{"id":17995,"date":"2017-12-21T18:03:54","date_gmt":"2017-12-21T21:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=17995"},"modified":"2017-12-30T09:48:14","modified_gmt":"2017-12-30T12:48:14","slug":"decifra-me-ou-te-devoro-reflexoes-sobre-crise-atual-e-as-tarefas-da-esquerda-revolucionaria-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17995","title":{"rendered":"Decifra-me ou te devoro: reflex\u00f5es sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Decifra-me ou te devoro: reflex\u00f5es sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria no Brasil\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/novaorganizacaosocialista.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/foto_frente_site.png\" alt=\"Decifra-me ou te devoro: reflex\u00f5es sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria no Brasil\" \/><!--more--><b>Edmilson Costa \u2013 Secret\u00e1rio Geral do PCB<\/b><\/p>\n<p>O Brasil vive atualmente uma crise completa, a mais grave desde os momentos finais da ditadura e o in\u00edcio do processo de democratiza\u00e7\u00e3o em meados dos anos 80. Trata-se de um processo no qual converge um conjunto de vetores que confluem contraditoriamente retroalimentando-se e, ao mesmo tempo, repelindo-se mutuamente, pois todos os agentes que influenciam essas vari\u00e1veis buscam encontrar sa\u00eddas para os problemas colocados pela conjuntura, mas at\u00e9 agora, apesar da brutal ofensiva do capital, ainda n\u00e3o se verificou um desfecho definitivo da crise. Isso se explica em fun\u00e7\u00e3o da diversidade de projetos das v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es burguesas sobre os rumos da conjuntura aberta com o impeachment da presidente Dilma, da impopularidade do governo golpista, assim como da resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o e, especialmente, do temor de setores da burguesia de um levante social provocado pela dram\u00e1tica conjuntura da qual n\u00e3o t\u00eam controle pleno.<\/p>\n<p>Forja-se assim um ambiente complexo, confuso e de dif\u00edcil compreens\u00e3o plena da realidade. Nessa conjuntura, os diversos atores sociais e pol\u00edticos buscam sa\u00eddas para a crise de acordo com seus interesses, mas as sa\u00eddas s\u00e3o todas problem\u00e1ticas, pois envolve um conjunto de problemas de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o na conjuntura atual, tais como o rompimento de pactos institucionais amadurecidos na consci\u00eancia popular, como direitos e garantias que v\u00eam desde a d\u00e9cada de 40 do s\u00e9culo passado, outros inscritos na constitui\u00e7\u00e3o de 1988, al\u00e9m da necessidade de uma derrota completa das for\u00e7as populares, o que tem se mostrado problem\u00e1tico na conjuntura atual. Num ambiente dessa ordem, deve-se levar em conta ainda que mudan\u00e7as institucionais bruscas, sem apoio da sociedade, podem desatar for\u00e7as que estavam latentes nos subterr\u00e2neos sociais e conflagra\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o estavam presentes ainda na subjetividade dos trabalhadores e da juventude e que podem ficar fora de controle em fun\u00e7\u00e3o dos processos mais profundos da luta de classes que tende a emergir de situa\u00e7\u00f5es desse tipo, muitas delas sequer imaginados quando se iniciou a crise.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer que cada uma das vari\u00e1veis da conjuntura atual carrega consigo elementos explosivos que, ao emergir bruscamente na superf\u00edcie da vida pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica, pode fazer surgir um conjunto de fen\u00f4menos imponder\u00e1veis, de dif\u00edcil controle, tanto para quem sempre esteve acostumado a resolver os problemas sociais e pol\u00edticos pelos velhos esquemas de domina\u00e7\u00e3o (coopta\u00e7\u00e3o ou repress\u00e3o), mas tamb\u00e9m para quem est\u00e1 debutando na luta de classes. Gramsci dizia que nos intervalos em que o velho est\u00e1 morrendo e o novo est\u00e1 nascendo, mas ainda n\u00e3o se consolidou, aparecem os monstros, que podem ser expressos nos fatos e acontecimentos mais bizarros, imprevis\u00edveis ou imponder\u00e1veis, nunca vistos em tempos normais, mas tamb\u00e9m nessas conjunturas pode se forjar o novo e tamb\u00e9m emergir dos subterr\u00e2neos da luta de classes movimentos sociais e pol\u00edticos at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1veis pelos atores sociais e pol\u00edticos em disputa.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos vivendo no Brasil um per\u00edodo t\u00edpico descrito pelo c\u00e9lebre pensador italiano, mas com um conjunto de caracter\u00edsticas espec\u00edficas de um pa\u00eds de capitalismo maduro, com uma sociedade complexa, majoritariamente urbana, concentrada nas grandes metr\u00f3poles, com perversa distribui\u00e7\u00e3o de renda e elevados n\u00edveis de pobreza e mis\u00e9ria social, fruto de uma economia de baixos sal\u00e1rios e da trucul\u00eancia com que as classes dominantes sempre trataram a quest\u00e3o social. Singularidades hist\u00f3ricas tamb\u00e9m levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma classe dominante antipopular e antidemocr\u00e1tica, viciada no autoritarismo, fruto de uma tradi\u00e7\u00e3o de mais de tr\u00eas s\u00e9culos de escravid\u00e3o, o que a torna resistente a qualquer processo de mudan\u00e7a, por menor que seja. O acirramento da luta de classes em sociedades com essas caracter\u00edsticas (com o proletariado em um n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o ainda insuficiente para realizar as mudan\u00e7as e sem uma vanguarda com for\u00e7a para avan\u00e7ar no sentido das transforma\u00e7\u00f5es sociais) se expressa de maneira diferente das lutas tradicionais do proletariado. \u00c9 s\u00f3 observarmos as batalhas di\u00e1rias nos bairros, a repress\u00e3o brutal contra os pobres, as ocupa\u00e7\u00f5es de terrenos nos centros urbanos e rurais, mobiliza\u00e7\u00f5es mais organizadas nas ruas, mas sem ainda a presen\u00e7a definitiva do proletariado no comando da luta.