{"id":18034,"date":"2017-12-24T14:21:23","date_gmt":"2017-12-24T17:21:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18034"},"modified":"2018-03-06T17:15:42","modified_gmt":"2018-03-06T20:15:42","slug":"em-tempos-de-crise-um-convite-conversar-sobre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18034","title":{"rendered":"Em tempos de crise, um convite a conversar sobre n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Em tempos de crise, um convite a conversar sobre n\u00f3s\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/sp23100145.jpg\" alt=\"Em tempos de crise, um convite a conversar sobre n\u00f3s\" \/><!--more-->por Marianna Rodrigues*<\/p>\n<p>N\u00f3s, comunistas, tendemos a observar todo per\u00edodo de crise como possibilidades abertas \u2013 seja para as revolucion\u00e1rias e os revolucion\u00e1rios, de organizar a classe e avan\u00e7ar na estrat\u00e9gia socialista, seja para os reacion\u00e1rios e conservadores, de impor brutalmente sua pol\u00edtica de domina\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da ordem capitalista. Ali\u00e1s, sabemos que essas crises s\u00e3o parte constituinte deste sistema, de modo que, periodicamente, mesmo que para setores da classe trabalhadora pare\u00e7a estar ocorrendo algum tipo de melhoria de vida, logo aparecem pacotes de reforma, retiradas de direitos, corte de verbas e todo o instrumental necess\u00e1rio para manter intoc\u00e1veis as fortunas dos patr\u00f5es e seus agentes pol\u00edticos, ao passo que ao povo trabalhador restam as migalhas.<\/p>\n<p>Em nota recente escrita pelo camarada Edmilson Costa, secret\u00e1rio geral do PCB, todos esses elementos sobre o momento pol\u00edtico brasileiro s\u00e3o descritos com maior qualidade \u2013 o que ele denomina de &#8220;reflex\u00f5es sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria no Brasil&#8221;. (Link: https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/17995\/decifra-me-ou-te-devoro-reflexoes-sobre-crise-atual-e-as-tarefas-da-esquerda-revolucionaria-no-brasil). O que proponho, contudo, como complemento \u00e0s an\u00e1lises pol\u00edticas atuais, \u00e9 buscarmos compreender como este momento tem afetado os modos de subjetiva\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, isto \u00e9, como nossa classe incorpora, para si, os elementos estruturais desta crise.<\/p>\n<p>\u00c9 que, ultimamente, t\u00eam sido cada dia mais gritante as dificuldades objetivas e subjetivas que dificultam o processo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo, sobretudo no que se refere a encontrar um sentido nas lutas pol\u00edticas atuais. Ainda que o novo ciclo de lutas iniciado em 2013, ano ap\u00f3s ano, traga \u00e0 tona novos sujeitos pol\u00edticos e consiga massificar in\u00fameras pautas com a\u00e7\u00f5es de rua, a continuidade das lutas \u2013 ou o que podemos chamar de &#8220;organicidade na vida pol\u00edtica&#8221; \u2013 \u00e9 uma lacuna constante. Uma resposta muito frequente para isso \u00e9 de que &#8220;as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tradicionais&#8221; estariam &#8220;desgastadas&#8221;, e seu modo interno de funcionar n\u00e3o seria suficiente para agregar os novos sujeitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ignorar essas cr\u00edticas, pois, de fato, as novas din\u00e2micas da luta de classes trazem consigo tamb\u00e9m novos desafios para as\/os comunistas e seu modo de organizar-se. No entanto, seria de uma simplifica\u00e7\u00e3o absurda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 complexidade atual da sociedade direcionar a cr\u00edtica, exclusivamente, aos partidos revolucion\u00e1rios e seu modo supostamente &#8220;tradicional&#8221; de funcionar.