{"id":18186,"date":"2018-01-03T12:42:45","date_gmt":"2018-01-03T15:42:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18186"},"modified":"2018-01-03T12:42:45","modified_gmt":"2018-01-03T15:42:45","slug":"juventude-xakriaba-segue-os-passos-da-resistencia-historica-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18186","title":{"rendered":"Juventude Xakriab\u00e1 segue os passos da resist\u00eancia hist\u00f3rica do povo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Juventude Xakriab\u00e1 segue os passos da resist\u00eancia hist\u00f3rica do povo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cimi.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/xakriaba-132A2686.jpg\" alt=\"Juventude Xakriab\u00e1 segue os passos da resist\u00eancia hist\u00f3rica do povo\" \/><!--more--><strong>Em seu 1\u00b0 Encontro da Juventude, os herdeiros da luta Xakriab\u00e1 unem-se \u00e0 labuta de seus caciques, paj\u00e9s e lideran\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Guilherme Cavalli,<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cimi.org.br\/2017\/12\/um-pe-na-aldeia-um-pe-no-mundo-juventude-xakriaba-segue-os-passos-da-resistencia-historica-do-povo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ASCOM\/CIMI<\/a><\/p>\n<p>\u201cQuando caminh\u00e1vamos nessas matas, um grupo de guerreiros deixava apenas um rastro. A pegada que permanecia era \u00fanica\u201d. Os passos dos ind\u00edgenas Xakriab\u00e1 que marcaram a terra vermelha do norte de Minas Gerais s\u00e3o lembrados hoje como trilha da resist\u00eancia percorrida em unidade. Os marcos no ch\u00e3o e na hist\u00f3ria do povo se misturaram com o sangue dos m\u00e1rtires que regam o Cerrado. Foram muitos guerreiros tombados por um \u00fanico direito. \u201cNossa resist\u00eancia se edificou em nosso territ\u00f3rio. Tombamos para a garantia do lugar sagrado Xakriab\u00e1. Hoje s\u00e3o muitos que se erguem nessas terras\u201d.<\/p>\n<p>A jornada lembrada por Z\u00e9 do Bem Vindo, presen\u00e7a hist\u00f3rica para a demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio Xakriab\u00e1, \u00e9 narrativa que completa 30 anos de luta e mart\u00edrio. \u201cA resist\u00eancia dos anci\u00e3os e seus passos firmes nessa terra gestou a teimosia das juventudes\u201d, acredita o homem de muitas hist\u00f3rias. No presente, os herdeiros da luta Xakriab\u00e1, a jovialidade do povo, unem-se \u00e0 labuta de seus caciques, paj\u00e9s e lideran\u00e7as. \u201cFirmamos compromisso com a hist\u00f3ria dos nossos anci\u00e3os e com o futuro dos nossos filhos\u201d, sustenta Durkwa Xakriab\u00e1 na abertura do 1\u00b0 Encontro da Juventude Xakriab\u00e1.<\/p>\n<p>Os passos firmados na assembleia que aconteceu de 17 a 19 de outubro \u2013 na Aldeia Imba\u00faba e que reuniu aproximadamente mil jovens \u2013 caminham para a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura, espiritualidade, identidade e territ\u00f3rio \u2013 assuntos debatidos durante o encontro. \u201cReafirmamos os mais velhos, caciques, lideran\u00e7as e paj\u00e9s como pilares de nossa identidade, nossos livros vivos\u201d, declaram os Xakriab\u00e1 no documento final. \u201cNosso territ\u00f3rio, e por consequ\u00eancia nossa identidade, s\u00e3o motivos de toda vida e exist\u00eancia\u201d, afirma Durkwa Xakriab\u00e1.<\/p>\n<p>Na trilha das juventudes, passado, presente e futuro se entrela\u00e7am em espiritualidade, dan\u00e7as, pinturas, debates e rituais. A vida dos mais velhos, seus enfrentamentos, se estendeu al\u00e9m das falas e se manifestou pela presen\u00e7a dos ancestrais. O primeiro dia do encontro foi reservado \u00e0 mem\u00f3ria contada pelos pilares da resist\u00eancia. \u201cA luta dos jovens \u00e9 para que ainda nem mesmo chegou nessa terra sagrada. \u00c9 heran\u00e7a deixada por n\u00f3s, mais velhos, e que se destina \u00e0s crian\u00e7as que est\u00e3o a caminho. N\u00e3o lutamos por um ou por outro, mas pelo coletivo\u201d, afirmou Valdemar Xakriab\u00e1, lideran\u00e7a da Aldeia Prata.