<\/p>\n<p>De qualquer forma, em fun\u00e7\u00e3o dos problemas que se acrescentaram \u00e0queles que causaram as extraordin\u00e1rias jornadas de lutas de 2013, da crise pol\u00edtica econ\u00f4mica e social que se estabeleceu nos \u00faltimos anos, do golpe parlamentar de 2016 e da ofensiva contra os trabalhadores e aposentados, al\u00e9m dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo toda a institucionalidade, acredito que est\u00e3o maduras todas as condi\u00e7\u00f5es para um levante social no Brasil. Como h\u00e1 uma debilidade de organiza\u00e7\u00e3o popular, isso pode acontecer ainda com elevado n\u00edvel de espontaneidade, n\u00e3o no mesmo n\u00edvel que em 2013, tendo em vista o aprendizado pol\u00edtico das massas, mas ainda sem a dire\u00e7\u00e3o de uma vanguarda classista e revolucion\u00e1ria, o que significa que novamente as for\u00e7as conservadoras far\u00e3o tudo para tentar manipular a indigna\u00e7\u00e3o popular. Portanto, as for\u00e7as revolucion\u00e1rias e classistas devem intensificar o trabalho de base e seus v\u00ednculos com os trabalhadores, a juventude e o povo pobre dos bairros para disputar e organizar a indigna\u00e7\u00e3o popular, que em algum momento n\u00e3o muito distante poder\u00e1 explodir nas ruas.<\/p>\n<p><b>As raz\u00f5es objetivas para o levante social<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio entender, como elemento mais de fundo de uma revolta social, a contradi\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre o n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas no Brasil e as condi\u00e7\u00f5es sociais da popula\u00e7\u00e3o. O Brasil est\u00e1 entre as 10 maiores economias do mundo: possui um parque industrial integrado em condi\u00e7\u00f5es de suprir de bens e servi\u00e7os a popula\u00e7\u00e3o. Tem ainda um setor de servi\u00e7os, de com\u00e9rcio e de finan\u00e7as bem desenvolvidos, al\u00e9m de um setor agropecu\u00e1rio em plenas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 de suprir o mercado interno, mas tamb\u00e9m de gerar excedentes para exporta\u00e7\u00e3o. Possui tamb\u00e9m terra e \u00e1gua em abund\u00e2ncia, sol o ano inteiro, al\u00e9m de praticamente todas as mat\u00e9rias-primas para a produ\u00e7\u00e3o nacional. Mas \u00e9 importante ressaltar que, apesar do grau de desenvolvimento do capitalismo brasileiro, em sua ess\u00eancia, a economia est\u00e1 subordinada aos centros do capitalismo internacional e seus ramos mais din\u00e2micos s\u00e3o controlados pelo capital estrangeiro, com a parte mais org\u00e2nica da burguesia associada ao capital internacional.<\/p>\n<p>Mas o conjunto das for\u00e7as produtivas constru\u00eddas no Brasil est\u00e1 em contradi\u00e7\u00f5es com as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o atrasadas, um mercado interno restrito, uma economia de baixos sal\u00e1rios e a mis\u00e9ria social. O \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil \u00e9 o 75\u00ba do mundo, fato que se assemelha aos pa\u00edses mais pobres da \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia. Em algum momento, essa contradi\u00e7\u00e3o emergir\u00e1 de forma explosiva, pelos seguintes motivos:<\/p>\n<ol>\n<li>Nas grandes metr\u00f3poles e, especialmente nos bairros perif\u00e9ricos, est\u00e1 o contraponto do grande desenvolvimento do capital no Brasil, que \u00e9 um proletariado numeroso, constitu\u00eddo de mais de 30 milh\u00f5es de trabalhadores ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e cerca de 60 milh\u00f5es de assalariados, trabalhadores precarizados ou desempregados. Trata-se de um proletariado com mais instru\u00e7\u00e3o e n\u00edvel t\u00e9cnico que os trabalhadores da d\u00e9cada de 1970, sem ainda sem ter passado pelas escolas da luta de classes. Mas \u00e9 importante ressaltar que o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o empresarial, instru\u00e7\u00e3o dos assalariados, al\u00e9m das prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o constituem um caldo de cultura de insatisfa\u00e7\u00e3o que pode emergir \u00e0 superf\u00edcie com enorme potencial explosivo, muito maior que em junho de 2013.<\/li>\n<li>A riqueza e a pobreza travam uma luta surda e dram\u00e1tica nas grandes metr\u00f3poles do pa\u00eds, especialmente naquelas do Sudeste, onde o capitalismo \u00e9 mais desenvolvido e onde a opul\u00eancia da burguesia e a mis\u00e9ria da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis para as grandes massas. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o que se assemelha a uma guerra civil n\u00e3o declarada, com mais de 60 mil assassinatos por ano, em sua grande maioria de pobres, pretos e perif\u00e9ricos. Parcela expressiva desse contingente \u00e9 assassinada nas favelas e periferias das cidades pelas pol\u00edcias militares que, sob o pretexto de combater o tr\u00e1fico de drogas e pacificar as comunidades, imp\u00f5em o terror nos bairros, tratam os pobres como inimigos, agem com trucul\u00eancia nas invas\u00f5es de moradias e executam jovens e moradores com enorme impunidade.<\/li>\n<li>Os servi\u00e7os p\u00fablicos em geral, especialmente transporte, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o terrivelmente prec\u00e1rios e levam \u00e0 exaust\u00e3o a paci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o. Um trabalhador gasta cerca de 3 horas ou mais no transporte para se locomover de casa para o trabalho e voltar \u00e0 sua resid\u00eancia, dentro de \u00f4nibus velhos, desconfort\u00e1veis, lotados e sempre atrasados. A sa\u00fade p\u00fablica prestada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u00e9 vexaminosa, com longas filas nos atendimentos de postos de sa\u00fade e hospitais, com doentes em macas no ch\u00e3o, al\u00e9m da falta de rem\u00e9dios e pessoal no atendimento. A educa\u00e7\u00e3o foi mercantilizada: dois ter\u00e7os dos estudantes universit\u00e1rios estudam no ensino privado e o ensino m\u00e9dio p\u00fablico \u00e9 uma calamidade. Tudo isso veio \u00e0 tona em 2013, mas em vez dos problemas serem solucionados, o governo resolveu radicalizar na precariza\u00e7\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>As extraordin\u00e1rias jornadas de luta de 2013 revelaram de forma explosiva esse conjunto de problemas que todos sentiam, mas que ainda n\u00e3o tinham se tornado p\u00fablico de forma coletiva. De maneira surpreendente, tendo como bandeira a revoga\u00e7\u00e3o do aumento das passagens do transporte p\u00fablico, centenas de milhares de jovens, al\u00e9m de outros milhares de prolet\u00e1rios precarizados, sa\u00edram \u00e0s ruas durante v\u00e1rios dias em mais de 600 cidades do pa\u00eds, enfrentaram a repress\u00e3o policial e derrotaram os principais governos estaduais e municipais. As manifesta\u00e7\u00f5es cresciam \u00e0 medida em que a repress\u00e3o aumentava e se transformaram em verdadeiro levante social, o que levou o Congresso a prometer um conjunto de medidas favor\u00e1veis \u00e0 juventude. O pr\u00f3prio governo federal se viu na obriga\u00e7\u00e3o de reconhecer a for\u00e7a do movimento e prometeu reformas para atender as reivindica\u00e7\u00f5es, o que evidentemente n\u00e3o foi cumprido quando o movimento arrefeceu. A revolta de 2013 j\u00e1 vinha sendo desenvolvida nos subterr\u00e2neos da luta de classes: a luta contra o aumento das passagens foi apenas o estopim de um processo mais profundo que estava amadurecendo.<\/li>\n<li>Com a crise econ\u00f4mica que se abateu sobre o Brasil, cuja recess\u00e3o j\u00e1 dura quatro anos, vieram se juntar ao estoque de problemas identificados anteriormente, novas e dram\u00e1ticas quest\u00f5es sociais: cerca de 20 milh\u00f5es de desempregados (13 milh\u00f5es que perderam o emprego de carteira assinada e mais sete milh\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o procuram mais emprego e n\u00e3o constam das listas de desemprego), aumento da precariedade dos servi\u00e7os p\u00fablicos e queda na renda. Levando-se em conta que cerca de uma a duas pessoas dependem de cada desempregado, temos algo em torno de 40 a 50 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o social dram\u00e1tica. Imaginem uma conjuntura de prolongada recess\u00e3o, com corte dos gastos sociais, um ajuste predat\u00f3rio por 20 anos, degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e adicione a isso 40 a 50 milh\u00f5es de pessoas desempregadas, sem renda e pr\u00f3ximo ao desespero. Numa situa\u00e7\u00e3o dessa ordem torna-se f\u00e1cil imaginar o caldeir\u00e3o social em efervesc\u00eancia que est\u00e1 sendo preparado no Brasil.<\/li>\n<li>Em meio \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o do PIB e o desemprego, o governo vem propagandeando, como compensa\u00e7\u00e3o, constantes quedas na infla\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 explic\u00e1vel pelo pr\u00f3prio ambiente recessivo do pa\u00eds. No entanto, a redu\u00e7\u00e3o do processo inflacion\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 percebida como tem sido anunciado pelo governo, pois ocorreu aumento generalizado dos pre\u00e7os administrados, como telefone, \u00e1gua, energia el\u00e9trica e, especialmente, a gasolina e o g\u00e1s de cozinha, esses dois \u00faltimos em fun\u00e7\u00e3o dos constantes aumentos determinados pela nova gest\u00e3o de pre\u00e7os da Petrobr\u00e1s. Para uma popula\u00e7\u00e3o com renda decrescente, com suas contas aumentando, esse \u00e9 mais um motivo para o crescimento da insatisfa\u00e7\u00e3o popular contra o governo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os \u00edndices de popularidades de Temer nunca ultrapassam a 5%, o que em qualquer pa\u00eds do mundo levaria o governo \u00e0 ren\u00fancia.