{"id":18050,"date":"2017-12-26T11:17:44","date_gmt":"2017-12-26T14:17:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18050"},"modified":"2017-12-27T23:09:57","modified_gmt":"2017-12-28T02:09:57","slug":"acerca-do-imperialismo-em-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18050","title":{"rendered":"Acerca do imperialismo em Marx"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Acerca do imperialismo em Marx\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/patnaik\/imagens\/famine_token_1874_and_1876.jpg\" alt=\"Acerca do imperialismo em Marx\" \/><!--more-->por Prabhat Patnaik*<\/p>\n<p>Em 19 de fevereiro de 1881, Karl Marx escreveu uma <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1881\/letters\/81_02_19.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">carta not\u00e1vel a NF Danielson<\/a>, o famoso economista <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Narodnik\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i>Narodnik<\/i><\/a> que tamb\u00e9m assinava sob o nome de Nikolayon e cujo trabalho foi muito discutido por Lenin. Naquela carta Marx dizia o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Na <i>\u00cdndia, <\/i>graves complica\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o mesmo uma explos\u00e3o geral, aguardam o governo brit\u00e2nico. O que os ingleses tomam deles anualmente na forma de renda, dividendos por ferrovias in\u00fateis para os indianos, pens\u00f5es para o pessoal do servi\u00e7o militar e civil, para o Afeganist\u00e3o e outras guerras, etc, etc \u2013 o que tomam deles <i>sem qualquer equivalente <\/i>e sem considerar aquilo de que anualmente se apropriam <i>dentro <\/i>da \u00cdndia, mencionando apenas o <i>valor das commodities <\/i>que os indianos gratuitamente e anualmente t\u00eam de enviar para a Inglaterra \u2013 tudo isto representa <i>mais do que a soma total do rendimento de sessenta milh\u00f5es de trabalhadores agr\u00edcolas e industriais da \u00cdndia! <\/i>Isto \u00e9 um processo hemorr\u00e1gico, com uma vingan\u00e7a! Os anos de fome est\u00e3o pressionando uns contra os outros e em dimens\u00f5es at\u00e9 agora ainda n\u00e3o suspeitadas na Europa!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Este par\u00e1grafo \u00e9 not\u00e1vel por v\u00e1rias raz\u00f5es. Acima de tudo, porque \u00e9 a primeira vez em que Marx menciona a &#8220;drenagem do excedente&#8221; da \u00cdndia para a Gr\u00e3-Bretanha ou, mais generalizadamente, do terceiro mundo para as metr\u00f3poles. O fato de que o capital metropolitano procura mercados por todo o mundo e, por essa raz\u00e3o, derruba as &#8220;muralhas da China&#8221; de todas as sociedades at\u00e9 ent\u00e3o isoladas, isto \u00e9, o fato de que h\u00e1 um impulso imperialista subjacente \u00e0 busca de mercados por todo o terceiro mundo, fora reconhecido por Marx e Engels no pr\u00f3prio <i>Manifesto Comunista, <\/i>mas o fato de o imperialismo sugar o excedentes destas regi\u00f5es remotas n\u00e3o figurava em qualquer dos escritos anteriores de Marx.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, uma vez que este excedente ia al\u00e9m do que era apropriado &#8220;em casa&#8221; aos trabalhadores explorados pelo capital metropolitano, desempenhava claramente um papel de signific\u00e2ncia consider\u00e1vel, considerando a escala da extra\u00e7\u00e3o da \u00cdndia mencionada por Marx, na din\u00e2mica do capitalismo metropolitano. Por outras palavras, muito embora Marx n\u00e3o o diga explicitamente, torna-se claro a partir das suas observa\u00e7\u00f5es que a din\u00e2mica capitalista n\u00e3o poderia ser analisada sem considerar esta enorme extra\u00e7\u00e3o. Isto seria, se n\u00e3o exatamente o mesmo que encenar Hamlet sem o Pr\u00edncipe da Dinamarca, pelo menos que encenar Hamlet sem Claudius, o usurpador do Reino da Dinamarca.