{"id":18041,"date":"2017-12-26T11:01:39","date_gmt":"2017-12-26T14:01:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18041"},"modified":"2017-12-26T11:53:15","modified_gmt":"2017-12-26T14:53:15","slug":"depressao-como-fenomeno-social-no-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18041","title":{"rendered":"A depress\u00e3o como fen\u00f4meno social no capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"A depress\u00e3o como fen\u00f4meno social no capitalismo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.esquerdadiario.com.br\/local\/cache-vignettes\/L653xH410\/arton20578-842b4.jpg?1513770118\" alt=\"A depress\u00e3o como fen\u00f4meno social no capitalismo\" \/><!--more-->Atualmente, o termo \u201cdepress\u00e3o\u201d tem se igualado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de tristeza e pouco se entende sobre seu fator social, j\u00e1 que as tend\u00eancias da psiquiatria abordam a doen\u00e7a a partir de um ponto de vista biol\u00f3gico e individual<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/A-depressao-como-fenomeno-social-no-capitalismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ESQUERDA DI\u00c1RIO<\/a><\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), calcula-se que a depress\u00e3o afeta mais de 300 milh\u00f5es de pessoas no mundo, que cerca de 800.000 pessoas se suicidam a cada ano, que 78% dos suic\u00eddios ocorrem em pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda, e que o suic\u00eddio \u00e9 a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o inclui sintomas como perda do sentido da vida, inibi\u00e7\u00e3o, desesperan\u00e7a, sentimentos de vazio, infelicidade, um mal estar indefin\u00edvel e generalizado, desinteresse pelo cuidado pessoal e por atividades que antes eram gratificantes, ins\u00f4nia ou hipers\u00f4nia, fatiga ou perda de energia, dores de cabe\u00e7a, transtornos alimentares, diminui\u00e7\u00e3o do desejo sexual, dificuldade de racioc\u00ednio e concentra\u00e7\u00e3o, ansiedade, sentimentos de culpa, inutilidade e de um profundo e incontrol\u00e1vel sofrimento.<\/p>\n<p>Algumas de suas consequ\u00eancias s\u00e3o o abandono do trabalho ou dos estudos, conflitos conjugais e\/ou familiares, alcoolismo e depend\u00eancia de drogas; do mesmo modo, a depress\u00e3o n\u00e3o equivale a suic\u00eddio, mas este \u00e9 uma possibilidade em casos graves. O n\u00edvel depressivo \u2013 leve, moderado ou grave \u2013 depender\u00e1 do hist\u00f3rico ps\u00edquico de cada sujeito e dos recursos com os quais possa contar, como as redes de apoio de familiares e amigos.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, os \u00edndices de suic\u00eddio aumentaram catastroficamente, j\u00e1 que no ano de 1994 foram registrados 2.603 suic\u00eddios e, em 2016, estes n\u00fameros cresceram aproximadamente 200%, com 6.370 suic\u00eddios registrados. De acordo com dados do \u00f3rg\u00e3o mexicano Instituto Nacional de Estad\u00edstica y Geograf\u00eda (INEGI 2017), 41,3% destas mortes correspondem a jovens de 15 a 29 anos e 3,7% correspondem a adolescentes de 10 a 14 anos de idade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"INEGI Estat\u00edsticas de mortalidade\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.esquerdadiario.com.br\/local\/cache-vignettes\/L653xH409\/grafico-2-292d5.png\" alt=\"INEGI Estat\u00edsticas de mortalidade\" \/>Al\u00e9m disso, \u00e9 importante destacar que 8 a cada 10 suic\u00eddios no M\u00e9xico foram cometidos no interior de domic\u00edlios particulares (76,2%), segundo dados do INEGI.<\/p>\n<p>O tabu da depress\u00e3o e seu fator social<\/p>\n<p>Parece um paradoxo que, por um lado, o termo \u201cdepress\u00e3o\u201d seja cada vez mais utilizado e igualado \u00e0 tristeza ocasional, mas por outro siga sendo um tabu que \u201cdeve\u201d ser enfrentado em segredo e de maneira individual \u2013 como se sua apari\u00e7\u00e3o fosse um tra\u00e7o unicamente individual! Tal tabu converte a depress\u00e3o em sin\u00f4nimo de suic\u00eddio, o que se torna um risco para os que dela padecem e s\u00e3o vistos com empatia.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que a depress\u00e3o e suas consequ\u00eancias, como o suic\u00eddio, tenham se convertido em uma das principais \u201cdoen\u00e7as do s\u00e9culo 21\u201d e uma das principais causas de morte \u2013 ou que ser\u00e1 num futuro pr\u00f3ximo \u2013, em especial para um amplo setor da juventude trabalhadora que v\u00ea quebradas suas esperan\u00e7as de ter uma vida digna, j\u00e1 que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho em que os jovens se inserem a cada dia s\u00e3o mais golpeadas.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o tem m\u00faltiplos elementos que n\u00e3o podem ser generalizados porque dependem de cada sujeito, como seu hist\u00f3rico familiar e ps\u00edquico; contudo, o fator social \u00e9 determinante no seu desencadeamento e perman\u00eancia. Como explica Ana Mar\u00eda Fernandez em seu livro J\u00f3venes de vidas grises (\u201cJovens com vidas cinzas\u201d), n\u00e3o se pode isolar o contexto social que impossibilita \u00e0 juventude um planejamento de seu futuro, como t\u00eam feito as economias neoliberais que instituem na subjetividade uma quebra de esperan\u00e7a coletiva, o que corresponde a \u201ctoda uma estrat\u00e9gia biopol\u00edtica de vulnerabiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tais condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser explicadas sem