{"id":18130,"date":"2017-12-29T23:50:30","date_gmt":"2017-12-30T02:50:30","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18130"},"modified":"2017-12-29T23:50:30","modified_gmt":"2017-12-30T02:50:30","slug":"lutas-resistencias-e-rebeldias-das-mulheres-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18130","title":{"rendered":"Lutas, resist\u00eancias e rebeldias das mulheres ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Lutas, resist\u00eancias e rebeldias das mulheres ind\u00edgenas\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Diplomado-Fortalecimiento-de-la-Mujer-Ind%C3%ADgena-2017-1024x684-620x400.jpg\" alt=\"Lutas, resist\u00eancias e rebeldias das mulheres ind\u00edgenas\" \/><!--more-->Martina Paillacar Mutiz\u00e1bal, Mapuexpress<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2017\/12\/26\/latinoamerica-luchas-resistencias-y-rebeldias-feministas-de-mujeres-de-los-pueblos-indigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Resumen Latinoamericano<\/a><\/p>\n<p>Elas s\u00e3o as mulheres dos Povos Ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Sul que, dia ap\u00f3s dia, a partir do feminismo ind\u00edgena, lutam de forma cada vez mais ativa pela defesa de seus direitos pol\u00edticos, sociais, econ\u00f4micos, culturais; pelo respeito aos direitos coletivos e individuais que como mulheres t\u00eam; pelo desafio \u00e0s estruturas de poder; pela transforma\u00e7\u00e3o social com equidade de g\u00eanero. Cada vez mais part\u00edcipes de diversos espa\u00e7os pol\u00edticos na busca de igualdade de condi\u00e7\u00f5es, as mulheres feministas e ind\u00edgenas se re\u00fanem para questionar criticamente e lutar contra o colonialismo, o patriarcado, o capitalismo, para acabar com as desigualdades, com as pr\u00e1ticas de viol\u00eancia, impunidade, discrimina\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o, invisibiliza\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o aos Direitos Humanos que diariamente vivem em diferentes territ\u00f3rios sul-americanos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as lutas de resist\u00eancia e rebeldia das mulheres feministas e ind\u00edgenas que defendem a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, prop\u00f5em o Bem Viver como paradigma e princ\u00edpio norteador e especialmente como alternativa ao modelo de desenvolvimento capitalista. Emerge, portanto, a organiza\u00e7\u00e3o, as estrat\u00e9gias de resist\u00eancia, o comunit\u00e1rio, a articula\u00e7\u00e3o, a solidariedade e as redes de apoio. Assim, questionam criticamente os Estados e as pol\u00edticas que julgam e criminalizam as diversas lutas pela autonomia e livre determina\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas e que, como \u00e9 amplamente conhecido, negam sistematicamente seus direitos. Por sua vez, se critica solidamente o modelo extrativista e com isso, \u00e0s ind\u00fastrias e empresas nacionais e transnacionais que, atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de projetos invasivos contra a natureza \u2013 como as mineradoras, hidrel\u00e9tricas, silvicultura, cultivo de salm\u00e3o, petroleiras, entre outros \u2013, afetam gravemente o meio ambiente, gerando negativas consequ\u00eancias socioculturais contra os Povos, prejudicando com isso particularmente as mulheres ind\u00edgenas, que em geral se veem ainda mais afetadas na Am\u00e9rica do Sul por sua qualidade de mulheres, de ind\u00edgenas e em muitas ocasi\u00f5es empobrecidas.<\/p>\n<p>\u00c9 assim como as mulheres em geral e ind\u00edgenas em particular, sofrem problem\u00e1ticas associadas \u00e0 viol\u00eancia, seja esta sist\u00eamica, f\u00edsica, econ\u00f4mica e patrimonial, psicol\u00f3gica, sexual, simb\u00f3lica e por sua vez, vivem problemas associados ao racismo e classismo, que se estende para al\u00e9m de toda fronteira. Nessa linha, o machismo e androcentrismo \u2013 flagelo e opress\u00e3o amplamente presente em espa\u00e7os p\u00fablicos e privados \u2013 se acentuam com o colonialismo e o neoliberalismo e se reproduz e aprofunda atrav\u00e9s das pol\u00edticas p\u00fablicas e os meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o que respondem aos pol\u00edticos dominantes.<\/p>\n<p>Sob o atual modelo na Am\u00e9rica do Sul, em muitas ocasi\u00f5es s\u00e3o as mulheres ind\u00edgenas que devem assumir as responsabilidades de lar e da fam\u00edlia, ficando marginalizadas e reduzidas ao espa\u00e7o privado do lar, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos meninos e meninas. Apesar disso, seu papel n\u00e3o \u00e9 passivo. Muito pelo contr\u00e1rio, cada vez mais assumem a urg\u00eancia de participar de espa\u00e7os coletivos de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pela defesa de seus direitos.<\/p>\n<p><i>&#8220;As mulheres ind\u00edgenas t\u00eam uma situa\u00e7\u00e3o bastante preocupante\u201d<\/i><\/p>\n<p>A este respeito, a educadora e pol\u00edtica Maya-quich\u00e9, refer\u00eancia latino-americana quanto ao ativismo e defesa dos Direitos Humanos com \u00eanfase nos direitos das mulheres, Otilia Lux de Cot\u00ed[1], nos comenta sobre as mulheres ind\u00edgenas ao longo da Am\u00e9rica Latina: <i>\u201cAs mulheres ind\u00edgenas t\u00eam uma situa\u00e7\u00e3o bastante preocupante: muitas mulheres ind\u00edgenas constituem os indicadores do subdesenvolvimento no \u00e2mbito educacional. Existem muitas mulheres ind\u00edgenas rurais analfabetas, outras com escolaridade muito baixa e existe, do mesmo modo, a morte materno-infantil entre as mulheres ind\u00edgenas e rurais, como reflexo pelo fato dos servi\u00e7os b\u00e1sicos n\u00e3o estarem a seu alcance, dado que os sistemas governamentais descuidam das \u00e1reas onde habitam. Isso afeta a inf\u00e2ncia dos Povos Ind\u00edgenas, posto que s\u00e3o as m\u00e3es as doadoras da vida, cultura, de valores e princ\u00edpios aos\/\u00e0s meninos\/as e tais tarefas est\u00e3o muito pr\u00f3ximo do que \u00e9 a mulher ind\u00edgena\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Sobre a participa\u00e7\u00e3o da mulher ind\u00edgena na pol\u00edtica ao longo da Am\u00e9rica Latina, Otilia relata que a mulher ainda participa muito pouco: <i>\u201cPrimeiro porque t\u00eam que dar sanar as necessidades alimentares e de cuidado dos\/as filhos\/as em seus lares, ent\u00e3o n\u00e3o t\u00eam a oportunidade para uma participa\u00e7\u00e3o plena e efetiva no \u00e2mbito pol\u00edtico, especialmente no \u00e2mbito local\u201d<\/i>. Existe, no entanto, segundo explica, avan\u00e7os a n\u00edvel local, nacional e internacional. Assim, <i>\u201cexistem mulheres ind\u00edgenas estudando carreiras, participando da pol\u00edtica, vejo mulheres ind\u00edgenas artistas, cantoras\u2026 existem avan\u00e7os, existem mulheres que deram um passo adiante em aspectos educativos, \u00e9 certo, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de todo\u201d<\/i>, explica.