{"id":1812,"date":"2011-08-28T00:48:04","date_gmt":"2011-08-28T00:48:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1812"},"modified":"2011-08-28T00:48:04","modified_gmt":"2011-08-28T00:48:04","slug":"a-revolucao-de-1871-construcao-historica-e-cena-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1812","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o de 1871: constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cena pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria da Fran\u00e7a \u00e9 marcada pela procura da rep\u00fablica e 1848 seria diferente de 1830. Agora a luta se reinventava com a esperan\u00e7a de transforma\u00e7\u00f5es sociais e humanas. O movimento de 48 descortinou as quest\u00f5es dos oper\u00e1rios e dos camponeses, entra em cena a descoberta da Fran\u00e7a. Todavia, a procura constante da rep\u00fablica como possibilidade do sonho da igualdade social esbarrou no projeto da burguesia que se veste do manto da domina\u00e7\u00e3o, perde suas caracter\u00edsticas progressistas e assume-se como classe dominante, lan\u00e7ando m\u00e3o de um projeto conservador.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A burguesia consegue constituir-se em for\u00e7a hegem\u00f4nica com a vit\u00f3ria na \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o burguesa do s\u00e9culo XIX. Esse fen\u00f4meno se aprofunda com o golpe de 18 brum\u00e1rio e em especial com o surgimento de algo que passamos a chamar de bonapartismo. Essa rea\u00e7\u00e3o \u00e9 na verdade a primeira forma de ditadura burguesa, e constitui-se tamb\u00e9m, num acordo das fra\u00e7\u00f5es de classe para impor um projeto de domina\u00e7\u00e3o. O bonapartismo que n\u00f3s conhecemos, aparece de forma concreta na hist\u00f3ria das lutas entre a burguesia e o proletariado, confirmando-se como uma a\u00e7\u00e3o para executar as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Trata-se de uma forma pol\u00edtica para impedir um novo ascenso das massas, em particular no decorrer das contradi\u00e7\u00f5es que imperavam na sociedade francesa de 1848 a 1870.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O bonapartismo se concretiza a partir de algumas caracter\u00edsticas do processo pol\u00edtico, podemos afirmar que a exist\u00eancia de equil\u00edbrio entre os projetos em disputa, onde nenhuma das classes, ou fra\u00e7\u00f5es de classe, consegue ter a hegemonia social e a capacidade para impor a sua domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 denotativa dessa perspectiva. Al\u00e9m disso, o bonapartismo se apresenta como uma alternativa populista, construindo pontes com segmentos populares, pela capacidade de articula\u00e7\u00e3o com o campesinato, base social de extrema relev\u00e2ncia na Fran\u00e7a do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XIX. Napole\u00e3o III, um l\u00edder carism\u00e1tico, com grande percep\u00e7\u00e3o conjuntural, articulado pela presen\u00e7a do campesinato na sua base social, na sua base de sustenta\u00e7\u00e3o, se estabelece at\u00e9 1870. Ou seja, o bonapartismo \u00e9 consequ\u00eancia do equil\u00edbrio entre as classes, da falta de hegemonia pol\u00edtica e de um l\u00edder com base social a servi\u00e7o de uma articula\u00e7\u00e3o das diversas fra\u00e7\u00f5es de classe da burguesia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00a8Em realidade, era a \u00fanica forma de governo poss\u00edvel, num momento em que a burguesia j\u00e1 havia perdido a capacidade para governar o pa\u00eds e a classe oper\u00e1ria ainda n\u00e3o a havia adquirido. O Imp\u00e9rio foi aclamado de um extremo a outro do mundo como o salvador da sociedade. Sob sua \u00e9gide, a sociedade burguesa, livre de preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, atingiu um desenvolvimento que nem ela mesma esperava. Sua ind\u00fastria e seu com\u00e9rcio adquiriram propor\u00e7\u00f5es gigantescas; a especula\u00e7\u00e3o financeira realizou orgias cosmopolitas; a mis\u00e9ria das massas ressaltava sobre a ultrajante ostenta\u00e7\u00e3o de um luxo suntuoso, falso e vil. O poder estatal, que aparentemente flutuava acima da sociedade, era de fato o seu maior esc\u00e2ndalo e o viveiro de todas as suas corrup\u00e7\u00f5es\u00a8.(Marx, 1977: 196)<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essa forma pol\u00edtica de ger\u00eancia do Estado implementou algumas a\u00e7\u00f5es estabelecendo um projeto de domina\u00e7\u00e3o, que levou at\u00e9 as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias, medidas que se afirmam como execu\u00e7\u00e3o das tarefas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Temos a partir da\u00ed um amplo desenvolvimento capitalista que se consolidou com o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o, com o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, com a grande urbaniza\u00e7\u00e3o e com a aventura da perspectiva de conquista colonial (tentativa de colocar um imperador austr\u00edaco no trono do M\u00e9xico)<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essas a\u00e7\u00f5es de afirma\u00e7\u00e3o do capitalismo v\u00e3o ter implica\u00e7\u00f5es culturais, sociais e pol\u00edticas. A burguesia se fortalece de forma acentuada no per\u00edodo de 1850 a 1870, quando seus lucros ultrapassaram os 300%, enquanto o sal\u00e1rio cresceu apenas 45%.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A partir de 1862, os trabalhadores franceses j\u00e1 tinham conhecimento do que ocorria na Inglaterra. Come\u00e7aram a desenvolver lutas espec\u00edficas e conquistam algumas vit\u00f3rias. Entram em contato com o conjunto das lutas que ocorriam no continente. Em 1864 \u00e9 fundada a Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT)<sup>3<\/sup>, que passa a ter um papel preponderante na organiza\u00e7\u00e3o das lutas dos trabalhadores. Todavia, logo v\u00e3o sofrer, na Fran\u00e7a, uma grande repress\u00e3o pol\u00edtica, comandada por Napole\u00e3o III, chegando ao acontecimento da Comuna, muito desorganizada e fr\u00e1gil.