{"id":18086,"date":"2017-12-27T17:52:06","date_gmt":"2017-12-27T20:52:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18086"},"modified":"2017-12-27T17:53:45","modified_gmt":"2017-12-27T20:53:45","slug":"america-latina-o-pendulo-desloca-se-para-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18086","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: o p\u00eandulo desloca-se para a direita"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Am\u00e9rica Latina: o p\u00eandulo desloca-se para a direita\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/america-latina.png\" alt=\"Am\u00e9rica Latina: o p\u00eandulo desloca-se para a direita\" \/><!--more-->James Petras<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Um importante ponto de situa\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina. Obviamente controverso, como seria inevit\u00e1vel face a um conjunto t\u00e3o complexo de processos, tend\u00eancias, comportamentos das classes em confronto e sua express\u00e3o no plano social e pol\u00edtico, activa interven\u00e7\u00e3o e inger\u00eancia imperialista. Um interessante confronto, tamb\u00e9m, com a entrevista da embaixadora Claudia Salerno Caldera que public\u00e1mos em 23.12.201<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 evidente que na Am\u00e9rica Latina o p\u00eandulo se deslocou nos \u00faltimos anos para a direita. Desta observa\u00e7\u00e3o surgem numerosas perguntas. \u00bfDe que tipo de direita estamos a falar? \u00bfPor que prospera? \u00bfS\u00e3o sustent\u00e1veis os regimes direitistas? \u00bfQuem s\u00e3o os seus aliados e os seus advers\u00e1rios internacionais? Uma vez no poder, \u00bfcomo lhes t\u00eam corrido as coisas e quais s\u00e3o os crit\u00e9rios porque se mede o seu \u00eaxito ou o seu fracasso?<\/p>\n<p>Embora a esquerda esteja em retrocesso, ret\u00eam o poder em alguns estados. Surgem perguntas como: \u00bfQuais s\u00e3o as caracter\u00edsticas da esquerda actual? \u00bfPorque se mant\u00eam alguns regimes enquanto outros est\u00e3o em decad\u00eancia ou foram derrotados? \u00bfPoder\u00e1 a esquerda recuperar a sua influ\u00eancia? \u00bfQue condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias para isso? \u00bfQue programa deve elaborar para atrair o eleitorado?<\/p>\n<p>Come\u00e7amos por examinar o car\u00e1cter e as pol\u00edticas da direita e da esquerda e para onde se dirigem, para concluir analisando as din\u00e2micas dos seus programas, alian\u00e7as e perspectivas futuras.<\/p>\n<p><strong>A direita radical: O rosto do poder<\/strong><\/p>\n<p>A pretens\u00e3o dos regimes de direita \u00e9 por em marcha mudan\u00e7as estruturais: querem reordenar a natureza do Estado, as rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f3micas, a pol\u00edtica exterior e as alian\u00e7as econ\u00f3micas. Regimes de direita radical governam no Brasil, Argentina, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia, Peru, Paraguai, Guatemala, Honduras e Chile.<\/p>\n<p>Os regimes de extrema-direita lan\u00e7aram-se a mudan\u00e7as bruscas alguns pa\u00edses, enquanto em outros as v\u00e3o incorporando gradualmente. As transforma\u00e7\u00f5es sofridas por Brasil e Argentina s\u00e3o exemplos de mudan\u00e7as extremadamente regressivas destinadas a inverter a distribui\u00e7\u00e3o da renda, as rela\u00e7\u00f5es de propriedade, as alian\u00e7as internacionais e as estrat\u00e9gias militares. O objectivo \u00e9 redistribuir os rendimentos de maneira ascendente, voltar a concentrar a riqueza e a propriedade no extremo superior da pir\u00e2mide social e em elementos externos ao pa\u00eds, e colar-se \u00e0 doutrina imperial. Estes regimes est\u00e3o dirigidos por governantes que falam abertamente a favor dos investidores nacionais e estrangeiros mais poderosos e s\u00e3o generosos na adjudica\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios e recursos p\u00fablicos: praticam uma esp\u00e9cie de \u201cpopulismo para plutocratas\u201d.