<i> \u201cEstamos preocupadas pelas mulheres que, todavia, est\u00e3o fora dos alcances dos objetivos de desenvolvimento sustent\u00e1vel da Agenda 2030 das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Essa agenda exorta todos os pa\u00edses do mundo a trabalharem pelos mais pobres, por aqueles que t\u00eam mais necessidades, ent\u00e3o se planejou erradicar a pobreza, ter alimentos saud\u00e1veis e que todos tenham a possibilidade de obter esses alimentos. Assim, se fala de seguran\u00e7a alimentar, isso \u00e9 importante v\u00ea-lo pela \u00f3tica das mulheres ind\u00edgenas. N\u00e3o existe, todavia, assist\u00eancia dos Estados \u00e0s mulheres rurais\u201d<\/i>, comenta.<\/p>\n<p>Assim, continua explicando a educadora, que atualmente existem muitas mulheres ind\u00edgenas que sa\u00edram das Universidades e participam da vida pol\u00edtica: <i>\u201cA Bol\u00edvia \u00e9 uma mostra disso: tem 52% de mulheres no \u00e2mbito do poder nacional, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim em todos os pa\u00edses. Existe escassa participa\u00e7\u00e3o de mulheres ind\u00edgenas, afrodescendentes, mesti\u00e7as ou de outra cultura. \u00c9 dif\u00edcil, j\u00e1 que o sistema pol\u00edtico limita muito a participa\u00e7\u00e3o, por isso o movimento de mulheres luta pelas a\u00e7\u00f5es afirmativas em cotas ou paridade. Por exemplo, M\u00e9xico, Costa Rica, Nicar\u00e1gua, Equador e Bol\u00edvia t\u00eam paridade, o resto dos pa\u00edses s\u00f3 t\u00eam cotas, tem 30%, 40%&#8230; N\u00e3o passa disso. Por\u00e9m, n\u00e3os e chega a 50%. Os mais atrasados s\u00e3o o Uruguai junto da Venezuela e a Guatemala, que n\u00e3o t\u00eam nem cota nem paridade. Ent\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres se torna muito mais dif\u00edcil. Assim, custa chegarem aos cargos de vereadoras, prefeitas, governadoras, deputadas. Se em dado caso existem mulheres no \u00e2mbito pol\u00edtico, chegam algumas mulheres ind\u00edgenas, por\u00e9m \u00e9 muito reduzida sua participa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Sobre as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, assinala que s\u00e3o um mecanismo importante, que permite que as mulheres ind\u00edgenas se vejam beneficiadas: <i>\u201cpermitem que as mulheres que n\u00e3o t\u00eam oportunidade de estar organizadas possam ser beneficiadas por algum plano de a\u00e7\u00e3o que tais organiza\u00e7\u00f5es tenham ou que possam tornar-se part\u00edcipes de programas de participa\u00e7\u00e3o educativa, art\u00edstica, de desenvolvimento, permitindo-lhes enxergar as organiza\u00e7\u00f5es como refer\u00eancias e motivar-se para buscar alternativas para sua situa\u00e7\u00e3o\u201d<\/i>, assinala.<\/p>\n<p>Segundo nos explica Otilia Luz, os desafios das mulheres ind\u00edgenas s\u00e3o: <i>\u201cfazer trabalhos de proje\u00e7\u00e3o para as mulheres que n\u00e3o t\u00eam oportunidades, fazer trabalhos nas \u00e1reas rurais e marginalizadas onde existam necessidades. \u00c9 importante apoiar outras mulheres que n\u00e3o tenham a oportunidade para empoderar-se no \u00e2mbito pol\u00edtico e, assim, promover sua participa\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, \u00e9 necess\u00e1rio que as mulheres participem muito mais das atividades e das a\u00e7\u00f5es que promovem as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u201d<\/i>.<i> <\/i><\/p>\n<p>Por outro lado, comenta que seria importante que realizar continuidades nas pol\u00edticas sociais apresentadas pelos governos, para assim <i>\u201cver se as mulheres rurais e ind\u00edgenas podem ser beneficiadas por uma pol\u00edtica social no \u00e2mbito educativo; social; econ\u00f4mico; de produ\u00e7\u00e3o; de empoderamento das mulheres; para saber que \u00e9 um plano de governo e ver se estes orientam seus programas para as mulheres\u201d<\/i>, comenta. A isso, acrescenta: <i>\u201cSeria conveniente realizar uma sistematiza\u00e7\u00e3o de estudos que possam dar informa\u00e7\u00e3o sobre onde est\u00e3o as \u00e1reas a trabalhar e quais s\u00e3o os temas que demandam as mulheres. Por exemplo, umas dir\u00e3o que necessitam de uma oficina de elabora\u00e7\u00e3o de tecidos, ou que que precisam fortalecer a lideran\u00e7a. Tudo depender\u00e1 da vis\u00e3o que nos deem as pr\u00f3prias mulheres\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que a ativista pelos Direitos Humanos comenta a transcend\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o para a transforma\u00e7\u00e3o social:<i> \u201cseja no \u00e2mbito do meio ambiente, em quest\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a alimentar, em lideran\u00e7a, em processos organizativos, na tomada de decis\u00f5es, em como organizar um mercado. Por isso, \u00e9 preciso potencializar a lideran\u00e7a das mulheres e a capacidade para trabalhar com organiza\u00e7\u00f5es, buscar estrat\u00e9gias de trabalho em conjunto\u201d<\/i>, expressa.<\/p>\n<p><i>\u201cChile: deve ser um pa\u00eds multicultural, plural, um pa\u00eds que oriente suas pol\u00edticas sociais para a diversidade\u201d<\/i><\/p>\n<p>Sobre a situa\u00e7\u00e3o particular no Chile e a situa\u00e7\u00e3o do Estado em rela\u00e7\u00e3o aos Povos Ind\u00edgenas, Otilia Luz comenta: <i>\u201cNo Chile existem elementos que se refletem em outros pa\u00eds: n\u00e3o existe uma vontade de um setor que est\u00e1 bloqueando alguma iniciativa que possa ser efetiva em um Congresso. Se o Chile possui Povos Ind\u00edgenas, considero que deva ser um pa\u00eds multicultural, plural, um pa\u00eds que oriente suas pol\u00edticas sociais para a diversidade. \u00c9 question\u00e1vel o fato de n\u00e3o atenderam as demandas dos Povos Ind\u00edgenas: \u00e9 o pr\u00f3prio Estado que criou conflitividade no caso da terra, territ\u00f3rio e recursos naturais, que \u00e9 um tema omitido\u201d<\/i>, comenta. Assim, reflete: <i>\u201cO Chile adotou a Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas e deveria coloca-la em sua Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica. Qual \u00e9 o temor dos Estados?\u201d<\/i>, se questiona. <i>\u201cAqui, globalizo o todo da Am\u00e9rica Latina: se j\u00e1 existem pa\u00edses como Bol\u00edvia, Equador \u2013 e Col\u00f4mbia que vai por esse caminho \u2013, se j\u00e1 existem pa\u00edses que deram seu reconhecimento aos Direitos Coletivos atrav\u00e9s da terra e do territ\u00f3rio, por que n\u00e3o faz\u00ea-lo aqui no Chile o una Guatemala?