<\/p>\n<p>Vivemos a era da consolida\u00e7\u00e3o plena do capitalismo monopolista, das reformas neoliberais que avan\u00e7am violentamente, de processos profundos de recoloniza\u00e7\u00e3o, da m\u00e1xima de que cada pessoa deve ser &#8220;a empresa de si mesmo&#8221;. Com essa filosofia imposta em todas as institui\u00e7\u00f5es presentes em nossas vidas (escolas, fam\u00edlias, trabalho&#8230;), a tend\u00eancia \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos cada vez mais &#8220;individualizados&#8221;, totalmente assujeitados, voltados para uma l\u00f3gica mercantil de gerir suas vidas e cuja forma de conduzir seu futuro \u00e9 pensar, primeiro, na sua sobreviv\u00eancia e, se houver espa\u00e7o para outra coisa, normalmente \u00e9 como ter maior comodidade\/qualidade de vida \u2013 quem sabe um carro para n\u00e3o ter de enfrentar a p\u00e9ssima qualidade do transporte coletivo; quem sabe uma faculdade \u00e0 dist\u00e2ncia para ter o diploma sem gastar tanto, porque as vagas nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o poucas; quem sabe voltar a trabalhar s\u00f3 no fim do seguro desemprego, j\u00e1 que nunca tiro f\u00e9rias e assim por diante&#8230;<\/p>\n<p>Devemos esbravejar frente a esta busca insaci\u00e1vel pelo sossego em que encontramos boa parte da classe trabalhadora brasileira? N\u00e3o, de forma alguma! Talvez at\u00e9 possamos concluir que esta \u00e9 uma forma bastante elementar de responder ao que chamamos de reifica\u00e7\u00e3o&#8230; Ora, se tudo gira em torno da mercadoria, ent\u00e3o s\u00e3o poucos os escapes poss\u00edveis para uma certa preserva\u00e7\u00e3o de si mesmo. \u00c9 poss\u00edvel dizer, nesse sentido, que um dos maiores desafios da milit\u00e2ncia comunista neste s\u00e9culo \u00e9 transformar todas essas &#8220;filosofias de si&#8221; em um horizonte &#8220;para n\u00f3s&#8221;. E, na pr\u00e1xis cotidiana das organiza\u00e7\u00f5es de base, isso se manifesta na constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os pol\u00edticos mais acolhedores, em que os contatos iniciais com a vida pol\u00edtica n\u00e3o sejam uma extens\u00e3o da l\u00f3gica hegem\u00f4nica (qual seja, da disputa \u00e1cida, da picuinha, da necessidade de respostas imediatas pra tudo, etc). Al\u00e9m disso, devemos aprender com determinados movimentos de combate \u00e0s opress\u00f5es \u2013 de mulheres, LGBTs e negritude, dentre outros \u2013, que v\u00eam crescendo dia ap\u00f3s dia. Embora haja muita disputa entre suas diferentes fra\u00e7\u00f5es, \u00e9 comum encontrarmos nesses movimentos muitos espa\u00e7os voltados ao fortalecimento coletivo de cada militante, sempre em torno de muito companheirismo. Ningu\u00e9m decidir\u00e1 iniciar sua vida pol\u00edtica em espa\u00e7os onde o desgaste seja maior do que o que j\u00e1 vive no dia a dia brutal do capitalismo.<\/p>\n<p>Outro elemento bastante evidente atualmente \u00e9 a depress\u00e3o, quase como um mal do s\u00e9culo. Antes tida como &#8220;doen\u00e7a de ricos&#8221; ou &#8220;frescura&#8221;, a depress\u00e3o assola um conjunto imenso da classe trabalhadora e juventude, inclusive de quem j\u00e1 milita organicamente. E n\u00e3o teria como ser diferente: seguindo \u00e0 l\u00f3gica da busca insaci\u00e1vel pelo sossego, o que as pessoas se deparam, na verdade, \u00e9 com o aumento da jornada de trabalho e estudo, a dificuldade de ter um teto para viver, o medo de andar sozinha nas ruas, a falta de dinheiro para acessar o lazer, dentre in\u00fameros fatores. A l\u00f3gica de ser &#8220;uma empresa de si&#8221;, al\u00e9m de n\u00e3o funcionar objetivamente, subjetivamente \u00e9 tamb\u00e9m bastante perversa, levando a uma dosagem alta de medicamentos para suportar o dia-a-dia competitivo e\/ou ma\u00e7ante (ningu\u00e9m pode parar!), \u00e0 solid\u00e3o, ao des\u00e2nimo. Enfim, este texto n\u00e3o tem