<\/p>\n<p>A chegada ao poder e a consolida\u00e7\u00e3o de regimes de extrema-direita em Argentina e Brasil baseou-se em varias interven\u00e7\u00f5es decisivas, que combinam elei\u00e7\u00f5es e viol\u00eancia, purgas e coopta\u00e7\u00f5es, propaganda nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas e profunda corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mauricio Macri contou com o apoio dos principais media convencionais, encabe\u00e7ados pelo grupo do di\u00e1rio Clar\u00edn, bem como pela imprensa financeira internacional (Financial Times, Wall Street Journal). Os especuladores de Wall Street e o aparelho pol\u00edtico de Washington no estrangeiro subsidiaram a sua campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Macri, a sua fam\u00edlia, os seus amigalha\u00e7os e os seus c\u00famplices financeiros transferiram recursos p\u00fablicos para contas privadas. Os caciques pol\u00edticos de prov\u00edncias e as suas actividades clientelares uniram-se aos sectores endinheirados de Buenos Aires para assegurar o voto na capital. Uma vez eleito, o regime de Macri transferiu 5.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares para o conhecido especulador de Wall Street, Paul Singer, assinando um cr\u00e9dito multimilion\u00e1rio, com altas taxas de juro; multiplicou por seis o imposto sobre alguns servi\u00e7os; privatizou o petr\u00f3leo, o g\u00e1s e terrenos p\u00fablicos; e despediu dezenas de milhares de funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Macri organizou uma purga pol\u00edtica e a deten\u00e7\u00e3o de dirigentes da oposi\u00e7\u00e3o, incluindo a antiga presidenta Cristina Fern\u00e1ndez Kirchner. V\u00e1rios activistas das prov\u00edncias foram encarcerados ou inclusivamente assassinados.<\/p>\n<p>Macri exemplifica a figura do triunfador segundo a perspectiva de Wall Street, Washington e da elite empresarial portenha. Os sal\u00e1rios dos trabalhadores argentinos reduziram-se. As empresas de servi\u00e7os garantiram os maiores lucros da hist\u00f3ria. Os banqueiros duplicaram o \u00edndice de lucros. Os importadores converteram-se em milion\u00e1rios. Os rendimentos da agro-ind\u00fastria dispararam ao serem reduzidos os seus impostos. Mas para as pequenas e m\u00e9dias empresas argentinas, o regime de Macri foi um aut\u00eantico desastre. Milhares delas faliram devido ao elevado custo de alguns servi\u00e7os e \u00e0 feroz competi\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es chinesas baratas. Para al\u00e9m da queda dos sal\u00e1rios, o desemprego e o subemprego duplicaram e o \u00edndice de pobreza extrema triplicou.<br \/>\nA economia luta para se manter \u00e0 tona. O financiamento da d\u00edvida n\u00e3o conseguiu promover o crescimento, a produtividade, a inova\u00e7\u00e3o e as exporta\u00e7\u00f5es. O investimento estrangeiro foi favorecido, conseguiu pingues benef\u00edcios e envia os seus lucros para fora do pa\u00eds. A promessa de prosperidade apenas beneficiou um quarto da popula\u00e7\u00e3o. Para debilitar o descontentamento p\u00fablico fruto destas medidas, o regime silenciou as vozes dos meios de comunica\u00e7\u00e3o independentes, deu r\u00e9dea solta aos bandos de rufias que actuam contra os cr\u00edticos e cooptou os chefes sindicais male\u00e1veis para quebrar as greves.<br \/>\nOs protestos p\u00fablicos e as greves multiplicaram-se, mas o governo fez orelhas moucas e multiplicou a repress\u00e3o. Os l\u00edderes populares e os activistas foram estigmatizados por jornalistas a soldo financiados pelo governo.