\u201d<\/i>. Assim, exemplifica: <i>\u201cNo caso da Guatemala, \u00e9 o setor econ\u00f4mico que bloqueia e manipula o setor pol\u00edtico, que tem em suas m\u00e3os o Congresso da Rep\u00fablica, ent\u00e3o o domina\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Logo, explica que o Chile deve gerar mais consci\u00eancia do que est\u00e3o demandando os Povos Ind\u00edgenas e seus direitos coletivos e cidad\u00e3os: <i>\u201cNenhum Povo est\u00e1 solicitando a secess\u00e3o, n\u00e3o estamos pedindo para dividir o pa\u00eds, estamos pedindo que nos reconhe\u00e7am na Carta Magna. Com isso, estamos dizendo que somos cidad\u00e3os todos\/as e temos os mesmos direitos a honrar artigos, j\u00e1 que as Constitui\u00e7\u00f5es dizem que somos iguais em oportunidades e direitos. Ent\u00e3o, n\u00e3o existe problema reconhecerem os Povos Ind\u00edgenas\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Para finalizar, reflete: <i>\u201cNestes tempos, posto que somos diversos, necessitamos pol\u00edticas diversas. Necessitamos um or\u00e7amento nacional orientado \u00e0 diversidade. Por outro lado, se requer que o Estado cumpra o Conv\u00eanio 169, que assinala que quando as empresas com o aval dos Estados querem fazer algum tipo de megaprojeto nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, deve existir um consentimento livre, pr\u00e9vio e informado, que \u00e9 um princ\u00edpio Universal para qualquer grupo humano, um direito para todos e todas. Quando n\u00e3o est\u00e3o consultando, est\u00e3o violando a Lei e os Direitos Humanos\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>\u201cSejamos ou n\u00e3o ind\u00edgenas, devemos nos unir para que cumpram nossos direitos como mulheres\u201d<\/p>\n<p>Da Am\u00e9rica Central, Aura Recimos, guatemalteca, comenta sobre algumas problem\u00e1ticas que vivem, entre elas a viol\u00eancia contra a mulher, que particularmente afeta de maneira mais profunda a mulher ind\u00edgena, segundo relata. Assim, nos explica tamb\u00e9m sobre diversos problemas associados aos conflitos em torno do meio ambiente, da terra e territ\u00f3rio, da \u00e1gua, dos funcion\u00e1rios que n\u00e3o atendem \u00e0s necessidades, da cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o que se vive nos hospitais, da escassez e precariedade laboral, entre muitos outros. <i>\u201cN\u00f3s mulheres, sejamos ou n\u00e3o ind\u00edgenas\u201d, devemos nos unir para que cumpram nossos direitos como mulheres\u201d<\/i>, comenta Aura.<\/p>\n<p>Tal situa\u00e7\u00e3o se repete ao longo da Am\u00e9rica do Sul, segundo nos relatam mulheres Aymara, Cacha, Charr\u00faa, Colla, Diaguita, Guarani Ocidental, Harakbut, Kankuamo, Likan Antai, Mapuche, Rapa Nui, Quechua e Wayu, que a seguir compartilham parte de sua hist\u00f3ria, cosmovis\u00e3o, problem\u00e1ticas e sua vis\u00e3o sobre os desafios das mulheres ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p><b>Vozes e lutas das mulheres ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Sul<\/b><\/p>\n<p><u>Aymara<\/u><\/p>\n<p>Maribel Santamar\u00eda Mamani, secret\u00e1ria da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Mulheres Campesinas Ind\u00edgenas Origin\u00e1rias da Bol\u00edvia Bartolina Sisa de Bolivia, da Na\u00e7\u00e3o Aymara, comenta sobre seu Povo no contexto boliviano: <i>\u201cSomos um Povo milenar, que tem hist\u00f3ria, cultura, conhecimentos, sabedorias, um di\u00e1logo com a Pachamama. Para qualquer reuni\u00e3o se pede permiss\u00e3o para a M\u00e3e Terra, atrav\u00e9s da folha de Coca, que est\u00e1 presente em toda reuni\u00e3o: nas reuni\u00f5es familiares, comunais, em algum escrit\u00f3rio, para come\u00e7ar a semeadura. Assim, existe uma comunica\u00e7\u00e3o constante. Pedimos for\u00e7a, sabedoria, valor, energias positivas para seguir<\/i> fornecendo-os. <i>Temos dois s\u00edmbolos muito importantes em nossas vidas: nossa av\u00f3 Bartolina Sisa e Tupac Katari, her\u00f3is que lutaram pela liberta\u00e7\u00e3o de nossos Povos na \u00e9poca colonial. Levamos esse exemplo, essa fortaleza. Estamos seguindo seus passos\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Sobre as problem\u00e1ticas que vivem na Bol\u00edvia, nos explica: <i>\u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil implementar as mudan\u00e7as. Embora a Bol\u00edvia seja um Estado plurinatural, temos dificuldades em implementar as normativas. \u00c9 importante descolonizar a descoloniza\u00e7\u00e3o. A descoloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 todo um processo, estamos nesse processo, de despatriarcalizar, todavia temos muita luta por seguir, demos um passinho, nos falta muito mais por trabalhar\u201d. <\/i>Assim, metaforicamente, comenta: <i>\u201cPara isso estamos organizados, fortalecendo-nos organicamente. \u00c9 importante termos ex\u00e9rcito, soldados organizados, Aymaras, Quechuas, Guaranis, de todas as nacionalidades. Porque se n\u00e3o estivermos organizados, n\u00e3o vamos poder conseguir. Estamos nesse processo de constru\u00e7\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cS\u00e3o muitos os desafios que temos que superar como mulheres ind\u00edgenas\u201d<\/i>, assinala. Comenta: <i>\u201cTemos que manter nossa identidade. Transpassamos mais de 500 anos e, atualmente, continuamos mostrando nossa identidade, nossa cultura\u201d<\/i>. Assim, nos explica que o papel da mulher tem sido fundamental na manuten\u00e7\u00e3o da identidade. Logo, se refere \u00e0 relev\u00e2ncia do idioma materno: <i>\u201cPor meio do idioma nos comunicamos e persistimos at\u00e9 a data. Devemos continuar recuperando nossos idiomas, os idiomas dos povos ind\u00edgenas que est\u00e3o sendo perdidos\u201d<\/i>. Dessa maneira, relata sobre diversos aspectos de seu Povo, entre eles, as vestimentas que t\u00eam toda uma hist\u00f3ria: <i>\u201cnossos tecidos t\u00eam todo esse conhecimento que herdamos de nossos av\u00f3s\u201d<\/i>, para finalmente destacar a necessidade de manter a identidade, o idioma e dialogar entre os Povos. <i>\u201cO viver bem \u00e9 o futuro que todos temos que reconstruir\u201d, <\/i>finaliza assinalando Maribel.