{"id":17965,"date":"2017-12-19T09:50:09","date_gmt":"2017-12-19T12:50:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17965"},"modified":"2017-12-19T10:13:34","modified_gmt":"2017-12-19T13:13:34","slug":"destruicao-da-educacao-em-nome-do-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17965","title":{"rendered":"A destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em nome do lucro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"A destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em nome do lucro\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.esquerdadiario.com.br\/local\/cache-vignettes\/L653xH368\/arton20465-eb38c.jpg\" alt=\"A destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em nome do lucro\" \/><!--more-->Frente \u00e0 crise e os cortes do governo em financiamento indireto aos empres\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o, como do FIES, a Est\u00e1cio leva a frente um plano de manuten\u00e7\u00e3o dos seus lucros que inclui demiss\u00f5es de professores, retirada de bolsas e descontos, impedindo o acesso de milhares de estudantes \u00e0 universidade.<\/p>\n<p>Fernando Pardal<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/As-demissoes-da-Estacio-fazem-parte-da-destruicao-da-educacao-em-nome-do-lucro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Esquerda Di\u00e1rio<\/a><\/p>\n<p>O processo de expans\u00e3o do ensino privado no Brasil \u00e9 uma aula de como o Estado \u00e9, como j\u00e1 dizia Marx no s\u00e9culo XIX, um verdadeiro comit\u00ea gestor dos neg\u00f3cios dos capitalistas. A educa\u00e7\u00e3o superior, tendo sido sempre restrita a uma \u00ednfima minoria da popula\u00e7\u00e3o \u2013 os pr\u00f3prios filhos das classes dominantes, que se preparavam nas universidades para seguir gerindo a sociedade \u2013 passou a ser vista, principalmente a partir da d\u00e9cada de 1990, como uma grande oportunidade de neg\u00f3cios para os grandes empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, a exclus\u00e3o promovida no ensino superior brasileiro era gritante: apenas 11,4% dos jovens entre 20 e 24 anos estavam nas faculdades, colocando o Brasil em 17\u00ba lugar na propor\u00e7\u00e3o de jovens matriculados na Am\u00e9rica Latina, com apenas Honduras e Nicar\u00e1gua com n\u00fameros menores; a propor\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es privadas em rela\u00e7\u00e3o ao total era de 76%, e apenas 24% eram p\u00fablicas. Ou seja, j\u00e1 nesse momento o ensino superior era um grande neg\u00f3cio nas m\u00e3os dos capitalistas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 quando o PSDB assume a presid\u00eancia que esse mercado ir\u00e1 dar um salto sem precedentes: durante os oito anos de mandato de FHC, o n\u00famero de Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior privadas (IES) no Brasil cresceu 110,8% (passando de 684 a 1.442), e o total de alunos matriculados nas institui\u00e7\u00f5es privadas chegou a 70% no fim de seu governo, com um aumento de 129,3% no per\u00edodo. O receitu\u00e1rio neoliberal que colocava o ensino superior nas m\u00e3os dos capitalistas fazia parte de uma orienta\u00e7\u00e3o dos grandes organismos capitalistas internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, e foram implementadas \u00e0 risca no Brasil. Isso colocou o pa\u00eds entre um dos cinco maiores na privatiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior no mundo, e o maior na Am\u00e9rica Latina. As IES privadas chegaram a representar 88,1% em 2002.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da expans\u00e3o do ensino privado, FHC implementou o FIES, empr\u00e9stimo estudantil que garantia, por um lado, maiores taxas de \u201cclientes\u201d aos empres\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o, e, por outro, afundava os estudantes em d\u00edvidas imensas para conseguirem ter acesso ao ensino superior.