<\/p>\n<p>A menos que se produza um grande levantamento social ou um colapso econ\u00f3mico, Macri aproveitar\u00e1 a fragmenta\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o para assegurar a reelei\u00e7\u00e3o que lhe permita seguir actuando como um g\u00e2ngster de Wall Street. Macri est\u00e1 disposto a assinar novas bases militares e acordos de livre com\u00e9rcio com os EUA bem como a incrementar a colabora\u00e7\u00e3o com a sinistra pol\u00edcia secreta de Israel, a Mossad.<\/p>\n<p>O Brasil p\u00f4s em pr\u00e1tica as mesmas pol\u00edticas direitistas de Macri. Depois de se apossar do poder mediante uma opera\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o fraudulenta, o grande vigarista Michel Temer procedeu de imediato ao desmantelamento da totalidade do sector p\u00fablico, a congelar os sal\u00e1rios por vinte anos e a ampliar a idade de reforma entre mais cinco e dez anos. Temer esteve \u00e0 cabe\u00e7a de um milhar de eleitos corruptos no saque multimilion\u00e1rio da empresa estatal de petr\u00f3leo e de m\u00faltiplos grandes projectos de infra-estruturas.<\/p>\n<p>Golpes, corrup\u00e7\u00e3o e abusos ficaram ocultos por um sistema que garante a impunidade dos congressistas, at\u00e9 que alguns promotores p\u00fablicos independentes investigaram, acusaram e meteram na pris\u00e3o v\u00e1rias dezenas de pol\u00edticos, mas sem chegar a Temer. Apesar de contar com 95 por cento de desaprova\u00e7\u00e3o popular, o presidente Temer mant\u00e9m-se no cargo com o apoio absoluto de Wall Street, do Pent\u00e1gono e dos banqueiros de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nPor outro lado, no M\u00e9xico, o narco-estado assassino, continuam-se alternando no poder os dois partidos ladr\u00f5es, o PRI e o PAN. Milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares obtidos de forma il\u00edcita por banqueiros e empresas mineiras canadenses e estado-unidenses continuam viajando para para\u00edsos fiscais para a sua conveniente lavagem. Os fabricantes mexicanos e internacionais amassaram imensos lucros que exportam para contas no estrangeiro e para\u00edsos fiscais . O pa\u00eds superou o seu triste record de evas\u00e3o de impostos aa mesmo tempo que ampliava as suas \u201czonas de livre com\u00e9rcio\u201d, sin\u00f3nimo de sal\u00e1rios baixos e impostos reduzidos para as empresas. Milh\u00f5es de mexicanos cruzaram a fronteira para fugir do capitalismo mafioso e depredador. O fluxo de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares de lucros propriedade de multinacionais canadenses e estado-unidenses s\u00e3o o resultado do \u201cintercambio desigual\u201d de capital estado-unidense e m\u00e3o de obra mexicana, que se mant\u00e9m em vigor gra\u00e7as ao fraudulento sistema eleitoral mexicano.<\/p>\n<p>Pelo menos em duas ocasi\u00f5es bem documentadas, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1988 e 2006, os candidatos de esquerda Cuahtemoc C\u00e1rdenas e Manuel L\u00f3pez Obrador ganharam com suficiente margem sobre os seus competidores, e viram como posteriormente uma contagem fraudulenta dos votos lhes roubava o seu triunfo.<\/p>\n<p>No Peru, os regimes extractivistas de direita t\u00eam alternado entre a ditadura sangrenta de Fujimori e regimes eleitorais corruptos. O que se mant\u00e9m sem mudan\u00e7as na pol\u00edtica peruana \u00e9 a entrega dos recursos minerais do pa\u00eds ao capital estrangeiro, a persistente corrup\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o brutal dos recursos naturais por parte de corpora\u00e7\u00f5es mineiras dos EUA e Canad\u00e1, em regi\u00f5es habitadas por comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A extrema-direita expulsou do poder os governos de centro-esquerda eleitos de Fernando Lugo, no Paraguai (2008-2012) e Manuel Celaya em Honduras (2006-2009), com o apoio activo e a aprova\u00e7\u00e3o do Departamento de Estado dos EUA. Os seus narco-presidentes exercem agora o poder mediante a repress\u00e3o contra os movimentos populares e o assass\u00ednio de dezenas de camponeses e activistas urbanos. Este ano, uma elei\u00e7\u00e3o toscamente amanhada em Honduras assegurou a continuidade do regime corrupto e das bases militares estado-unidenses.