<\/p>\n<p>Doris Moscoso Castro, Aymara, da Comunidade de Cancosa, na comunca de Pica, localizada na zona alto andina da regi\u00e3o de Tarapac\u00e1 no Chile, comenta sobre as adversidades vividas e que est\u00e3o associadas \u00e0s mineradoras, que <i>\u201cgeram escassez de \u00e1gua e causam danos \u00e0 flora e \u00e0 fauna principalmente\u201d<\/i>, segundo explica. Depois, aponta que um dos principais desafios das mulheres ind\u00edgenas s\u00e3o <i>\u201co trabalhar em comunidade com os\/as alde\u00f5es\/\u00e3s, e conhecer as ferramentas jur\u00eddicas que s\u00e3o o sustento para nos defender ante o governo, ante as empresas e mineradoras estrangeiras, frente \u00e0s autoridades locais e regionais\u201d<\/i>, comenta. Por sua parte, N\u00e9lida Moscoso Moscoso, tamb\u00e9m da Comunidade Cancosa, igualmente Aymara, integrante da organiza\u00e7\u00e3o <i>\u201cAssocia\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de mulheres da regi\u00e3o de Tarapac\u00e1\u201d<\/i>, que se dirige ao fortalecimento das mulheres ind\u00edgenas de diversos Povos Ind\u00edgenas, aborda os impactos ambientais que causa a extra\u00e7\u00e3o mineradora do norte, particularmente BHP Billinton, Cerro colorado e que afetam seu Povo: <i>\u201cHoje estamos em um processo de disputa com a mineradora porque n\u00e3o fomos inclu\u00eddos na consulta. Exigimos que o Estado, que deu a permiss\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o de Qualifica\u00e7\u00e3o Ambiental, que aprova o projeto de BHP, se torne sem efeito, dado que n\u00e3o foram cumpridos os pressupostos que estabelece a Lei. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, no entanto esperamos fortalecer nossas bases para proteger nossos territ\u00f3rios\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Sobre os desafios das mulheres ind\u00edgenas, nos assinala: <i>\u201cTemos que sensibilizar nossas bases\u201d<\/i>. Assim, finaliza apontando: <i>\u201cTenho a convic\u00e7\u00e3o que a uni\u00e3o \u00e9 \u00fanica forma de obtermos nossos objetivos, neste caso proteger nossas origens, proteger nossa cosmovis\u00e3o e revitaliza-la Como mulher, temos essa tarefa\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Por sua parte, Rosa Quispe Huanca, mulher Aymara e cantora em Pozo Almonte da Prov\u00edncia do Tamarugal, na regi\u00e3o de Tarapac\u00e1 nos Chile, fala sobre os problemas vividos enquanto Povo: <i>\u201cSofremos de seca e falta d\u2019\u00e1gua por ser extra\u00edda de forma injusta e inconsciente pelas mineradoras que est\u00e3o retiram os recursos pr\u00f3prios de nossa terra\u201d<\/i>. Assim, comenta que existem outros problemas, alguns internos como <i>\u201ca desuni\u00e3o no Povo\u201d<\/i>. Dessa forma, <i>\u201ccomo desafio me proponho a unir as nossas mulheres para \u2013 organizadamente \u2013 lutar contra estas problem\u00e1ticas que n\u00e3o s\u00f3 atentem contra o nosso povo, mas contra a todo Ser Humano que habite nossa terra, chamada por n\u00f3s \u2018Pachamama\u2019. \u00c9 importante poder nos unirmos para lutar para mudar a situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo\u201d.<\/i> Sobre o cuidado com a natureza, assinala que em geral existe uma falta de consci\u00eancia quanto \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o ambiental: <i>\u201ccome\u00e7ando pelos sacos pl\u00e1sticos, as garrafas descart\u00e1veis&#8230; As mineradoras est\u00e3o contaminando o ar, por outro lado, est\u00e3o instalando pain\u00e9is solares de forma extensa em grandes terrenos, o que finalmente afeta a sa\u00fade. \u00c9 um problema para toda a comunidade\u201d<\/i>. Diz ainda: <i>\u201cAs leis s\u00e3o feitas para favorecer os grandes empres\u00e1rios que lucram com a natureza, com a agua, o ar, a vegeta\u00e7\u00e3o, flora e fauna\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Finalmente, se refere a outro problema vivenciado como Povo: <i>\u201cA prolifera\u00e7\u00e3o de jovens que consomem droga. Em rela\u00e7\u00e3o a isto, os pol\u00edticos nem os governos t\u00eam a capacidade para enfrentar estes problemas, que se imp\u00f5em n\u00e3o apenas a nosso Povo, mas a outros, inclusive os n\u00e3o ind\u00edgenas. \u00c9 triste ver as m\u00e3es preocupadas com seus filhos e ter para a quem recorrer\u201d<\/i>, comenta.<\/p>\n<p>Am\u00e9rica Calle Calle, do Povo Aymara, da comuna de Camarones, da prov\u00edncia de Arica no Chile, exp\u00f5e sobre a cosmovis\u00e3o de seu Povo e sobre diversos obst\u00e1culos enfrentados, entre eles o n\u00e3o reconhecimento na constitui\u00e7\u00e3o chilena. Depois, se refere \u00e0 disputa entre o Povo Socoroma e a entrega de territ\u00f3rios ancestrais ind\u00edgenas por parte de Bens Nacionais ao Ex\u00e9rcito para fins militares. Sobre a mulher ind\u00edgena, comenta: <i>\u201cNo futuro, dever\u00e3o aparecer futuras l\u00edderes que tenham maior incid\u00eancia, dever\u00e1 existir mais uni\u00e3o e trabalho em equipe, um povo unido jamais ser\u00e1 vencido\u201d<\/i>. Assim, acrescenta: <i>\u201cDevemos deixar um legado e sermos reconhecidos na Constitui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de acordo com os padr\u00f5es que n\u00f3s, como Povos Ind\u00edgenas, solicitamos. Isso seria grande avan\u00e7o. Todos os povos necessitam ser reconhecidos\u201d<\/i>, finaliza assinalando.<\/p>\n<p>Finalmente, Rosa Maita Querquezana, Aymara da regi\u00e3o de Arica e Parinacota, vereadora, presidenta da Comunidade Ind\u00edgena de Visviri na Comuna de General Lagos, secret\u00e1ria da Associa\u00e7\u00e3o Colliri Yatiri Pachacutani\u00f1a, que \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que trabalha com medicina tradicional ind\u00edgena, aborda alguns dos problemas afetam seu Povo:<i> \u201cTodos os territ\u00f3rios s\u00e3o particulares. N\u00e3o existem problemas de terra, por\u00e9m existem problemas de \u00e1gua, j\u00e1 que est\u00e1 escasseando. Isso entra em conflito com o governo e a reforma do C\u00f3digo de \u00c1guas\u201d<\/i>. Posteriormente, fala que as mulheres deveriam ter uma prepara\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e legal <i>\u201cpara enfrentar as mineradoras ou aqueles que quiserem depredar nossos territ\u00f3rios com bases t\u00e9cnicas\u201d<\/i>, diz. Finalmente, Rosa assinala: <i>\u201cDevemos nos empoderarmos, nos capacitarmos para influenciar, para formar as lideran\u00e7as segundo suas pr\u00f3prias necessidades. Os Povos Ind\u00edgenas devem unir-se. \u00c9 um desafio, armar for\u00e7as, sobretudo na Am\u00e9rica do Sul\u201d. <\/i><\/p>\n<p><u>Cacha<\/u><\/p>\n<p>Carmen Tiupil, do Povo Cacha no Equador, comenta sobre a hist\u00f3ria de seu Povo: <i>\u201cSomos a raiz da nacionalidade equatoriana porque \u00e9 a terra onde nasceram os her\u00f3is, os grandes lutadores e guerreiros na \u00e9poca de Tawantisuyo: \u00e9 a terra de Atawalpa, de Puraw\u00e1\u201d. \u201cEm 1980<\/i> \u2013 diz \u2013 <i>foi reconhecida como a Primeira Par\u00f3quia Ind\u00edgena do Equador no governo do advogado Jaime Mendoza. Nosso Povo tem dois her\u00f3is que foram reconhecidos, que lutaram na \u00e9poca de Garc\u00eda Moreno pelos d\u00edzimos e se rebelaram contra o trabalho volunt\u00e1rio, contra o tema que existia sobre as terras: s\u00e3o eles Fernando Daquilema e Manuela Le\u00f3n, nossos