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O bonapartismo enquanto forma de Estado, pelo conjunto de contradi\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es da luta pol\u00edtica e do avan\u00e7o do proletariado na Fran\u00e7a, em especial em Paris, come\u00e7a a sofrer desgaste com a burguesia e com setores mon\u00e1rquico\/clerical e, ao mesmo tempo, enfrenta o descontentamento do campesinato e o enfrentamento dos trabalhadores. Lu\u00eds Bonaparte inaugura na era contempor\u00e2nea, a cria\u00e7\u00e3o da disputa externa como instrumento pol\u00edtico para vencer a disputa interna. E este \u00e9 um dos fatores que impulsionaram a contenda de Napole\u00e3o III contra Bismarck.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A guerra franco\u2013prussiana tem os seus primeiros sinais com a derrota da \u00c1ustria em 1866 para a Pr\u00fassia. A partir da\u00ed, Bismarck parte efetivamente para unifica\u00e7\u00e3o daquilo que se chamava de Pr\u00fassia, onde ele, em 1867 criou a confedera\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do norte, faltando apenas \u00e0 anexa\u00e7\u00e3o dos Estados do sul, e o chancelar prussiano precisava dessa unifica\u00e7\u00e3o para formar o que seria a poderosa Alemanha. A Fran\u00e7a n\u00e3o queria um Estado agressivo, com essas caracter\u00edsticas do Estado prussiano unificado, colado em sua fronteira.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Entram em produ\u00e7\u00e3o de cena aspectos relevantes para a guerra franco-prussiana. Ou seja, os interesses da burguesia prussiana, representada nos canh\u00f5es de Bismarck, e o desespero de Napole\u00e3o III em recuperar o seu prest\u00edgio com a burguesia francesa. O imperador via na guerra uma forma de, derrotando a Pr\u00fassia, voltar a ter for\u00e7a pol\u00edtica, e da\u00ed reafirmar, mais uma vez, o seu projeto de domina\u00e7\u00e3o burguesa sobre esse pa\u00eds, e talvez assim, articular a expans\u00e3o da Fran\u00e7a enquanto pot\u00eancia capitalista e imperialista. Estamos diante, a partir dessa produ\u00e7\u00e3o de cena, de uma iminente guerra inter-imperialista. E para o concreto da guerra apenas faltava o requinte das provoca\u00e7\u00f5es de teor nacionalista, afinal o patriotismo burgu\u00eas \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio do canalha, e isso terminou ocorrendo<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Inicia-se assim a guerra franco-prussiana, no teatro de opera\u00e7\u00f5es as tropas francesas mostraram-se taticamente incompetentes, apesar da enorme quantidade de soldados mobilizados, mas inferior nos equipamentos b\u00e9licos. Com esse roteiro, a guerra n\u00e3o se prolongou por muito tempo. Ap\u00f3s v\u00e1rias derrotas, chegamos \u00e0 batalha final com grande mortandade, o aprisionamento de 100 mil soldados franceses e a pris\u00e3o do imperador Napole\u00e3o III, a Fran\u00e7a \u00e9 derrotada e humilhada no dia 2 de setembro de 1870 na batalha de Sedan.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Emile Zola faz uma dram\u00e1tica descri\u00e7\u00e3o daquela fuga em sua novela O Desastre. Diz assim:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00a8Como uma torrente turva flu\u00eda a multid\u00e3o para os fossos de sedan, fazendo pensar nos mont\u00f5es de l\u00f4do dos e pedras que a corrente arrasta do alto das montanhas e leva \u00e0 profundidade dos vales&#8230; Acaso era poss\u00edvel censurar algo a esses infelizes que tinham permanecido im\u00f3veis, esperando durante doze horas consecutivas, sob os proj\u00e9teis de um inimigo invis\u00edvel e frente ao qual sabiam-se impotentes? Agora, as baterias inimigas os dizimavam de frente, dos flancos e pela retaguarda; o fogo cruzado era cada vez mais denso \u00e0 medida que o ex\u00e9rcito fugia em procura da cidade. O exterm\u00ednio, que tinha lugar no fundo do sujo fosso para o qual ia sendo precipitada essa massa humana, era total. (Jvostvov &amp; Zubok, 1976:11)<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esse fato hist\u00f3rico que foi a derrota em Sedan contribuiu para que o bonapartismo feche o seu ciclo e inicie o seu colapso. Na Fran\u00e7a, a repercuss\u00e3o da guerra e a pris\u00e3o do imperador, alimentaram manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, for\u00e7ando o t\u00e9rmino da monarquia, e a forma\u00e7\u00e3o de um governo provis\u00f3rio no dia 14 de setembro de 1870, iniciando assim a III rep\u00fablica. Mesmo com instala\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica, as lutas continuaram, agora com o protagonismo dos trabalhadores de Paris que lutavam contra a burguesia e a sua alian\u00e7a retr\u00f3grada com seguimentos mon\u00e1rquicos. \u00c9 assim que percebemos que o rel\u00f3gio da hist\u00f3ria est\u00e1 sempre em contraste com a harmonia dos conservadores.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de termos, durante esse per\u00edodo, um governo provis\u00f3rio, instala-se, pelas contradi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, um vazio pol\u00edtico. Os movimentos da hist\u00f3ria se manifestam de forma c\u00e9lere. As massas demonstram insatisfa\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es da derrota, o governo de defesa nacional fracassa na tentativa de acordo com Bismarck e as tropas prussianas est\u00e3o nos port\u00f5es medievais de Paris. Temos o levante de Lyon. Em Paris as massas trabalhadoras exigem armas para enfrentar o inimigo. No \u00faltimo dia de outubro Paris est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o direta, agora contra o governo de defesa nacional, que capitulou no campo de batalha em Metz, os oper\u00e1rios e a guarda nacional, tendo a frente \u00e0s lideran\u00e7as blanquistas<sup>5<\/sup> formam uma Comuna ao tomar o pal\u00e1cio municipal, mas logo s\u00e3o derrotados e expulsos pelas tropas do governo de defesa nacional. Ainda durante o ano de 1870, tivemos outro levante, em Marselha, logo tamb\u00e9m derrotado.