<\/p>\n<p>A difus\u00e3o da extrema-direita desde a Am\u00e9rica Central e M\u00e9xico at\u00e9 ao Cone Sul est\u00e1 a preparar o terreno para a reimplanta\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as militares com os Estados Unidos e acordos comerciais regionais.<\/p>\n<p>O ascenso da extrema-direita garante as privatiza\u00e7\u00f5es mais lucrativas e os maiores lucros para os cr\u00e9ditos outorgados por bancos estrangeiros. A extrema-direita est\u00e1 preparada para esmagar o descontentamento popular e os desafios eleitorais por meio da viol\u00eancia. Permite, quando muito, que umas poucas elites com pretens\u00f5es nacionalistas se v\u00e3o alternando no poder para apresentar uma fachada de democracia eleitoral.<\/p>\n<p><strong>A viragem do centro-esquerda para o centro-direita<\/strong><\/p>\n<p>O deslocamento pol\u00edtico no sentido da extrema-direita estendeu-se como uma onda, e os governos nominais de centro-esquerda deslocaram-se para o centro-direita.<\/p>\n<p>O exemplo mais claro oferece-o o Uruguai governado pela Frente Ampla de Tabare V\u00e1zquez, e o Equador, com a recente elei\u00e7\u00e3o de Lenin Moreno, da Alianza Pa\u00eds. Em ambos os casos o terreno j\u00e1 tinha sido preparado ao reconciliarem-se estes partidos com os oligarcas dos partidos tradicionais direitistas.<br \/>\nOs anteriores governos de centro-esquerda de Rafael Correa, no Equador, e Jos\u00e9 M\u00fajica no Uruguai conseguiram fomentar o investimento p\u00fablico e as reformas sociais, usando uma ret\u00f3rica de esquerda e capitalizando para financiar as suas reformas o aumento global de pre\u00e7os e a elevada procura das exporta\u00e7\u00f5es agro-minerais. Com a queda dos pre\u00e7os mundiais e a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos casos de corrup\u00e7\u00e3o, os rec\u00e9m-eleitos partidos de centro-esquerda nomearam candidatos de centro-direita que converteram as campanhas anticorrup\u00e7\u00e3o em ve\u00edculos para a adop\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas econ\u00f3micas neoliberais.<\/p>\n<p>Os novos presidentes de centro-direita marginalizaram os sectores mais \u00e0 esquerda dos seus respectivos partidos. No caso de Equador, o partido fraccionou-se e o novo presidente aproveitou para mudar as suas alian\u00e7as internacionais afastando-se da esquerda (Bol\u00edvia e Venezuela) e aproximando-se dos Estados Unidos e da extrema direita, ao mesmo tempo que abandonava o legado do seu predecessor quanto a programas sociais populares.<\/p>\n<p>Com a queda de pre\u00e7os dos produtos de exporta\u00e7\u00e3o, os regimes de centro-direita ofereceram generosos subs\u00eddios aos investidores estrangeiros em agricultura e silvicultura no Uruguai e aos propriet\u00e1rios de minas e exportadores no Equador.<\/p>\n<p>Os rec\u00e9m-convertidos regimes de centro-direita aproximaram-se dos seus hom\u00f3nimos j\u00e1 instalados no Chile e uniram-se ao Acordo Transpac\u00edfico de Coopera\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica (TPP), com as na\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas, Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O centro-direita tem tentado manipular a ret\u00f3rica social dos anteriores governos de centro-esquerda com o fim de reter o eleitorado popular ao mesmo tempo que se assegurava do apoio das elites empresariais.