{"id":1814,"date":"2011-08-30T01:25:04","date_gmt":"2011-08-30T01:25:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1814"},"modified":"2011-08-30T01:25:04","modified_gmt":"2011-08-30T01:25:04","slug":"os-porques-da-fome-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1814","title":{"rendered":"Os porqu\u00eas da fome na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"\n<p><em>15\/08\/2011<\/em><\/p>\n<p><em>Esther Vivas<\/em><\/p>\n<p>Vivemos em um mundo de abund\u00e2ncia. Hoje se produz comida para 12 bilh\u00f5es de pessoas, segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), quando no planeta habitam 7 bilh\u00f5es. Comida existe. Ent\u00e3o, por que uma em cada sete pessoas no mundo passa fome?<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia alimentar que afeta mais de 10 milh\u00f5es de pessoas no Chifre da \u00c1frica voltou a colocar na atualidade a fatalidade de uma cat\u00e1strofe que n\u00e3o tem nada de natural. Secas, inunda\u00e7\u00f5es, conflitos b\u00e9licos\u2026 contribuem para agudizar uma situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade alimentar, mas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos fatores que a explicam.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de fome no Chifre da \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 novidade. A Som\u00e1lia vive uma situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar h\u00e1 20 anos. E, periodicamente, os meios de comunica\u00e7\u00e3o nos atingem em nossos confort\u00e1veis sof\u00e1s e nos recordam o impacto dram\u00e1tico da fome no mundo. Em 1984, quase um milh\u00e3o de pessoas mortas na Eti\u00f3pia; em 1992, 300 mil somalis faleceram por causa da fome; em 2005, quase cinco milh\u00f5es de pessoas \u00e0 beira da morte no Malaui, s\u00f3 para citar alguns casos.<\/p>\n<p><strong>Causas pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>A fome n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade inevit\u00e1vel que afeta determinados pa\u00edses. As causas da fome s\u00e3o pol\u00edticas. Quem controla os recursos naturais (terra, \u00e1gua, sementes) que permitem a produ\u00e7\u00e3o de comida? A quem beneficiam as pol\u00edticas agr\u00edcolas e alimentares? Hoje, os alimentos se converteram em uma mercadoria e sua fun\u00e7\u00e3o principal, alimentar-nos, ficou em segundo plano.<\/p>\n<p>Aponta-se a seca, com a consequente perda de colheitas e gado, como um dos principais desencadeadores da fome no Chifre da \u00c1frica, mas como se explica que pa\u00edses como Estados Unidos ou Austr\u00e1lia, que sofrem periodicamente secas severas, n\u00e3o sofram fomes extremas? Evidentemente, os fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos podem agravar os problemas alimentares, mas n\u00e3o bastam para explicar as causas da fome. No que diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o controle dos recursos naturais \u00e9 chave para entender quem e para que se produz.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses do Chifre da \u00c1frica, o acesso \u00e0 terra \u00e9 um bem escasso. A compra massiva de solo f\u00e9rtil por parte de investidores estrangeiros (agroind\u00fastria, governos, fundos especulativos) tem provocado a expuls\u00e3o de milhares de camponeses de suas terras e diminuido a capacidade desses pa\u00edses de se autoabastecerem. Assim, enquanto o Programa Mundial de Alimentos tenta dar de comer a milh\u00f5es de refugiados no Sud\u00e3o, ocorre o paradoxo de os governos estrangeiros (Kuwait, Emirados \u00c1rabes Unidos, Coreia) comprarem terras para produzir e exportar alimentos para suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Ajustes estruturais<\/strong><\/p>\n<p>Asim mesmo, h\u00e1 que se recordar que a Som\u00e1lia, apesar das secas recorrentes, foi um pa\u00eds autossuficiente na produ\u00e7\u00e3o de alimentos at\u00e9 o final dos anos 1970. Sua soberania alimentar foi arrebatada em d\u00e9cadas posteriores. A partir dos anos 1980, as pol\u00edticas impostas pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial para que o pa\u00eds pagasse sua d\u00edvida com o Clube de Paris for\u00e7aram a aplica\u00e7\u00e3o de um conjunto de medidas de ajuste.<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 agricultura, estas implicaram em uma pol\u00edtica de liberaliza\u00e7\u00e3o comercial e abertura de seus mercados, permitindo a entrada massiva de produtos subvencionados, como o arroz e o trigo, de multinacionais agroindustriais estadunidenses e europeias, que come\u00e7aram a vender seus produtos abaixo de seu pre\u00e7o de custo e fazendo a competi\u00e7\u00e3o desleal com os produtores aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p>As desvaloriza\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas da moeda somali geraram tamb\u00e9m a alta do pre\u00e7o dos insumos e o fomento de uma pol\u00edtica de monocultivos para a exporta\u00e7\u00e3o que for\u00e7ou, paulatinamente, o abandono do campo. Hist\u00f3rias parecidas se deram n\u00e3o s\u00f3 nos pa\u00edses da \u00c1frica, mas tamb\u00e9m nos da Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia.<\/p>\n<p>A subida do pre\u00e7o de cereais b\u00e1sicos \u00e9 outro dos elementos assinalados como detonante da fome no Chifre da \u00c1frica. Na Som\u00e1lia, os pre\u00e7os do milho e do sorgo vermelho aumentaram 106% e 180%, respectivamente, em apenas um ano. Na Eti\u00f3pia, o custo do trigo subiu 85% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. E, no Qu\u00eania, o milho alcan\u00e7ou um valor 55% superior ao de 2010.<\/p>\n<p><strong>Na Bolsa de Valores<\/strong><\/p>\n<p>Uma alta que converteu esses alimentos em inacess\u00edveis. Mas, quais s\u00e3o as raz\u00f5es da escalada dos pre\u00e7os? V\u00e1rios ind\u00edcios apontam a especula\u00e7\u00e3o financeira com as mat\u00e9rias-primas alimentares como uma das causas principais.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o dos alimentos se determina nas bolsas de valores \u2013 a mais importante das quais, a n\u00edvel mundial, \u00e9 a de Chicago \u2013, enquanto que na Europa os alimentos se comercializam nas bolsas de futuros de Londres, Paris, Amsterd\u00e3 e Frankfurt. Mas hoje em dia, a maior parte da compra e venda dessas mercadorias n\u00e3o corresponde a interc\u00e2mbios comerciais reais.<\/p>\n<p>De acordo com Mike Masters, do Hedge Fund Masters Capital Management, calcula-se que 75% do investimento financeiro no setor agr\u00edcola \u00e9 de car\u00e1ter especulativo. Compram-se e vendem-se mat\u00e9rias-primas com o objetivo de especular e fazer neg\u00f3cio, repercutindo finalmente em um aumento do pre\u00e7o da comida para o consumidor final. Os mesmos bancos, fundos de alto risco, companhias de seguros que causaram a crise das hipotecas subprime s\u00e3o os que hoje especulam com a comida, aproveitando-se dos mercados globais profundamente desregulados e altamente rent\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Transnacionais<\/strong><\/p>\n<p>A crise alimentar em escala global e a fome no Chifre da \u00c1frica em particular s\u00e3o resultado da globaliza\u00e7\u00e3o alimentar a servi\u00e7o dos interesses privados. A cadeia de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos est\u00e1 nas m\u00e3os de umas poucas multinacionais que antep\u00f5em seus interesses particulares \u00e0s necessidades coletivas e que, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, v\u00eam destruindo, com o apoio das institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, a capacidade dos pa\u00edses do sul de decidir sobre suas pol\u00edticas agr\u00edcolas e alimentares.<\/p>\n<p>Voltando ao princ\u00edpio: por que existe fome em um mundo de abund\u00e2ncia? A produ\u00e7\u00e3o de alimentos se multiplicou por tr\u00eas desde os anos 1960, enquanto que a popula\u00e7\u00e3o mundial t\u00e3o s\u00f3 duplicou desde ent\u00e3o. N\u00e3o estamos enfrentando um problema de produ\u00e7\u00e3o de comida, mas sim um problema de acesso a ela. Como assinalou o relator da ONU para o direito a alimenta\u00e7\u00e3o, Olivier de Schutter, em uma entrevista ao jornal El Pa\u00eds: \u201cA fome \u00e9 um problema pol\u00edtico. E uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social e pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Se queremos acabar com a fome no mundo, \u00e9 urgente apostar em outras pol\u00edticas agr\u00edcolas e alimentares que coloquem no seu centro as pessoas, as suas necessidades, aqueles que trabalham a terra e o ecossistema. Apostar no que o movimento internacional da Via Campesina chama de \u201csoberania alimentar\u201d e recuperar a capacidade de decidir sobre aquilo que comemos. Tomando emprestado um dos lemas mais conhecidos do Movimento 15-M, \u00e9 necess\u00e1rio uma \u201cdemocracia real, j\u00e1\u201d na agricultura e na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Esther Vivas, do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais da Universidad Pompeu Fabra, \u00e9 autora de Del campo al plato. Los circuitos de producci\u00f3n y distribuci\u00f3n de alimentos.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Publicado originalmente no El Pa\u00eds.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo Marques<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Brasil de Fato\n\n\n\n\n\n\n\n\nN\u00e3o estamos enfrentando um problema de produ\u00e7\u00e3o de comida, mas sim um problema de acesso a ela\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1814\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-tg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1814\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}