dois l\u00edderes\u201d. \u201cDe acordo com isso <\/i>\u2013 acrescenta \u2013 <i>temos esse esp\u00edrito de mobiliza\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia. Somos um Povo de hist\u00f3ria e cultura\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Assim, aponta que atualmente s\u00e3o aproximadamente 3.700 pessoas como popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a migra\u00e7\u00e3o foi muito forte, situa\u00e7\u00e3o que se repete em diversos Povos Ind\u00edgenas na Am\u00e9rica do Sul. Depois, fala sobre o artesanato que realizam: <i>\u201cCaracterizamo-nos por isso. As mulheres tecem nossas roupas de vestir, os homens tecem seus ponchos\u201d<\/i>. Carmen tamb\u00e9m se refere aos problemas relacionados \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua, que afetam seu Povo: <i>\u201cEm muitos trechos a \u00e1gua desapareceu, as terras se erodiram\u201d<\/i>. Do mesmo modo, <i>se <\/i>refere aos problemas associados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o: <i>\u201cInfelizmente com a \u00faltima lei aprovada no governo anterior, se estagnou o ingresso dos jovens das comunidades \u00e0s Universidades\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Por fim, comenta: <i>\u201cas mulheres devem continuar educando, preparando, j\u00e1 que n\u00f3s somos, com nossa sabedoria herdada de nossos\/as av\u00f3s, mais a ci\u00eancia que aprendemos da teoria das classes e da forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica organizativa, que devemos debater e emitir propostas ante os governos. Por\u00e9m, para al\u00e9m disso, devemos empoderar nossos Povos para que as mulheres vejam que sim, temos um poder de lideran\u00e7a, demonstrando que somos as herdeiras da cultura\u201d<\/i>. Assim, encerra assinalando: <i>\u201cDepende de nossas mulheres que a hist\u00f3ria dos povos permane\u00e7a e se fortale\u00e7a\u201d.<\/i><\/p>\n<p><u>Charr\u00faa<\/u><\/p>\n<p>M\u00f3nica Michelena, mulher ind\u00edgena do Povo Charrua, membro do Conselho da Na\u00e7\u00e3o Charr\u00faa no Uruguai, nos conta sobre a cosmovis\u00e3o de seu Povo: <i>\u201cNossa cosmovis\u00e3o \u00e9 totalmente horizontal. Temos os quatro pontos cardeais, as quatro cores, as quatro esta\u00e7\u00f5es do ano. Temos um v\u00ednculo muito forte com as 600 gera\u00e7\u00f5es antecessoras que nos respaldam e guiam nossos passos. Cada vez que nasce um\/a menino\/a, o\/a apresentamos \u00e0 Lua. Ela nos guia, a ela recorremos nos momentos mais dif\u00edceis de nossa vida\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Com isso, nos relata sobre a hist\u00f3ria de seu Povo: <i>\u201cSofremos um grande genoc\u00eddio em 1831. Possu\u00edmos 300 anos de resist\u00eancia ante v\u00e1rios imp\u00e9rios: frente aos espanh\u00f3is, portugueses, ingleses e brasileiros. Depois, o primeiro governo da Rep\u00fablica do Uruguai realizou o genoc\u00eddio por conta dos territ\u00f3rios, porque nosso modo de vida ancestral n\u00e3o se ajustava aos planos de propriedade privada, de desenvolvimento, de avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o contra a \u2018barb\u00e1rie\u2019. Assim, em uma emboscada, com armadilhas, cercaram 500 Charr\u00faas e os massacram em 1831, no genoc\u00eddio de \u2018Salsipuedes\u2019, que ainda n\u00e3o foi reconhecido. 300 sobreviventes foram distribu\u00eddos como serventes e nas casas de fam\u00edlia de Montevid\u00e9u, divididos no meio rural e nas cidades. <\/i><i>Desta dispers\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s resistimos. Somos comunidades dispersas, sofremos o genoc\u00eddio e o etnoc\u00eddio\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cHoje<\/i> \u2013 diz \u2013 <i>estamos em um processo de ressurg\u00eancia. Estamos recuperando nossa mem\u00f3ria oral, estamos sistematizando, resgatando essas mem\u00f3rias e costumes ancestrais. Alguns ritos e costumes n\u00e3o se perderam e outros estamos ressignificando, ou seja, praticando a partir de hoje. Dentro do Conselho da Na\u00e7\u00e3o Charr\u00faa (CONACHA) existe um grupo de jovens muito forte, que \u00e9 a ponta de lan\u00e7a para a defesa do territ\u00f3rio que est\u00e1 muito massacrado, \u00e9 como uma revolu\u00e7\u00e3o dentro de n\u00f3s mesmos\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Depois, M\u00f3nica comentou sobre os projetos extrativistas que afetam o territ\u00f3rio. No Uruguai existem 3 f\u00e1bricas de celulose, cultivos de eucalipto, soja transg\u00eanica, agrot\u00f3xicos e projetos de minera\u00e7\u00e3o, o que se repete ao longo da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Posterior a isso, aborda o trabalho que realizam no CONACHA: <i>\u201cEstamos em rede com a Assembleia Nacional Permanente, que possui mais de 30 organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas, com as quais trabalhamos ativamente\u201d<\/i> e, assim, nos conta sobre o Projeto da Escola Intercultural Charr\u00faa Itinerante, que \u00e9 uma escola de forma\u00e7\u00e3o interna, onde se realizam oficinas chegando a diferentes comunidades rurais e da capital para refor\u00e7ar sua identidade e cultura, para fortalecer os direitos ind\u00edgenas, a soberania alimentar, a recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria oral e dos conhecimentos ancestrais. Assim, afirma: <i>\u201cEnfatizamos os direitos porque uma cultura sem se cruzar com os direitos ind\u00edgenas se converte muitas vezes em folclorismo. A defesa da terra e do territ\u00f3rio sustentam, por sua vez, os direitos ind\u00edgenas, para assim recuperar a cultura pol\u00edtica\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Sobre os desafios das mulheres ind\u00edgenas, cometa: <i>\u201cComo mulheres ind\u00edgenas devemos cumprir com nosso papel de guardi\u00e3 de nossos saberes, como doadoras da vida. A mulher no povo Charr\u00faa ancestral tinha um papel muito protagonista e de complementaridade com nossos irm\u00e3os homens, de grande responsabilidade, porque ela guardava a mem\u00f3ria ancestral, cuidava dos saberes e conhecimentos tradicionais, tinha um v\u00ednculo muito forte com a lua\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Para finalizar, M\u00f3nica assinala: <i>\u201cN\u00f3s temos a palavra da mem\u00f3ria, somos n\u00f3s que transmitimos essa mem\u00f3ria ancestral vinculada com nossos territ\u00f3rios ancestrais, que estamos em via de recuperar lentamente porque o Estado uruguaio n\u00e3o nos reconhece como Povo Ind\u00edgena. Por\u00e9m temos alguns locais que s\u00e3o sagrados que queremos recuperar e estamos a caminho disso\u201d.