<\/p>\n<p><strong>A esquerda desloca-se para o centro-esquerda<\/strong><\/p>\n<p>O governo de Evo Morales em Bol\u00edvia tem demonstrado uma capacidade excepcional para manter o crescimento, assegurar a reelei\u00e7\u00e3o e neutralizar a la oposi\u00e7\u00e3o combinando uma pol\u00edtica exterior de esquerda radical com uma economia mista p\u00fablico-privada de car\u00e1cter moderado. Apesar de a Bol\u00edvia condenar o imperialismo estado-unidense, as principais multinacionais do petr\u00f3leo, do g\u00e1s, dos metais e do l\u00edtio realizaram fortes investimentos no pa\u00eds. Evo Morales moderou a sua postura ideol\u00f3gica passando do socialismo revolucion\u00e1rio a uma vers\u00e3o local de democracia liberal.<\/p>\n<p>Ao adoptar a economia mista, Evo Morales conseguiu neutralizar qualquer hostilidade aberta por parte dos Estados Unidos e dos novos governos de extrema-direita da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mantendo a sua independ\u00eancia pol\u00edtica, a Bol\u00edvia integrou as suas exporta\u00e7\u00f5es com os regimes neoliberais da regi\u00e3o. Os programas econ\u00f3micos moderados do seu presidente, a diversifica\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es minerais, a responsabilidade fiscal, as graduais reformas sociais e o apoio de movimentos sociais bem organizados permitiram a estabilidade pol\u00edtica e a continuidade social, apesar da volatilidade dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias primas.<\/p>\n<p>Os governos de esquerda da Venezuela, com Hugo Ch\u00e1vez e Nicol\u00e1s Maduro seguiram, com duras consequ\u00eancias, um curso divergente. Totalmente dependente dos pre\u00e7os internacionais do petr\u00f3leo, a Venezuela procedeu ao financiamento de generosos programas assistenciais, no \u00e2mbito interno e no exterior. Sob a lideran\u00e7a do presidente Ch\u00e1vez, a Venezuela adoptou uma consequente pol\u00edtica anti-imperialista e op\u00f4s-se ao acordo de livre com\u00e9rcio promovido pelos EUA (ALCA) com uma alternativa anti-imperialista, a Alianza Bolivariana para las Am\u00e9ricas (ALBA).<\/p>\n<p>Os programas sociais progressistas e as ajudas econ\u00f3micas aos aliados estrangeiros, sem dedicar recursos a diversificar a economia e os mercados nem incrementar a produ\u00e7\u00e3o, assentavam nos rendimentos elevados constantes procedentes de um \u00fanico e vol\u00e1til produto de exporta\u00e7\u00e3o: el petr\u00f3leo.<br \/>\nAo contr\u00e1rio da Bol\u00edvia de Evo Morales, que edificou o seu poder com o apoio de uma base popular organizada, disciplinada e com consci\u00eancia de classe, a Venezuela contava com uma alian\u00e7a eleitoral amorfa composta por habitantes dos sub\u00farbios humildes, tr\u00e2nsfugas dos partidos tradicionais corruptos (de todo o espectro) e oportunistas en busca de um lugar e de beneficios. A educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica reduzia-se a palavras de ordem para entoar em coro, vivas ao presidente e \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de bens de consumo.<\/p>\n<p>Os tecnocratas e pol\u00edticos venezuelanos afins ao regime ocupavam posi\u00e7\u00f5es muito lucrativas, sobretudo no sector petroleiro, e n\u00e3o tinham que prestar contas ante comiss\u00f5es de trabalhadores ou auditorias p\u00fablicas competentes. A corrup\u00e7\u00e3o era generalizada e milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares procedentes da riqueza petroleira foram roubados. Este saque era tolerado pelo fluxo constante de petrod\u00f3lares motivado pelos elevados pre\u00e7os hist\u00f3ricos e o auge da procura. Tudo isso conduziu a um estranho cen\u00e1rio em que o governo falava de socialismo e financiava