<\/p>\n<p>Na abertura do encontro, enquanto os participantes se acomodavam nas sete tendas erguidas no campo de futebol, entoavam-se m\u00fasicas de purifica\u00e7\u00e3o. \u201cPara entrar em nossa aldeia \u00e9 preciso purificar\u201d, era o refr\u00e3o cantado. As 33 aldeias foram apresentadas e aspergidas no rito inicial. Com um ramo, Deda Xakriab\u00e1 conduzia a cerim\u00f4nia ao dar boas vindas \u00e0queles que chegavam para partilhar. \u201cTrabalhamos em conjunto para passar os conhecimentos sempre atento \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do tempo. Por isso saudamos aqueles que passaram pelo ritual, os presentes e os que vir\u00e3o\u201d, comentava o professor de cultura.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria, resist\u00eancia e juventude. O resgate do processo hist\u00f3rico da luta do povo Xakriab\u00e1 na defesa dos seus direitos foi elemento transversal das reflex\u00f5es no encontro. Identidade, cultura, terra e territ\u00f3rio e protagonismo da juventude ind\u00edgena no caminho para o Bem Viver foram tem\u00e1ticas debatidas durante os tr\u00eas dias. Fruto de um processo que criou outros novo momentos em aldeias distintas do territ\u00f3rio, o 1o Encontro da Juventude Xakriab\u00e1 \u201cfoi um momento hist\u00f3rico, onde a juventude selou seu compromisso de raiz ancestral, renascida para ser resist\u00eancia\u201d, lembra C\u00e9lia M\u012bnd\u00e3 Nynth\u00ea Xakriab\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Herdeiros da Luta<\/strong><\/p>\n<p>\u201cFaremos deste espa\u00e7o um solo sagrado. Germinar\u00e1 esperan\u00e7a\u201d, desejou Durkwa. Pediu-se permiss\u00e3o aos encantados, paj\u00e9s, anci\u00f5es e caciques a cada manifesta\u00e7\u00e3o. No mural atr\u00e1s da mesa de confer\u00eancia, uma frase conjugava o tom do encontro. \u201cEu prefiro ser adubo, mas sair daqui eu n\u00e3o vou\u201d, estampava o cartaz com o rosto de Rosalino Gomes de Oliveira. O m\u00e1rtir Xakriab\u00e1 brutalmente assassinado em fevereiro de 1987, aos 42 anos, encontrava-se rodeado de outras figuras imprescind\u00edveis para a hist\u00f3ria de resist\u00eancia. A foto de Rodrig\u00e3o o acompanhava no centro do palco.<\/p>\n<p>\u201cNa morte de Rosalino e Rodrig\u00e3o o povo Xakriab\u00e1 se ergueu. Eles foram sementes plantadas e que germinam seus frutos na juventude que ousa lutar. Eles s\u00e3o frutos desta hist\u00f3ria e da morte desses guerreiros\u201d , lembra cacique Agenor Xakriab\u00e1, lideran\u00e7a da Aldeia Tenda. A perten\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria, suas ra\u00edzes, presenteia a juventude Xakriab\u00e1 com uma esperan\u00e7a ativa, que \u00e9 protagonista. Sabem que s\u00e3o resultados de uma luta e fazem dela a grande causa. \u201cA luta dos nossos antepassados continua com o desejo de um futuro melhor para nossas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es\u201d, lembrou cacique Domingos Nunes, filho de Rosalino. Ap\u00f3s o assassinato de seu pai, Domingos assumiu o cacicado dando continuidade ao sonho antigo de ver o povo Xakriab\u00e1 livre do dom\u00ednio dos fazendeiros da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O sangue derramado por Rosalino e outras lideran\u00e7as que tombaram conduziu o povo ao territ\u00f3rio sagrado. A demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio ocorreu no ano de 1989 \u2013 uma outra parte do territ\u00f3rio, a Rancharia, que ficou de fora deste procedimento por v\u00edcios da legisla\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, teve a demarca\u00e7\u00e3o realizada no ano 2000. \u201cTodas as conquistas s\u00e3o resultados e sustentadas pelas lutas de guerreiros e guerreiras. Muitos j\u00e1 tombaram pelos nossos direitos. Daqui pra frente n\u00e3o ser\u00e1 diferente e o protagonismo da juventude \u00e9 de grande