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, trata-se do \u00fanico reconhecimento em Marx de qualquer papel significativo do imperialismo na din\u00e2mica do capitalismo metropolitano, para al\u00e9m do palco da acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital. O imperialismo figura na discuss\u00e3o de Marx da acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital. Mas depois disso mal se v\u00ea que ele desempenhe qualquer papel significativo na sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Isto sempre foi um fato curioso, uma vez que ningu\u00e9m escreveu com maior conhecimento do que Marx, e com maior percep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, do que o capitalismo metropolitano fez <i>\u00e0s <\/i>economias colonizadas; e os seus sentimentos para com os povos colonizados eram palpavelmente cheios de simpatia. Mas h\u00e1 muito pouco em todos os tr\u00eas volumes do <i>Capital <\/i>acerca do impacto do imperialismo <i>sobre as economias metropolitanas. <\/i>No Volume III do <i>Capital <\/i>h\u00e1 alguma discuss\u00e3o do papel do com\u00e9rcio colonial para contrariar a tend\u00eancia de queda da taxa de lucro, mas em outros contextos h\u00e1 uma aus\u00eancia completa de qualquer papel assinalado por Marx para o imperialismo na sua an\u00e1lise do capitalismo metropolitano.<\/p>\n<p>O que \u00e9 particularmente estranho acerca desta aus\u00eancia \u00e9 que Marx estava escrevendo seus artigos seminais acerca do dom\u00ednio brit\u00e2nico na \u00cdndia para o <i>New York Daily Tribune <\/i>quase exatamente ao mesmo tempo em que trabalhava em <i>O Capital; <\/i>e sem d\u00favida suas visitas ao Museu Brit\u00e2nico que ele fazia nas investiga\u00e7\u00f5es sobre o <i>Capital <\/i>tamb\u00e9m eram utilizadas para desenterrar informa\u00e7\u00e3o sobre o impacto do dom\u00ednio brit\u00e2nico na \u00cdndia. E ainda assim n\u00e3o h\u00e1 qualquer tra\u00e7o no n\u00facleo central do argumento do <i>Capital <\/i>de qualquer impacto do dom\u00ednio brit\u00e2nico na \u00cdndia sobre a <i>economia brit\u00e2nica, <\/i>quase como se o dom\u00ednio brit\u00e2nico fosse apenas uma esp\u00e9cie de espet\u00e1culo secund\u00e1rio para o drama principal do capitalismo, como acontecera nos escritos de cl\u00e1ssicos da economia pol\u00edtica, especialmente de David Ricardo.<\/p>\n<p>O modelo de capitalismo analisado por Marx em <i>O Capital <\/i>\u00e9 para todos os prop\u00f3sitos pr\u00e1ticos o modelo de uma economia fechada e isolada. Certamente algu\u00e9m pode estender este modelo a fim de incorporar um relacionamento colonial, encarado essencialmente como providenciando um mercado onde bens metropolitanos s\u00e3o transformados para aqueles produtos do terceiro mundo os quais s\u00e3o exigidos pelas metr\u00f3poles. Mas o colonialismo como um fornecedor de excedente para a acumula\u00e7\u00e3o na metr\u00f3pole, exatamente no mesmo n\u00edvel do valor do excedente apropriado internamente aos trabalhadores, simplesmente n\u00e3o figura na an\u00e1lise. A carta a Danielson \u00e9 a primeira vez em que isso figura nos escritos de Marx.<\/p>\n<p>A quarta raz\u00e3o para a import\u00e2ncia desta carta \u00e9 deixar claro que Marx n\u00e3o v\u00ea o processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva como pertencendo apenas \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria do capitalismo; ele encara-a como algo que continua ao longo da hist\u00f3ria desse modo de produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 como se o capitalismo recorresse \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o primitiva s\u00f3 antes de come\u00e7ar a existir, mas que uma vez posto de p\u00e9 prosseguisse inteiramente na base da sua acumula\u00e7\u00e3o do valor excedente extra\u00eddo dos trabalhadores, nada mais tendo a ver com qualquer expropria\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias. Mais corretamente, o processo da acumula\u00e7\u00e3o primitiva continua atrav\u00e9s da sua hist\u00f3ria, ao longo do que se poderia chamar &#8220;acumula\u00e7\u00e3o normal&#8221;, isto, \u00e9, a acumula\u00e7\u00e3o de valor excedente apropriada dentro do sistema.