrapa.br\/digital\/bitstream\/item\/19030\/1\/Producao-agricola-mundial.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cf. Dante D. G. Scolari, \u201cProdu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial: o potencial do Brasil\u201d. Embrapa, 2007<\/a>.<\/p>\n<p>[13] Cf. Michelle Moreira, \u201cBrasil \u00e9 o maior consumidor de agrot\u00f3xicos do mundo\u201d. <em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>, 3\/XII\/2015.<\/p>\n<p>[14] Cf. Vanessa Barbosa, \u201cAnvisa aponta 13 alimentos que pecam no uso de agrot\u00f3xicos\u201d. <em>Exame<\/em>, 13\/IX\/2016.<\/p>\n<p>[15] Cf. Marina Rossi, \u201cO \u2018alarmante\u2019 uso de agrot\u00f3xicos no Basil atinge 70% dos alimentos\u201d. <em>El Pa\u00eds<\/em>, edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, 30\/IV\/2015.<\/p>\n<p>[16] Veja-se <a href=\"http:\/\/www1.inca.gov.br\/inca\/Arquivos\/comunicacao\/posicionamento_do_inca_sobre_os_agrotoxicos_06_abr_15.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cPosicionamento do Insituto Nacional de C\u00e2ncer Jos\u00e9 Alencar Gomes da Silva acerca dos Agrot\u00f3xicos\u201d. <\/a><\/p>\n<p>[17] Cf. EPA, \u201cAssessing Health Risks from Pesticides\u201d (em rede).<\/p>\n<p>[18] Os dados comparativos sobre os LMR no Brasil e na Uni\u00e3o Europeia (UE) s\u00e3o retirados do j\u00e1 citado trabalho de Bombardi.<\/p>\n<p>[19] Cf. Daniel Cressey, \u00ab Widely used herbicide linked to cancer \u00bb. <em>Nature<\/em>, 24\/III\/2015: \u201cTwo of the pesticides \u2014 tetrachlorvinphos and parathion \u2014 were rated as \u201cpossibly carcinogenic to humans\u201d, or category 2B. Three \u2014 malathion, diazinon and glyphosate \u2014 were rated as \u201cprobably carcinogenic to humans\u201d, labelled category 2A\u201d.<\/p>\n<p>[20] <a href=\"http:\/\/www.who.int\/ipcs\/publications\/pesticides_hazard_2009.pdf?ua=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cf. IARC Monographs evaluate DDT, lindane, and 2,4-D. <\/a><a href=\"http:\/\/www.who.int\/ipcs\/publications\/pesticides_hazard_2009.pdf?ua=1\">Press release n. 236, 23\/VI\/2015. Veja-se tamb\u00e9m OMS.<\/a><\/p>\n<p>[21] <a href=\"https:\/\/www.nrdc.org\/stories\/24-d-most-dangerous-pesticide-youve-never-heard\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cf. Danielle Sedbrook, \u201c2,4-D: The Most Dangerous Pesticide You\u2019ve Never Heard Of\u201d. <\/a><a href=\"https:\/\/www.nrdc.org\/stories\/24-d-most-dangerous-pesticide-youve-never-heard\"><em>NRDC<\/em>, 15\/III\/2016<\/a>.<\/p>\n<p>[22<a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/atlas-do-envenenamento-alimentar-no-brasil#_ednref20\">]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CNGowYKwzL8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja-se sua entrevista |<\/a> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CNGowYKwzL8\">L. <\/a><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CNGowYKwzL8\">L. Foloni, <em>O Herbicida 2,4-D: Uma Vis\u00e3o Geral<\/em>, 2016<\/a>.<\/p>\n<p>[23] Cf. \u201cAPVMA [Australian Pesticides and Veterinary Medicines Authority]: Australia Bans Toxic Herbicide 2,4-D Products\u201d. <em>Sustainable Pulse<\/em>, 24\/VIII\/2013; \u201cGovt bans 2,4-D, paraquat in Vietnam\u201d. <em>Vietnamnet<\/em>, 16\/II\/2017.<\/p>\n<p>[24] Veja-se, por exemplo, Andrew Pollack, \u201cE.P.A. Denies an Environmental Group\u2019s Request to Ban a Widely Used Weed Killer\u201d. <em>The New York Times<\/em>, 9\/IV\/2012.<\/p>\n<p>[25] Cf. Idiana Tomazelli &amp; Mariana Sallowicz, \u201cUso de agrot\u00f3xicos no Pa\u00eds mais que dobra entre 2000 e 2012\u201d. <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>,19\/VI\/2015. \u201cO agrot\u00f3xico mais empregado foi o glifosato, um herbicida apontado por pesquisadores como nocivo \u00e0 sa\u00fade. Entre os inseticidas, o mais usado foi o acefato\u201d.