<\/i><\/p>\n<p><u>Colla<\/u><\/p>\n<p>Ana Quispe Ger\u00f3nimo, da Comunidade Ind\u00edgena Colla Runa Urka, aponta: <i>\u201cSomos uma comunidade de transum\u00e2ncia, mantemos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o nossa cosmovis\u00e3o. Somos criadores de animais, sempre formos e vamos morrer com isso\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Assim, fala sobre as afeta\u00e7\u00f5es e impactos ambientais fruto das mineradoras Kinross e um projeto arquitet\u00f4nico na localidade: <i>\u201cAs mineradoras contaminam as \u00e1guas, secam os c\u00f3rregos e, com isso, n\u00e3o h\u00e1 alimento para os animais. <\/i><i>Essa \u00e9 nossa batalha contra as mineradoras. <\/i><i>Elas se preocupam em extrair o mineral, por\u00e9m n\u00e3o se preocupam de deixar um ambiente que possa ser usado. Eles precisam combater contra a nossa for\u00e7a e luta. N\u00f3s n\u00e3o pedimos que fossem para l\u00e1, eles est\u00e3o invadindo o territ\u00f3rio. Hoje estamos lutando por nossos direitos. Eles acreditam que nos fazem passar por bobos, por\u00e9m n\u00e3o o somos. Somos ind\u00edgenas e n\u00e3o burros\u201d<\/i>, enfatiza. Nesse sentido, Ana defende que n\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o para a contamina\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 poss\u00edvel monitorar as \u00e1guas, cuidar da flora e da fauna, e especialmente das plantas medicinais que utilizam na medicina tradicional. Dessa maneira, fala sobre a import\u00e2ncia de educar meninos e meninas na cosmovis\u00e3o ind\u00edgena: <i>\u201cN\u00f3s estamos lutando agora, por\u00e9m os\/as pequenos\/as t\u00eam que aprender, para que continuem com a luta, para que nunca se termine a transum\u00e2ncia\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Finalmente, Ana se refere aos desafios da mulher ind\u00edgena: <i>\u201cComo mulheres ind\u00edgenas devemos seguir na luta, n\u00e3o decair, n\u00e3o cair nas palavras dos poderosos, ser fortes, de uma s\u00f3 linha na luta por nossas terras, por nossos animais, pela transum\u00e2ncia, para que o Estado n\u00e3o passe por cima dos comuneros, das comunidades nem do meio ambiente. Sempre temos que lutar. Todo ind\u00edgena tem a quest\u00e3o das terras, da \u00e1gua. <\/i><i>Todos lutamos pelo mesmo. <\/i><i>Se nos unirmos, podemos conquistar muitas coisas. Antigamente, os ind\u00edgenas era todos comunit\u00e1rios, ningu\u00e9m era dono de nada. Todos os ind\u00edgenas deveriam defender comunitariamente os direitos\u201d<\/i>, relata.<\/p>\n<p><u>Diaguita<\/u><\/p>\n<p>Mar\u00eda Gabriela Calder\u00f3n \u00c1lvarez, do Povo Diaguita no norte do Chile, afirma: <i>\u201cV\u00e1rias comunidades est\u00e3o enfrentando problemas de terras ancestrais, onde se encontram tentando obter o reconhecimento delas. No entanto, n\u00e3o contaram com o apoio nem foram escutadas. Levam outras comunidades afetadas pela escassez de \u00e1gua, produto da grande minera\u00e7\u00e3o. Na zona, se encontra Pascua Lama, que coloca em perigo e afeta\u00e7\u00e3o os glaciais que s\u00e3o gelos eternos. Existem outros projetos importantes que est\u00e3o em andamento e, por isso, se est\u00e1 em alerta\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Depois, se refere aos desafios das mulheres ind\u00edgenas:<i> \u201cDevemos nos preparar, nos capacitar para enfrentar os problemas de cada povo, com os conhecimentos adequados para poder sermos ouvidos. <\/i><i>Devemos poder aplicar as ferramentas jur\u00eddicas. \u00c9 preciso capacitar os\/as dirigentes acerca de termas normativos e jur\u00eddicos, e entender tudo isto com a cosmovis\u00e3o dos povos\u201d. <\/i>Nesse sentido, comenta que se requerem equipes multidisciplinares que tenham clareza das problem\u00e1ticas de cada um dos Povos. <i>\u201cSe conseguirmos nos unir para trabalhar em conjunto, os objetivos que possam ser alcan\u00e7ados ser\u00e3o maiores\u201d<\/i>, comenta. <i>\u201cDe cada uma de nossas \u00e1reas podemos contribuir, para obter incid\u00eancia e gerar mudan\u00e7as\u201d<\/i>, finaliza assinalando.<\/p>\n<p><u>Guarani Ocidental<\/u><\/p>\n<p>Lis Carolina Or\u00fae Cruzabie \u00e9 da comunidade de Santa Teresita no Chaco Paraguaio, do Povo Guarani Ocidental, estudante de Direito e integrante da Coordenadoria de Organiza\u00e7\u00f5es Campesinas e Ind\u00edgenas do Paraguai (CONAMURI), organiza\u00e7\u00e3o na qual <i>\u201cse trabalha com mulheres ind\u00edgenas e campesinas que visam a independ\u00eancia do Estado, e fomentam a pol\u00edtica alimentar saud\u00e1vel\u201d<\/i>, segundo nos explica<i>.<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cAtualmente<\/i> \u2013 comenta \u2013<i>,<\/i> <i>vivemos um problema de Educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o existem boas faculdades que queiram ir at\u00e9 a regi\u00e3o para ensinar, n\u00e3o existem professores. Isso faz com que os jovens migrem para a cidade e n\u00e3o voltem ao Povo Origin\u00e1rio\u201d. <\/i>Sobre os desafios das mulheres ind\u00edgenas, afirma: <i>\u201cdevemos saber nossas ra\u00edzes, porque ao esquecer de onde viemos, n\u00e3o sabemos para onde vamos. Devemos ensinar \u00e0s mulheres que depende n\u00f3s mesmas a mudan\u00e7a, para que n\u00e3o se violem nossos direitos e princ\u00edpios fundamentais consagrados nos Direitos Humanos\u201d.<\/i><\/p>\n<p><u>Harakbut<\/u><\/p>\n<p>Katherine Quique, do Povo Harakbut na Amaz\u00f4nia Sul-oriente do Peru, fala sobre seu Povo, que abarca 10 comunidades que falam o mesmo idioma e que pertencem a uma zona de reserva de cogest\u00e3o entre o Estado e as Comunidades.<\/p>\n<p>Assim, se refere a diversas problem\u00e1ticas que afetam seu povo, entre eles a explora\u00e7\u00e3o madeireira ilegal, a extra\u00e7\u00e3o indiscriminada de castanhas e a minera\u00e7\u00e3o ilegal, <i>\u201cprincipalmente pela presen\u00e7a de pessoas externas, que vem gra\u00e7as ao Estado que lhes deu a concess\u00e3o dentro do territ\u00f3rio comunal, o que gerou conflitos socioculturais, relacionados ao meio ambiente e legais\u201d<\/i>, comenta.<\/p>\n<p>No povo, diz, n\u00e3o se veem mulheres lideran\u00e7as ind\u00edgenas empoderadas. Portanto, destaca a necessidade de fortalecer isso, <i>\u201cpara fazer frente ao Estado junto com os homens\u201d<\/i>, segundo conta.