enormes programas sociais enquanto os principais bancos, a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, a importa\u00e7\u00e3o e os transportes eram controlados por oligarcas hostis ao regime que embolsavam enormes lucros enquanto engendravam a escassez de produtos e promoviam a infla\u00e7\u00e3o. Apesar de todos estes problemas, os votantes venezolanos avalizaram o governo numa serie de vit\u00f3rias eleitorais, sem se voltarem para os agentes dos EUA ou os pol\u00edticos da oligarquia. Esta din\u00e2mica de triunfos levou o regime a pensar que o modelo socialista bolivariano era irrevog\u00e1vel.<\/p>\n<p>A precipitada queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, da procura global e dos rendimentos procedentes das exporta\u00e7\u00f5es levou a um retrocesso das importa\u00e7\u00f5es e do consumo. Ao contr\u00e1rio da Bol\u00edvia, as reservas de divisas minguaram, o saque rampante de milhares de milh\u00f5es surgiu finalmente \u00e0 luz e a oposi\u00e7\u00e3o direitista apoiada pelos EUA recorreu \u00e0 \u201cac\u00e7\u00e3o directa\u201d violenta e \u00e0 sabotagem, ao mesmo tempo que a\u00e7ambarcava alimentos, bens essenciais de consumo e medicamentos. A escassez deu lugar a um mercado negro generalizado. A corrup\u00e7\u00e3o do sector p\u00fablico e o controlo que a oposi\u00e7\u00e3o hostil exerce sobre a banca privada, o sector mineiro e industrial paralisou, com o apoio dos Estados Unidos, a economia. A economia entrou em queda livre e o apoio eleitoral debilitou-se. Apesar dos graves problemas do regime, a maioria de votantes de rendimento baixo compreendeu que as suas probabilidades de sobreviver sob a oposi\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica apoiada pelos EUA seriam ainda piores, e a assediada esquerda continuou a ganhar as elei\u00e7\u00f5es regionais e municipais celebradas durante 2017.<\/p>\n<p>A vulnerabilidade econ\u00f3mica da Venezuela e o \u00edndice de crescimento negativo provocaram um aumento da d\u00edvida p\u00fablica. A hostilidade dos regimes de extrema-direita da regi\u00e3o e as san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas ditadas por Washington acentuaram a escassez de alimentos e o desemprego.<\/p>\n<p>A Bol\u00edvia, pelo contr\u00e1rio, conseguiu derrotar as tentativas de golpe de Estado promovidas pelas elites locais e pelos EUA entre 2008 e 2010. A oligarquia regional de Santa Cruz teve que decidir entre compartilhar os seus lucros e a estabilidade social selando pactos sociais (com trabalhadores e camponeses, a capital e o Estado) com o governo de Morales ou fazer frente a uma alian\u00e7a do governo e do movimento sindical dispostos a expropriar as suas possess\u00f5es. As elites optaram pela colabora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica mantendo uma discreta oposi\u00e7\u00e3o eleitoral.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda perdeu quase todo o poder estatal. \u00c9 prov\u00e1vel que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 extrema-direita siga em aumento dado o grave e inflex\u00edvel ataque que est\u00e3o sofrendo os rendimentos e as pens\u00f5es; o aumento do custo de vida; as graves redu\u00e7\u00f5es nos programas sociais e os ataques ao emprego no sector p\u00fablico e no privado. A extrema-direita tem varias op\u00e7\u00f5es e nenhuma delas oferece concess\u00f5es \u00e0 esquerda. Fizeram a escolha de refor\u00e7ar as medidas policiais (a \u201csolu\u00e7\u00e3o Macri\u201d); tentam fragmentar a oposi\u00e7\u00e3o negociando com l\u00edderes sindicais e pol\u00edticos oportunistas; e substituem os governantes ca\u00eddos em desgra\u00e7a por novas caras que continuem as suas mesmas pol\u00edticas (a solu\u00e7\u00e3o brasileira).