<\/p>\n<p>[26] Cf. Philip J. Landrigan, Luca Lambertini, Linda S. Birnbaum, \u201cA Research Strategy to Discover the Environmental Causes of Autism and Neurodevelopmental Disabilities\u201d (Editorial). <em>Environmental Health Perspectives<\/em>, 25\/IV\/2012..<\/p>\n<p>[27] Cf. \u201cDon\u2019t let feds make pesticide call\u201d, <em>Daily<\/em> <em>Record<\/em> (<em>USA Today<\/em>), Editorial, 27\/XI\/2017.<\/p>\n<p>[28] Cf. Tyrone B. Hayes <em>et al.<\/em>, \u201cAtrazine induces complete feminization and chemical castration in male African clawed frogs (<em>Xenopus laevis<\/em>)\u201d. <em>Proceedings of the National Academy of Sciences<\/em>, 107, 10, 9\/III\/2010, pp. 4612-4617: \u201cThe present findings exemplify the role that atrazine and other endocrine-disrupting pesticides likely play in global amphibian declines\u201d.<\/p>\n<p>[29] Cf. Andrea Vogel <em>et al.<\/em>, \u201cEffects of atrazine exposure on male reproductive performance in <em>Drosophila melangaster<\/em>\u201d. <em>Journal of Insect Physiology<\/em>, 72, janeiro, 2015, pp. 14-21.<\/p>\n<p>[30<a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/atlas-do-envenenamento-alimentar-no-brasil#_ednref28\">]<\/a> Cf. Franck Akerman, \u201cThe Economics of Atrazine\u201d, <em>International Journal of Occupational and Environmental Health<\/em>, 13, 4, outubro-dezembro de 2007, pp. 441-449.<\/p>\n<p>[31] Veja-se, por exemplo, Jan Dich et al., \u201cPesticides and Cancer\u201d. Cancer, causes &amp; control, maio, 1997, 8, 3, pp. 420-443. IDEM, \u201cPesticide and prostate cancer. Again\u201d. Pesticide Action Network, 23\/I\/2013.(1997, 8, pp. 420-443); Idem (23\/I\/2013).<\/p>\n<p>[32] <em>Report of the First External Review of the Systemwide Programme on Integrated Pest Management<\/em> (SP-IPM). Interim Science Council Secretariat \u2013 FAO, agosto de 2003.<\/p>\n<p>[33] Cf. Mikhail A. Beketov <em>et al.<\/em>, \u201cPesticides reduce regional biodiversity of stream invertebrates\u201d. <em>PNAS<\/em>, online, 17\/VI\/2013.Tamb\u00e9m Sharon Oosthoek, \u201cPesticides spark broad biodiversity loss\u201d. <em>Nature<\/em>, 17\/VI\/2013.<\/p>\n<p>[34] Citado por Damian Carrington, \u201cInsecticides put world food supplies at risk, say scientists\u201d. <em>TG<\/em>, 24\/VI\/2014.<\/p>\n<p>[35] Cf. Arthur Neslen, \u201cUs military agency invests $ 100m in genetic extinction technologies\u201d. <em>The Guardian<\/em>, 4\/XII\/2017.<\/p>\n<p>[36] No per\u00edodo entreguerras, armas qu\u00edmicas continuaram a ser utilizadas pela avia\u00e7\u00e3o inglesa, por exemplo, em 1919 contra os bolcheviques e em 1925 contra a cidade de Sulaimaniya, capital do Kurdist\u00e3o iraquiano; a avia\u00e7\u00e3o italiana utilizou-as em 1935 e 1936 em sua tentativa de exterminar a popula\u00e7\u00e3o da Eti\u00f3pia, e o ex\u00e9rcito bolchevique, segundo uma documenta\u00e7\u00e3o aparentemente confi\u00e1vel, dizimou com armas qu\u00edmicas os revoltosos de Tambov, uma das 118 revoltas camponesas contra o ex\u00e9rcito vermelho reportadas pela Cheka, em fevereiro de 1921. Cf. Eric Croddy, Clarisa Perez-Armendaruz &amp; John Hart, <em>Chemical and Biological Warfare. A comprehensive survey for the concerned citizen.<\/em> Nova York, Springer-Verlag, 2002.<\/p>\n<hr \/>\n<p>http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/atlas-do-envenenamento-alimentar-no-brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17930\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239,7],"tags":[223],"class_list":["post-17930","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Fc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17930"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17930\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}