<\/p>\n<p><u>Kankuamo<\/u><\/p>\n<p>Omaira C\u00e1rdenas Mendoza, mulher ind\u00edgena do Povo Kankuamo do Cerro Nevada Santa Marta na Col\u00f4mbia, comenta: <i>\u201cTemos o dever da salvaguarda da humanidade quanto aos nossos princ\u00edpios e mandatos espirituais\u201d<\/i>. Assim, relata a hist\u00f3ria de seu Povo: <i>\u201cFomos v\u00edtimas diretas do conflito armado, potencialmente com mais de 400 ind\u00edgenas<\/i> <i>Kankuamos assassinados, com uma popula\u00e7\u00e3o espalhada e deslocada em todo o territ\u00f3rio nacional colombiano. Temos, portanto, um impacto pelo caso do deslocamento for\u00e7ado em seis capitais da Col\u00f4mbia: isso nos faz perguntar sobre o que envolve ser ind\u00edgena na cidade\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Omaira comenta que como Povo, sempre teve a resist\u00eancia como identidade: <i>\u201cSabemos de onde viemos, sabemos de onde somos\u201d<\/i>. Assim, explica: <i>\u201cPudemos manter a unidade em meio \u00e0s dificuldades e diferen\u00e7as do contexto geopol\u00edtico de hoje, sabendo que a Col\u00f4mbia recentemente assinou o Acordo de Paz. Como dizem as autoridades espirituais: n\u00f3s somos historicamente donos de nosso territ\u00f3rio, isso temos claro para defender. Permanecemos no tempo n\u00e3o apenas como pessoas, mas como ind\u00edgenas Kankuamos, onde quer que f\u00f4ssemos\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cPara n\u00f3s<\/i> \u2013 comenta \u2013 <i>a resist\u00eancia, a minga, a mobiliza\u00e7\u00e3o, a prepara\u00e7\u00e3o, s\u00e3o importantes. Assim, n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas somos instrumento importante para que as gera\u00e7\u00f5es presentes e, sobretudo, as futuras saibam de onde viemos e qual \u00e9 nosso legado espiritual para continuar defendendo o que denominamos o Cora\u00e7\u00e3o do Mundo. Como Povos Ind\u00edgenas, estamos chamando \u00e0 unidade, ao territ\u00f3rio, \u00e0 identidade cultural, \u00e0 resist\u00eancia, \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/i>. Os desafios e obst\u00e1culos que t\u00eam como Povo s\u00e3o <i>\u201cseguir com a defesa de nossos mandatos e legados espirituais trazidos por nossos ancestrais\u201d<\/i> e, como organiza\u00e7\u00e3o social, a defesa da justi\u00e7a social, a equidade e a participa\u00e7\u00e3o, atuando de forma a <i>\u201ccontinuar falando, continuar nos fazendo escutar em todos os cen\u00e1rios onde nos encontremos atrav\u00e9s de nossos pr\u00f3prios mecanismos. \u00c9 importante visibilizar nossas lutas fazendo alian\u00e7as estrat\u00e9gicas, sobretudo em pa\u00edses latino-americanos que est\u00e3o crises pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais, e somar esfor\u00e7os para isso\u201d,<\/i> explica.<\/p>\n<p>Sobre as mulheres ind\u00edgenas, indica: <i>\u201cComo mulheres somos Territ\u00f3rio, somos Vida, somos guardadoras da humanidade. Somos chamadas \u00e0 palavra doce, a continuar tecendo o pensamento ao lado de nossa complementaridade. Estamos guiando caminhos para seguir nesta luta incans\u00e1vel, para seguir combatendo as diferen\u00e7as e seguir construindo uma humanidade melhor, um mundo melhor\u201d<\/i>, finaliza.<\/p>\n<p><u>Likan Antai<\/u><\/p>\n<p>Paula Zuleta, advogada ind\u00edgena da Comunidade Ind\u00edgena de Toconao, do Povo Likan Antai no Chile, fala sobre os problemas vividos e que est\u00e3o associados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do L\u00edtio: <i>\u201cchegaram \u00e0 zona empresas mineradoras que geraram disputas territoriais e escassez de \u00e1gua. Atualmente, estamos contra o projeto minerador Purickuta, que pertence a uma empresa canadense Durus Cooper. Eles t\u00eam o direito minerador sobre as terras, t\u00eam o direito de explora\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de um local que \u00e9 de Reserva Nacional de flamingos. Por isso, as comunidades ind\u00edgenas decidiram, atrav\u00e9s de assembleia, repudiar o projeto e chegar at\u00e9 as \u00faltimas inst\u00e2ncias para que n\u00e3o se desenvolva este projeto na zona. O objetivo \u00e9 proteger os flamingos e a biodiversidade, que \u00e9 e escassa, e a \u00e1gua. O projeto de explora\u00e7\u00e3o de salmoura precisa de \u00e1gua em abund\u00e2ncia, por isso apresentamos recursos de prote\u00e7\u00e3o. Estamos esperando a resolu\u00e7\u00e3o do SEA para ver se a empresa requerer\u00e1 uma Declara\u00e7\u00e3o de Impacto Ambiental\u201d<\/i>, assinala.<\/p>\n<p>Como mulheres, afirma Paula, <i>\u201cdevemos nos empoderar. \u00c9 fundamental a informa\u00e7\u00e3o, o conhecimento a respeito dos problemas ind\u00edgenas, como a aplica\u00e7\u00e3o do Conv\u00eanio 169 da OIT, a Lei Ind\u00edgena, entre outros. Devemos saber os mecanismos de defesa que temos para defender nosso patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, cultural e territorial, para resgatar o cuidado, respeito e amor \u00e0 terra que nossos av\u00f3s nos ensinaram\u201d.<\/i><\/p>\n<p><u>Mapuche<\/u><\/p>\n<p>Glenda Cayuqueo Riquelme, Mapuche, encarregada do Escrit\u00f3rio de Assuntos Ind\u00edgenas da comuna de Carahue na regi\u00e3o de La Araucan\u00eda en Chile, explica que na zona, o Povo Mapuche \u00e9 tranquilo, trabalhador, que busca o Mapuche Mongen, tentando com isso manter o equil\u00edbrio e espiritualidade no Povo, respeitando seus espa\u00e7os culturais, espirituais e ancestrais. Na comuna, comenta que s\u00e3o afetados pela escassez e contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, devido principalmente \u00e0 silvicultura, onde utilizam a \u00e1gua para suas planta\u00e7\u00f5es e as contaminam atrav\u00e9s das fumiga\u00e7\u00f5es com pesticidas. Assim, Glenda se refere ao aterro que funciona de maneira ilegal e que se encontra junto das comunidades Mapuche e que n\u00e3o conta com os requisitos m\u00ednimos para seu funcionamento, contaminando com isso os rios Colico e Imperial, al\u00e9m de afetar social e economicamente as comunidades Mapuche. Nessa linha, afirma que est\u00e3o se mobilizando para fechar o aterro e assevera, <i>\u201cvamos fechar o aterro, \u00e9 um desafio\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, Glenda se refere ao reconhecimento atrav\u00e9s do levantamento da bandeira Mapuche em Carahue, passo importante para que a comuna seja uma comuna intercultural, embora no Chile n\u00e3o exista reconhecimento constitucional para os Povos Ind\u00edgenas: <i>\u201cPuerto Saavedra, Imperial e Tir\u00faa j\u00e1 s\u00e3o interculturais, o levantamento em Carahue \u00e9 o primeiro ato para ser uma comuna intercultural\u201d,<\/i> comenta. Finalmente, Glenda reflete: <i>\u201cAs comunidades ind\u00edgenas, sejam Mapuche, Aymara ou de qualquer outro Povo, est\u00e3o sofrendo o mesmo em termos de Am\u00e9rica Latina. Todos temos problemas similares, associados \u00e0s \u00e1guas, \u00e0 terra e ao territ\u00f3rio\u201d.