{"id":1811,"date":"2011-08-28T00:05:31","date_gmt":"2011-08-28T00:05:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1811"},"modified":"2011-08-28T00:05:31","modified_gmt":"2011-08-28T00:05:31","slug":"o-mundo-a-beira-do-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1811","title":{"rendered":"O mundo \u00e0 beira do caos"},"content":{"rendered":"\n<p>A crise do capitalismo \u00e9 t\u00e3o profunda que at\u00e9 os l\u00edderes dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia e os ide\u00f3logos do neoliberalismo assumem essa realidade. Est\u00e3o alarmados por n\u00e3o enxergarem uma solu\u00e7\u00e3o que possa deter a corrida para o abismo. Esfor\u00e7am-se sem \u00eaxito para que apare\u00e7a luz no fim do t\u00fanel.<\/p>\n<p>Apesar das contradi\u00e7\u00f5es existentes, os EUA e as grandes pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia puseram fim \u00e0s guerras inter-imperialistas \u2013 como a de 1914-18 e a de 1939-45 \u2013 substituindo-as por um imperialismo colectivo, sob a hegemonia norte-americana, que as desloca para pa\u00edses do chamado Terceiro Mundo submetidos ao saque dos seus recursos naturais.<\/p>\n<p>Mas a evolu\u00e7\u00e3o da conjuntura mundial demonstra tamb\u00e9m com clareza que a crise do capital n\u00e3o pode ser resolvida no quadro de uma &#8220;transnacionaliza\u00e7\u00e3o global&#8221;, tese defendida por Toni Negri e Hardt no seu pol\u00e9mico livro em que negam o imperialismo tal como o definiu Lenine. Entre os EUA e a Uni\u00e3o Europeia (e os pa\u00edses emergentes da \u00c1sia e da Am\u00e9rica Latina) existe um abismo hist\u00f3rico que n\u00e3o foi nem pode ser eliminado em tempo previs\u00edvel.<\/p>\n<p>A crescente internacionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o n\u00e3o desemboca automaticamente na globaliza\u00e7\u00e3o da propriedade. O Estado transnacional, a que aspiram uma ONU instrumentalizada, o FMI, o Banco Mundial e a OMC \u00e9 ainda uma aspira\u00e7\u00e3o distante do sistema de poder.\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/mur\/mur_25ago11.html#notas\" target=\"_blank\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O caos em que o mundo est\u00e1 a cair ilumina o desespero do capital perante a crise pela qual \u00e9 respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o galopante da direita neoliberal ao governo em pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia ressuscita o fantasma do fascismo na Rep\u00fablica de Weimar. A Hist\u00f3ria n\u00e3o se repete porem da mesma maneira e \u00e9 improv\u00e1vel que a extrema-direita se instale no Poder no Velho Mundo. Mas a irracionalidade do assalto \u00e0 raz\u00e3o \u00e9 uma realidade.<\/p>\n<p>O jogo do dinheiro nas bolsas \u00e9 hoje muito mais importante na acumula\u00e7\u00e3o de gigantescas fortunas do que a produ\u00e7\u00e3o. O papel dos &#8220;mercados&#8221; \u2013 eufemismo que designa o funcionamento da engrenagem da especula\u00e7\u00e3o nas manobras do capital \u2013 tornou-se decisivo no desencadeamento de crises que levam \u00e0 fal\u00eancia pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia. Uma simples decis\u00e3o do gestor de &#8220;uma ag\u00eancia de nota\u00e7\u00e3o&#8221; pode desencadear o p\u00e2nico em vastas \u00e1reas do mundo.<\/p>\n<p>O surto de viol\u00eancia em bairros degradados de Londres, Birmingham, Manchester e Liverpool alarma a Inglaterra de Cameron e motiva nas televis\u00f5es e jornais ditos de refer\u00eancia torrentes de interpreta\u00e7\u00f5es disparatadas de soci\u00f3logos e psicanalistas que falam como porta-vozes da classe dominante.<\/p>\n<p>Em Washington, congressistas influentes manifestam o temor de que, o &#8220;fen\u00f3meno brit\u00e2nico&#8221; alastre aos EUA e, nos guetos das suas grandes cidades, jovens latinos e negros imitem os da Gr\u00e3-Bretanha, estimulados por mensagens e apelos no Twitter e no Facebook.<\/p>\n<p>Mas enquanto a pobreza e a mis\u00e9ria alastram, mesmo nos pa\u00edses mais ricos, a crise n\u00e3o afecta os banqueiros e os gestores das grandes empresas. Segundo a revista\u00a0<em>Fortune, <\/em>as fortunas de 357 multimilion\u00e1rios ultrapassam o PIB de v\u00e1rios pa\u00edses europeus desenvolvidos.