<\/li>\n<li>Para dramatizar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, o governo se faz de surdo e avan\u00e7a com a agenda neoliberal predat\u00f3ria, acirrando o descontentamento e a luta de classes. Parece que as classes dominantes brasileiras resolveram brincar com fogo. J\u00e1 aprovaram o ajuste fiscal por 20 anos, que representa a barbaridade social mais profunda que um governo j\u00e1 fez. Aprovaram ainda uma reforma trabalhista que retroage os direitos dos trabalhadores para o per\u00edodo da Rep\u00fablica Velha, quando n\u00e3o existiam direitos regulados na legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Aprovaram tamb\u00e9m a lei das terceiriza\u00e7\u00f5es, que precariza as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas e leva a inseguran\u00e7a ao conjunto dos trabalhadores. Agora, para completar a barb\u00e1rie social, est\u00e3o tentando de todas as formas aprovar a reforma da previd\u00eancia, que praticamente inviabiliza as aposentadorias para a maioria dos trabalhadores e reduz o sal\u00e1rio dos aposentados, tudo isso para favorecer o grande capital, especialmente os grandes bancos, seguradores e empresas de planos privados de aposentadoria.<\/li>\n<\/ol>\n<p><b>A crise pol\u00edtica, a corrup\u00e7\u00e3o e a desmoraliza\u00e7\u00e3o do sistema<\/b><\/p>\n<p>A esse conjunto de problemas pode ser adicionada ainda uma crise pol\u00edtica t\u00e3o profunda que est\u00e1 pondo em questionamento toda a credibilidade do sistema pol\u00edtico brasileiro, a partir das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o que envolve n\u00e3o apenas o Parlamento, os principais grupos empresariais do pa\u00eds, setores do Executivo federal, estadual e municipal e parte do Judici\u00e1rio. Em outras palavras, aos olhos da popula\u00e7\u00e3o, todo o sistema est\u00e1 podre, afinal, cerca de 190 parlamentares est\u00e3o indiciados na Justi\u00e7a, a maior parte dos ministros e ex-ministros, o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica, al\u00e9m de governadores, prefeitos, dirigentes pol\u00edticos e empres\u00e1rios das principais empresas. Quando mais se aprofundam as investiga\u00e7\u00f5es, mais a sociedade toma conhecimento de novas falcatruas envolvendo personagens at\u00e9 ent\u00e3o tidos como ilibados. Em s\u00edntese, estamos diante do governo mais impopular, corrupto e odiado pela popula\u00e7\u00e3o brasileira de todo o per\u00edodo republicano.<\/p>\n<p>A conjuntura pol\u00edtica est\u00e1 criando uma esp\u00e9cie de senso comum no imagin\u00e1rio popular de que \u00e9 preciso urgentemente uma faxina geral no pa\u00eds, muito embora a popula\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tenha encontrado for\u00e7as para se expressar coletivamente, superar a velha ordem e construir um novo rumo para a na\u00e7\u00e3o. Quais s\u00e3o os principais elementos da crise pol\u00edtica que, combinados com os elementos objetivos da crise econ\u00f4mica e social, podem levar a uma explos\u00e3o social contra o sistema pol\u00edtico brasileiro? Um conjunto de vari\u00e1veis conflui para a compreens\u00e3o da din\u00e2mica da crise pol\u00edtica: a crise sist\u00eamica global e seus impactos no Brasil; o fim de um longo ciclo de lutas sociais e pol\u00edticas no pa\u00eds e as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o que envolvem toda a institucionalidade e os grandes conglomerados empresariais. Vejamos mais detalhadamente essas vari\u00e1veis da conjuntura explosiva que vivemos no Brasil:<\/p>\n<ol>\n<li>A crise sist\u00eamica global vem castigando o capitalismo h\u00e1 cerca de 10 anos e at\u00e9 agora os gestores do capital ainda n\u00e3o encontraram uma sa\u00edda para a estabiliza\u00e7\u00e3o e retomada do crescimento nas economias centrais. Essa crise impactou fortemente no Brasil e levou a burguesia a descartar o PT e seus sat\u00e9lites e implantar um governo puro sangue com o objetivo de rebaixar os sal\u00e1rios, cortar direitos e gastos sociais e disciplinar o trabalho. A burguesia descartou o PT porque este j\u00e1 n\u00e3o conseguia administrar o capital como anteriormente, em fun\u00e7\u00e3o do aprofundamento da crise econ\u00f4mica e porque o capital necessitava de ajustes radicais e imediatos, medida que o PT, em fun\u00e7\u00e3o de sua base social, s\u00f3 poderia realizar de maneira lenta e gradual. Al\u00e9m disso, o PT tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o controlava mais as massas, uma vez que as jornadas de junho de 2013 foram realizadas por fora dos movimentos sociais que o PT controlava. Dessa forma, o PT j\u00e1 n\u00e3o era funcional para capital e por isso foi descartado de maneira desmoralizante.<\/li>\n<li>O Brasil tamb\u00e9m est\u00e1 vivendo o final de um longo ciclo de lutas sociais e pol\u00edticas que se iniciaram com as greves do ABC no final dos anos 70 do s\u00e9culo passado e fecharam dramaticamente com o impeachment da presidente Dilma. Esse ciclo foi profundamente pedag\u00f3gico porque demonstrou mais uma vez o fracasso e a desmoraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes. Por mais que o PT e seus sat\u00e9lites tenham governado essencialmente para o capital, com pol\u00edticas compensat\u00f3rias que n\u00e3o representaram sequer 20% dos lucros dos rentistas, a burguesia resolveu destitu\u00ed-los quando achou necess\u00e1rio. Esse ciclo tamb\u00e9m mostrou que a democracia representativa s\u00f3 interessa \u00e0 burguesia quando est\u00e1 a servi\u00e7os de seus interesses. Quando \u00e9 necess\u00e1rio mudar os rumos da institucionalidade, n\u00e3o hesita em criar pretextos e violar as regras que eles mesmos fizeram. Demonstrou tamb\u00e9m que as elei\u00e7\u00f5es no Brasil s\u00e3o compradas pelos grandes grupos econ\u00f4mico-financeiros, tanto no Executivo quanto do Legislativo, e que o sistema eleitoral tem sido uma fechada para justificar os interesses da burguesia.