<\/p>\n<p>Em suma, a carta a Danielson \u00e9 extremamente importante para marcar uma certa nova tend\u00eancia no pensamento de Marx. E levanta-se a quest\u00e3o: como \u00e9 que Marx chegou aos n\u00fameros mencionados naquela carta e aos componentes daquela &#8220;drenagem&#8221;? N\u00e3o obstante a sua extraordin\u00e1ria erudi\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o poderia ter chegado \u00e0queles n\u00fameros por si pr\u00f3prio, uma vez que era exigido um certo conhecimento especializado dos or\u00e7amentos indianos, para os quais ele dificilmente teria tempo. Como ent\u00e3o chegou a estas conclus\u00f5es?<\/p>\n<p>Uma pista para este puzzle \u00e9 dada pelo fato de que <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dadabhai_Naoroji\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dadabhai Naoroji<\/a>, o qual chegou a estes n\u00fameros e foi o primeiro a faz\u00ea-lo (j\u00e1 em 1867 apesar de a sua <i>magnum opus, Poverty and Un-British Rule in India, <\/i>ter sido publicada s\u00f3 em 1901) e Karl Marx partilhavam um amigo comum na pessoa de <a href=\"http:\/\/spartacus-educational.com\/TUhyndman.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">HM Hyndman<\/a>, que foi um homem de neg\u00f3cios pr\u00f3spero e se tornou um socialista comprometido depois de ler o <i>Manifesto <\/i>e o Volume 1 de <i>O Capital <\/i>e constituiu uma organiza\u00e7\u00e3o chamada Federa\u00e7\u00e3o Social Democr\u00e1tica. Marx e sua filha tiveram jantares na casa de Hyndman onde n\u00e3o \u00e9 inconceb\u00edvel que possam ter-se encontrado com Naoroji e discutido com ele a quest\u00e3o da &#8220;drenagem do excedente&#8221; da \u00cdndia. Mesmo que Marx e Naoroji n\u00e3o se tenham encontrado pessoalmente, \u00e9 mais do que prov\u00e1vel que as estimativas de Naoroji tenham sido passadas a Marx por Hyndman, o qual conhecia Naoroji h\u00e1 muitos anos e tinha acesso \u00e0s suas ideias.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguma evid\u00eancia interna deste contato, direto ou indireto, no texto da carta para Danielson. Hyndman escreveu um livro sobre as grandes fomes na \u00cdndia sob o dom\u00ednio brit\u00e2nico, para o qual consultou Naoroji a fim de obter fontes e evid\u00eancias factuais sobre a extens\u00e3o da pobreza. A liga\u00e7\u00e3o entre as fomes e a &#8220;drenagem&#8221; \u00e9 \u00f3bvia e deve ter figurado de forma t\u00e3o destacada na mente de Naoroji \u2013 e portanto tamb\u00e9m no pensamento de Hyndman \u2013 que a refer\u00eancia de Marx a &#8220;anos de fome&#8221; imediatamente depois de mencionar o &#8220;processo hemorr\u00e1gico&#8221; sugere um claro compartilhar de ideias.<\/p>\n<p>Marx morreu, infelizmente, apenas dois anos ap\u00f3s esta carta a Danielson e n\u00e3o teve tempo de desenvolver as ideias contidas na mesma. Mas aquela carta, a qual marca um ponto de viragem do pensamento de Marx, d\u00e1 testemunho da sua abertura mental, assim como do fato de que no seu pensamento havia um fluxo subterr\u00e2neo paralelo o qual permaneceu inexplorado at\u00e9 aquela data. Ela nega a vis\u00e3o mantida por muitos, inclusive <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Edward_Said\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Edward Said<\/a>, de que na sua an\u00e1lise Marx n\u00e3o era suficientemente sens\u00edvel a toda a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>24\/Dezembro\/2017<\/p>\n<p>Economista, indiano, ver <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Prabhat_Patnaik\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/peoplesdemocracy.in\/2017\/1224_pd\/marx-imperialism\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">peoplesdemocracy.in\/2017\/<wbr \/>1224_pd\/marx-imperialism<\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/patnaik\/patnaik_24dez17.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/resistir.info\/patnaik\/patnaik_24dez17.html<\/a><b><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18050\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[233],"class_list":["post-18050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4H8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18050\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}