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>No limiar da bandeira vermelha<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O ano vermelho de 1871 come\u00e7a com o bombardeio de Paris pelos prussianos que, no dia 18 de janeiro, ocupam Versalhes e proclamam o surgimento do imp\u00e9rio alem\u00e3o<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O governo provis\u00f3rio convoca elei\u00e7\u00f5es para Assembl\u00e9ia Nacional, s\u00e3o eleitos 750 deputados, dos quais 450 s\u00e3o monarquistas, e o restante, republicanos das mais diversas posi\u00e7\u00f5es. Todavia, em Paris s\u00e3o eleitos 46 deputados, dos quais apenas 06 s\u00e3o aliados do governo provis\u00f3rio. Continua no espa\u00e7o da luta um vazio pol\u00edtico, com indefini\u00e7\u00e3o e improvisa\u00e7\u00f5es. As lutas de classe se acirram em Fran\u00e7a, em particular em Paris, apontando para a dualidade de poder. O povo em Paris est\u00e1 em armas para combater as tropas prussianas, o governo provis\u00f3rio se v\u00ea na obriga\u00e7\u00e3o de formar batalh\u00f5es da guarda nacional, passam a existir mais de 200 batalh\u00f5es, \u00e9 um momento de profunda divis\u00e3o de classe. Cada classe, proletariado e burguesia, levantam t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias para construir o seu poder, afirma-se ent\u00e3o, a conjuntura da dualidade de poder.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nesse contexto de confronto, a AIT que j\u00e1 havia anteriormente lan\u00e7ado um manifesto, &#8211; escrito por Marx e lan\u00e7ado em Londres, em 23 de julho de 1870 &#8211; documento em que Marx alertava os trabalhadores da Alemanha e da Fran\u00e7a para n\u00e3o aceitarem a provoca\u00e7\u00e3o da guerra, salientando que essa a\u00e7\u00e3o era imperialista. Agora \u00e9 lan\u00e7ado outro manifesto da AIT tamb\u00e9m escrito por Marx, cujo conte\u00fado estava claramente solicitando a paz e fazendo um ataque frontal ao governo de defesa nacional, e avisava que seria loucura derrubar esse governo com o inimigo nas portas de Paris. Percebe-se nesses comunicados a vis\u00e3o arguta de Marx, primeiro na defesa da integridade f\u00edsica dos trabalhadores e na avalia\u00e7\u00e3o da conjuntura em tela; segundo, na avalia\u00e7\u00e3o do tabuleiro da guerra com as tropas invasoras nas portas de Paris. \u00c9 nesta luta concreta dos trabalhadores que podemos perceber como Marx parte da an\u00e1lise do real para construir a sua an\u00e1lise pol\u00edtica e elaborar os primeiros passos de uma teoria da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Marx movimenta-se em diversos momentos da hist\u00f3ria, como homem de a\u00e7\u00e3o e te\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o, no estreito limiar do desenrolar da luta, e a hist\u00f3ria n\u00e3o tem clem\u00eancia com aqueles que claudicam. Marx sempre demonstrou n\u00e3o ter receio do rel\u00f3gio da hist\u00f3ria. Suas an\u00e1lises no fogo da luta sempre souberam responder ao processo em curso. Percebemos como um epis\u00f3dio hist\u00f3rico extraordin\u00e1rio, a Comuna, \u00e9 t\u00edpico do que compreendemos como revolu\u00e7\u00e3o permanente, esse principio que pode ser encontrado no jacobinismo e na guerra de movimento. Uma das possibilidades para entender esse princ\u00edpio, \u00e9 a exist\u00eancia de um Estado fr\u00e1gil, onde a luta pela hegemonia se estabelece de acordo com o conceito gramsciano, a partir do controle da produ\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o somente na produ\u00e7\u00e3o<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em Paris a contra-revolu\u00e7\u00e3o tenta encetar os seus golpes, Thiers, agora chefe do governo em Versalhes<sup>8<\/sup>, manda tropas para recuperar as armas que estavam nas colinas de Montmartre. Os trabalhadores, em dias anteriores, j\u00e1 tinham resistido em diversas partes da cidade a essa tentativa das tropas de Thiers. Portanto, na madrugada do dia 18 de mar\u00e7o de 1871, as for\u00e7as de Versalhes sob o comando do general Lecomte tentam se apoderar dos canh\u00f5es de Montmartre e encontram uma vigorosa resist\u00eancia de homens e mulheres que partiram para o enfrentamento, e sob o comando de Louise Michel<sup>9<\/sup>, dirigiram aos soldados do governo impedindo-os de atirar contra o povo. A tropa n\u00e3o aceitou massacrar os Comunardos e passou para o lado da rebeli\u00e3o da cidade, o general que ordenou o massacre foi preso e fuzilado, eclodia a autodefesa dos trabalhadores diante da contra-revolu\u00e7\u00e3o, come\u00e7ava assim a Comuna de Paris, e o rastilho dessa forma de resist\u00eancia se espalhou pela cidade: na Bastilha, em Belleville e em outras partes.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O comit\u00ea central da guarda nacional assume o poder em Paris, e logo em seguida convoca elei\u00e7\u00f5es que s\u00e3o realizadas no dia 26 de mar\u00e7o para o conselho da Comuna.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00a8Votaram duzentos e oitenta e sete mil (287.000) eleitores. N\u00famero relativamente superior ao de fevereiro de 1871 nas elei\u00e7\u00f5es \u00e0 Assembl\u00e9ia Nacional. No dia 27 de mar\u00e7o, na presen\u00e7a de cerca de duzentas mil (200.000) pessoas em clima de grande festa, os eleitos s\u00e3o empossados no hotel de Ville e \u00e9 proclamada a Comuna\u00a8 (Costa, 1998:69).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>A Comuna construindo a hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Podemos tirar nesse momento algumas primeiras li\u00e7\u00f5es desse contexto antecedente da Comuna de Paris. A primeira \u00e9 que a Comuna se apresenta como conseq\u00fc\u00eancia da guerra franco-prussiana, a segunda \u00e9 que o momento aberto pela derrota em Sedan consolida um vazio pol\u00edtico, onde se manifestam na arena da batalha as for\u00e7as do governo de defesa nacional e depois do governo provis\u00f3rio, por um lado, e o poder que se estabelece a partir das massas insurretas no seu espontaneismo, e no governo oper\u00e1rio da Comuna, por outro. A terceira \u00e9 que tamb\u00e9m se apresenta nesse ciclo uma perspectiva de padr\u00e3o hist\u00f3rico para entender as revolu\u00e7\u00f5es, todavia, sem se constituir em um dogma. No entanto esse padr\u00e3o nos d\u00e1 sinais para compreender como a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, em