<\/p>\n<p>Os governos petistas aprofundam o crescimento dos monop\u00f3lios da educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A expans\u00e3o desenfreada das privadas nos anos de FHC e os altos pre\u00e7os das mensalidades rapidamente levaram a um esgotamento desse mercado: muitas IES privadas contavam com vagas ociosas, o que significava um preju\u00edzo para seus donos. Nesse momento, \u00e9 o governo petista de Lula quem vem em socorro aos capitalistas: a cria\u00e7\u00e3o do ProUni garante que eles ganhem milh\u00f5es deixando de pagar impostos, e em troca ofereceriam suas vagas que j\u00e1 estavam ociosas, ou seja, n\u00e3o perdiam nada. Calcula-se que o pre\u00e7o por cada vaga criada em universidades privadas por meio do ProUni custa o mesmo que tr\u00eas em institui\u00e7\u00f5es federais. Ou seja, mesmo essa medida de democratiza\u00e7\u00e3o do ensino foi feita de forma a beneficiar os capitalistas. Em 2004, antes da cria\u00e7\u00e3o do ProUni, havia 2.985.405 estudantes nas IES privadas; em 2010, eram 3.987.424, sendo 473.000 bolsistas do ProUni. Um aumento de 1.002.019 matriculas no setor privado, sendo 47% do ProUni. Gra\u00e7as a essa pol\u00edtica \u2013 tamb\u00e9m com o uso do FIES de FHC \u2013 o aumento das institui\u00e7\u00f5es privadas foi de 448, enquanto as p\u00fablicas tiveram um crescimento de 71. A porcentagem de matr\u00edculas cresceu 47,1 nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e 45% nas privadas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Lula tamb\u00e9m abriu as portas das universidades federais para as empresas privadas, permitindo parcerias em que as empresas financiaram atividades nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com benef\u00edcios pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>A Est\u00e1cio demite e corta bolsas frente \u00e0 crise<\/p>\n<p>O grupo Est\u00e1cio \u00e9 um dos que mais se beneficiou com os incentivos dos governos para o crescimento das universidades privadas. \u00c9 o segundo maior grupo empresarial na educa\u00e7\u00e3o brasileira, com mais de 500 mil alunos. Lucrou milh\u00f5es com pol\u00edticas como o ProUni e FIES, com dinheiro que se transformou em lucro de seus acionistas obtido sobre algo que deveria ser um direito universal, mas que na m\u00e3o dos capitalistas se tornou mais uma mercadoria.<\/p>\n<p>Agora, em um momento de crise, mais uma consequ\u00eancia nefasta disso se mostra. Temer, al\u00e9m de atacar os recursos das universidades p\u00fablicas, cortou drasticamente recursos do FIES, o que impactou diretamente nas universidades privadas. Entre 2016 e 2017, assim, os gerentes da Est\u00e1cio procuraram formas de reverter essas perdas para mostrar os lucros a seus acionistas.<\/p>\n<p>Em 2016, a universidade teve um ano \u201cdif\u00edcil\u201d, e lucrou \u201capenas\u201d R$ 368 milh\u00f5es, com uma queda de 16,4% em rela\u00e7\u00e3o a 2015. J\u00e1 no quarto trimestre daquele ano, come\u00e7aram as medidas para reverter o quadro e manter os lucros, e os resultados foram positivos: nos \u00faltimos tr\u00eas meses de 2016, a institui\u00e7\u00e3o obteve um lucro de R$ 124 milh\u00f5es, enquanto no ano anterior foi R$ 53 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Qual foi o \u201csegredo\u201d da Est\u00e1cio? Nesse documento apresentado aos seus acionistas no primeiro trimestre de 2017 podemos ter uma boa ideia das medidas tomadas pela empresa. Antes, a estrat\u00e9gia desses capitalistas era \u201csurfar\u201d na onda de dinheiro liberada pelo governo com FIES e ProUni. Contudo, uma vez que essa fonte passou a ser mais restrita, eles mudaram a sua atua\u00e7\u00e3o para fazer com que os alunos \u2013 principalmente os mais pobres \u2013 e professores pagassem pelos custos. Nas palavras de Pedro Thompson, CEO da Est\u00e1cio:<\/p>\n<p>\u201cDesde o semestre passado, adotamos medidas para atrair uma base de alunos mais sustent\u00e1vel, com o objetivo de atingir um maior n\u00edvel de ticket m\u00e9dio [valor pago por aluno], potencializando o valor presente l\u00edquido por aluno ao m\u00e1ximo. Dessa forma, acreditamos que passaremos a ter uma acentuada melhora na evas\u00e3o, assim como menores \u00edndices de inadimpl\u00eancia. Acredito firmemente que uma base de alunos de melhor qualidade, aliada a melhores processos de forma\u00e7\u00e3o de turmas, permitir\u00e3o que melhoremos cada vez mais a produtividade e a rentabilidade da Est\u00e1cio.\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, a regra era uma: cortar alunos inadimplentes e com piores condi\u00e7\u00f5es financeiras. Atrair alunos que pagassem mais e tivessem menos possibilidades de abandonar o curso. Algumas das medidas do documento que concretizam isso s\u00e3o: \u201cMudan\u00e7a na estrat\u00e9gia de precifica\u00e7\u00e3o, simplificando e racionalizando [leia-se \u201ccortando\u201d] a oferta de bolsas e descontos, cujo efeito final pretendido \u00e9 o aumento de ticket m\u00e9dio. Redu\u00e7\u00e3o significativa das campanhas com ofertas de isen\u00e7\u00f5es, exigindo o compromisso m\u00ednimo do pagamento de R$59 para efetivar a matr\u00edcula\u201d. Al\u00e9m disso, a estrat\u00e9gia de \u201cvendas\u201d mudou: antes os \u201cconsultores\u201d recebiam b\u00f4nus pautados em metas de produtividade atreladas ao n\u00famero de novas matr\u00edculas que conseguiam. Agora, o \u201cprograma de remunera\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel mais agressivo\u201d que a Est\u00e1cio adota oferece adicionais salariais que \u201cpassaram a ser atreladas ao n\u00edvel de ticket m\u00e9dio captado e n\u00e3o apenas \u00e0 capta\u00e7\u00e3o do aluno\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, passaram a cortar custos. Enquanto o n\u00famero de alunos presenciais diminuiu, o de alunos de Ensino \u00e0 Dist\u00e2ncia (EaD) aumentou: 5,3% de queda em rela\u00e7\u00e3o aos primeiros e 15,1% a mais de alunos no EaD no terceiro trimestre de 2017 em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2016.<\/p>\n<p>O resultado foi uma sens\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o no n\u00famero de alunos da Est\u00e1cio: de 592,8 mil alunos no primeiro trimestre de 2016, passou a 561,2 mil no primeiro trimestre de 2017. Os mais de trinta mil alunos a menos representam, sem sombra de d\u00favidas, uma maior exclus\u00e3o dos mais pobres no acesso ao ensino superior. Enquanto isso, o EaD, uma forma de ensino mais precarizada, cresceu significativamente: os seus p\u00f3los de EaD subiram de 191 para 228, enquanto os campus presenciais passaram de 93 para 95. J\u00e1 o \u201cticket m\u00e9dio\u201d, ou seja, o valor m\u00e9dio pago por aluno, subiu de R$ 572,8 para R$ 671,5, um aumento de 17,2% na m\u00e9dia do valor pago para cada aluno, enquanto o n\u00famero de alunos presenciais \u201cgeradores de receita\u201d (pagantes) caiu de 403,2 mil para 360,6 mil. Ou seja, a receita da Est\u00e1cio para enfrentar a crise \u00e9: ensino mais restrito, elitizado e caro.<\/p>\n<p>As demiss\u00f5es dos professores que est\u00e3o sendo enfrentadas nas ruas pelos estudantes e docentes s\u00e3o a mais nova fase desse processo em que a Est\u00e1cio procura aumentar seus lucros atacando seus funcion\u00e1rios e estudantes. Fazem parte da reforma trabalhista, e incluem projetos como diminuir o n\u00famero de docentes presenciais e expandir o EaD, que implica em um ensino de menor qualidade com menos custos para a institui\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m recontratar docentes com base em um regime mais prec\u00e1rio, com menores sal\u00e1rios e direitos.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 consequ\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o daquilo que deveria ser um direito universal, a educa\u00e7\u00e3o, em mais uma mercadoria para gerar lucros para um punhado de capitalistas parasitas. Eles lucram bilh\u00f5es, enquanto os trabalhadores t\u00eam de pagar car\u00edssimo para conseguir o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, e em condi\u00e7\u00f5es cada vez piores. Por isso, precisamos lutar contra todas as demiss\u00f5es da Est\u00e1cio como exemplo de resist\u00eancia \u00e0 reforma trabalhista, mas tamb\u00e9m pela abertura das contas da empresa para saber onde exatamente est\u00e1 todo o dinheiro, avan\u00e7ando para a conclus\u00e3o de que, para que os estudantes da Est\u00e1cio e os tantos jovens que est\u00e3o fora da universidade tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade enquanto direito e n\u00e3o mercadoria, precisamos lutar pela estatiza\u00e7\u00e3o, sob controle dos seus funcion\u00e1rios e estudantes, deste e dos outros monop\u00f3lios da educa\u00e7\u00e3o privada.<\/p>\n<p>Dados extra\u00eddos de: <a href=\"https:\/\/ries.universia.net\/article\/view\/1099\/1645\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/ries.universia.<wbr \/>net\/article\/view\/1099\/1645<\/a><\/p>\n<p>http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/As-demissoes-da-Estacio-fazem-parte-da-destruicao-da-educacao-em-nome-do-lucro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17965\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"A destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em nome do lucro","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60,190],"tags":[233],"class_list":["post-17965","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","category-fora-temer","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4FL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17965","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17965"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17965\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}