import\u00e2ncia nesta luta\u201d, assegurou Z\u00e9 Nunes de Oliveira Xakriab\u00e1, filho de Rosalino e atual prefeito de S\u00e3o Jo\u00e3o das Miss\u00f5es, chamada no s\u00e9culo XIX de S\u00e3o Jo\u00e3o dos \u00cdndios. \u201cJuventude: \u00e9 pelo embate e enfrentamento que erguemos os nossos direitos. Se dependermos das pol\u00edticas nacionais, sabemos que n\u00e3o existir\u00edamos mais\u201d, assegurou Z\u00e9 Nunes. \u201cO sistema pol\u00edtico sustenta e \u00e9 sustentado pelo capitalismo. Por sua vez, o capital sempre foi aliado a aqueles que trabalha para o exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>Para o ind\u00edgena, \u201ca caneta do pol\u00edtico \u00e9 uma arma\u201d. Testemunhas dos atuais retrocessos, a alvorada xakriab\u00e1 firmou conduta diante a conjuntura caracterizada por eles como \u201cdesconjuntada\u201d. \u201cAs lutas que travamos hoje n\u00e3o s\u00e3o contra rev\u00f3lver ou carabina, como antigamente. Lutamos contra projetos de lei que acabam com nosso direito\u201d, assume Durkwa Xakriab\u00e1 em fiel congru\u00eancia com o discurso de Z\u00e9 Nunes. \u201cNossos embates s\u00e3o contra canetadas. Mais do que nunca, \u00e9 preciso ter dom\u00ednio dos saberes n\u00e3o-ind\u00edgenas para garantir a nossa ci\u00eancia tradicional, territ\u00f3rio e vida\u201d. Durkwa entende o encontro como uma forma de refor\u00e7ar \u201ca luta das nossas lideran\u00e7as, das nossas mulheres, a uni\u00e3o do povo para garantir os nossos direitos e dar continuidade para as lutas dos nossos ancestrais\u201d.<\/p>\n<p><strong>No territ\u00f3rio da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCerto dia chegou na aldeia um grupo de arquitetos e pesquisadores para observar como faz\u00edamos nossas casas. Eles observaram tudo: desde o moldar do barro at\u00e9 a edifica\u00e7\u00e3o. No final do processo, veio a pergunta: Quantos anos dura a constru\u00e7\u00e3o? Por por volta de 5 anos\u201d, respondeu a mulher que ensinava \u00e0s suas filhas procedimento de constru\u00e7\u00e3o. Os especialistas ofereceram seus conhecimentos cient\u00edficos. \u201cPodemos pensar algumas t\u00e9cnicas para que a durabilidade se estenda por mais alguns anos\u201d, disseram. Com sabedoria, a mulher dispensou a boa vontade dos arquitetos. Disse: \u201cSe a casa durar mais do que o necess\u00e1rio, n\u00e3o terei a oportunidade de passar o conhecimento adiante\u201d.<\/p>\n<p>O fato lembrado por C\u00e9lia Xakriab\u00e1 trouxe para o debate aquilo que os povos ind\u00edgenas chamam de conhecimento tradicional. \u201cO mais \u00edntimo do nosso ser, aquilo que est\u00e1 guardado no territ\u00f3rio da mem\u00f3ria\u201d, explica a ind\u00edgena. Os saberes partilhados durante o 1\u00b0 Encontro da Juventude Xakriab\u00e1 foram tecidos na for\u00e7a identit\u00e1ria do povo. Repetiu-se ininterruptamente o \u201cvalor do saber\u201d que transita entre gera\u00e7\u00f5es. \u201cVivenciar nossa espiritualidade, realizar os rituais, tra\u00e7ar as pinturas sobre nossas peles. Isso \u00e9 a nossa religi\u00e3o. \u00c9 o que est\u00e1 no mais profundo do nosso ser, que se repete h\u00e1 mil\u00eanios\u201d, defendeu Durkwa Xakriab\u00e1.<\/p>\n<p>O embate contra o epistemic\u00eddio \u2013 morte de conhecimentos, de saberes, de culturas consideradas inferiores pela cultura ocidental \u2013 \u00e9 pr\u00e1xis costumeira para os ind\u00edgenas com um p\u00e9 no mundo. \u201cQuando estamos na academia, a demarca\u00e7\u00e3o precisa ser diante um conhecimento que quer se colocar como superior. Estar nesses ambientes que n\u00e3o foram pensados para a pluralidade \u00e9 uma forma de resist\u00eancia\u201d, comenta Jucyrema Xakriab\u00e1. \u201cA espiritualidade nos leva ao sagrado que lembra quem somos, nos faz redescobrir. Seja na universidade, ou na aldeia, o mais important<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo dia de encontro estendeu seu debate para