especial nesses per\u00edodos mais recentes da hist\u00f3ria, nos apresenta um novo roteiro hist\u00f3rico pautado em lutas democr\u00e1ticas e revolucion\u00e1rias, em guerras e revolu\u00e7\u00f5es. Esses sinais de um padr\u00e3o hist\u00f3rico v\u00e3o se manifestar na revolu\u00e7\u00e3o russa e em outras revolu\u00e7\u00f5es no decorrer do s\u00e9culo XX. Mas em especial, podemos tirar como li\u00e7\u00e3o e n\u00e3o como exemplo desse contexto, um conjunto de sinais hist\u00f3ricos que partem da Comuna em Paris, e se confirma na revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O ano de 1870 foi t\u00edpico do embate que gerou um vazio de poder, ou seja, a falta de hegemonia de alguma classe em disputa. Logo no inicio, j\u00e1 em janeiro, o assassinato de um jornalista pelo primo do imperador gerou grandes manifesta\u00e7\u00f5es, com mais de 200 mil pessoas nas ruas<sup>10<\/sup>. A necessidade de compreender que a guerra n\u00e3o era interessante para a Fran\u00e7a mobilizou o conjunto das for\u00e7as populares, e principalmente oper\u00e1ria, que procuraram articular muitas a\u00e7\u00f5es diretas, que contavam com a participa\u00e7\u00e3o massiva dos agitadores dos clubes de debates<sup>11<\/sup>, em que se transformaram as reuni\u00f5es p\u00fablicas que existiam em Paris e na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Comuna est\u00e1 no exerc\u00edcio do autogoverno dos trabalhadores, tomando medidas, e implementando a\u00e7\u00f5es que entraram para a hist\u00f3ria da humanidade. As comiss\u00f5es de trabalho da Comuna tiveram preocupa\u00e7\u00f5es excepcionais com a quest\u00e3o da justi\u00e7a, da seguran\u00e7a p\u00fablica, finan\u00e7as, instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, medidas militares, sa\u00fade, trabalho e com\u00e9rcio, servi\u00e7os p\u00fablicos e rela\u00e7\u00f5es exteriores, tudo isso articulado numa comiss\u00e3o executiva. Esse papel executivo estava imbricado com a fun\u00e7\u00e3o legislativa, e todos os mandatos eram revog\u00e1veis, temos aqui uma forma pol\u00edtica que entra para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essa forma pol\u00edtica e esse poder confirmam uma dualidade de poder. Essa dualidade nasce em Paris, afirma-se no contraponto \u00e0 ordem burguesa e avan\u00e7a quando a Comuna come\u00e7a a destruir o aparelho do Estado da burguesia. O conjunto de medidas tomadas contra a ordem burguesa e as a\u00e7\u00f5es para impor uma nova democracia passa, de certo modo, a se configurar como uma possibilidade de transi\u00e7\u00e3o. Portanto, medidas e a\u00e7\u00f5es da natureza pol\u00edtica constitu\u00eddas pela Comuna, principalmente aquelas advindas da comiss\u00e3o de trabalho e produ\u00e7\u00e3o, avan\u00e7am na ruptura com a ordem burguesa e encontra resson\u00e2ncia na hist\u00f3ria das id\u00e9ias marxistas, com as variadas formas de se analisar o processo de transi\u00e7\u00e3o<sup>12<\/sup>. Esse processo de transi\u00e7\u00e3o pode ser entendido como uma marcha da hist\u00f3ria que cria situa\u00e7\u00f5es para um entendimento dos acontecimentos democr\u00e1ticos, das lutas radicais, de guerra e revolu\u00e7\u00e3o, quebra do aparato de Estado da burguesia, dos trabalhadores se constituindo em classe dominante e da socializa\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Todavia, no fogo da batalha, a Comuna cometeu erros na sua ef\u00eamera exist\u00eancia de 72 dias. Avaliamos que esses equ\u00edvocos se constituem no respeito que a Comuna demonstrou em n\u00e3o confiscar a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, apenas controlando socialmente aquelas f\u00e1bricas (oficinas) que os donos haviam abandonado na fuga de Paris; n\u00e3o ter marchado no primeiro momento sobre Versalhes, quando as tropas do governo de Thiers encontravam-se desorganizadas; o n\u00e3o confisco do dinheiro do banco de Fran\u00e7a, que estava financiando as a\u00e7\u00f5es contra-revolucion\u00e1rias do governo de Versalhes; a completa desarticula\u00e7\u00e3o entre o campo e a cidade; a falta de vontade pol\u00edtica em abrir os arquivos da Fran\u00e7a, nos quais estavam as mais s\u00f3rdidas est\u00f3rias da burguesia e da monarquia; e por fim, a desorganiza\u00e7\u00e3o das tropas da Comuna, que n\u00e3o conseguiam ter uma disciplina para colocar em a\u00e7\u00e3o\/combate o poderoso conjunto de homens e mulheres que estavam com sede de luta e motivados para transformar o mundo em que viviam.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00a8Mas muitos batalh\u00f5es estavam sem chefes desde 18 de mar\u00e7o; os guardas nacionais, sem quadros; os generais improvisados, que assumiam a responsabilidade de liderar quarenta mil homes, n\u00e3o tinham qualquer conhecimento militar, nem jamais haviam conduzido um batalh\u00e3o ao combate. N\u00e3o tomaram as provid\u00eancias mais elementares, n\u00e3o reuniram nem artilharia, nem carregamento de muni\u00e7\u00e3o, nem ambul\u00e2ncias, esqueceram de fazer uma ordem do dia, deixaram os homens sem v\u00edveres por v\u00e1rias horas numa bruma que lhes penetrava os ossos. Cada federado seguiu o chefe que quis. Muitos n\u00e3o tinham cartuchos, pois acreditavam, como diziam os jornais, que se tratava de um simples passeio militar\u00a8(Lissagaray, 1991:143).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Comuna \u00e9 o primeiro Estado oper\u00e1rio<sup>13<\/sup> e inicia o processo hist\u00f3rico de revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria da era contempor\u00e2nea. A posi\u00e7\u00e3o de Gramsci (Gramsci,1987), assim como a do historiador franc\u00eas, Jacques Rougerie (Rougerie, 1977), ao que me parece, de que a Comuna concluiu a revolu\u00e7\u00e3o burguesa, que come\u00e7ou em 1789, n\u00e3o se comprova com as caracter\u00edsticas da Comuna: composi\u00e7\u00e3o social, medidas e a\u00e7\u00f5es. Creio que, a Comuna inicia o ciclo das revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias e se consolida enquanto perspectiva revolucion\u00e1ria. A Comuna de Paris desnudou, no limiar dos tempos atuais, que a reprodu\u00e7\u00e3o social do sistema, passa pela afirma\u00e7\u00e3o da ordem do capital, pela submiss\u00e3o do trabalho assalariado e pela domina\u00e7\u00e3o de classe, atrav\u00e9s do Estado.