<\/li>\n<li>A institui\u00e7\u00e3o de um governo puro sangue aprofundou a crise pol\u00edtica porque os golpistas, para angariar apoio da popula\u00e7\u00e3o, costumavam dizer que o obst\u00e1culo para a retomada do crescimento, do emprego e da \u00e9tica na pol\u00edtica era exatamente o governo do PT. No entanto, o governo instalado pelo capital, especialmente o setor rentista, n\u00e3o resolveu nenhum dos problemas que prometera resolver. Pelo contr\u00e1rio, a economia continuou em processo de estagna\u00e7\u00e3o, o desemprego aumentou extraordinariamente, os gastos sociais foram cortados de maneira dr\u00e1stica, o que precarizou ainda mais os servi\u00e7os p\u00fablicos, al\u00e9m do fato de realizar um conjunto de contrarrefomas que v\u00eam destruindo toda a legisla\u00e7\u00e3o conquistada pelos trabalhadores ao longo do s\u00e9culo XX. Muitos dos que apoiaram entusiasticamente a queda do governo anterior, agora se sentem tra\u00eddos diante das medidas tomadas pelo governo;<\/li>\n<li>Para ampliar a crise de representatividade, a popula\u00e7\u00e3o foi tomando conhecimento diariamente de que o governo que acabara de assaltar o poder em Bras\u00edlia era constitu\u00eddo por uma quadrilha muito mais envolvida na corrup\u00e7\u00e3o que o governo anterior, a come\u00e7ar pelo presidente, considerado pela justi\u00e7a o chefe da organiza\u00e7\u00e3o criminosa, al\u00e9m de grande parte dos ministros, governadores, prefeitos e assessores. Mas n\u00e3o \u00e9 somente o Executivo: a corrup\u00e7\u00e3o envolve os grandes industriais, empreiteiras, bancos, o agroneg\u00f3cio e empresas de servi\u00e7os em geral. Na pr\u00e1tica, estes s\u00e3o os principais corruptores e constituem-se no elo principal da cadeia de promiscuidade entre o setor privado e o setor p\u00fablico. Em outras palavras, parafraseado a linguagem do tr\u00e1fico de drogas, os grandes empres\u00e1rios s\u00e3o os atacadistas enquanto os pol\u00edticos tradicionais s\u00e3o apenas os varejistas do tr\u00e1fico, ou seja, enquanto os empres\u00e1rios ganham rios de dinheiro com a d\u00edvida p\u00fablica, as ren\u00fancias fiscais e os lucros monopolistas, o lumpesinato pol\u00edtico \u00e9 pago com as sobras para operar seus neg\u00f3cios no Legislativo e no Executivo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Por que o governo ainda n\u00e3o caiu?<\/b><\/p>\n<p>As pessoas perguntam com raz\u00e3o, tanto no Brasil quanto no exterior, como pode se manter no poder um governo com menos de 5% de popularidade, odiado pelo povo, envolvido comprovadamente at\u00e9 o tutano com a corrup\u00e7\u00e3o, com ministros, ex-ministros e assessores flagrados com malas de dinheiro em seu poder? E mais, como um governo nessas condi\u00e7\u00f5es tem capacidade de realizar a mais dura ofensiva contra os trabalhadores, a juventude o povo dos bairros sem que haja uma rea\u00e7\u00e3o popular? Realmente, esse \u00e9 um dos paradigmas mais complexos da crise brasileira para se decifrar, mas tem uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, por dois motivos principais:<\/p>\n<ol>\n<li>Esse governo ainda n\u00e3o caiu porque \u00e9 funcional para o capital enquanto estiver fazendo o trabalho sujo, ou seja, enquanto continuar implantando a agenda neoliberal que toda a classe dominante almeja. Mesmo que haja diverg\u00eancias entre as fra\u00e7\u00f5es da classe burguesa sobre quem apoiar em 2018 ou mesmo diante da possibilidade de uma explos\u00e3o social, todos eles est\u00e3o unidos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o das contrarreformas, porque trata-se de uma burguesia inteiramente afinada com os interesses do capital internacional. \u00c9 s\u00f3 comparar o programa neoliberal que est\u00e1 sendo implantado em v\u00e1rias partes do mundo com a agenda da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria Brasileira. Enquanto n\u00e3o houver a emerg\u00eancia de um movimento social com for\u00e7a suficiente para mudar a conjuntura, eles v\u00e3o continuar dando sustenta\u00e7\u00e3o ao governo,<\/li>\n<li>As organiza\u00e7\u00f5es do movimento sindical e do movimento popular que cresceram e se desenvolveram com o velho ciclo est\u00e3o muito mais interessadas nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 do que com o movimento das ruas. Tentam criar a ilus\u00e3o de que, se Lula voltar \u00e0 presid\u00eancia, far\u00e1 um governo diferente porque aprendeu com o passado. \u00c9 pura ilus\u00e3o mesmo, pois se Lula ganhar novamente a presid\u00eancia far\u00e1 um governo pior que o anterior, em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es objetivas da conjuntura e das alian\u00e7as com as mesmas for\u00e7as do passado que est\u00e1 costurando agora. Al\u00e9m disso, essas dire\u00e7\u00f5es sindicais perderam a liga\u00e7\u00e3o com as bases e atualmente lutam muito mais para manter os aparatos conquistados nos per\u00edodos em que ainda lutavam do que efetivamente para mobilizar os trabalhadores e a juventude para a luta nas ruas. Por isso, fazem corpo mole em todos os processos de mobiliza\u00e7\u00f5es e greves que v\u00eam ocorrendo contra o governo. J\u00e1 as organiza\u00e7\u00f5es do sindicalismo amarelo, muitas delas fundadas com dinheiro do capital para se contrapor \u00e0s ent\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es classistas, sabotam permanentemente as mobiliza\u00e7\u00f5es e greves e s\u00f3 delas participam quando s\u00e3o empurradas pelas bases.