{"id":18068,"date":"2017-12-26T11:50:02","date_gmt":"2017-12-26T14:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18068"},"modified":"2018-03-06T17:17:42","modified_gmt":"2018-03-06T20:17:42","slug":"ensinando-o-basico-de-economia-para-os-liberais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18068","title":{"rendered":"Ensinando o b\u00e1sico de economia para os liberais"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Ensinando o b\u00e1sico de economia para os liberais\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sites.google.com\/site\/economicphilosophersperiod\/_\/rsrc\/1320264610124\/karl-marx\/272711-15229-33.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"Ensinando o b\u00e1sico de economia para os liberais\" \/><!--more-->Por Jones Manoel*<\/p>\n<p>O Livres \u2013 Renova\u00e7\u00e3o do PSL publicou um texto afirmando que ter como principal pauta de produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o produtos prim\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 um problema. Criticando ideais vagamente industrializantes de Bolsonaro e Lula, o Livres produziu um quadro comparativo mostrando que outros pa\u00edses centrados em produtos prim\u00e1rios, no caso Chile, Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia e Hong Kong, tem uma renda per capita maior que o Brasil; esse argumento seria a prova emp\u00edrica que mostra que \u00e9 poss\u00edvel ter renda per capita alta mesmo sendo uma economia dependente da produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios. Na sequ\u00eancia do escrito, o Livres tenta reconstruir a \u201cteoria\u201d das \u201cvantagens comparativas\u201d que supostamente seria de David Ricardo. Resumindo a ideia, a ideologia das \u201cvantagens comparativas\u201d defende que cada pa\u00eds deve se especializar no que melhor produz, ou seja, no que consegue produzir com menor custo, maior efici\u00eancia e produtividade, e comprar os outros produtos, afinal, segundo o Livres, o com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 \u201cum jogo de soma zero\u201d: com regras livres e est\u00e1veis, sem a interfer\u00eancia do governo, todos os pa\u00edses ganham com o com\u00e9rcio internacional. Vamos explicar em detalhes os erros dessa vis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Renda per capita<\/strong><\/p>\n<p>A renda per capta \u00e9 basicamente a divis\u00e3o do n\u00famero total de habitantes de um pa\u00eds pela riqueza produzida medida em PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, voc\u00ea pega o valor do PIB e divide pelo total da popula\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 a renda per capita. Normalmente, pa\u00edses ditos desenvolvidos, isto \u00e9, pa\u00edses centrais do capitalismo, t\u00eam uma renda per capta alta. A partir disso, o Livres te induz a pensar que a economia do Chile, por exemplo, \u00e9 \u201cdesenvolvida\u201d. A renda per capita \u00e9 um dado que diz praticamente nada! Por qu\u00ea? Um pa\u00eds como o Brasil a renda per capita \u00e9 uma grande ilus\u00e3o dado o alt\u00edssima \u00edndice de desigualdade. A renda per capita n\u00e3o informa a capacidade de consumo m\u00e9dio (a nossa renda per capita \u00e9 de pouco mais de 8 mil d\u00f3lares, quando 80% da for\u00e7a de trabalho do pa\u00eds recebe at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos), o n\u00edvel de desigualdade de renda, o papel do pa\u00eds na divis\u00e3o internacional do trabalho, a capacidade produtiva da economia, o n\u00edvel de dom\u00ednio cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico etc. \u00c9 um dado que sozinho n\u00e3o revela nenhum aspecto da realidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, dos 193 pa\u00edses que existem no mundo, a maioria s\u00e3o pa\u00edses capitalistas dependentes ou perif\u00e9ricos que t\u00eam sua pauta de produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o concentrada em produtos prim\u00e1rios. O Livres de maneira desonesta selecionou uns poucos exemplos (a famosa exce\u00e7\u00e3o!) de pa\u00edses dependentes com renda per capita mediana maior que a brasileira ignorando que outros v\u00e1rios pa\u00edses, a imensa maioria, apresentam tend\u00eancia contr\u00e1ria \u00e0 Austr\u00e1lia, por exemplo. \u00c9 como se em uma pesquisa numa amostra de 200, 192 apresenta uma tend\u00eancia e 8 outra tend\u00eancia. A\u00ed voc\u00ea conclui que a tend\u00eancia correta \u00e9 a exibida pelas 8 amostras e ignora o resto. O sentido antil\u00f3gico disso \u00e9 evidente.<\/p>\n<p>O Livres, tamb\u00e9m de forma desonesta, s\u00f3 lecionou pa\u00edses com baix\u00edssima densidade populacional, isto \u00e9, s\u00f3 escolheu pa\u00edses com poucos habitantes. Como a renda per capita \u00e9 uma divis\u00e3o entre o n\u00famero total de habitantes por riqueza medida em PIB, pa\u00edses com baixa popula\u00e7\u00e3o tendencialmente v\u00e3o apresentar renda per capita maior. A Austr\u00e1lia tem 20 milh\u00f5es de habitantes, o Chile 15 milh\u00f5es e a Nova Zel\u00e2ndia 4,4 milh\u00f5es. Junte a popula\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas pa\u00edses e a regi\u00e3o sudeste do Brasil tem densidade populacional maior!<\/p>\n<p><strong>Entendeu a falsidade desse dado como usado pelo Livres?