se compreender o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista que a cada dia \u00e9 mais voraz, que busca aumentar seus lucros precarizando e empobrecendo a vida da classe trabalhadora de conjunto \u2013 somente no M\u00e9xico h\u00e1 mais de 50 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. E \u00e9 neste cen\u00e1rio que a juventude se insere num mundo competitivo e a cada vez mais individualista \u2013 este setor representa um amplo ex\u00e9rcito de reserva no mundo do trabalho e enfrenta cada vez maiores dificuldades para estudar, j\u00e1 que possui as piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e menos de 15% dos que prestam vestibulares para a universidade t\u00eam acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O transtorno depressivo e seu crescimento brutal parecem mais ser um sintoma de uma \u00e9poca que reflete a pouca esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, causada pelas condi\u00e7\u00f5es cada vez mais insustent\u00e1veis nas quais vive a classe trabalhadora. N\u00e3o \u00e9 de se espantar que este setor sinta um profundo des\u00e2nimo e tenda \u00e0 depress\u00e3o cr\u00f4nica ou ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Como mostram os dados, a maioria dos suic\u00eddios ocorre no \u00e2mbito privado, mas tamb\u00e9m existem casos em que claramente se nota o determinante social, como aconteceu em 2012 com Dimitris Christoulas, o aposentado de 77 anos que se suicidou em frente ao parlamento grego. Em parte da carta encontrada nos bolsos do idoso que p\u00f4s fim \u00e0 sua vida, se lia:<\/p>\n<p>\u201cO Governo de Tsolakoglou aniquilou qualquer possibilidade de sobreviv\u00eancia para mim, que se baseava em uma pens\u00e3o de aposentadoria muito digna que eu havia pagado por conta pr\u00f3pria sem nenhuma ajuda do Estado durante 35 anos. E, dado que minha idade avan\u00e7ada n\u00e3o me permite reagir de outra maneira (ainda que, se um compatriota grego sacasse um kalashnikov [tipo de fuzil], eu o apoiaria), n\u00e3o vejo outra solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja p\u00f4r fim \u00e0 minha vida desta forma digna para que n\u00e3o tenha que acabar revirando lixeiras para poder sobreviver. Creio que os jovens sem futuro algum dia sacar\u00e3o as armas e as apontar\u00e3o boca abaixo aos traidores deste pa\u00eds na pra\u00e7a Syntagma, como os italianos fizeram com Mussollini em 1945.\u201d<\/p>\n<p>O capitalismo mostra a mais profunda barb\u00e1rie contra o conjunto da classe trabalhadora a n\u00edvel internacional. Por tal raz\u00e3o, dizemos: nossas vidas valem mais que seus lucros!<\/p>\n<p>Sobre a individualiza\u00e7\u00e3o da depress\u00e3o e a sa\u00edda realmente necess\u00e1ria<\/p>\n<p>Dentro do modelo hegem\u00f4nico da psiquiatria, a depress\u00e3o \u00e9 encarada a partir do ponto de vista biol\u00f3gico, individual, a-hist\u00f3rico e associal, que pressup\u00f5e uma altera\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica no c\u00e9rebro, como o desequil\u00edbrio dos neurotransmissores serotonina e norepinefrina.<\/p>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o contribui para que quem sofre desta doen\u00e7a n\u00e3o identifique claramente o que se passa, sofra em sil\u00eancio e se isole do mundo externo; al\u00e9m disso, fortalece a ideia de que seja um problema individual, e n\u00e3o social.<\/p>\n<p>No geral, o tratamento para essa problem\u00e1tica consiste na medica\u00e7\u00e3o prescrita em um discurso individual e que garante os lucros da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Estas medidas apenas buscam tapar o sol com a peneira e d\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o paliativa para os sintomas, mas n\u00e3o chegam \u00e0 raiz do problema. Cada vez \u00e9 mais frequente a medica\u00e7\u00e3o em idade precoce, seja em quadros infantis de depress\u00e3o, ins\u00f4nia ou \u201chiperatividade\u201d, o que faz com que os sujeitos sejam convertidos em seres d\u00f3ceis e produtivos. Se a pergunta \u00e9 como a medica\u00e7\u00e3o beneficia o capitalismo&#8230; a\u00ed est\u00e1 a resposta.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio construir e fortalecer os la\u00e7os familiares e sociais que se veem fragilizados pela competitividade, como podem ser os la\u00e7os de solidariedade entre os(as) trabalhadores(as), para que os sujeitos estejam melhor armados an\u00edmica e psiquicamente para enfrentar estas condi\u00e7\u00f5es. Qualquer solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o busque a transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade ser\u00e1 impotente, frente \u00e0 problem\u00e1tica que se desencadeia a partir da precariza\u00e7\u00e3o da vida e que nos arranca o desejo e o sentido de viver.<\/p>\n<p>Fontes:<br \/>\nAna Ma. Fern\u00e1ndez, J\u00f3venes de vidas grises: psicoan\u00e1lisis y biopol\u00edticas<br \/>\nLilia Esther Vargas (comp.), Lecturas de la depresi\u00f3n.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Laura Scisci<br \/>\nhttp:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/A-depressao-como-fenomeno-social-no-capitalismo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18041\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[228],"class_list":["post-18041","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4GZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18041"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18041\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}