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Paris e a Comuna foram derrotadas. Essa trag\u00e9dia tem nos elementos circunstancias que j\u00e1 falamos especificamente aqui, uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. A Comuna \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias comunistas, e a Comuna levou a s\u00e9rio a quest\u00e3o ontol\u00f3gica, ou seja, a Comuna compreendeu que a problem\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, que esta ligada ao mundo da produ\u00e7\u00e3o, compreendeu tamb\u00e9m nesse momento que o trabalho, j\u00e1 que era uma Comuna oper\u00e1ria, era efetivamente uma categoria fundante do ser social, e que a pol\u00edtica efetivada pela esfera p\u00fablica era um instrumento de classe a servi\u00e7o da propriedade privada. Todavia, \u00e9 importante analisar que uma revolu\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 igual \u00e0 outra, em sua forma de produ\u00e7\u00e3o e em suas perspectivas sociais, mas a Comuna mostrou o seu car\u00e1ter prolet\u00e1rio, e internacionalista<sup>14<\/sup>. Percebeu aquilo que est\u00e1 no manifesto comunista, ou seja, que o Estado \u00e9 um comit\u00ea para administrar os neg\u00f3cios da burguesia, portanto, os Comunardos insistiram em destruir esse Estado moderno que estava efetivamente a servi\u00e7o da propriedade privada e da sua hegemonia moral. Efetivando assim o que Marx, nas palavras de Lenine, afirmou,\u00a8A id\u00e9ia de Marx consiste em que a classe oper\u00e1ria deve quebrar, demolir a \u00a8m\u00e1quina de Estado que encontra montada \u00a8, e n\u00e3o limitar-se simplesmente \u00e0 sua conquista\u00a8 (L\u00eanin, 1980:247).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os Comunardos tiveram a conseq\u00fc\u00eancia social de, quando da conquista do poder, destru\u00edram o instrumento que \u00e9 conhecido como domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no sentido do que \u00e9 dado pela burguesia, ou seja, a pr\u00e1tica do poder p\u00fablico quebrou-se o car\u00e1ter de classe do poder p\u00fablico, passando a ser um poder socializado, ao derrotar aquilo que conhecemos como Estado burgu\u00eas. Assim, a Comuna compreendeu que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma troca de estruturas, e ela se concretizou na contram\u00e3o do estado burgu\u00eas. A Comuna socializou no seu curto tempo a produ\u00e7\u00e3o, e tentou de certo modo destruir a burocracia, afinal como dizia G. Luk\u00e1cs, \u00a8 a burocracia \u00e9 um impedimento a vida\u00a8 .<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na Comuna surgiu a possibilidade de efetiva\u00e7\u00e3o de um poder socializado que emergia da produ\u00e7\u00e3o, tirando o car\u00e1ter pol\u00edtico de classe e transformando o poder, no poder dos trabalhadores associados de toda Paris. Mas a Comuna, mesmo com a sua derrota colocou na lixeira da hist\u00f3ria o espasmo reacion\u00e1rio de Thiers de que o socialismo estava acabado por muito tempo, o que n\u00e3o se confirmou. Logo em seguida, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, com o mesmo padr\u00e3o hist\u00f3rico, entram em cena os trabalhadores, camponeses e soldados da R\u00fassia, que se levantaram para constitu\u00edrem os sovietes. A revolu\u00e7\u00e3o russa atualiza a Comuna como um instrumento te\u00f3rico de um novo momento hist\u00f3rico, definido como contribui\u00e7\u00e3o de uma nova vaga revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A forma pol\u00edtica encontrada por Marx, a partir do exame do que representou a Comuna de Paris que quebrou a estrutura do Estado burgu\u00eas, foi a ditadura do proletariado. Ent\u00e3o as li\u00e7\u00f5es da Comuna, e n\u00e3o seus exemplos permitem-nos construir uma no\u00e7\u00e3o daquilo que passamos a conhecer como transi\u00e7\u00e3o. De uma forma de Estado para outra forma de Estado, no sentido de se constituir, mais \u00e0 frente, numa sociedade sem Estado.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ditadura do proletariado, como forma altamente avan\u00e7ada de democracia, tem em Marx uma formula\u00e7\u00e3o da primazia da classe trabalhadora no controle do Estado, para possibilitar a quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade sem Estado. Todavia, uma outra forma de Estado \u00e9 encontrada por Marx, quando a partir do entendimento do que seja o bonapartismo, a burguesia inaugura uma forma de ditadura de classe. Podemos afirmar, a partir de Marx, que todo o governo da burguesia, a partir do fen\u00f4meno do bonapartismo pode ser considerado como ditadura de classe<sup>15<\/sup>. A Comuna \u00e9 um evento de car\u00e1ter universal, e em verdade consolida aquilo que Marx entende como momento interm\u00e9dio, como momento de transi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a ditadura do proletariado. Termina sendo para Marx, a conquista do aparato do Estado atrav\u00e9s da luta, um regime pol\u00edtico de transi\u00e7\u00e3o, um governo dos trabalhadores em armas, isto \u00e9, a constitui\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito popular que vai fazer e executar novas leis.