<\/li>\n<li>Por sua vez, as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e movimentos populares classistas ainda t\u00eam pouca influ\u00eancia no movimento social, j\u00e1 que os dois principais setores identificados acima ainda controlam os aparatos sindicais e o dinheiro oriundo do imposto sindical. Mas essas organiza\u00e7\u00f5es tendem a se esgotar com o fim do ciclo: as do campo petista porque s\u00e3o incapazes de fazer uma autocr\u00edtica do per\u00edodo em que funcionaram como bombeiros da luta de classes e tamb\u00e9m porque est\u00e3o t\u00e3o vinculadas com a institucionalidade que romper com esse padr\u00e3o seria o mesmo que decretar sua fal\u00eancia; as do sindicalismo amarelo porque o acirramento da luta de classes os varrer\u00e1 da conjuntura. Mesmo enfrentando as m\u00e1fias sindicais e os jagun\u00e7os que esses dois polos sempre utilizam nas elei\u00e7\u00f5es sindicais para se manter no poder, as organiza\u00e7\u00f5es classistas v\u00eam crescendo, muito embora num n\u00edvel aqu\u00e9m das necessidades da luta de classes no Brasil. Essa transi\u00e7\u00e3o levar\u00e1 certo tempo para ser conclu\u00edda, mas \u00e9 inevit\u00e1vel a mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as com a ascens\u00e3o das lutas sociais.<\/li>\n<li>Apesar do enorme grau de insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com o governo, as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e classistas ainda n\u00e3o conseguiram construir um programa unificado e uma unidade org\u00e2nica que as possibilitassem atuar de maneira unificada na conjuntura, de forma a transformar a indigna\u00e7\u00e3o popular em luta organizada e unificada contra o governo. At\u00e9 agora as velhas organiza\u00e7\u00f5es do ciclo anterior, por terem mais recursos financeiros e os aparatos sindicais, ainda exercem hegemonia sobre o formato e o destino das lutas. Como n\u00e3o est\u00e3o interessadas em derrubar o governo, mas apenas desgast\u00e1-lo para facilitar a volta de Lula, fingem que lutam e assim prestam um enorme desservi\u00e7o ao enfrentamento efetivo com os golpistas. S\u00f3 a firme ascens\u00e3o das lutas sociais pode mudar essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, proporcionando que as for\u00e7as revolucion\u00e1rias e classistas assumam a dire\u00e7\u00e3o do movimento.<\/li>\n<\/ol>\n<p><b>Um novo ciclo e as possibilidades<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas quest\u00f5es, \u00e9 importante ressaltar ainda que estamos iniciando um novo ciclo de lutas sociais, que come\u00e7ou com as jornadas de junho de 2013 e prossegue atualmente, mesmo com avan\u00e7os e recuos, como \u00e9 natural em qualquer ciclo de lutas. Ao longo desse novo ciclo ocorreu uma s\u00e9rie de lutas que mostraram a disposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e da juventude para a mudan\u00e7a. N\u00e3o se podem esquecer as ocupa\u00e7\u00f5es dos secundaristas, jovens entre 13 e 17 anos, sem experi\u00eancia na luta de classes, que derrotaram o governo estadual mais reacion\u00e1rio do pa\u00eds, h\u00e1 mais de 20 anos no poder no Estado de S\u00e3o Paulo e conseguiram ainda a fa\u00e7anha de unificar toda a esquerda e as for\u00e7as progressistas em torno dessa luta. Poucos acreditavam que adolescentes tivessem condi\u00e7\u00f5es de realizar tamanha fa\u00e7anha, mas eles ousaram lutar e conseguiram vencer.<\/p>\n<p>Posteriormente, seguiram-se ocupa\u00e7\u00f5es de escolas, universidades e institutos federais em todo o Brasil, agora incorporando a luta contra o governo usurpador de Michel Temer. Ocorreram ainda manifesta\u00e7\u00f5es de massa espont\u00e2neas contra o governo como na inaugura\u00e7\u00e3o das olimp\u00edadas e nos est\u00e1dios de futebol. Tamb\u00e9m foram realizadas manifesta\u00e7\u00f5es de rua e dias nacionais de manifesta\u00e7\u00f5es e greves, at\u00e9 chegarmos ao ponto de realizar a maior greve geral do pa\u00eds, com cerca de 40 milh\u00f5es de trabalhadores paralisando as atividades. Em seguida, o movimento sofreu grande derrota quando outra greve geral marcada para o dia 30 de junho fracassou em fun\u00e7\u00e3o da trai\u00e7\u00e3o do sindicalismo amarelo e do corpo mole das centrais que outrora foram combativas e agora est\u00e3o mais preocupadas com as elei\u00e7\u00f5es de 2018 do que com o ascenso do movimento oper\u00e1rio e popular.