<\/p>\n<p>Os antigos partidos, movimentos e dirigentes revolucion\u00e1rios de esquerda evolu\u00edram no sentido da pol\u00edtica eleitoral, dos protestos e da ac\u00e7\u00e3o sindical. De momento, n\u00e3o representam uma alternativa pol\u00edtica a n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>O centro-esquerda, especialmente em Brasil e Equador, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o forte e conta com l\u00edderes din\u00e2micos (Lula Da Silva e Correa) mas tem que se enfrentar com acusa\u00e7\u00f5es falsas promovidas por promotores p\u00fablicos direitistas que pretendem exclu\u00ed-los da contenda eleitoral. A menos que os reformistas de centro-esquerda tomem parte em ac\u00e7\u00f5es de massas prolongadas e de grande escala, a extrema-direita conseguir\u00e1 debilitar a sua recupera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O Estado imperial dos EUA recuperado temporariamente regimes fantoches, aliados militares e recursos e mercados econ\u00f3micos. A China e a Uni\u00e3o Europeia aproveitam-se das \u00f3ptimas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas que os regimes de extrema-direita lhes oferecem. O programa militar estado-unidense conseguido neutralizar a oposi\u00e7\u00e3o radical em Col\u00f4mbia e o regime de Trump imp\u00f4s novas san\u00e7\u00f5es a Cuba e Venezuela.<\/p>\n<p>Mas a celebra\u00e7\u00e3o triunfalista do regime de Trump \u00e9 prematura: n\u00e3o conseguiu nenhuma vit\u00f3ria estrat\u00e9gica decisiva, apesar dos progressos a curto prazo conseguidos em M\u00e9xico, Brasil e Argentina. N\u00e3o obstante, as grandes fugas de lucros, transfer\u00eancias de propriedades a investidores estrangeiros, taxas fiscais favor\u00e1veis, baixas taxas alfandeg\u00e1rias e as pol\u00edticas de com\u00e9rcio n\u00e3o geraram ainda novas infra-estruturas produtivas, crescimento sustent\u00e1vel nem asseguraram as bases econ\u00f3micas. A maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros e a neglig\u00eancia nos investimentos em produtividade e inova\u00e7\u00e3o para promover a procura e os mercados internos provocaram a bancarrota de milhares de pequenos e m\u00e9dios comerciantes e industriais locais. Isto traduziu-se num aumento do desemprego cr\u00f3nico e do emprego de m\u00e1 qualidade. A marginaliza\u00e7\u00e3o e a polariza\u00e7\u00e3o social est\u00e3o a crescer \u00e0 falta de lideran\u00e7a pol\u00edtica. Essas condi\u00e7\u00f5es provocaram levantamentos \u201cespont\u00e2neos\u201d na Argentina em 2001, no Equador em 2000 e na Bol\u00edvia em 2005.<\/p>\n<p>Pode suceder que a extrema-direita no poder n\u00e3o provoque uma rebeli\u00e3o da extrema-esquerda, mas as suas pol\u00edticas seguramente ir\u00e3o socavar a estabilidade e a continuidade dos regimes actuais. No m\u00ednimo, podem fazer surgir certa vers\u00e3o do centro-esquerda que restaure os regimes de bem-estar e emprego actualmente desmantelados.<\/p>\n<p>Entretanto, a extrema direita continuar\u00e1 pressionando com o seu plano perverso que combina um profundo retrocesso do bem-estar social, a degrada\u00e7\u00e3o da soberania nacional e o estancamento econ\u00f3mico com uma formid\u00e1vel maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros.<\/p>\n<p><em>Artigo original: <a href=\"https:\/\/petras.lahaine.org\/latin-america-the-pendulum-swings-to\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/petras.lahaine.org\/<wbr \/>latin-america-the-pendulum-<wbr \/>swings-to\/<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18086\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[226],"class_list":["post-18086","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4HI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18086\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}