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mas algumas quest\u00f5es ainda se colocam como emblem\u00e1ticas, para al\u00e9m dos seus erros ou incompreens\u00f5es extremamente plurais, que se tem a respeito dessa fa\u00e7anha hist\u00f3rica. A Comuna \u00e9 inspiradora da luta pelo socialismo, al\u00e9m de ter sido uma Comuna oper\u00e1ria, fato esse comprovado pela sua composi\u00e7\u00e3o social (Rougerie, 1964); as suas medidas, que partem do contexto da luta de classes, e efetivam essa dimens\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<sup>16<\/sup>. Para aqueles que questionam a Comuna como socialista por que n\u00e3o encontraram medidas com esse car\u00e1ter advindo do campo da produ\u00e7\u00e3o, a partir das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como Marx escreveu no pref\u00e1cio do livro <em>Para a Critica da Economia Pol\u00edtica<\/em>, poder\u00edamos entender que a transforma\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de uma determinada \u00e9poca possibilitaria a transi\u00e7\u00e3o. Todavia, pode haver um questionamento sobre o papel das lutas de classe nesse contexto. E creio que a Comuna nos sinalizou com a import\u00e2ncia dessas lutas no processo de transi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o compreendemos que em Marx exista uma perspectiva de marcha linear do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas objetivamente construindo a transi\u00e7\u00e3o. Marx de certo modo nos acena para o papel do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e seu choque com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o abandona, pelo contr\u00e1rio, refor\u00e7a o papel das lutas de classes no processo que vai se constituir como transi\u00e7\u00e3o. Portanto, fica muito claro a inspira\u00e7\u00e3o da Comuna na formula\u00e7\u00e3o sobre a teoria da revolu\u00e7\u00e3o em Marx. A Comuna empreendeu em seus princ\u00edpios uma luta pelo socialismo, rompendo com o igualitarismo dos lutadores sociais anteriores a esse per\u00edodo. Podemos ent\u00e3o entender que as a\u00e7\u00f5es que caracterizam a Comuna sempre foram no sentido de que a hist\u00f3ria da luta dos trabalhadores \u00e9 uma hist\u00f3ria das lutas contra-heg\u00eamonicas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esse momento transicional se manifesta pela destrui\u00e7\u00e3o do aparato burocr\u00e1tico da burguesia, e da confec\u00e7\u00e3o de medidas e a\u00e7\u00f5es que estabelecem a ruptura com a ordem do capital. Portanto, \u00a8A simultaneidade destas transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma peti\u00e7\u00e3o te\u00f3rica acidental. Traduz a requisi\u00e7\u00e3o, inferida de an\u00e1lises s\u00f3cio-hist\u00f3ricas particulares, que pode garantir o tr\u00e2nsito \u00e0 sociedade sem classes, onde a promessa de felicidade se torna uma possibilidade concreta e objetiva\u00a8 (Netto, 1980:87).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Comuna surge dos epis\u00f3dios anteriormente citados, e ela \u00e9 constitu\u00edda a partir da dualidade de poder e se efetiva na pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria e no conjunto de medidas implementadas pela conquista possibilitada pela vit\u00f3ria nas lutas de classe, mesmo que momentaneamente. Efetivamente essa transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se concluiu, ela foi derrotada. Todavia, a radicalidade da pr\u00e1tica dos Comunardos pode apontar para a o sentido da auto-emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que pelas contendas da hist\u00f3ria n\u00e3o tiveram oportunidade de marchar para o socialismo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao analisarmos as lutas empreendidas pela Comuna, no seu curto poder, n\u00f3s podemos confirmar a profunda grandeza com que se revestiu essa fa\u00e7anha emancipat\u00f3ria: a jun\u00e7\u00e3o inovadora que a Comuna fez das atribui\u00e7\u00f5es executivas e legislativas, ou seja, quem executa s\u00e3o os mesmos que fazem as leis agem de forma \u00fanica, n\u00e3o existindo a tradicional separa\u00e7\u00e3o burguesa dos poderes em quest\u00e3o, isso pode se aprofundar pela revogabilidade dos mandatos, a qualquer momento a partir do interesse daqueles que elegeram. O judici\u00e1rio passou a ter elei\u00e7\u00f5es, e os ju\u00edzes eram eleitos para os tribunais civis; a ordem p\u00fablica foi mantida sem abalos, pois, a partir da fuga do governo provis\u00f3rio para Versalhes, Paris se transformou numa cidade muito segura e a ordem p\u00fablica era mantida pelo povo em armas, o crime do individuo contra o indiv\u00edduo \u00e9 um produto da ordem burguesa, a fuga dessa esc\u00f3ria para Versalhes, contribuiu para que Paris tivesse um \u00edndice extremamente diminuto de delitos. As comiss\u00f5es da Comuna desenvolveram pr\u00e1ticas seminais no campo da democracia direta, a partir do seu funcionamento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essas comiss\u00f5es compunham em representa\u00e7\u00e3o direta uma comiss\u00e3o executiva, e essa comiss\u00e3o executiva era na verdade o poder central da Comuna, esse poder central tomou muitas medidas, dentre as quais, a partir da fuga da burguesia e o abandono das suas f\u00e1bricas, a reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em oficinas coletivas, esse \u00e9 um dado importante para que se possa entender a transi\u00e7\u00e3o a partir das lutas de classe, quando surgiu um vazio pol\u00edtico e se consolidou uma dualidade de poder, mas tamb\u00e9m dentro da produ\u00e7\u00e3o, de uma hegemonia que sa\u00eda vitoriosa tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c9 preponderante resgatar o papel extraordin\u00e1rio que a mulheres tiveram na Comuna, em particular figuras como Louise Michel (enfermeira), como Jeanne-Marie que lutou nas barricadas da semana sangrenta, e muitas outras, que criaram a uni\u00e3o de mulheres para defesa de Paris, em oito de abril de 1871. Ao lado do revolucion\u00e1rio papel da mulher, tivemos como uma das primeiras medidas da Comuna a separa\u00e7\u00e3o do Estado da Igreja, e a transforma\u00e7\u00e3o do ensino confessional em ensino laico e gratuito, levando-se em considera\u00e7\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es aprovadas no congresso de Genebra da AIT, no sentido de uma educa\u00e7\u00e3o para a emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Comuna n\u00e3o ocorreu apenas em Paris, tivemos tamb\u00e9m em Fran\u00e7a outras Comunas, como Lyon, Saint-Etienne, Marselha, Creusot, Toulouse, Narbonne e Limoges, mas todas elas de curta dura\u00e7\u00e3o, de tempo bastante diminuto<sup>17<\/sup>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Comuna foi derrotada, tivemos o massacre final entre 27 e 28 de maio de 1871 mais de 30 mil assassinatos, 40 mil presos, trabalhos for\u00e7ados, deporta\u00e7\u00e3o. Todavia, em v\u00e1rias partes do mundo os trabalhadores sa\u00edram \u00e0s ruas em solidariedade aos Comunardos, mesmo com a violenta derrota, e com o papel da imprensa burguesa, tivemos manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade aos Comunardos em Londres, Bruxelas, Berlim, Genebra, Zurique e outras localidades.