{"id":1815,"date":"2011-08-30T01:46:27","date_gmt":"2011-08-30T01:46:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1815"},"modified":"2011-08-30T01:46:27","modified_gmt":"2011-08-30T01:46:27","slug":"alvos-civis-e-armas-toxicas-mais-crimes-em-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1815","title":{"rendered":"Alvos civis e armas t\u00f3xicas: mais crimes em Gaza"},"content":{"rendered":"\n<p>Israel admitiu ter usado f\u00f3sforo branco em 2006, contra o L\u00edbano, e em 2008-2009, em Gaza. O problema \u00e9 ainda mais grave porque v\u00e1rios metais muito t\u00f3xicos foram acrescentados \u00e0s bombas de f\u00f3sforo branco. Al\u00e9m de ferir, mutilar e matar pessoas no momento em que s\u00e3o aspirados ou tocam a pele, esses metais produzem muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Carta Maior &#8211; 27\/08\/2011<\/p>\n<p>A nova investida do governo israelense na Faixa de Gaza levanta algumas quest\u00f5es muito importantes. A primeira \u00e9 o ataque a alvos civis, segundo documentou o Centro de Direitos Humanos Al-Mezan, de Gaza. M\u00edsseis foram atirados diretamente sobre transeuntes e motoristas, matando-os e matando quem estava por perto. \u201cTrata-se de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria\u201d, protestou o Al-Mezan. Casas, armaz\u00e9ns, planta\u00e7\u00f5es, sedes de ONGs e at\u00e9 uma esta\u00e7\u00e3o de saneamento foram parcial ou totalmente destru\u00eddas.<\/p>\n<p>Dessa vez, o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, foi obrigado a reconhecer que suas for\u00e7as armadas tinham passado do limite ao recomendar \u201cataques cir\u00fargicos\u201d a alvos \u201cmilitares\u201d. Ele se referia a resid\u00eancias de l\u00edderes e campos de treinamento das brigadas palestinas que costumam lan\u00e7ar foguetes Qassam, de fabrica\u00e7\u00e3o caseira, no sul de Israel. Se at\u00e9 Netanyhau, conhecido pelas posi\u00e7\u00f5es extremistas e as solu\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, fez esse tipo de indica\u00e7\u00e3o, imagine-se o caos em que se encontra a faixa costeira palestina.<\/p>\n<p>A segunda quest\u00e3o diz respeito \u00e0s subst\u00e2ncias qu\u00edmicas com que Israel fabrica bombas e m\u00edsseis atirados contra a popula\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p>Recentemente, l\u00edderes do comit\u00ea de luta popular de Al-Wallajah, vila de refugiados pr\u00f3xima a Bel\u00e9m, denunciaram o uso de um tipo de arma desconhecido, de cor preta e tamanho menor do que os c\u00e2nisters comumente utilizados pelo ex\u00e9rcito sionista, que liberou um g\u00e1s muito forte. Esses mesmos l\u00edderes viram os soldados israelenses pegarem os cilindros protegidos com luvas grossas e papel\u00e3o. \u201c\u00c9 \u00f3bvio que eles n\u00e3o quiseram deixar nenhum c\u00e2nister no terreno, para evitar que descobr\u00edssemos que subst\u00e2ncias havia ali dentro\u201d, afirmou Mazin Qumsieh, ativista de direitos humanos e professor da Universidade de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>No primeiro dia de 2011, elementos qu\u00edmicos desconhecidos misturados ao g\u00e1s pimenta mataram Jawaher Abu Rahmah, 35, pacifista da vila de Bil\u2019in, a 17 quil\u00f4metros de Ramallah, na Cisjord\u00e2nia. Ela sofreu asfixia, ficou inconsciente e foi levada ao hospital, onde faleceu. M\u00e9dicos que a atenderam desconfiaram de que, pelo conjunto de sintomas que Jawaher apresentou, e pela devasta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica causada pelo g\u00e1s, possivelmente havia f\u00f3sforo branco misturado a ele. O f\u00f3sforo branco causa queimaduras profundas dentro e fora do corpo, e pode matar ao ser inalado. Seu poder t\u00f3xico e letal levou \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de seu uso pelas Conven\u00e7\u00f5es de Genebra.<\/p>\n<p>Em 15 de maio deste ano, dia em que os palestinos rememoram a Nakba (cat\u00e1strofe) \u2013 processo em que seu territ\u00f3rio foi tomado pelos sionistas de maneira violenta, por grupos paramilitares como Irgun e Stern \u2013, os m\u00e9dicos do hospital de Ramallah alertaram para efeitos desconhecidos em ativistas atingidos por bombas de g\u00e1s pimenta. Houve tontura, sangramento, confus\u00e3o mental e paralisia tempor\u00e1ria. Menos de uma semana depois eu mesma experimentei sintomas parecidos. Quando os soldados come\u00e7aram a atirar bombas em nossa dire\u00e7\u00e3o, na manifesta\u00e7\u00e3o semanal de Bil\u2019in, identifiquei um cheiro diferente, muito mais forte do que o g\u00e1s costumeiro, e de imediato senti a cabe\u00e7a pesar. Durante uma semana tive tonturas, cambaleei e fui tomada por um sono intenso, que me fazia dormir dias inteiros. Alertei outros manifestantes, e ent\u00e3o soube que alguns \u2013 os mais expostos ao g\u00e1s, como eu \u2013 haviam sofrido sintomas semelhantes aos meus.