<\/p>\n<p>Mas a luta de classes \u00e9 assim mesmo, tem avan\u00e7os e recuos. O importante \u00e9 entender o sentido maior do movimento e suas perspectivas. Em algum momento as massas retomar\u00e3o as lutas porque um ciclo quando se abre tem tr\u00eas possibilidades: pode ser derrotado, cooptado ou pode vencer. No Brasil j\u00e1 tivemos exemplos cl\u00e1ssicos desses processos: o ciclo que se abriu no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo passado, com as lutas dos trabalhadores urbanos, dos estudantes e dos camponeses, foi derrotado pelo golpe militar de 1964. O outro ciclo que se iniciou com as greves do ABC e que contribuiu para a derrota da ditadura e formou organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticos que enfrentaram bravamente o capital, foi cooptado nos governos do PT. Portanto, o ciclo inaugurado em 2013 pode ser considerado uma obra aberta, tendo em vista o acirramento da luta de classes no pa\u00eds, a impopularidade do governo Temer, a ofensiva do capital contra os direitos e garantias dos trabalhadores e a insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada contra a situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Nessa conjuntura, um incidente qualquer pode funcionar como uma fa\u00edsca que pode fazer explodir a indigna\u00e7\u00e3o social.<a name=\"m_516006636433773459_m_1566252020483168187__GoBack\"><\/a><\/p>\n<p>Em outras palavras, a conflu\u00eancia da crise nas \u00e1reas da economia, na pol\u00edtica e nas rela\u00e7\u00f5es sociais, misturada com as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 grande insatisfa\u00e7\u00e3o da sociedade, a impopularidade do governo e as demandas reprimidas da popula\u00e7\u00e3o, podem levar \u00e0 emerg\u00eancia de um levante social no pa\u00eds. Aparentemente, est\u00e1 tudo calmo, com uma popula\u00e7\u00e3o passiva diante do que est\u00e1 acontecendo. Mas isso \u00e9 apenas a apar\u00eancia do fen\u00f4meno, pois nos subterr\u00e2neos da luta de classes o movimento pode ser diferente. Podemos estar naqueles momentos em que a calmaria antecede a tempestade. Vale lembrar que a emerg\u00eancia de levantes e explos\u00f5es sociais s\u00e3o dif\u00edceis de detectar. Os \u00faltimos que aconteceram no Brasil n\u00e3o foram percebidos por nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica ou social e ocorreram com elevado grau de espontaneidade, como a luta pelas <i>diretas j\u00e1,<\/i> o <i>impeachment de Collor<\/i>, as <i>manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013.<\/i> No entanto, na conjuntura que estamos vivendo, torna-se realista prever a emerg\u00eancia de novas e intensas lutas sociais pelas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas da crise brasileira e do grau de acirramento da luta de classes no pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>As tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria e classista<\/b><\/p>\n<p>Diante dessas condi\u00e7\u00f5es, que fazer? Antes de tudo, \u00e9 importante ressaltar que a emerg\u00eancia das explos\u00f5es sociais \u00e9 dif\u00edcil de perceber porque trata-se de processo que se forma silenciosamente no interior das contradi\u00e7\u00f5es da sociedade e s\u00f3 vem \u00e0 tona quando est\u00e3o maduras todas contradi\u00e7\u00f5es sobre as quais estava assentado. Outro fator que problematiza a percep\u00e7\u00e3o dos levantes sociais \u00e9 o fato de que, mesmo que algu\u00e9m ou alguma for\u00e7a pol\u00edtica tenha capacidade de prev\u00ea-los ou pelo menos intuir a sua emerg\u00eancia, dificilmente consegue impor esse ponto de vista, porque se trata de processo que n\u00e3o se pode aferir objetivamente e, portanto, essas previs\u00f5es logo s\u00e3o classificadas pelas for\u00e7as pol\u00edticas como previs\u00e3o subjetiva, confus\u00e3o entre a vontade e a realidade e coisas do g\u00eanero. Em pouqu\u00edssimas ocasi\u00f5es se obteve um consenso majorit\u00e1rio sobre esta quest\u00e3o. Portanto, o que estamos defendendo est\u00e1 sujeito a esse conjunto de problematiza\u00e7\u00f5es, mas isso n\u00e3o impede de colocar a quest\u00e3o, buscando argumentos objetivos para sustentar essa tese.<\/p>\n<p>Se o que estamos intuindo estiver correto, ent\u00e3o \u00e9 fundamental elencarmos algumas linhas de a\u00e7\u00e3o para que se possa atuar com algum \u00eaxito na conjuntura. Mas antes, \u00e9 importante fazermos duas advert\u00eancias: a) sabemos perfeitamente que vivemos uma conjuntura dif\u00edcil, mas os revolucion\u00e1rios est\u00e3o na luta para resolver problemas dif\u00edceis. Se a vida fosse f\u00e1cil para n\u00f3s j\u00e1 ter\u00edamos conquistado o socialismo. Portanto, nosso destino \u00e9 trabalhar sempre em conjuntura dif\u00edceis; b) da mesma forma, os revolucion\u00e1rios n\u00e3o devem ter medo das crises. As crises s\u00e3o dolorosas, desagregadoras, mas tamb\u00e9m abrem janelas de oportunidades para os movimentos sociais e pol\u00edticos emergirem com for\u00e7a e vale lembrar que todas as grandes mudan\u00e7as na hist\u00f3ria da humanidade foram realizadas nos momentos de grande crise. Portanto, crise e dificuldade n\u00e3o devem ser motivos para prostra\u00e7\u00e3o, inatividade ou des\u00e2nimo. Pelo contr\u00e1rio, devemos ampliar a criatividade, reorganizar for\u00e7as para enfrentar a crise e buscar uma solu\u00e7\u00e3o do ponto de vista das for\u00e7as populares.