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>Primeiras reflex\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Consolida-se a contra-revolu\u00e7\u00e3o burguesa a partir da derrota da Comuna em 1871, mas com o advento da primeira guerra mundial uma nova vaga revolucion\u00e1ria vai come\u00e7ar, agora com a presen\u00e7a do sujeito coletivo, o operador pol\u00edtico que passamos a chamar de partido da classe que chega ao poder com a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917, construindo os sovietes. A Comuna nos traz a li\u00e7\u00e3o, mais uma vez, de um poder de transi\u00e7\u00e3o, e esse poder de transi\u00e7\u00e3o que desarticula a repress\u00e3o pol\u00edtica, socializa o exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico, \u00e9 o primeiro passo para a transi\u00e7\u00e3o, o governo oper\u00e1rio \u00e9 uma democracia de novo tipo, tendendo a ser socialista como diria Marx. A Comuna consegue se atualizar de forma brilhante com a revolu\u00e7\u00e3o russa, afirmaria o comandante da revolu\u00e7\u00e3o de outubro, Lenine. E esta compreens\u00e3o pol\u00edtica foi real\u00e7ada por Trotski, \u00a8Por fim, t\u00ednhamos por tr\u00e1s de n\u00f3s a her\u00f3ica Comuna de Paris, de cuja queda hav\u00edamos tirado a dedu\u00e7\u00e3o de que aos revolucion\u00e1rios prever&#8230;\u00a8(Trotski, 2002: 155).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os Comunardos que tombaram nas trincheiras de Paris, e que foram fuzilados no muro do cemit\u00e9rio de P\u00e8re-Lachaise, a sua hist\u00f3ria, \u00e9 a luta dos trabalhadores modernos. Afinal voc\u00eas, her\u00f3is do muro dos federados, estiveram l\u00e1 em defesa da humanidade. Para todos que levantaram a bandeira vermelha, o grito da hist\u00f3ria sempre ser\u00e1 de vida longa \u00e0 mem\u00f3ria dos que lutaram.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Agulhon, M. (1991). <em>1848 \u2013 O aprendizado da rep\u00fablica<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">__________. 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(1981). <em>La nuit des prol\u00e9taires<\/em>. Archives du rev\u00ea ouvrier. Fayard.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Rougerie, J. (1964). <em>Proc\u00e8s des Communards<\/em>. Paris: ed. Joulliard.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">__________. (1971). <em>Paris libre, 1871<\/em>. Le Seuil.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">__________. (1977). <em>La Commune de 1871<\/em>. Paris: PUF.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tocqueville, A. (1991). <em>Lembran\u00e7as de 1848: as jornadas revolucion\u00e1rias em Paris<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Trotski, L. (2002). A Comuna de Paris e a R\u00fassia dos Sovi\u00e9ts. <em>in<\/em> Coggiolla, Osvaldo (org). <em>Escritos sobre a Comuna de Paris<\/em>. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">1 \u00c9 professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade do Estado da Bahia \u2013 Uneb, coordenador do Centro de Estudos Marxistas \u2013 Cemarx\/Uneb, \u00e9 editor da revista Novos Temas, pesquisador do Neils da PUC-SP e autor\/organizador, entre outros livros, de <em>Outubro e as Experi\u00eancias Socialistas do s\u00e9culo XX e Caio Prado J\u00fanior \u2013 Hist\u00f3ria e Sociedade, <\/em>ambos pela Editora Quarteto<em>.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">2 Aliada \u00e0 Inglaterra e \u00e0 Espanha, a Fran\u00e7a desenvolveu uma a\u00e7\u00e3o imperialista no sentido da expans\u00e3o colonial, quando em 1861, mandou tropas para o M\u00e9xico, para derrubar o governo republicano de Benito Juarez, e colocar no trono mexicano o arqueduque austr\u00edaco, Maximiliano. Todavia, a resist\u00eancia dos mexicanos foi her\u00f3ica, conseguindo impingir \u00e0s tropas invasoras, sucessivas derrotas, que leva o imperador franc\u00eas a retirar suas tropas do M\u00e9xico em fevereiro de 1867. Em junho do mesmo ano os guerrilheiros mexicanos prendem o imperador Maximiliano, e o fuzilam.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">3 A AIT foi fundada pelos trabalhadores que se encontravam desenvolvendo v\u00e1rias jornadas de luta durante os anos sessenta em diversas partes da Europa. Na AIT, militavam correntes pol\u00edticas de concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pr\u00e1ticas bastante diferenciadas, umas das outras. Marx e Engels deram uma importante contribui\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o desse instrumento de luta internacionalista. Anos depois, a AIT, ficaria conhecida como a I Internacional Comunista.<\/p>\n<p>4 Por diversas vezes, Bismarck provocou a Fran\u00e7a em julho de 1870, e como resposta, Napole\u00e3o III declarou guerra a Pr\u00fassia, em 19 de julho do mesmo ano.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">5 Louis-Auguste Blanqui (1805-1881) foi um combativo l\u00edder revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XIX. Te\u00f3rico centrado no papel da viol\u00eancia era de origem muito simples, e sempre foi ligado aos movimentos carbon\u00e1rios desde o in\u00edcio do s\u00e9culo. Passou 36 anos de sua vida preso, e seus seguidores, os blanquistas, tiveram um papel muito grande na dire\u00e7\u00e3o da Comuna. Reca\u00ed sobre Blanqui, a origem do termo, ditadura do proletariado. Ele defendia uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina, centralizada, coesa e preparada para tomar o poder.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">6Bismarck e o alto comando das for\u00e7as prussianas, a servi\u00e7o dos junkers, instalados em Versalhes, proclamam o nascimento do Imp\u00e9rio alem\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">7 A hegemonia se articula com a possibilidade um modo de produ\u00e7\u00e3o diferenciado e sob o comando da classe oper\u00e1ria. Constituindo assim, um contra-poder, que parte da produ\u00e7\u00e3o e cria uma alternativa de reforma moral.