<\/i><\/p>\n<p><u>Rapa Nui<\/u><\/p>\n<p>Isabel Pakarati Tepano, Rapa Nui, reconhecida como Tesouro Humano Vivo, se refere aos problemas de seu Povo: <i>\u201cNosso problema \u00e9 o Estado do Chile. Pascua sofreu maus tratos e discrimina\u00e7\u00e3o do continente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas da ilha. As gera\u00e7\u00f5es que souberam disso, o carregam dentro do cora\u00e7\u00e3o. Isso ficou marcado e o compartilham por meio da transmiss\u00e3o oral\u201d<\/i>. Assim, nos conta extensamente sobre a hist\u00f3ria e a cosmovis\u00e3o de seu Povo. Comenta: <i>\u201cH\u00e1 algum tempo, Pascua foi declarada pelo Estado como uma ilha com lepra e chegou \u00e0s fronteiras. Por isso as pessoas da ilha foram discriminadas pelas autoridades do Estado. Esses maus tratos se mant\u00eam, de forma distinta, por\u00e9m se mant\u00eam, ainda que existam leis como a Lei Ind\u00edgena e o Conv\u00eanio 169. Hoje, lutamos igualmente por nossos direitos\u201d<\/i>, afirma. Posterior a isso, explica: <i>\u201cComo mulheres Rapa Nui devemos lutar por nossos direitos. Devemos ter terra para gerar recursos pr\u00f3prios, no nosso caso, devemos ter mar\u201d<\/i>. Assim, Isabel se refere \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas na ilha: <i>\u201cA vida na ilha est\u00e1 mudando por conta da contamina\u00e7\u00e3o do mar. Os outros pa\u00edses jogam o lixo na \u00e1gua, o que afeta os peixes: chega um pl\u00e1stico muito fino e se mete entre as pedras, na beira das praias, os peixes o comem e adoecem. A contamina\u00e7\u00e3o mundial afeta todos os Povos Origin\u00e1rios\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Finalmente, Isabel realiza o Kai Kai, jogo de fios entrela\u00e7ados entre suas m\u00e3os de formam figuras, relatando com isso uma antiga hist\u00f3ria de profundo significado na cosmovis\u00e3o Rapa Nui.<\/p>\n<p><u>Quechua<\/u><\/p>\n<p>Luisa Cuenca Bravo, do Povo Quechua do Departamento de Potos\u00ed, integrante da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Mulheres Campesinas Ind\u00edgenas Origin\u00e1rias da Bol\u00edvia Bartolina Sisa de Bolivia, comenta: <i>\u201cVivemos o problema da contamina\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es das mineradoras, por\u00e9m estamos trabalhando com o Estado em uma Lei de cooperativas mineradoras de metalurgia e meio ambiente; para tentar solucionar o problema. Estamos dialogando com os irm\u00e3os mineradores, porque n\u00f3s em Potos\u00ed vivemos com os minerais, n\u00e3o podemos contradizer isso\u201d<\/i>. Assim, Luisa comenta: <i>\u201cComo mulheres, \u00e9 preciso avan\u00e7ar e assumir o di\u00e1logo, capacitar as irm\u00e3s da comunidade, formar l\u00edderes. Com isso, podemos sair da pobreza e de nossos problemas. Se n\u00e3o podemos estar organizadas, estar unidas, n\u00e3o podemos fazer nada. <\/i><i>N\u00f3s somos milh\u00f5es de mulheres organizadas na Bol\u00edvia\u201d<\/i>, finaliza.<\/p>\n<p><u>Wayu<\/u><\/p>\n<p>Yasmily Palmar, do Povo Wayu na Pen\u00ednsula da Guajira, na zona sul da Venezuela, \u00e9 integrante da Organiza\u00e7\u00e3o Regional de Povos Ind\u00edgenas do Zulia, formada pelos 5 Povos Ind\u00edgenas da regi\u00e3o e que \u00e9 base do Conselho Nacional \u00cdndio, que tem participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como partido pol\u00edtico dentro do Conselho Nacional Eleitoral Venezuelano. Yasmily afirma: <i>\u201cTemos problemas de discrimina\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres ind\u00edgenas por parte do Estado, da Guarda Nacional, do Ex\u00e9rcito. N\u00e3o reconhecem nossa forma cultural como tal. Nos atropelam, a mesma popula\u00e7\u00e3o ocidental nos tem estigmatizados. Hoje, com o problema da guerra econ\u00f4mica existente na Venezuela, nos dizem que somos as \u2018bachaqueras\u2019, ou seja, as pessoas que contrabandeiam a comida para a Col\u00f4mbia\u201d. <\/i>Igualmente, se refere \u00e0s afeta\u00e7\u00f5es sociais e no meio ambiente, produto da minera\u00e7\u00e3o: \u201c<i>Temos o problema da minera\u00e7\u00e3o no sul da Venezuela, na Amaz\u00f4nia, porque o Estado deu umas concess\u00f5es mineradoras a empresas chinesas, que se chama \u2018Arco Minero\u2019. Apesar de na Venezuela termos uma ampla base jur\u00eddica, j\u00e1 que temos as leis de demarca\u00e7\u00e3o de terras coletivas, que s\u00e3o t\u00edtulos de propriedade coletiva, o Estado n\u00e3o cumpriu quanto a essa titula\u00e7\u00e3o, mas permitiu que as empresas privadas entrem em nossas terras ind\u00edgenas. Isso trouxe grandes consequ\u00eancias nas mobiliza\u00e7\u00f5es atualmente, as organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o se manifestando, criticando o Estado pela entrada das mineradoras\u201d<\/i>, comenta.<\/p>\n<p>Finalmente, se refere a alguns desafios das mulheres ind\u00edgenas, entre eles a forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o no Bom Viver dos\/as meninos\/as: <i>\u201cpara que nossos filhos sintam o que n\u00f3s sentimos por nossa terra, por nossa cultura, que eles\/as n\u00e3o percam o sentido de pertencimento \u00e0 comunidade, a seu Povo, para que n\u00e3o se envergonhem de ser ind\u00edgenas. Os\/as meninos\/as s\u00e3o as sementes, da\u00ed parte tudo, porque assim teremos sempre lideran\u00e7as no \u00e2mbito regional, nacional e internacional. De n\u00f3s depende a forma\u00e7\u00e3o em nossa pr\u00f3pria cultura. Devemos ter cuidados de dizer que cuidem do meio ambiente, as rela\u00e7\u00f5es e mitologia. No mundo ocidental isso vai se perdendo, somente assim poderemos manter a cultura\u201d<\/i>, comenta.<\/p>\n<p>*O presente artigo foi produzido no marco do Diplomado para Fortalecimento da Lideran\u00e7a da Mulher Ind\u00edgena no Chile, realizado em outubro de 2017, em Santiago do Chile, incentivado pelo F\u00f3rum para o Desenvolvimento dos Povos Ind\u00edgenas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe (FILAC), atrav\u00e9s da Universidade Ind\u00edgena Intercultural (UII), da Corpora\u00e7\u00e3o Nacional de Desenvolvimento Ind\u00edgena (CONADI) e da Universidade Academia de Humanismo Crist\u00e3o.<\/p>\n<p>1. Otilia Lux de Cot\u00ed foi Ministra de Cultura e Esportes da Guatemala; membro do F\u00f3rum Permanente para Quest\u00f5es Ind\u00edgenas das Na\u00e7\u00f5es Unidas; deputada ao Congresso da Guatemala pelo Movimento Pol\u00edtico Ind\u00edgena WINAQ; representante da Guatemala ante o Conselho Executivo da UNESCO; diretora Executiva do F\u00f3rum Internacional de Mulheres Ind\u00edgenas (FIMI), entre outros.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoameric<wbr \/>ano.org\/2017\/12\/26\/<wbr \/>latinoamerica-luchas-<wbr \/>resistencias-y-rebeldias-<wbr \/>feministas-de-mujeres-de-los-<wbr \/>pueblos-indigenas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18130\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[224],"class_list":["post-18130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Iq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}