<\/p>\n<p>Israel admitiu ter usado f\u00f3sforo branco em 2006, contra o L\u00edbano, e em 2008-2009, em Gaza. O problema \u00e9 ainda mais grave porque v\u00e1rios metais muito t\u00f3xicos foram acrescentados \u00e0s bombas de f\u00f3sforo branco. Al\u00e9m de ferir, mutilar e matar pessoas no momento em que s\u00e3o aspirados ou tocam a pele, esses metais produzem muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas. Mais: ao contaminar o solo, o ar, a \u00e1gua e as constru\u00e7\u00f5es, eles t\u00eam efeitos, a m\u00e9dio e longo prazos, ainda n\u00e3o estabelecidos. E sua mistura pode potencializar os danos.<\/p>\n<p>Um dos metais utilizados \u00e9 o ur\u00e2nio, radioativo, utilizado em usinas nucleares e na produ\u00e7\u00e3o de bombas at\u00f4micas. Sua vida \u00fatil \u00e9 de cerca de 4,5 bilh\u00f5es de anos (ur\u00e2nio 238) e aproximadamente 700 milh\u00f5es de anos (ur\u00e2nio 235).<\/p>\n<p>Em Gaza, tecidos retirados de ferimentos das v\u00edtimas foram analisados e os resultados, divulgados em 11 de maio de 2010 pelo\u00a0<em>New Weapons Committee (NWRG)<\/em>, grupo de pesquisadores, acad\u00eamicos e profissionais de m\u00eddia que estuda os efeitos das novas tecnologias de guerra. A m\u00eddia corporativa, como \u00e9 de praxe, n\u00e3o noticiou. Com exce\u00e7\u00e3o de especialistas e pesquisadores, poucas pessoas souberam da exist\u00eancia dessa pesquisa e de seus resultados.<\/p>\n<p>A nova investida de Israel em Gaza foi analisada por especialistas da NWRG com base em imagens de feridos transmitidas por uma esta\u00e7\u00e3o de TV de Gaza em 19 de agosto de 2011. \u201cParece que estamos vendo as mesmas armas usadas em 2008\u201d, conclu\u00edram os especialistas. Veja tamb\u00e9m:<a href=\"http:\/\/youtu.be\/F9Oeo54lmtc\" target=\"_blank\">http:\/\/youtu.be\/F9Oeo54lmtc<\/a> (mas aten\u00e7\u00e3o: cont\u00e9m imagens fortes).<\/p>\n<p>Leia, a seguir, a tradu\u00e7\u00e3o do release do MWRG, feita por mim quando de seu lan\u00e7amento. \u00c9 aterrador. O original em ingl\u00eas pode ser encontrado em <a href=\"http:\/\/www.newweapons.org\/?q=node\/113\" target=\"_blank\">http:\/\/www.newweapons.org\/?q=node\/113<\/a> e em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.newweapons.org\/files\/20100511pressrelease_eng.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.newweapons.org\/files\/20100511pressrelease_eng.pdf<\/a> .\u00a0Os destaques s\u00e3o nossos.<\/p>\n<p>\u201cMetais t\u00f3xicos e cancer\u00edgenos, capazes de produzir muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, foram encontrados nos tecidos dos feridos em Gaza durante as opera\u00e7\u00f5es militares israelenses de 2006 e 2009. A pesquisa foi realizada em ferimentos provocados por armas que n\u00e3o deixam fragmentos nos corpos das v\u00edtimas, uma particularidade apontada pelos m\u00e9dicos em Gaza. Isso mostra que foram utilizadas armas experimentais, cujos efeitos ainda s\u00e3o desconhecidos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores compararam 32 elementos presentes nos tecidos utilizando o ICP\/MS, um tipo de espectrometria de massa altamente sens\u00edvel. O trabalho, realizado pelos laborat\u00f3rios da Universidade Sapienza de Roma (It\u00e1lia), da Universidade de Chalmers (Su\u00e9cia) e da Universidade de Beirute (L\u00edbano), foi coordenado pelo New Weapons Research Group (NWRG), comit\u00ea independente de cientistas e especialistas na It\u00e1lia que estuda o uso de armas n\u00e3o convencionais e seus efeitos de m\u00e9dio prazo sobre a popula\u00e7\u00e3o de \u00e1reas atingidas por guerras. A presen\u00e7a de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas e cancer\u00edgenas nos metais encontrados nos ferimentos \u00e9 relevante e indica riscos diretos para os sobreviventes, al\u00e9m da possibilidade de contamina\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Bi\u00f3psias dos tecidos foram feitas pelos m\u00e9dicos do hospital Shifa, da cidade de Gaza, que selecionaram e classificaram os tipos de ferimentos. A pesquisa foi realizada em 16 amostras de tecidos, pertencentes a 13 v\u00edtimas. Quatro bi\u00f3psias foram levadas a efeito em junho de 2006, durante a opera\u00e7\u00e3o &#8220;Chuvas de ver\u00e3o&#8221;, ao passo que as outras aconteceram na primeira semana de janeiro de 2009, durante a opera\u00e7\u00e3o &#8220;Cast lead&#8221;.