os saberes tradicionais, hist\u00f3rias orais transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00e3o podemos deixar que nos massacrem ao roubar nossa identidade escrita e viva em nossos livros vivos. Embaixo da \u00e1rvore, ao lado da casa do meu av\u00f4, muito conhecimento se partilhou. Temos que dar continuidade ao que est\u00e1 mais dentro da gente\u201d, afirmou Durkwa. \u201c\u00c9 preciso pensar a vida do povo a partir da sua hist\u00f3ria. Cada vaso de barro que \u00e9 moldado com a terra, \u00e9 um peda\u00e7o do povo que se molda. Nossa juventude precisa ser assim: carregar consigo, aonde quer que v\u00e1, um peda\u00e7o do territ\u00f3rio que \u00e9 sua raiz\u201d, lembrou C\u00e9lia Xakriab\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cEm 2015 a juventude Xakriab\u00e1 passou a integrar os movimentos nacionais por direitos ind\u00edgenas. Surgiu ent\u00e3o o desejo de come\u00e7armos um processo de forma\u00e7\u00e3o a partir dos mais velhos, dos anci\u00f5es e paj\u00e9s\u201d, comentou Juvana Sawidi Xakriab\u00e1 ao fazer mem\u00f3ria da g\u00eanese da assembleia da juventude. \u201cEst\u00e1vamos o tempo todo nesse processo de luta. Um p\u00e9 na aldeia, em nossas lutas locais, e um p\u00e9 no mundo em busca de direitos nacionais em prol dos povos ind\u00edgenas. Para n\u00f3s era importante a nossa forma\u00e7\u00e3o acontecer a partir do resgate cultural, firmar nossas ra\u00edzes. Assim, tra\u00e7armos metas para ajudar nosso pr\u00f3prio povo em seu resgate cultural\u201d.<\/p>\n<p>Enraizados, os jovens Xakriab\u00e1 seguem em marcha. Passo a passo, firma-se na mem\u00f3ria para enfrentar a conjuntura de viola\u00e7\u00f5es e retrocessos. \u201cO encontro fortalece a nossa base para avan\u00e7ar nas lutas por justi\u00e7a e demarca\u00e7\u00e3o. Nos tr\u00eas dias refor\u00e7amos a nossa cultura, identidade e a esperan\u00e7a enquanto povo\u201d, garante Juvana Sawidi. \u201cA nossa gera\u00e7\u00e3o enfrenta um dos piores momentos para as pol\u00edticas indigenistas. Ss assaltos de direitos vem de todos os lados. O encontro fortaleceu os nossos jovens para estar na luta \u00e0 altura daquilo que nosso povo precisa. Dizemos: nossa juventude est\u00e1 organizada. Quando as nossas lideran\u00e7as mais velhas tombarem, estaremos aqui para dar continuidade, em um \u00fanico passo\u201d.<\/p>\n<p><b>Povo Xakriab\u00e1: resili\u00eancia na hist\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XIX e XX, os Xakriab\u00e1 sofreram sucessivas perdas de terras por invas\u00f5es de fazendeiros. Permanentemente, os Xakriab\u00e1s sofreram com a presen\u00e7a e as incurs\u00f5es grileiras de forasteiros \u2013 territ\u00f3rio este entre os rios Perua\u00e7u e Itacarambi, afluentes da margem esquerda do rio S\u00e3o Francisco. Janu\u00e1rio Cardoso de Almeida, filho de Matias Cardoso, doou um peda\u00e7o de terra para os Xakriab\u00e1, para que estes n\u00e3o se espalhassem e ficassem s\u00f3 trabalhando para ele. Os Xakriab\u00e1 ent\u00e3o registraram a terra em dois cart\u00f3rios: o de Janu\u00e1ria e o de Ouro Preto. Mas em 1850 foi criada a Lei de Terras, pela qual a terra Xakriab\u00e1 se tornou devoluta, pertencendo ao governo (PIB, 2017).<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e as viol\u00eancias contra os povos ind\u00edgenas se agravaram com a mercantiliza\u00e7\u00e3o das terras no s\u00e9culo XX. Aumentou a presen\u00e7a de grileiros em \u00e1reas tradicionais. Cresceram os casos de \u201cintimida\u00e7\u00e3o\u201d dos ind\u00edgenas para que aderissem \u00e0 proposta de venda de seus territ\u00f3rios numa n\u00edtida estrat\u00e9gia de fragmentar o territ\u00f3rio tradicional. Na terra dos Xakriab\u00e1, o epis\u00f3dio de invas\u00e3o da Rancharia e a constru\u00e7\u00e3o de um \u201ccurral de varas\u201d, sobre o santu\u00e1rio sagrado do povo, s\u00e3o marcos importantes numa hist\u00f3ria em que sobra resili\u00eancia. \u201cMuitos