nenhuma pretens\u00e3o de trazer os elementos t\u00e9cnico-psicol\u00f3gicos do que significa a depress\u00e3o, mas sim de enunciar alguns &#8220;sintomas&#8221; geradores de dificuldade quando falamos em &#8220;organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio atual, de golpe parlamentar, de repress\u00e3o violenta \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de rua, de ascens\u00e3o de grupos de direita conservadores e liberais, tudo isso somado aos males estruturantes do capitalismo neoliberal (que levam ao assujeitamento, \u00e0 depress\u00e3o), o desafio das comunistas e dos comunistas \u00e9 bem maior do que fornecer um programa pol\u00edtico m\u00ednimo ao povo brasileiro. Precisamos resgatar os princ\u00edpios fundantes da pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria, de solidariedade para\/com a classe e rebeldia contra os dominantes! Precisamos valorizar o trabalho de base como algo maior do que a realiza\u00e7\u00e3o de plen\u00e1rias, panfletagens e espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Tudo isso \u00e9 fundamental, mas, em paralelo, diante de uma sociedade que tra\u00e7a seu futuro totalmente dentro das amarras do capital, \u00e9 preciso abrir fissuras, saber que o povo est\u00e1 cansado, deprimido, pensando no seu clube do cora\u00e7\u00e3o que est\u00e1 rebaixado ou que foi campe\u00e3o&#8230; Quem sabe ache um tempo para ir \u00e0 igreja ao final do dia, agradecer pelo pouco que tem e implorar por uma vida melhor&#8230; Quem sabe v\u00e1 encher-se de cerveja no bar de litr\u00e3o barato&#8230; Podemos encontrar esta entidade abstrata \u2013 &#8220;o povo&#8221; \u2013 em qualquer lugar, e todo este lugar ser\u00e1 um espa\u00e7o de di\u00e1logo. E dialogando com &#8220;o povo&#8221; tamb\u00e9m descobriremos que, mesmo distantes das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a indigna\u00e7\u00e3o com o sistema \u00e9 latente.<\/p>\n<p>Justamente por isso n\u00e3o podemos \u00e9 silenciar-nos neste momento. As dificuldades s\u00e3o imensas, somos poucos e nossas pernas parecem cansadas. A boa not\u00edcia \u00e9 que o saldo pol\u00edtico do PCB e seus coletivos partid\u00e1rios no \u00faltimo per\u00edodo \u00e9 extremamente positiva: somos poucos, mas j\u00e1 somos muito mais do que nos \u00faltimos anos; e nosso crescimento n\u00e3o \u00e9 apenas quantitativo, vide a qualidade pol\u00edtica da mais jovem secundarista ao mais experiente sindicalista que tem integrado nossas fileiras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se, por um lado, muitos novos sujeitos n\u00e3o t\u00eam visto um partido revolucion\u00e1rio como o PCB como alternativa, o grande fato \u00e9 que tantos outros est\u00e3o. E neste balan\u00e7o dentre os que ainda n\u00e3o vieram, e aqueles que rec\u00e9m chegaram, a verdade \u00e9 que a m\u00e1xima de que &#8220;o comunismo \u00e9 a juventude do mundo&#8221; mant\u00e9m-se firme. Somos a juventude do mundo porque trazemos conosco um projeto revolucion\u00e1rio, capaz de tirar o povo de sua depress\u00e3o e organizar sua indigna\u00e7\u00e3o, para superar este per\u00edodo de barb\u00e1rie em que vive nossa classe na sociedade do capital.<\/p>\n<p>*Marianna Rodrigues \u00e9 militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, e integrante do Comit\u00ea Regional do PCB-RS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18034\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-18034","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4GS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18034"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18034\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18034"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18034"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}