<\/p>\n<p>Todos os tecidos foram devidamente preservados e, em seguida, analisados pelas tr\u00eas universidades, separadamente.<\/p>\n<p>Alguns dos elementos encontrados s\u00e3o cancer\u00edgenos (merc\u00fario, ars\u00eanio, c\u00e1dmio, cromo, n\u00edquel e ur\u00e2nio); outros s\u00e3o potencialmente carcinog\u00eanicos (cobalto e van\u00e1dio); e h\u00e1 tamb\u00e9m subst\u00e2ncias que contaminam fetos (alum\u00ednio, cobre, b\u00e1rio, chumbo e mangan\u00eas). Os primeiros podem produzir muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, os segundos podem ter o mesmo efeito em animais (ainda n\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o em seres humanos), os terceiros t\u00eam efeitos t\u00f3xicos sobre pessoas e podem afetar tamb\u00e9m o embri\u00e3o ou o feto em mulheres gr\u00e1vidas. Todos os metais, encontrados em quantidades elevadas, t\u00eam efeitos patog\u00eanicos em humanos, danificando os \u00f3rg\u00e3os respirat\u00f3rios, o rim, a pele, o desenvolvimento e as fun\u00e7\u00f5es sexuais e neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Paola Manduca, porta-voz do New Weapons Research Group, professora e pesquisadora de gen\u00e9tica da Universidade de G\u00eanova, comentou: \u2018Ningu\u00e9m ainda realizara an\u00e1lises bi\u00f3ticas em amostras de tecido de feridas. Concentramos nossos estudos nos ferimentos provocados por armas que, segundo os m\u00e9dicos de Gaza, n\u00e3o deixam fragmentos. Quer\u00edamos verificar a presen\u00e7a de metais na pele e na derme. Suspeitava-se que esses metais estivessem presentes nesse tipo de armas [que n\u00e3o deixam fragmentos], mas isso nunca tinha sido demonstrado. Para nossa surpresa, mesmo as queimaduras provocadas por f\u00f3sforo branco cont\u00eam alta quantidade de metais. Al\u00e9m disso, a presen\u00e7a desses metais nas armas implica que eles se dispersaram no ambiente, em quantidades e com alcance desconhecidos, e foram inalados pelas v\u00edtimas e por aqueles que testemunharam os ataques. Portanto, constituem um risco para os sobreviventes e para as pessoas que n\u00e3o foram diretamente atingidas pelo bombardeio\u2019.<\/p>\n<p>A pesquisa segue dois estudos anteriores conduzidos pelo NWRG. O primeiro foi publicado em 17 de dezembro de 2009 e estabeleceu a presen\u00e7a de metais t\u00f3xicos em \u00e1reas ao redor das crateras provocadas pelo bombardeio israelense na Faixa de Gaza. O \u00faltimo foi publicado em 17 de mar\u00e7o de 2010 e apontou a presen\u00e7a de metais t\u00f3xicos em amostras de cabelo de crian\u00e7as palestinas de Gaza. Ambos apontam para a presen\u00e7a de contamina\u00e7\u00e3o ambiental, agravada pelas condi\u00e7\u00f5es de vida naquele territ\u00f3rio, que propiciam o contato direto com o solo e, muitas vezes, a vida em abrigos expostos ao vento e \u00e0 poeira, devido \u00e0 impossibilidade de reconstruir as moradias, imposta pelo bloqueio israelense a Gaza, que impede a entrada de materiais de constru\u00e7\u00e3o e das ferramentas necess\u00e1rias para a reconstru\u00e7\u00e3o das casas.\u201d<\/p>\n<p>Trata-se de limpeza \u00e9tnica, sem d\u00favida, a m\u00e9dio e a longo prazos. Daqui a bilh\u00f5es de anos Gaza ainda sofrer\u00e1 os efeitos dessas subst\u00e2ncias. Haver\u00e1 algu\u00e9m l\u00e1 para testemunhar a trag\u00e9dia?<\/p>\n<p><em>*Jornalista, autora de diversos livros e p\u00f3s-graduanda em Filosofia. Mora em Ramallah, Palestina, onde \u00e9 correspondente do jornal Brasil de Fato.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nBaby Siqueira Abr\u00e3o*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1815\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-1815","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-th","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1815"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}