territ\u00f3rios sagrados viraram lugar de criar gado. Nossa hist\u00f3ria era pisoteada por bois\u201d, recordou Z\u00e9 do Bem Vindo Xakriab\u00e1. Os ind\u00edgenas enfrentaram seu inimigos sem temer, mas logo perceberam que a batalha seria desigual. A covardia levou os invasores a atearem fogo naquilo que era dos Xakriab\u00e1, lembra Z\u00e9 do Bem Vindo. Hoje os anci\u00e3os contam a hist\u00f3ria que transita na mem\u00f3ria do povo como um epis\u00f3dio de viol\u00eancia, persegui\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>Em 1940, criou-se uma nova lei, pela qual o propriet\u00e1rio precisava ter registro de compra da terra. Os Xakriab\u00e1 n\u00e3o possu\u00edam esse documento devido ao fato de a terra ter sido doada. Ent\u00e3o, a terra passou a ser devoluta novamente. Ao se organizar e correr atr\u00e1s de provid\u00eancias para ter a posse da terra legalmente, a comunidade contribuiu com dinheiro para que as lideran\u00e7as pudessem viajar para o Rio de Janeiro em busca de apoio, ajuda e informa\u00e7\u00f5es (PIB, 2017). Nesse contexto, em nome da sobreviv\u00eancia f\u00edsica, restringiram sua cultura. A l\u00edngua do povo se enfraqueceu \u2013 poucos falam fluentemente. A persegui\u00e7\u00e3o incubou a cultura, a espiritualidade e a identidade Xakriab\u00e1. Contudo, o que permanece incubado carrega em si um potencial. \u00c9 latente o desejo de ressignifica\u00e7\u00e3o, de reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os conflitos permanecem. Os constantes ataques realizados por posseiros e pol\u00edticos levaram oito lideran\u00e7as Xakriab\u00e1 a serem inclu\u00eddas no Programa de Prote\u00e7\u00e3o de Defensores de Direitos Humanos do Estado de Minas Gerais. Mesmo diante de persegui\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias, a juventude insiste em tecer a mem\u00f3ria com os fios do presente, na retomada dos saberes ind\u00edgenas e dos territ\u00f3rios tradicionais. \u201cAvan\u00e7aremos at\u00e9 onde encontra-se nosso local de nascimento\u201d, aponta Durkwa Xakriab\u00e1 em caminhada para o cerne de seu povo. \u201cAvan\u00e7aremos sempre. Em demarca\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia\u201d, completa. O povo Xakriab\u00e1 avan\u00e7a. Demarca espa\u00e7os. Desobedece quem os querem de cabe\u00e7a baixa. \u00c9 firme no embate. O encontro da juventude xakriab\u00e1 prova que o potencial do povo \u00e9 a luta, a resist\u00eancia e a resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta reportagem foi publicada no no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cimi.org.br\/2017\/12\/jornal-porantim-400-45-anos-de-teimosia-e-rebeldia-em-defesa-da-vida-dos-povos-indigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal Porantim 400<\/a><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"8ENN5lwsVB\"><p><a href=\"https:\/\/www.cimi.org.br\/2017\/12\/um-pe-na-aldeia-um-pe-no-mundo-juventude-xakriaba-segue-os-passos-da-resistencia-historica-do-povo\/\">Um p\u00e9 na aldeia, um p\u00e9 no mundo: Juventude Xakriab\u00e1 segue os passos da resist\u00eancia hist\u00f3rica do povo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/www.cimi.org.br\/2017\/12\/um-pe-na-aldeia-um-pe-no-mundo-juventude-xakriaba-segue-os-passos-da-resistencia-historica-do-povo\/embed\/#?secret=8ENN5lwsVB\" data-secret=\"8ENN5lwsVB\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Um p\u00e9 na aldeia, um p\u00e9 no mundo: Juventude Xakriab\u00e1 segue os passos da resist\u00eancia hist\u00f3rica do povo&#8221; &#8212; Cimi\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/L4kVHGavb_g?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18186\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[233],"class_list":["post-18186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Jk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18186\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}