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Industrializa\u00e7\u00e3o e \u201cdesenvolvimento\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Sem elaborar muito teoricamente, buscando ser o mais did\u00e1tico poss\u00edvel, podemos dizer que uma caracter\u00edstica comum das economias ditas mais \u201cdesenvolvidas\u201d do mundo \u00e9 alt\u00edssima complexidade produtiva (ou seja, economias industrializadas), dom\u00ednio de ci\u00eancia e tecnologia com produ\u00e7\u00e3o em massa de patentes e infraestrutura eficiente e avan\u00e7ada. Pega os exemplos da Uni\u00e3o Europeia \u2013 especialmente os pa\u00edses centrais, como Alemanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia \u2013, Jap\u00e3o, China e EUA: nenhum desses pa\u00edses t\u00eam economias prim\u00e1rio-exportadoras e vive de importar produtos industrializados prontos. Evidentemente que existem formas e formas de industrializa\u00e7\u00e3o. O Brasil no s\u00e9culo XX passou por um grande processo de industrializa\u00e7\u00e3o chamada de \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica\u201d que n\u00e3o rompeu com a depend\u00eancia e o subdesenvolvimento. Como se pode explicar isso? Dentre uma s\u00e9rie de fatores, e buscando de novo simplificar, podemos dizer que dentro da divis\u00e3o internacional do trabalho, as ind\u00fastrias instaladas no Brasil eram as mais atrasadas, com menos tecnologias, menor produtividade do trabalho e as decis\u00f5es de investimento e aloca\u00e7\u00e3o de recursos eram feitas de acordo com o interesse das economias centrais \u2013 por exemplo: a f\u00e1brica da Fiat no Brasil monta o carro em nossa terra, mas a produ\u00e7\u00e3o de componentes rob\u00f3ticos, microeletr\u00f4nica etc. fica nos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>A despeito do fen\u00f4meno da \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica\u201d, uma coisa \u00e9 certa: \u00e9 imposs\u00edvel ser uma pot\u00eancia econ\u00f4mica sem alt\u00edssimo grau de complexidade produtiva, dom\u00ednio tecnol\u00f3gico e elevada produtividade do trabalho (inclusive, esse ponto \u00e9 meio \u00f3bvio, afinal, basta olhar as caracter\u00edsticas econ\u00f4micas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos EUA, as duas superpot\u00eancias do s\u00e9culo XX, e da economia que mais cresce no mundo, a China).<\/p>\n<p><strong>Vulnerabilidade econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o precisa entender muito de economia para saber que pa\u00edses com baixa complexidade produtiva que dependem basicamente de um ou poucos produtos est\u00e3o mais expostos \u00e0 crises econ\u00f4micas ou dificuldades financeiras. Por qu\u00ea? O Chile, exemplo de economia prim\u00e1rio-exportadora de sucesso para o Livres, exporta essencialmente cobre. Para conseguir o d\u00f3lar para comprar tudo que precisa ele depende do pre\u00e7o do cobre no mercado internacional. Quando o pre\u00e7o do cobre baixa, a balan\u00e7a comercial e de pagamentos do pa\u00eds apresenta problemas, a capacidade de importar \u00e9 menor (dado a redu\u00e7\u00e3o na entrada de d\u00f3lares na economia), a infla\u00e7\u00e3o tende a aumentar devido a redu\u00e7\u00e3o da oferta de produtos, o investimento diminuir, o cr\u00e9dito \u00e9 reduzido etc. Uma economia mais diversificada, com pauta de exporta\u00e7\u00f5es centradas em v\u00e1rios produtos com n\u00edveis de complexidade m\u00e9dio e alto, \u00e9 menos vulner\u00e1vel \u00e0s \u201coscila\u00e7\u00f5es do mercado\u201d ou a manipula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os pelos pa\u00edses e grandes monop\u00f3lios. Por isso que a Alemanha vai sempre enfrentar com mais tranquilidade uma crise econ\u00f4mica que Gr\u00e9cia ou Portugal, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Vantagens comparativas<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 vergonhoso falar em teoria das \u201cvantagens comparativas\u201d. Recomendo aos curioso no tema que assistam o document\u00e1rio dispon\u00edvel no You Tube \u201cRuy Mauro Marini e a dial\u00e9tica da depend\u00eancia\u201d que mostra suficientemente bem o quanto essa ideologia \u00e9 um falseamento da realidade. Nesse texto, me parece ser satisfat\u00f3rio apresentar um dado importante. A teoria das \u201cvantagens comparativas\u201d defende que que um pa\u00eds deve ser o melhor no que produz para assim alcan\u00e7ar o desenvolvimento. Pois bem, o Brasil \u00e9 maior exportador mundial de a\u00e7\u00facar, caf\u00e9, carne bovina, carne de frango, porco, soja, laranja e suco de laranja e o quinto maior exportador de algod\u00e3o. Somos, veja s\u00f3, o melhor pa\u00eds do mundo na produ\u00e7\u00e3o agroexportadora e continuamos na MERDA! Esse dado me parece razo\u00e1vel para mostrar que a ideia de \u201cser o melhor\u201d na produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de um produto, n\u00e3o importando o produto, induz ao \u201cdesenvolvimento\u201d \u00e9 uma besteira.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 isso, camaradas. Podemos perceber como a ideologia liberal opera um completo ocultamento da realidade, n\u00e3o compreende o b\u00e1sico da economia e busca legitimar o dom\u00ednio do latif\u00fandio. Para o Livres, assim como a Rede Globo, o agro \u00e9 pop, o agro \u00e9 tech, o agro \u00e9 tudo!<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 militante do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18068\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-18068","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Hq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18068"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18068\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}