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">8 O historiador e jornalista, Adolfe Thierss, foi eleito em fevereiro de 1871 para a Assembl\u00e9ia Nacional, e logo foi indicado para a chefia do governo, onde teve um papel brutal na repress\u00e3o contra-revolucion\u00e1ria a comuna.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">9 Louise Michel (1830-1905) teve um papel destacado como integrante da comuna. Era professora que organizou a luta e combateu no front. Quando da derrota da comuna, foi presa, e em seu julgamento, retrucando aos seus inimigos de classe, no papel de ju\u00edzes a servi\u00e7o da burguesia, afirmou: <em>\u00a8perten\u00e7o por inteira \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o social e declaro assumir a responsabilidade de meus atos<\/em>\u00a8. Foi condenada e deportada.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">10 O Pr\u00edncipe Pierre Bonaparte, acreditando na impunidade, assassinou o jornalista republicano, Vitor Noire, o que gerou uma grande como\u00e7\u00e3o entre as massas que, sa\u00edram as ruas, gritando \u00a8 Vingan\u00e7a!\u00a8 e viva a rep\u00fablica\u00a8.<\/p>\n<p>11O debate girava em torno de quest\u00f5es que diziam respeito ao socialismo, ocorriam em grandes sal\u00f5es\u00a8, eram reuni\u00f5es p\u00fablicas com grande particip\u00e3o popular e contavam com a presen\u00e7a de figuras hist\u00f3ricas que se transformaram em grandes agitadores sociais.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">12 Como afirma Jos\u00e9 Paulo Netto, \u201cA<em> transi\u00e7\u00e3o socialista, ou seja, o per\u00edodo hist\u00f3rico que compreende a realiza\u00e7\u00e3o dessas tarefas, a etapa entre a liquida\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio pol\u00edtico-econ\u00f4mico da burguesia e a emancipa\u00e7\u00e3o de todas as classes na supress\u00e3o do proletariado enquanto classe \u2013 a transi\u00e7\u00e3o socialista, na \u00f3tica do pensamento socialista revolucion\u00e1rio nas suas matrizes \u2018cl\u00e1ssicas\u2019, constitui precisamente o tempo s\u00f3cio-hist\u00f3rico em que, simultaneamente, se opera a socializa\u00e7\u00e3o da economia e a socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica (do poder pol\u00edtico).<\/em>\u201d (Netto, 1990:87).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">13Como afirmava Marx, \u00a8Eis o seu verdadeiro segredo: a Comuna era, essencialmente, um governo da classe oper\u00e1ria, frutoda luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma pol\u00edtica enfim descoberta para levar adiante dentro de si a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do trabalho\u00a8. (Marx, 1977:67)<em>.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">14 \u00c9 importante registrar a presen\u00e7a de militantes internacionais dentro da Comuna que lutaram em suas fileiras, tornando real a frase de Marx, \u00a8Prolet\u00e1rios de todos pa\u00edses, univos\u00a8. Haviam trabalhadores de v\u00e1rios pa\u00edses europeus que trabalhavam em Paris, particularmente, aqueles vindos da B\u00e9lgica. Todavia, pela Comuna passaram internacionalistas que tiveram pap\u00e9is extraordin\u00e1rios, a exemplo de L\u00e9o Frankel, oper\u00e1rio h\u00fangaro que foi o comiss\u00e1rio de justi\u00e7a da Comuna, e que realizou uma grande obra social.<\/p>\n<p>Tivemos os militares poloneses Wroblewski e Dombrowski que lideraram as tropas comunardas, Tendo este \u00faltimo, como comandante militar da Comuna, lutado at\u00e9 os \u00faltimos dias da fa\u00e7anha his\u00f3rica. Dombrowski morreu em combate no dia 23 de maio, e se transformou em her\u00f3i da rep\u00fablica universal, assim como tantos outros lutadores an\u00f4nimos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">15 Para Trotski, analisando a forma de governo, a partir de Marx, compreende o bonapartismo \u00e9 <em>\u00a8a \u00fanica forma de governo aceit\u00e1vel numa \u00e9poca em que a burguesia perdeu a capacidade de governar o povo, e em que a classe oper\u00e1ria ainda n\u00e3o adquiriu essa capacidade<\/em>\u00a8. Afinal, dizia Trotski: <em>\u00a8n\u00e3o \u00e9 democracia, mas, sim, o bonapartismo que representa, do ponto de vista de Marx, a fase final do poder da burguesia<\/em>\u00a8. (Trotski, 2002: 174).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">16Como discutia Engels, \u201c<em>Assim, o car\u00e1ter de classe do movimento de Paris, que antes ficara relegado a segundo plano pela luta contra os invasores estrangeiros, ocorreu do dia 18 de mar\u00e7o em diante com tra\u00e7os en\u00e9rgicos e claros. Como os membros da comuna eram todos, quase sem exce\u00e7\u00e3o, oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos dos oper\u00e1rios, as suas decis\u00f5es distinguiam-se por um marcado car\u00e1ter prolet\u00e1rio. Estas decis\u00f5es, ou decretavam reformas que a burguesia republicana apenas tinha renunciado a implantar por covardia, mas constitu\u00edam uma base indispens\u00e1vel para a livre a\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria (como, por exemplo, a implanta\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de que, no que diz respeito ao Estado, a religi\u00e3o \u00e9 um assunto puramente privado) ou iam diretamente ao encontro do interesse da classe oper\u00e1ria e, em parte, abriam profundas fendas na velha ordem social.\u201d<\/em> (Engels, 2003:79).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">17 \u00a8<em>A partir de Paris, o esfor\u00e7o de sublevar a prov\u00edncia restringiu-se ao envio de alguns delegados \u00e0s cidades maiores. Mesmo com a bravura e o hero\u00edsmo dos insurgentes n\u00e3o foi poss\u00edvel obter vit\u00f3ria expressiva<\/em>.\u201d (Costa, 1998:91).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nMilton Pinheiro1 \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1812\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1812","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-te","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1812\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}