<\/p>\n<p>Nos EUA, na Alemanha, na Fran\u00e7a, na It\u00e1lia os detentores do poder proclamam que a democracia pol\u00edtica atingiu um patamar superior nas sociedades desenvolvidas do Ocidente. Mentem. A censura \u00e0 moda antiga n\u00e3o existe. Mas foi substitu\u00edda por um tipo de manipula\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias eficaz e perverso. Os factos e as not\u00edcias s\u00e3o seleccionados, apresentados, valorizados ou desvalorizados, mutilados e distorcidos, de acordo com as conveni\u00eancias do grande capital. O objectivo \u00e9 impedir os cidad\u00e3os de compreender os acontecimentos de que s\u00e3o testemunhas e o seu significado.<\/p>\n<p>Os jornais e as cadeias de televis\u00e3o nos EUA, na Europa, no Jap\u00e3o, na Am\u00e9rica Latina dedicam cada vez mais espa\u00e7o ao &#8220;entretenimento&#8221; e menos a grandes problemas e lutas sociais e ao entendimento do movimento da Hist\u00f3ria profunda.<\/p>\n<p>Os temas impostos pelos editores e programadores \u2013 agentes mais ou menos conscientes do capital \u2013 s\u00e3o concursos alienantes, a viol\u00eancia em m\u00faltiplas frentes, a droga, o crime, o sexo, a subliteratura, o quotidiano do jet set, a vida amorosa de pr\u00edncipes e estrelas, a apologia do sucesso material, as f\u00e9rias em lugares paradis\u00edacos, etc.<\/p>\n<p>Evitar que os cidad\u00e3os, formatados pela engrenagem do poder, pensem, \u00e9 uma tarefa permanente dos media.<\/p>\n<p>As cr\u00f3nicas de cinema, de televis\u00e3o, a m\u00fasica, a cr\u00edtica liter\u00e1ria reflectem bem a atmosfera apodrecida do tipo de sociedade definida como civilizada e democr\u00e1tica por aqueles que, colocados na c\u00fapula do sistema de poder, se prop\u00f5em como aspira\u00e7\u00e3o suprema a multiplicar o capital.<\/p>\n<p>Em Portugal surgiu como inova\u00e7\u00e3o grotesca um clube de pensadores; e os debates na televis\u00e3o e as mesas redondas e entrevistas com d\u00f3ceis comentadores, mascarados de &#8220;analistas&#8221;, s\u00e3o insuport\u00e1veis pela ignor\u00e2ncia, hipocrisia e mediocridade da quase totalidade desses serventu\u00e1rios do capital. Contra-revolucion\u00e1rios como M\u00e1rio Soares, Ant\u00f3nio Barreto, Medina Carreira, J\u00fadice; formadores de opini\u00e3o como Marcelo Rebelo de Sousa, um intoxicador de mentes influenci\u00e1veis que explica o presente e prev\u00ea o futuro como se fora o or\u00e1culo de Delfos; jornalistas\u00a0<em>his master&#8217;s voice, <\/em>como Nuno Rogeiro e Teresa de Sousa; colunistas arrogantes que odeiam o povo portugu\u00eas e a humanidade, como Vasco Pulido Valente, pontificam nos media imitando bruxos medievais, servindo o sistema em exerc\u00edcios de verborreia que ofendem a intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>O Primeiro-ministro e o seu lugar-tenente Portas, exibindo posturas napole\u00f3nicas, pedem &#8220;sacrif\u00edcios&#8221; e compreens\u00e3o aos trabalhadores enquanto, submissos, aplicam o projecto do grande capital e cumprem exig\u00eancias do imperialismo.<\/p>\n<p>Desde o inicio do primeiro governo S\u00f3crates, o que restava da heran\u00e7a revolucion\u00e1ria de Abril foi mais golpeado e destru\u00eddo do que no quarto de s\u00e9culo anterior.<\/p>\n<p>Ao Portugal em crise exige-se o pagamento de uma factura enorme da crise maior em que se afunda o capitalismo.<\/p>\n<p>Nos EUA, p\u00f3lo hegem\u00f3nico do sistema, o discurso do Presidente Obama, despojado das lantejoulas dos primeiros meses de governo, aparece agora como o de um pol\u00edtico disposto a todas as concess\u00f5es para permanecer na Casa Branca. A sua \u00faltima capitula\u00e7\u00e3o perante o Congresso estilha\u00e7ou o que sobrava da m\u00e1scara de humanista reformador. Para que o Partido Republicano permitisse aumentar de dois bili\u00f5es de d\u00f3lares o tecto de uma d\u00edvida p\u00fablica astron\u00f3mica \u2013 j\u00e1 superior ao Produto Interno Bruto do pa\u00eds \u2013 aceitou manter intoc\u00e1veis os privil\u00e9gios indecorosos usufru\u00eddos por uma classe dominante que paga impostos rid\u00edculos e golpear duramente um servi\u00e7o de sa\u00fade que j\u00e1 era um dos piores do mundo capitalista. A contrapartida da debilidade interior \u00e9 uma agressividade crescente no exterior.