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, duas principais tarefas se imp\u00f5em para as for\u00e7as revolucion\u00e1rias e classistas: a) reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda, constru\u00e7\u00e3o de um campo que construa um programa m\u00ednimo unit\u00e1rio para a nossa classe e que enfrente a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o derrotada ideologicamente no ciclo anterior mas ainda com forte presen\u00e7a nos aparatos de classe; b) reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e popular, a partir das bases, com a retomada dos sindicatos para o campo classista, das entidades estudantis para o campo da luta, intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho de organiza\u00e7\u00e3o nos bairros a partir de suas reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas dos moradores, al\u00e9m de dar um novo sentido \u00e0s suas associa\u00e7\u00f5es e entidades representativas. N\u00e3o se pode esquecer que \u00e9 nos bairros onde mora a imensa maioria dos trabalhadores e da juventude. S\u00e3o tarefas dif\u00edceis que exigem paci\u00eancia, disposi\u00e7\u00e3o para a luta, trabalho de formiguinha para se alcan\u00e7ar resultados s\u00f3lidos. Mas em conjunturas velozes como a que estamos vivendo, o \u00eaxito nesse trabalho pode vir muito mais r\u00e1pido do que imagina a v\u00e3 filosofia da acomoda\u00e7\u00e3o. Vejamos cada uma dessas tarefas:<\/p>\n<ol>\n<li><i>Reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as revolucion\u00e1rias e classistas e constru\u00e7\u00e3o do programa<\/i>. Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, sozinha, tem condi\u00e7\u00f5es de realizar as transforma\u00e7\u00f5es que o Brasil necessita. Por isso, entendemos como fundamental o fortalecimento das frentes de esquerda, hoje ainda embrion\u00e1rias, as a\u00e7\u00f5es conjuntas no movimento de massas, de forma a que, em algum momento da luta de classes n\u00e3o muito distante, se chegue a um consenso sobre a necessidade de um <i>Encontro Nacional do Movimento Sindical e Popular <\/i>para que se inicie a constru\u00e7\u00e3o de um programa m\u00ednimo unit\u00e1rio dessas for\u00e7as e, a partir desse acordo, a constru\u00e7\u00e3o de uma frente org\u00e2nica de esquerda com capacidade de atuar unitariamente no movimento sindical e popular. Um acordo dessa ordem significaria um salto de qualidade na atua\u00e7\u00e3o junto aos movimentos sociais e pol\u00edticos e uma sinaliza\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para o proletariado, a juventude e o povo pobre dos bairros de que agora possuem uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capaz de unificar as lutas e coloc\u00e1-los em movimento.<\/li>\n<li>Com a esquerda unida organicamente e com um programa m\u00ednimo ser\u00e1 mais f\u00e1cil a iniciativa de <i>reconstru\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e popular a partir das bases, <\/i>porque evitaria a dispers\u00e3o e a atomiza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as por parte de v\u00e1rios grupos e partidos de esquerda. Concentraria recursos humanos e materiais nas disputas pol\u00edticas e proporcionaria uma grande sinergia revolucion\u00e1ria na milit\u00e2ncia. Em algum momento a ascens\u00e3o do movimento social vai levar todas as for\u00e7as revolucion\u00e1rias e classistas, pelo menos aquelas que n\u00e3o s\u00e3o autoproclamat\u00f3rias, nessa dire\u00e7\u00e3o, mas seria importante que as lideran\u00e7as dos partidos revolucion\u00e1rios e movimentos sociais classistas se antecipassem a esse momento e desde j\u00e1 preparassem as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para que essa conjuntura se transforme em realidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do programa, a unidade org\u00e2nica da esquerda e a reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento sindical e popular n\u00e3o t\u00eam nenhuma contradi\u00e7\u00e3o com a frente \u00fanica contra a quadrilha que tomou o poder no Planalto e vem realizando a ofensiva contra os trabalhadores e a juventude. Uma coisa \u00e9 a luta contra o inimigo comum na atual conjuntura, outra \u00e9 a disputa salutar e democr\u00e1tica por hegemonia no movimento social e pol\u00edtico. Na disputa mais geral todos est\u00e3o juntos, mas \u00e9 natural que existam diverg\u00eancias entre os componentes da frente \u00fanica. A pr\u00f3pria luta de classes vai se encarregar de clarear as diversas posi\u00e7\u00f5es das for\u00e7as pol\u00edticas e sociais, ultrapassando aquilo que n\u00e3o corresponde mais \u00e0 realidade e criando uma nova din\u00e2mica na luta social e pol\u00edtica, evidentemente com a vit\u00f3ria das posi\u00e7\u00f5es com maior ader\u00eancia \u00e0 realidade. O importante \u00e9 que o campo revolucion\u00e1rio e classista encontre a unidade e programa m\u00ednimo para apresentar \u00e0 sociedade uma alternativa tanto \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes quanto \u00e0 direita e o capital, de forma a colocar os trabalhadores, a juventude e o povo pobre dos bairros em movimento para as transforma\u00e7\u00f5es sociais no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17995\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,26],"tags":[219,246],"class_list":["post-17995","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-c25-notas-politicas-do-pcb","tag-manchete","tag-np"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Gf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17995\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}