<\/p>\n<p>Centenas de instala\u00e7\u00f5es militares estado-unidenses foram semeadas pela \u00c1sia, Europa, Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica.<\/p>\n<p>Mas &#8220;a cruzada contra o terrorismo&#8221; n\u00e3o produziu os resultados esperados. As agress\u00f5es americanas aos povos do Iraque e do Afeganist\u00e3o promoveram o terrorismo em escala mundial em vez de o erradicar. Crimes monstruosos foram cometidos pela soldadesca americana no Iraque e no Afeganist\u00e3o. O Congresso legalizou a tortura de prisioneiros. A &#8220;pacifica\u00e7\u00e3o do Iraque&#8221;, onde a resist\u00eancia do povo \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade n\u00e3o passa de um slogan de propaganda. No Afeganist\u00e3o, apesar da presen\u00e7a de 140 mil soldados dos EUA e da NATO, a guerra est\u00e1 perdida.<\/p>\n<p>Os bombardeamentos de aldeias do noroeste do Paquist\u00e3o por avi\u00f5es sem piloto, comandados dos EUA por computadores, semeiam a morte e a destrui\u00e7\u00e3o, provocando a indigna\u00e7\u00e3o do povo daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>O bombardeamento da Som\u00e1lia (onde a fome mata diariamente milhares de pessoas) por avi\u00f5es da USAF, e de tribos do I\u00e9men que lutam contra o despotismo medieval do presidente Saleh tornou-se rotineiro. Como sempre, Washington acusa as v\u00edtimas de liga\u00e7\u00f5es \u00e0 Al Qaeda.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica, a instala\u00e7\u00e3o do AFRICOM, um ex\u00e9rcito americano permanente, e a agress\u00e3o da NATO ao povo da L\u00edbia confirmam a mundializa\u00e7\u00e3o de uma a estrat\u00e9gia imperial.<\/p>\n<p>O terrorismo de Estado emerge como componente fundamental da estrat\u00e9gia de poder dos EUA.<\/p>\n<p>Obviamente, Washington e os seus aliados da Uni\u00e3o Europeia tentam transformar o crime em virtude. Os patriotas que no Iraque, no Afeganist\u00e3o, na L\u00edbia resistem \u00e0s agress\u00f5es imperiais s\u00e3o qualificados de terroristas; os governos fantoches de Bagdad e Cabul estariam a encaminhar os povos iraquiano e afeg\u00e3o para a democracia e o progresso; o Ir\u00e3o, v\u00edtima de san\u00e7\u00f5es, \u00e9 amea\u00e7ado de destrui\u00e7\u00e3o; o aliado neofascista israelense apresentado como uma democracia moderna.<\/p>\n<p>A perversa falsifica\u00e7\u00e3o da Historia \u00e9 hoje um instrumento imprescind\u00edvel ao funcionamento de uma estrat\u00e9gia de poder monstruosa que, essa sim, amea\u00e7a a Humanidade e a pr\u00f3pria continuidade da vida na Terra.<\/p>\n<p>O imperialismo acumula por\u00e9m derrotas e os sintomas do agravamento da crise estrutural do capitalismo s\u00e3o inocult\u00e1veis.<\/p>\n<p>O capitalismo, pela sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 humaniz\u00e1vel. Ter\u00e1 de ser destru\u00eddo. A \u00fanica alternativa que desponta no horizonte \u00e9 o socialismo. O desfecho pode tardar. Mas a resist\u00eancia dos povos \u00e0 engrenagem do capital que os oprime cresce na \u00c1sia, na Europa, na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica. Eles s\u00e3o o sujeito da Hist\u00f3ria e a vit\u00f3ria final ser\u00e1 sua.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 15\/Agosto\/2011<\/p>\n<p>[1] Estes temas s\u00e3o tratados em profundidade pelo economista argentino Claudio Katz num livro a ser editado brevemente.<\/p>\n<p><strong>Este artigo foi publicado no\u00a0<em>Avante! <\/em>n\u00ba 1969, de 25\/08\/2011 e em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2185\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2185<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1811\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1811","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-td","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1811"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1811\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}